Aonde está indo a economia global? 

Autor: Michael Roberts.

Fonte: The next recession blog. Data de publicação: 19/11/2021

Como está avançando a suposta recuperação global após o “fim” da pandemia de COVID? O consenso econômico é que as principais economias estão se recuperando rapidamente, impulsionadas pelo aumento dos gastos dos consumidores e do investimento corporativo.

O problema à frente não parece ser um retorno ao crescimento econômico sustentado, mas uma inflação mais alta ou mais duradoura nos preços de bens e serviços, que poderia forçar os bancos centrais e outros credores a aumentar as taxas de juros. E isso poderia levar à falência de empresas altamente endividadas e, em seguida, a um novo crash financeiro.

Embora esse risco esteja claramente presente nos próximos dois anos, haverá realmente uma recuperação sustentada do crescimento econômico nos próximos cinco anos? Vamos nos lembrar das previsões oficiais. O FMI estima que em 2024 o PIB global ainda estará 2,8% abaixo de onde pensava que o PIB mundial estaria antes da crise pandêmica.

E a perda relativa de renda é muito maior nas chamadas economias emergentes – excluindo a China, a perda é próxima a 8% do PIB na Ásia e 4 a 6% no restante do Sul Global. De fato, as previsões para o crescimento real médio anual do PIB em praticamente todas as principais economias são de um crescimento menor nesta década em comparação com a década de 2010 – que chamei de Longa Depressão. 

Para ler o artigo todo é preciso baixar o pdf, que tem muitos gráficos.

Tecno-feudalismo ou socialismo do capital?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Os contornos da hipótese

Esta nota visa apresentar criticamente uma conjectura sobre natureza do capitalismo contemporâneo contida no livro Techno-féodalisme – Critique de l’économie numérique de Cédric Durand (La Découverte, 2020). Segundo essa hipótese, o capitalismo industrial, enquanto um modo de produção progressivo, gerador de crescimento econômico, foi já substituído por um capitalismo rentista, moroso e depredador, que deve ser agora cognominado de tecno-feudalismo.

Segundo esse autor, as tecnologias digitais não trouxeram, tal como havia sido prometido pela ideologia do Vale do Silício, um horizonte radiante para o capitalismo; ao contrário, elas tanto enrijeceram o neoliberalismo quanto produziram a degradação do próprio modo de produção. Pois, reconfiguraram as relações sociais de um modo reacionário: se antes delas prevalecia ainda um sistema descentralizado de produção de mercadorias em que imperava concorrência, com elas e por meio delas ocorreu uma centralização e monopolização que criou de novo uma estrutura de dependência na esfera da produção, uma nova forma de submissão das unidades de produção aos donos de um poder “fundiário”. E essa forma – diz ele – tinha sido suprimida historicamente pelo capitalismo concorrencial dos séculos XVII, XVIII e XIX, tendo se mantido mesmo quando sobreveio a fase monopolista no final do século XIX.

Eis que agora todas as empresas individuais, pequenas, médias e grandes se tornaram dependentes de um recurso, as plataformas digitais, as quais são detidas por uma fração privilegiada de capitalistas; ademais, elas são mantidas e comandadas apenas por um conjunto restrito de trabalhadores, dependentes diretos também dessa fração. Ora, essas plataformas se tornaram meios de produção universais já que contêm as bases de dados e os algoritmos indispensáveis para o exercício de qualquer atividade econômica importante e, assim, em geral.

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Morbidez capitalista e a crise global

Murray Smith, Jonah Butovsky e Josh Watterton[1]

A convulsão social de 2020-21 pode muito bem marcar uma virada importante na história mundial. A emergência global de saúde pública trazida pela Covid-19 e a crise econômica associada produziram efeitos sociais e políticos extremamente disruptivos e de longo alcance.  Mesmo antes do início da pandemia – note-se –, a economia mundial já estava à beira de uma recessão severa, titubeando após uma prolongada – e notavelmente morna – recuperação da Grande Recessão de 2008-09. Foi só isso o que era capaz de apresentar após várias décadas decrescimento lento, austeridade e problemas persistentes de lucratividade na esfera do capital industrial, em que se produz o valor e o mais-valor.  A recessão, então, foi grandemente ampliada por bloqueios (totais ou parciais) impostos pelos estados nacionais às indústrias, serviços governamentais e pequenas empresas. Como resultado desse processo, chegou-se a níveis de desemprego e de contração econômica que rivalizam com aqueles observados na Grande Depressão da década de 1930.

