As ilhas financeiras do império britânico

John P. Ruehl [1] Sin Permiso[2] – 03/04/2026

A China, que era a maior detentora de dívida do governo dos EUA até 2019, reduziu agora as suas posições para um nível tão baixo quanto aquele de 2008. Fez isso devido às mudanças nos padrões comerciais, nas preocupações geopolíticas e nas pressões econômicas internas.

As Ilhas Cayman vieram, então, preencher, inesperadamente, aquele lugar abandonado. Eis que esse pequeno território britânico ultramarino detinha oficialmente US$ 427 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA em novembro de 2025. Mesmo se esse montante está longe da realidade, elas detinham a sexta posição dentre os maiores possuidores estrangeiros de títulos do tesouro americano.

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As finanças são realmente parasitárias?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Desafiado com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; em linguagem mais rigorosa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de finanças parasita o capital industrial. Contudo, aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de início.

E que se pode – e até se deve – contestar esse difundido preconceito de uma perspectiva de esquerda. Para tanto se examina em sequência dois fundamentos possíveis dessa metáfora; ao apresentá-la na discussão pública – eis a questão crucial – o que se está criticando precisamente? Que princípio moral sustenta o uso extensivo dessa metáfora? Seguem-se duas respostas, uma depois da outra. Encaminha-se logo a primeira, ainda que de um modo inusitado.

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Aquanno e Maher: “Não, as finanças não são parasitas”

Entrevista com Scott Aquanno e Stephen Maher [1]

Os economistas esquerda tem lutado para combater as poderosas metáforas que sustentam o neoliberalismo. A ideia de que o governo estoura o seu “cartão de crédito”, por exemplo, ainda permeia as narrativas da mídia que clama por austeridade. E ela permanece apesar dos melhores esforços dos economistas para explicar aos jornalistas que o orçamento do governo não obedece às mesmas restrições dos orçamentos familiares.

Ademais, a alegoria crítica e opositora que vê as “finanças como parasitas” parece estar bem difundida nos grupos políticos progressistas. O argumento frequente  diz que o setor financeiro está superdimensionado e que ele se alimenta sugando a riqueza real produzida pela sociedade; ao fazê-lo, ele reduz os investimentos “produtivos” nas empresas, na infraestrutura e outros bens sociais, para gerar bolhas especulativas.

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Hudson: “sim, as finanças são parasitas”

Entrevista com Michael Hudson [1] 

Blogue: The new evolution of economics – 06/2016

Primeiro de uma série de três artigos que tratam da questão de saber se as finanças são ou não são parasitárias. Michael Hudson, numa entrevista dada a Eric Draitser, publicada na internet, argumenta que sim, que as finanças são parasitárias, com base numa compreensão não-marxiana da teoria do valor trabalho. Em sequência, publica-se uma entrevista dada a Anne Pick em que Scott Aquanno e Stephen Maher argumentam que as finanças não são parasitárias, contrariando o autor anterior. Finalmente, põe-se à luz do sol um texto deste blogueiro que discute os fundamentos morais de tal crítica, que supostamente atinge àqueles que vivem de rendas no capitalismo e ao capital de finanças que permite que elas existam. Eis a primeira entrevista:

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Finanças que operam na sombra

Lenore Palladino [1]

A finança não regulamentada cresce no coração da economia americana

Em outubro de 2025, a fabricante de autopeças First Brands, sediada em Ohio, enfrentou problemas para pagar a sua dívida. A imprensa financeira tratou do caso, mas não porque a First Brands fosse particularmente importante ou excepcional para a economia dos EUA. O fez porque várias instituições financeiras começaram a perceber que a exposição mantida com essa empresa — por meio de seus fundos de aplicação privados — era maior do que eles pensavam.

Eis que, ao contrário dos bancos, os fundos de aplicação privados não são regulados e, por isso, torna-se bem difícil apreciar o potencial de riscos interligados, realizar a devida diligência ou avaliar a razoabilidade dos empréstimos. Como o regulador financeiro do Reino Unido, Simon Walls, diretor executivo de mercados, tem apontado: “Não há uma distinção muito clara entre o setor bancário e o setor não bancário” — mas os reguladores só podem lidar com um ou outro.

