A crise do poder de compra na França

Michael Roberts – The next recession blog – 23/10/2026

Os recentes protestos das escolas secundárias e dos estudantes na França têm um objetivo simples: obter mais recursos para a educação. A crise educacional na França é marcada por graves escassez de professores, deterioração dos resultados dos alunos e enormes déficits de financiamento que vão desde as escolas primárias até as universidades públicas. A educação pública na França está entre as mais desiguais do mundo desenvolvido: as escolas em áreas mais pobres são tão carentes de recursos que o sistema educacional está consolidando os níveis de desigualdade pré-existentes. Estudantes em bairros mais pobres são desproporcionalmente afetados pela falta de funcionários.

Estudantes franceses sofreram uma queda catastrófica e sem precedentes de 20% no orçamento educacional por estudante desde 2017. Eis o que disse o economista de esquerda francês Thoman Piketty:

Continue lendo →

A guerra do Irã e a dívida dos EUA

Paolo de Mello – Sin Permiso – 07/10/2026

Por oitenta anos, toda vez que o mundo entrou em crise, o dinheiro buscou refúgio no mesmo lugar: a dívida do governo dos Estados Unidos. Isso aconteceu após os ataques de 11 de setembro, durante a falência do Lehman Brothers em 2008 e até mesmo em 2011, quando uma agência de classificação rebaixou a classificação da própria dívida dos EUA e os investidores, paradoxalmente, compraram ainda mais. Essa dívida era, por definição, o ativo livre de risco, a base sobre a qual o restante do sistema financeiro é construído. O que vem acontecendo desde este verão coloca essa condição em dúvida.

Em apenas um ano, o valor que o Tesouro dos EUA paga pela dívida de dez anos caiu em cerca de 4%, para 5,24%, em 1º de outubro, com um aumento particularmente acentuado desde meados de agosto, quando ainda era cerca de 4,6%. Não ultrapassou 5% desde o verão de 2007, quando começaram a surgir os primeiros calotes em hipotecas subprime que levariam à grande crise financeira.

Continue lendo →

A Suécia não é mais uma socialdemocracia

Michael Roberts – The next recession blog – 13/09/2026

A Suécia vai às urnas hoje em uma eleição geral extremamente acirrada que pode ver a extrema-direita entrar no governo pela primeira vez, caso os partidos de direita do país formem maioria. No entanto, pesquisas de opinião mostram a aliança de oposição centro-esquerda à frente, com Magdalena Andersson, dos Social-Democratas, a favorita para se tornar primeira-ministra novamente após quatro anos na oposição. Mas a vantagem de seu bloco diminuiu consideravelmente nos últimos dias da campanha.

Em 2022, o atual primeiro-ministro, Ulf Kristersson, líder dos moderados de centro-direita, quebrou um tabu antigo ao fazer um acordo com os Democratas da Suécia (SD), anti-imigrantes, para que sua coalizão minoritária pudesse formar um governo. Esse acordo deu ao SD influência desproporcional sobre a política do governo, especialmente em relação ao crime e à imigração,

Continue lendo →

A Economia está evoluindo?

Publica-se abaixo um artigo de Michael Roberts criticando a pretensão de ciência rigorosa que recebe o nome de Economia (Economics), a teoria econômica que toma o sistema econômico como se fosse uma segunda natureza e que, ao fim e ao cabo, defende os interesses dos donos do capital em geral. E que para melhor fazer isso, apresenta-se como um suposto saber técnico que se vale da Matemática e da Estatística para construir argumentos. A crítica dele é fraca por dois motivos: ele a) fia-se numa visão positivista de ciência; b) desconhece o método da teoria crítica. 

Não se trata apenas de dizer que a Economia é vulgar (Marx) porque analise apenas as relações aparentes entre fenômenos. Tambem não se trata de afirmar que a Economia se contenta em fazer sinopse de fatos (Horkheimer) porque é teoria tradicional. Trata-se de apontar que cria sistemas econômicos imaginários visando sustentar a própria cientificidade e se capacitar para intervir na política econômica com douta sabedoria.  De qualquer modo, Roberts expõe o alto grau de arrogância e alienação de alguém que deve ser economista. 

Continue lendo →

Neoimperadores: o gozo do poder

Oscar Ranzani [1]

O prestigiado psicanalista Jorge Alemán propõe uma hipótese desconfortável: não basta analisar instituições, programas ou variáveis econômicas para entender o presente. Também é necessário interrogar a conspiração libidinal que sustenta os novos poderes. Em seu livro mais recente, Neoimperadores, o gozo do poder (NED Ediciones), Alemán ensaia uma cartografia onde a psicanálise se cruza com a teoria política para refletir sobre a ascensão da ultradireita além dos lugares comuns.  