Como se deve encarar essa crise global “combinada” ocorrida entre 2020 e 2021?  Com poucas exceções, a resposta da mídia corporativa, dos estratos gerenciais profissionais, das elites políticas e de muitos economistas são notavelmente uniformes.  Consistente com a maioria das avaliações convencionais sobre os atuais problemas da humanidade, vê-se essa ocorrência como um fenômeno natural: eis que, súbita e “misteriosamente”, surgiu um vírus invulgarmente infeccioso e furtivo… Diante dessa emergência, fala-se muito então das decisões consciente e das ações de indivíduos (profissionais de saúde, políticos, líderes empresariais e jornalistas da grande mídia) em reação a ele. Assim, minimiza-se o papel decisivo desempenhado por poderosas forças sociais estruturais que instigam, exploram e determinam a forma e a magnitude da crise.

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Do futuro da economia mundial

A economia do mundo como um todo decresceu -3,5% em 2020 em decorrência da crise provocada pelo novo coronavírus; entretanto, segundo estimativas recentes da OCDE, crescerá 5,8% em 2021 e provavelmente algo em torno de 4,4% em 2022. Essa perspectiva tem trazido esperança e até um pouco de euforia para os agentes econômicos que dão suporte ao capital e que se beneficiam de seu processo de valorização: o mundo, segundo eles, vai recuperar o caminho de prosperidade – mesmo, porém, se desconfiam racionalmente dessa predição, é isso o que mais desejam.  Mas, o que esperar de fato da economia mundial na próxima década – e mesmo depois dela?

Fonte: Banco Mundial

Uma primeira resposta a essa pergunta pode ser encontrada examinando simplesmente a evolução da economia mundial nas últimas décadas. A figura acima mostra de forma iniludível que as taxas de crescimento do PIB global têm caído tendencialmente desde o fim da II Guerra Mundial. Se entre 1961 e 1970, esse indicador avançou segundo uma taxa média de 5,4% ano, nas décadas seguintes, essa taxa foi caindo até chegar à média de 2,2% ao ano entre 2011 e 2020.

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Recuperação econômica e ameaça inflacionária

Postado em 22 de maio de 2021 no blog The political economy of development

Nick Johnson  

O medo do aumento da inflação em países emergentes da recessão induzida pela pandemia do Covid-19 tem se difundido em toda a imprensa financeira e de negócios nos últimos dias. Eis que tem ocorrido aumentos de preços além do esperado, principalmente nos EUA. Alguns economistas e comentaristas argumentaram que o aumento é temporário. Ocorre devido a fatores do lado da oferta, como gargalos, uma “recuperação” dos gastos dos consumidores à medida que as famílias começam a gastar a poupança acumulada, mas também devido ao estímulo fiscal significativo. A abundância de demanda e problemas de oferta oferecem uma explicação simples para os aumentos de preços. Quando a demanda excede a oferta, os preços sobem, algo que também pode acontecer no caso do nível de preços da economia como um todo.

Quando eu estava estudando economia na faculdade, os livros didáticos ofereciam uma variedade de explicações para a inflação, ou seja, para os aumentos sustentados no nível de preços. Uma delas era o “puxão da demanda”: gastos excessivos batendo contra a falta de oferta, sejam estes dos trabalhadores, do governo ou mesmo dos capitalistas. Uma outra era o “empurrão de custos”: subidas de salários ou de outros insumos importantes, como o petróleo. Trata-se aqui de aumentos de preços que alimentam aumentos do nível geral de preços.

