Ruy Fausto: juízos de reflexão e do sujeito

Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

Em nota anterior[2], mostrou-se que a apresentação dialética em sua versão marxiana consistia em um juízo existencial amplo sobre o modo de produção capitalista. Eis que busca apreendê-lo criticamente já que se trata de um sistema social complexo – intransparente – cuja natureza interna é desconhecida. Ao ser revelada, fica bem claro que, apesar de sua aparência, ela está em desacordo com valores universais da igualdade, liberdade etc.

 Para realizar essa tarefa, a teoria crítica original parte da forma elementar da riqueza capitalista, a saber, a mercadoria, e caminha passo a passo para reconstruir conceitualmente esse sistema até que ele apareça na forma de um “concreto pensado” em processo de devir. Nesse procedimento, alguns passos cruciais são dados por meio de juízos específicos que apreendem o ser social como tal; os juízos de constatação descobrem modos de ser imediatos e os juízos críticos vão da aparência à essência desvelando a realidade. Assim, a aparência imediata ou “dada” se torna aparência mediata, ou seja, expressão de uma essência que a contraria.

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Contra as vacinas, por quê?

Eleutério F. S. Prado [3]

Paul Krugman postou em seu blogue (12/08/26) um artigo sobre uma ação antivacina do governo Trump. Ele está traduzido abaixo. A sua questão é: “por que o MAGA quer que as crianças fiquem doentes e morram?”. Eis a resposta que dá: é preciso “seguir o dinheiro”. Em outras palavras, descubra qual o interesse econômico corrupto que essa posição atende para descobrir a sua causa. No entanto, aquele que assina este blogue acha essa resposta insuficiente.

De qualquer modo, a atitude negacionista se afigura claramente absurda para quem acredita na ciência. Como explicá-la, então? Para fazê-lo – crê-se – é preciso adentrar o ramo da psicanálise voltado para a compreensão dos fenômenos sociais. Vladimir Safatle, em A ameaça interna [1], oferece outra explicação, não incompatível com a de Krugman, que aqui se resume.

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Ruy Fausto: apresentação dialética

Eleutério F. S, Prado [1]

Introdução

Max Horkheimer, em seu Teoria tradicional e teoria crítica [2], afirma que existem conexões entre as formas de juízos e os períodos históricos. Em sequência, ele opõe o juízo categórico ao juízo hipotético. O juízo categórico, ou seja, aquele que afirma ou nega incondicionalmente uma pertinência (X é A; X é não-B), mostra-se adequado nas sociedades pré-capitalistas. Pois, como tal, alude a um mundo que não pode ser mudado pelo homem. O juízo hipotético (se X, então A; se X, então não-B), ao contrário, afigura-se adequado no capitalismo, pois faz referência a um mundo passível de transformação. Indica a condição necessária para que algo aconteça ou não aconteça, expressando assim uma causalidade eficiente.

Ora, a própria noção de teoria altera-se na sociedade moderna. Se, para os gregos, significava contemplação, observação ou visão desinteressada da ordem do universo, para os modernos, ela significa “uma sinopse de proposições” que descrevem fatos e relações factuais hipotéticas ou conjecturais que permitem atuar no mundo praticamente para transformá-lo.  Em sentido usual e dominante, o termo teoria se refere – indica Horkheimer – “ao saber acumulado de tal forma que permita ser utilizado na caracterização dos fatos tão minuciosamente quanto possível”. Ou seja, dá nome à acumulação de juízos hipotéticos que permanecem hipotéticos porque codificam a transformação possível do mundo.

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As origens antidemocráticas do neoliberalismo

Quinn Slobodian [1]– Terrestres [2] –12/07/2026

Destino, que destino?

Ao final de A escolha da guerra civil [3], Pierre Dardot, Haud Guéguen, Christian Laval e Pierre Sauvêtre mencionam um encontro entre Napoleão e Goethe, ocorrido em 1808. Afirma-se que, na ocasião, Napoleão disse: “Por que sempre se fala em destino? O destino, ele está na política.” Essa frase, desde então, ressoou tão profundamente que o industrial alemão Walter Rathenau a retomou na década de 1920 para transformá-la em “O destino, ele está na economia”. Após a Segunda Guerra Mundial, Ludwig Erhard, Ministro da Economia da Alemanha Ocidental e figura-chave na implementação, no pós-guerra, de uma versão alemã inicial do neoliberalismo, usou a mesma fórmula: “O destino, ele está na economia.”