Continue lendo →

Não é neofeudalismo, mas hipercapitalismo

Stephen Maher [1] – Sin Permiso [2] – 22/05/2026

As gigantes da tecnologia no topo da economia moderna não inventaram um novo modo de produção: são simplesmente empresas capitalistas no sentido clássico, ou seja, que exploraram os seus trabalhadores.

Um dos dogmas mais persistentes da esquerda atualmente é a ideia de que o investimento produtivo está dando lugar à especulação improdutiva, levando ao “esvaziamento” da economia industrial e ao declínio do capitalismo. Afinal, parece óbvio que os capitalistas preferem antes ganhar dinheiro rápido do que entrar no árduo e arriscado processo de produzir realmente algo sob a forma de mercadoria. Em consequência, a tese do neofeudalismo entrou em voga.

Esses argumentos geralmente focam o suposto papel parasitário das finanças e do “capital fictício”.

Continue lendo →

A IA e o futuro do capitalismo

Branko Milanovic – 15/05/2026 – Blog Substack

Quais seriam os prováveis efeitos de uma introdução massiva de inteligência artificial na economia, do ponto de vista neoclássico e marxista? Curiosamente, essa pergunta, pelo que sei, não foi feita. [N. T. Será que é uma pergunta inteligente? Será preciso ler até o final.]

A princípio, as implicações para a teoria do valor do trabalho de Marx parecem contraditórias com os fatos ou nossas expectativas. IA implica a introdução de técnicas de produção extremamente intensivas em capital, ou, usando terminologia marxista, de processos com uma composição orgânica de capital muito alta. Em outras palavras, IA implica uma relação c/v muito alta. Essa é a razão entre o capital constante (c) e o capital variável, ou seja, aquele necessário para contratar força de trabalho (v).

Continue lendo →

China ou Estados Unidos?

Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

A resposta a essa pergunta, parece bem importante atualmente. Mesmo uma apresentação de fatos que ajudem a respondê-la pode ser útil.  Contudo, ela seria ainda mais importante se fosse capaz de indicar o significado histórico do poder relativo desses dois países. Contudo, mesmo ficando apenas nos fatos, não parece fácil obter uma resposta bem precisa. Mas é preciso tentar e aqui se fará um esforço nesse sentido.

 O primeiro modo – mas não o mais seguro – de chegar a uma definição consiste em comparar o “produto interno bruto” (PIB) desses países. Note-se, porém, que o PIB dos Estados Unidos é expresso em dólar enquanto o PIB da China é medido em yuan. Sendo assim, como é possível compará-los? Eis que é requirida uma taxa de câmbio que diga, por exemplo, quanto vale um yuan em dólar. Ora, duas taxas de câmbio são normalmente utilizadas com esse propósito: a taxa de câmbio comercial e a taxa de câmbio de paridade de poder de compra (PPC).

Continue lendo →

Ilusões e perigos do keynesianismo militar

Romaric Godin – Mediapart/Viento Sur – 18/04/2026

Uma velha história

Após se esgotarem várias tentativas de reviver o crescimento e a produtividade, os líderes ocidentais encontraram uma nova saída milagrosa para garantir futuros supostamente mais felizes: o rearmamento. O aumento dos gastos militares, inicialmente apresentado como meio de defesa, agora também é visto como um meio de alcançar crescimento econômico maior. [Ora, uma história trágica vai se repetir? Esse caminho deve ou pode ser evitado?]

Esse keynesianismo militar tornou-se agora quase uma doutrina oficial da Alemanha, onde o governo de grande coalizão, liderado pelo conservador Friedrich Merz, não esconde o fato de que seu plano de investir 150 bilhões de euros entre agora e 2029 no setor militar deve permitir a retomada do crescimento.

Continue lendo →

A inflação real e o custo de vida

Corbin Trent – America’s Undoing

Titulo original: “It Works, If You Work It”; 23/11/2025

Para que a economia americana possa proporcionar uma vida boa para todos são necessárias reformas estruturais. Ela está muito ruim? Sim, bem ruim! [Mas já foi melhor: aquilo que foi chamado de “american way of life” parece ter existido, sim…, em meados do século passado.]

Desapontamento: de Obama à Trump

As eleições do início deste mês indicam para onde a coisa está indo. Os democratas varreram a Virgínia, Nova Jersey e Nova York. Pesquisas de boca de urna mostraram que 49% dos eleitores da Virgínia colocavam a economia como sua principal questão. Em Nova York, 56% disseram que era o custo de vida. Os eleitores de Nova Jersey focaram em impostos e, portanto, em economia.

Continue lendo →