Estimativas da taxa de lucro mundial

 Artigo de Michael Roberts, publicado no blog The next recession blog, em 25 de julho de 2020.

O modelo de capitalismo de Marx pressupõe uma economia mundial. Ademais, ele começou o seu estudo pelo “capital em geral”. Foi nesse nível de abstração que Marx desenvolveu o seu modelo das leis do movimento do capitalismo e, em particular, o que ele considerava como a mais importante lei do movimento do processo de produção capitalista, a lei da tendência de queda da taxa de lucro.

Em consequência, a taxa de lucro é o melhor indicador da ‘saúde’ de uma economia capitalista. Ele fornece um previsor significativo sobre o investimento futuro e a probabilidade de recessão ou crise econômica. Portanto, o andamento, o nível e a direção da taxa de lucro mundial pode ser um guia importante para predizer o desenvolvimento futuro da economia capitalista como um todo.

No entanto, no mundo real, existem muitos capitais particulares. Ademais, não há apenas um estado capitalista mundial, mas muitos estados capitalistas nacionais. Portanto, existem barreiras para o estabelecimento de uma economia mundial e uma taxa mundial de lucro. O comércio e as restrições de capital tentam preservar e proteger os mercados nacionais e regionais do fluxo de capital global. Mesmo assim, o modo de produção capitalista agora se espalhou por todos os cantos do globo e a “globalização” do comércio e dos fluxos de capital torna o conceito de medida de uma taxa mundial de lucro mais realista. Parece, pois, fazer sentido.

O artigo completo está aqui: Uma taxa de lucro mundial

Chegar depois para chegar junto: eis a ambição da dialética

“Se o conhecimento humano avança, não há como antecipar hoje, o que tão-somente se saberá amanhã”. Como é bem sabido, essa é uma sentença fundamental do livro A miséria do historicismo de Karl Popper (Cultrix/USP, 1980). Como se afigura bem evidente, por meio dela, este metodólogo da ciência faz uma afirmação sobre o saber da história; ele afirma simplesmente que não é possível conhecer o futuro antes que ele sobrevenha. E, como base, nessa proposição, ela vai criticar todos aqueles que parecem conhecer aquilo que estaria reservado no futuro para a humanidade.

Ora, para pensar a história, pode-se examinar por simplicidade um simulacro dela, focando o famoso paradoxo da transformação do cabeludo no careca: se um homem é cabeludo aos vinte anos e careca ao sessenta, em que momento de sua vida pessoal, entre esses dois momentos, ele se transformou de cabeludo em careca? No preciso instante em que isto aconteceu, esse homem era, simultaneamente, cabeludo e careca? Não seria esta última uma afirmação arrevessada que contém em si mesma uma contradição formal, a qual é proibida pelo entendimento e mesmo pela razão dialética? A lógica aristotélica colapsa quando quer apreender o movimento em geral?

O texto completo se encontra aqui: Chegar depois para chegar junto

 

O caráter fetichista do partido stalinista e seu segredo

É possível expor o partido stalinista do mesmo modo que Karl Marx, em O capital, expôs o fetichismo da mercadoria? Slavoj Zizek acha que sim e a sua apresentação crítica dessa forma de partido político encontra-se no seu livro Eles não sabem o que fazem – O objeto sublime da ideologia (Zahar, 1992). Ele, como se sabe, existiu concretamente e governou o sistema centralizado de acumulação de capital que vigorou na Rússia de 1917 até 1991. Mas será que ele desapareceu totalmente?

Como ainda parece importante entender melhor esse “desvio” – na verdade, um afundamento – totalitário de uma organização política que se apresentou na cena histórica como socialista democrática e, ao mesmo tempo, como autoritária. Por que respondeu tão mal à tradição política originada nas propostas de Marx e Engels para superar o modo de produção capitalista?

Que fracassou, todos sabem; não foi muito longe, ao contrário, e isto foi provado cabalmente pelo retorno da Rússia ao capitalismo, agora, na forma de um sistema de acumulação descentralizado. Logo, parece importante saber se esse fracasso não estava inscrito em sua forma própria desde o início? Como não cair no mesmo erro?

De qualquer modo, eis aqui uma apresentação didática de seu argumento: O caráter fetichista do partido stalinista e o seu segredo

Um significante representa o sujeito para um outro significante

Eis aí a frase misteriosa de Jacques Lacan que parece escapar de qualquer compreensão satisfatória, mesmo após um grande esforço nesse sentido.