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A economia norte-americana com Joe Biden

Michael Roberts[1]

Eis o dia da inauguração. Há, pois, um novo presidente nos Estados Unidos, país este que tem a economia e o estado capitalista mais poderosos do mundo. O mandato de quatro anos de Joe Biden começou quando Donald Trump fugiu para sua propriedade e campo de golfe na Flórida. Mas antes de ir, ele disse: “o meu movimento está apenas começando”.

Qual é a situação dos Estados Unidos no momento em que Biden assume o cargo? A pandemia COVID-19 causou enormes danos às vidas e aos meios de subsistência de milhões de americanos. O seu impacto foi muito pior do que poderia ter sido por vários motivos. Primeiro, o governo dos Estados Unidos, assim como os outros governos, nada fez para se preparar para a pandemia COVID-19. 

Como outras postagens explicaram, os governos foram devidamente alertados de que patógenos perigosos para a vida humana – e para os quais não havia imunidade – estavam aparecendo. Outras pandemias antes do COVID-19 já haviam aparecido. Mas a maioria dos governos não gastou em prevenção (pesquisa de vacinas, por exemplo) ou em proteção (provisão de recursos robustos para a saúde e sistemas de teste e rastreamento). 

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O futuro dos EUA não é risonho e franco

Publica-se nesta semana dois artigos que tratam do futuro da sociedade e da economia norte americana. Hoje, os leitores encontram aqui um texto do economista socialdemocrata John Kolmos. Na próxima quinta-feira, será a vez do artigo do economista marxista Michael Roberts. Ambos são pessimistas. O capitalismo no Ocidente está produzindo massas enormes de pessoas descontentes e estas, em grande número, estão dispostas a aceitar lideranças protofascistas, as quais ele chama de populistas. Ocorre, em consequência, uma revolta no seio da sociedade, mas ela não produz uma virada à esquerda; produz paranoias coletivas de direita que acabam levando a sociedade ainda mais para o caminho da derrocada econômica e social, com o aval das classes dominantes.    

Eagle at Westchester Ave., Bronx 1970

Alexandre, o Grande e o corte do nó górdio não estão à vista nos Estados Unidos

John Komlos[1]

Um longo sopro de ar fresco está percorrendo os Estados Unidos como um todo, substituindo o ar quente bufado da administração Trump. No entanto, os desafios a serem enfrentados pela equipe Biden-Harris são formidáveis e, provavelmente, insuperáveis.[1]

Vamos considerá-los, em primeiro lugar, a partir de uma visão de longo alcance. A civilização ocidental encontra-se novamente numa encruzilhada; chegou até esse ponto por meio da revolução da informática e está, agora, para entrar no caminho de uma economia pós-industrial baseada em conhecimento. De acordo com o registro histórico, transformações econômicas como essa que ora enfrenta são sempre complicadas; elas nunca transcorrem de modo suave e raramente estão isentas de conflitos.

A transição do feudalismo para o capitalismo não foi uma brincadeira de criança. A França, por exemplo, passou por quatro revoluções durante a transição; já a Inglaterra enfrentou duas grandes reviravoltas no século XVII, numa das quais um rei foi decapitado e na outra um rei foi deposto por meio de maquinações que se assemelharam a um golpe de Estado moderno.

 Como transformações como essa embaralham a hierarquia política, social e econômica, não deve causar surpresa de que sobrevirão conflitos à medida em que o processo prossegue. É difícil abrir mão do poder e dos privilégios.[2] Ora, isso já era óbvio para os gregos antigos.[3]

Embora esse quadro geral nos ajude a entender o contexto da situação atual, é preciso ir além. É crucial reconhecer que os EUA estão enfrentando vinte formidáveis contratempos nos âmbitos político, cultural, social e econômico. Além disso, todos eles estão entrelaçados por meio de complexos processos de realimentação. Como eles são muito numerosos não será possível mencioná-los todos aqui. 