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O apocalipse cripto vindouro

Nouriel Roubini [1]  – Project Syndicate – 3 de fevereiro de 2026

O futuro do dinheiro e dos pagamentos terá uma evolução gradual, não a revolução que os vigaristas de cripto estão prometendo. A mais recente queda do Bitcoin e de outras criptomoedas ressalta ainda mais a natureza altamente volátil dessa pseudoclasse de ativos. Só resta esperar que os formuladores de políticas acordem para os riscos antes que seja tarde demais.

Há um ano, o presidente mais pró-cripto da história dos EUA havia acabado de voltar ao poder. Eles acabara de agradar um contingente de investidores de criptomoedas desinformados e de receber um enorme apoio financeiro de profissionais semi-corruptos do setor cripto. A segunda vinda de Donald Trump deveria ser um novo amanhecer para as criptomoedas, levando vários evangelistas auto-interessados a prever que o Bitcoin se tornaria “ouro digital”, alcançando pelo menos $200.000 até o final de 2025.

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Do Consenso de Washington ao de Londres?

Michael Roberts – The next recession blog – 16/01/2026

O Consenso de Washington consistia num conjunto de dez prescrições de política econômica, as quais, nas décadas de 1980 e 1990, eram consideradas como um pacote “padrão”. Recomendava reformas a serem implementadas nos países em desenvolvimento que passassem por crises, sob o controle do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, instituições multilaterais instaladas em Washington DC.

O termo Consenso de Washington foi cunhado, em 1989, pelo economista britânico John Williamson. Tornou-se depois uma base para políticas globais destinadas a promover “mercados livres”, tanto domésticos quanto globais, além de redução do papel do Estado por meio de privatizações e ‘desregulamentação’ dos mercados de trabalho e financeiros. O seu lema era “mantenha os gastos e déficits do governo baixos e deixe o mercado fazer seu trabalho”. Na prática, o Consenso de Washington era um conjunto de diretrizes econômicas que formava o núcleo do que depois viria a ser chamado de “neoliberalismo”.

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Eis como o G7 se desindustrilizou

Richard Baldwin [2] – 01/09/2026

Introdução

Talvez o evento mais importante da história econômica moderna tenha sido a industrialização dos países do G7 e sua ascensão ao domínio da economia mundial. Sete gráficos mostram como a velha dominância industrial foi perdida [1]

Durante os séculos XIX e XX, as economias do G7 se industrializaram de forma rápida, crescendo mais rápido do que a média global. Isso fez com que passassem a gerar cerca de dois terços da produção manufatureira e do PIB globais, apesar de conterem apenas 13% da população mundial (5,2 bilhões). Assim, apenas um terço da renda mundial era distribuída entre os outros 4,5 bilhões restantes, habitantes do planeta.

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Carga tributária no Brasil

Diversos autores [1]

Resumo

Este estudo emprega microdados administrativos de cobertura populacional para fornecer novas estimativas da desigualdade de renda e das alíquotas efetivas por grupo de renda no Brasil, abrangendo toda a renda e todos os tributos.

Os dados permitem conectar empresas a seus respectivos sócios e acionistas e, assim, alocar os lucros das empresas e os tributos a elas incidentes aos correspondentes sócios e acionistas pessoas físicas. Os resultados levam a uma revisão acentuada das estimativas oficiais de desigualdade: o 1% mais rico concentra 27,4% da renda total em 2019, um dos níveis mais elevados registrados no mundo.

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Uma nova era feudal?

Walden Bello [1] – Counterpunch – 13 de novembro de 2025

Investidura de um cavaleiro (miniatura dos estatutos da Ordem do Nó, fundada em 1352 por Luís I de Nápoles) – imagem de domínio público

Desde que a Internet nasceu na década de 1990, e com ela as “big techs”, temos a sensação de que entramos numa nova era em termos de economia política global. Muitos tentaram apontar em que consiste essa transformação. Talvez aquela mais famosa entre esses pensadores críticos seja Shoshana Zuboff. Essa autora, como se sabe, afirmou num longo livro que estamos vivendo numa era de “capitalismo de vigilância”.

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