Bem, Slavoj Zizek procurou resolver esse problema mobilizando uma argumentação que se vale da dialética moderna, a qual emergiu por meio da filosofia idealista de Georg W F Hegel. Contudo, mesmo se o seu texto é imprescindível para um bom entendimento dessa questão, assim como para tentar compreender a solução do enigma que encerra, ele pensa rápido demais…

De qualquer modo, esse autor interpretou essa frase como expressão de relação social oculta no discurso das pessoas em geral.  Para explicitar o seu sentido fez uma analogia com a apresentação dialética do dinheiro que se encontra no primeiro capítulo de O capital.

Aqui vai-se tentar reapresentá-la de um modo mais lento e menos hermético. E, ademais, que vai além – talvez – das explicações que são dadas estritamente no campo da psicanálise.

O texto que apresenta essa interpretação encontra-se aqui: Um significante representa o sujeito para outro significante – II

 

Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

Convidado para fazer uma apresentação sintética das conexões entre “dívida pública” a “subsunção do trabalho ao capital” na cena contemporânea, o autor desse blog preparou uma exposição sobre o tema por meio de uma apresentação em “powerpoint”. Como a exposição não pode ocorrer por falha deste blogueiro impenitente, ele publica aqui o original preparado para os eventuais interessados.

O material se encontra aqui: Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

A relação entre mercado e Estado

Sobre a relação entre Estado e mercado há várias teses bem problemáticas. Uma delas, provinda da esquerda, considera que o Estado, entendido como superestrutura descolada da base econômica, é um mero aparato da burguesia. Ora, como argumentou Ruy Fausto em Marx, Lógica e Política II, o Estado se caracteriza por pôr a identidade das classes sociais, negando a contradição entre elas. Ele põe, assim, a unidade do sistema, sela as contradições evitando que elas possam vir a destruir o sistema. O Estado se deriva, portanto, da contradição entre a aparência e a essência do modo de produção capitalista.

Nessa última perspectiva, o Estado e o sistema econômico do capital devem ser vistos como instâncias da sociedade moderna que se complementam: o sistema econômico não pode existir sem o Estado. Ele está “fora”, mas justamente por isso penetra constantemente nesse sistema para regulá-lo, dirigi-lo e mesmo substituí-lo quando isso ase mostra necessário. Ele não apenas garante as condições externas de funcionamento do sistema, mas também cria ativamente, por interferência constante, as condições internas de seu funcionamento.

Mas isto não é tudo. Da incompreensão dessa tese básica decorrem outras. A ideologia liberal considera o Estado como externo ao sistema produtor de mercadorias, como esfera de uma burocracia que frequentemente se comporta de modo disfuncional em relação ao sistema econômico. Afirma, em sequência, a eficiência e eficácia do mercado enquanto tal, reduzindo o papel do Estado à de garantidor das condições do melhor funcionamento dos mercados. Nessa perspectiva, as suas interferências diretas são vistas como inadequadas ou mesmo como desastrosas em princípio.

Ora, também os social-democratas acolhem a tese de que o Estado é de certo modo externo ao sistema econômico. Como assumem, contrariando assim os liberais e neoliberais, que o funcionamento do sistema econômico é tendencialmente deficiente e criador de grandes distorções e desigualdades, eles defendem que o Estado deve atuar como aquela instância que corrige as falhas e as insuficiências do sistema econômico. Nesse sentido, atualmente, propõem que o Estado deve atuar para manter e aprofundar o que tem sido denominado de “estado de bem-estar social”.

Ora, há autores que criticam severamente essa última posição. Para apresentar uma argumentação compacta que se desenvolve nesse sentido, publica-se aqui a tradução de um texto de Clément Homs, autor francês que pertence à chamada “crítica do valor”.

Eis o artigo: Homs – Breve história do mercado e do Estado

O modo da dominação nazista segundo Zizek

Autora: Jodi Dean[1]

Esta nota[2] é parte de meu esforço para apresentar a teoria política de Slajov Zizek como um sistema coerente: versa, por isso, sobre a sua compreensão do nazismo.

As discussões de Zizek sobre o fascismo focam a Alemanha nazista e a maneira pela qual o nazismo transtornou a luta de classes em um confronto de raças. Ele apreende a dimensão estética da dominação nazista, assim como o papel do mestre “totalitário” nessa dominação. Como ele conjuga esses elementos? Adotando uma visão em paralaxe. Ou seja, o seu relato sobre o nazismo percorre três registros: o do Real em que se dá o confronto do nazismo com o Capital, o do Simbólico em que opera o comando da burocracia nazista e o do Imaginário em que acontece a estética nazista.

O nacional-socialismo, explica Zizek, foi uma tentativa de mudar algo para que nada mudasse.