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Mais sobre uma taxa de lucro mundial

Artigo original de Michael Roberts, publicado em seu blog The next recession blog, em 20/09/2020

No post anterior, apresentei uma nova abordagem para calcular a taxa de lucro mundial. Não vou repassar aqui os argumentos lá apresentados, pois aquele post, assim como os anteriores sobre o assunto, está disponível no blog original (e numa tradução antes apresentada na semana passada). Mas naquela publicação, disse que apresentaria uma decomposição da taxa de lucro mundial nos fatores que a determinam.

Ademais, disse que iria relacionar a mudança na taxa de lucro à regularidade e intensidade das crises no modo de produção capitalista. Ademais ainda, consideraria a questão de saber, dada à tendência para a taxa de lucro cair (algo bem é consistente com a argumentação de Marx), se ela poderia chegar a zero eventualmente? E se isso vier a ocorrer, o que isso significa sobre o próprio capitalismo? Vou responder partes dessas questões neste post.

Primeiro, vou reapresentar os resultados da medição da taxa de lucro mundial tal como apareceu na postagem de julho. Com base nos dados agora disponíveis no Penn World Tables 9.1 (série IRR original), calculei a taxa média (ponderada) de lucro sobre ativos fixos para as principais economias do G20 de 1950 a 2017 (último ano disponível).

O artigo completo está aqui: Mais sobre uma taxa de lucro mundial

A desigualdade da renda e da riqueza nos Estados Unidos

Em nota anterior comentou-se o livro de Anne Case e Angus Deaton que eles mesmo denominaram de Mortes pela desesperança. Esses autores explicaram com dados de estatística histórica o declínio social da classe operária branca nos Estados Unidos. O dado mais impressionante que apresentaram foi a queda na expectativa de vida dessa fração importante da sociedade americana – medida pelo total de trabalhadores sem curso superior.

Na presente nota, completa-se aquele quadro publicando uma nota de David Ruccio em que ele apresenta a situação da desigualdade nos Estados Unidos. Ele mostra agora a deterioração dos ganhos dos trabalhadores no país hegemônico e que é considerado como a pátria por excelência do capitalismo.

As causas imediatas dessa queda estão ligadas certamente às transformações tecnológicas e às transferências das industrias trabalho intensivas para a Ásia. Mas a causa última dessa deterioração encontra-se nas políticas neoliberais. E é isto o que mostra David Ruccio, professor da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

Alguns dados são impressionantes: o 1% superior na escala da renda dobrou a sua participação na renda: era pouco mais de 10%, em 1976, mas, quarenta anos depois, em 2016, atingiu a marca dos 20%. O que aconteceu com a concentração da riqueza é ainda mais impressionante: enquanto a fração da riqueza possuída pelo 1% superior (linha verde na Figura 2) cresceu de 24% em 1976 para 36,6% em 2016, a fração possuída pelo 90% inferior (linha roxa) caiu de 35% para 28,7% no mesmo período de tempo.

O texto está aqui: A desigualdade nos Estados Unidos

A China depois da pandemia

Pela primeira vez nas últimas décadas, a China não tem meta de crescimento econômico para este ano de 2020. Mas e depois?

A pandemia e o bloqueio levaram a economia chinesa a uma severa contração por vários meses, da qual está agora apenas se recuperando. A economia contraiu 6,8% no primeiro trimestre e a maioria das previsões para o ano inteiro representa menos da metade da taxa de crescimento de 6,1%, registrada no ano passado. Mas mesmo esse número será muito melhor do que aqueles a serem obtidos por todas as economias do G7, em 2020. De qualquer modo, a produção e o investimento industrial estão aumentando agora, mas os gastos dos consumidores continuam deprimidos.

A tese de que a China caminha agora para uma estagnação em sequência a uma crise de lucratividade por causa do baixo consumo e do excesso de investimento não parece totalmente convincente. A China tem uma importante economia capitalista, baseada em empresas privadas, em sua estrutura de produção. No entanto, tem também um importante setor estatal cujo processo de acumulação não depende de decisões privadas.

Ainda é uma incógnita saber para onde vai a China nas próximas duas décadas. O artigo em sequência tenta dizer alguma coisa sobre esse destino: China na década de 2020 – após a pandemia