Continuar lendo

Demanda de consumo em Marx

Neste post apresenta-se parte de um escrito de Radhika Desai em que essa autora procura mostrar a pluralidade determinações da crise econômica segundo Karl Marx. Ela contesta especialmente a tese segundo a qual todas as crises podem ser apresentadas como consequências da “lei da taxa decrescente de lucro”. E que, por isso, a Lei de Marx não é sempre a “causa última” das crises, as quais, entretanto, poderiam ser disparadas por vários fatores (tese de Michael Roberts). Em consequência, ela reabilita até certo ponto a importância do subconsumo nas crises.

Em suas palavras:

“Este texto desafia o desprezo pelo “subconsumo” – e, assim, pelo papel da demanda de consumo na reprodução capitalista e por sua falta nas crises – no marxismo contemporâneo. Está em jogo aqui um melhor entendimento não apenas da teoria da crise, (…) mas também do legado intelectual de Marx. O escrito mostra como a centralidade da demanda de consumo é sublinhada nos três volumes de O capital e nos Grundrisse. Prossegue discutindo as origens, as fraquezas e a persistência desse desprezo. O texto também mostra que Marx não considerou o subconsumo por meio de uma ótica moralista, como se tratasse de uma necessidade que é descumprida. Tal desprezo não se origina em Marx, mas no “produtismo”, isto é, na ideia de que o capitalismo é um sistema de “produção pela produção”.

A tradução para o português de parte do texto original (Consumption demand in Marx and in the current crisis) encontra-se aqui: Demanda de consumo em Marx

Neoliberalismo e subjetivação capitalista – Parte II

Continua-se neste post a publicação de um artigo que trata do conceito de neoliberalismo. Traz-se por isso, com esse objetivo, a segunda e última parte de um escrito muito importante de Pierre Dardot e Christian Laval.

Como foi dito no primeiro post, se essa forma de prática política é, sim, implementação de medidas como privatizações, diminuição da proteção social dos trabalhadores, decrescimento da oferta de bens públicos etc. Porém, de modo algum, pode ela ser reduzida a essa dimensão estritamente econômica. Eis que é, também, uma forma de governamentalidade, isto é, de criação por meio de técnicas de poder de uma subjetividade adequada à expansão do capitalismo.

O neoliberalismo implica na generalização da forma social “concorrência” – que originalmente é apenas “concorrência de capitais” para âmbitos sociais que não deveriam ser regulados economicamente, tais como hospitais, escolas, associações, igrejas etc. E essa generalização é, sim, produzida construtiva e deliberadamente.

Sustentam esses dois autores que “a imposição dessa forma de concorrência nada tem de natural. “Não resulta de processos espontâneos. Não é efeito de uma espécie de “canibalização” inerente à dinâmica do capitalismo. É produto, isto sim, de uma construção política.”

Note-se, nesse sentido, que “o fator competitivo mais importante hoje é o “capital humano”, a formação do indivíduo, o seu “desenvolvimento pessoal” dentro e fora da empresa, a sua subjetividade no trabalho e fora dele, ele também deve ser remodelado de acordo com o princípio da concorrência”.

Se totalitarismo implica, como queria Hannah Arendt, na realização determinada de um fim último, a conquista do mundo, o capitalismo neoliberal é uma forma de totalitarismo. Esse objetivo não é, entretanto, perseguido por meio da absorção e subordinação do mercado e da sociedade civil como um todo ao Estado, mas, ao contrário, por meio da conquista e subordinação do Estado e da sociedade civil como um todo pela lógica do mercado.

A segunda parte do artigo se encontra aqui: Neoliberalismo e Subjetivação capitalista – II

Inflação na tradição clássica – II

No post anterior delineou-se de um modo ainda conceitual a teoria de inflação elaborada por Anwar Shaikh e que se encontra em seu livro Capitalism – competition, conflict, crises, de 2016. Preliminarmente, mostrou-se que essa teoria, que ele chama de “clássica”, está bem assentada na teoria do dinheiro de Karl Marx.

Enquanto o autor clássico refletiu quase que inteiramente da perspectiva do dinheiro-ouro, sem e com a sua substituição na circulação por moeda seja de metais menos nobres seja de papel, o autor contemporâneo teve de pensar a partir do dinheiro puramente fiduciário que atualmente domina em todas os sistemas econômicos nacionais. Mostrou-se nessa nota que essa realidade é bem compreensível a partir das categorias originais que se encontram na exposição do capital e da crítica da economia política do velho Marx.

Ao final, a nota anterior apresentou-se um esboço dessa nova teoria que parte da noção clássica de competição mercantil. E se prometeu retornar ao tema de modo mais exato.

Continuar lendo