Essa reformulação reflete bem a oposição atual entre o neoliberalismo e os seus adversários no campo da direita. Alguns argumentam que existe uma “lei econômica” imperativa, em nome da qual burocratas responsáveis e instituições financeiras guiadas por algoritmos determinam o destino das pessoas segundo princípios abstratos extraídos da ciência econômica. Outros, porém, se recusam a se submeter às forças do mercado e supervalorizam o Estado, a soberania e o poder de um líder carismático, ou seja: a intervenção do que está fora daquela lei. Ora, essa alternativa nos leva de volta às ideias que circulam há uma década. Ouve-se falar do retorno dos homens fortes, de tantos pequenos napoleões que erguem a bandeira de que “o destino está na política”. E ela vem sendo também chamada por Timothy Snyder, diante da lógica distributiva implacável do mercado, de “política da eternidade”.

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Duas teses sobre o fascismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Neste pequeno artigo pretende-se fazer uma comparação de duas teses que buscaram compreender o fascismo como fenômeno político inerente ao capitalismo, ambas de modo rigoroso. Das lavras de Vladimir Safatle e Ruy Fausto, cada uma delas o ilumina a seu modo. A do primeiro autor veio de algum modo do estruturalismo francês [2] e a do outro veio da dialética marxiana. A questão que move este escrito, no entanto, não se resume à aludida comparação, já que se orienta também por uma dúvida crucial: o extremismo de direita contemporâneo pode ser tomado como uma variante de fascismo?

Com esse objetivo se examina dois textos em particular: a Introdução do livro A ameaça interna [3], recém-publicado, do primeiro autor e o capítulo Sobre o Estado [4] do tomo segundo de Marx: lógica e política, saído no final do século passado, do segundo autor acima mencionado. Como a comparação se dá no campo metodológico, o exame se vale fortemente de um escrito de Ruy Fausto intitulado Dialética, estruturalismo, pré(pós)-estruturalismo[5], que se ousou apresentar didaticamente em Ruy Fausto: dialética e estruturalismo[6].

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Que diabos acontecem em Delaware?

Emily Topping [1] – Current Affairs – 25/06/2026

Mais de dois terços das empresas da Fortune 500 estão baseadas neste pequeno estado e o restante dos norte-americanos está tendo que conviver com as consequências.[2]

Nacionalmente, o modesto estado de Delaware não recebe muita atenção. Como o segundo menor estado dos Estados Unidos, tem aproximadamente 154 km de comprimento e, em seu ponto mais largo, apenas 56 km. Querendo, leva-se cerca de uma hora e meia para dirigir de um lado ao outro, presumivelmente para chegar a um lugar mais emocionante. O produto mais famoso de Delaware é Joe Biden, junto com algo chamado “scrapple”: um prato regional de café da manhã do meio-Atlântico que é tentadoramente descrito como um “pedaço de restos de porco coalhado com farinha de milho”. No entanto, o que falta ao estado em matéria cultural é compensado por coisas mais insidiosas.

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Titãs da gestão de ativos

Benjamin Braun [1], Adrienne Buller [2]

Artigo publicado no portal Policrise que busca rastrear a ascensão e a política do capitalismo dos gestores de ativos.

Em meados de outubro de 2021, a BlackRock revelou os resultados do terceiro trimestre; viu-se, então, que essa gigante da gestão de ativos estava anunciando que o seu patrimônio em ativos sob gestão estava pouco abaixo de $10 trilhões de dólares. Era uma quantia enorme! Eis que era “aproximadamente equivalente a toda a indústria global de fundos de cobertura (hedge), capital privado (private equity) e capital de risco juntos”. O montante anunciado mostrava, ademais, que houvera um aumento de quase dez vezes em apenas alguns anos. Pois, a empresa ultrapassara pela primeira vez a marca de 1 trilhão de dólares pouco mais de 10 anos antes, em 2009.

Desde a crise financeira de 2008, testemunha-se a ascensão da BlackRock como uma superpotência indiscutível na gestão de ativos. Embora excepcional, ela não está sozinha. Aparece junto com a sua rival mais próxima, a Vanguard. Pois, essas duas empresas controlam quase US$ 20 trilhões em ativos, tendo assim uma participação combinada de mais de 50% no mercado em expansão de fundos negociados em bolsa (ETFs).

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Afogados em dívídas impagáveis

Autor: Fernando Rugitsky [1]

Inclusão financeira e expropriação financeira no Brasil [2]

Na eleição de outubro, o Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva enfrentará pela terceira vez o movimento de extrema direita liderado por Jair Bolsonaro. Lula disputa a reeleição a seu quarto mandato presidencial amparado por um desempenho macroeconômico relativamente bem-sucedido. Após um longo período de crise e estagnação — entre 2015 e 2022, o crescimento médio anual do PIB foi de apenas 0,3% —, a economia brasileira cresceu cerca de 3% anuais nos três primeiros anos do atual governo, enquanto a taxa de desemprego caiu de 9,5% para algo em torno de 6%, na comparação entre as médias de 2022, último ano do governo anterior, e de 2025. Mas as pesquisas indicam que isso pode não ser suficiente para garantir uma reeleição tranquila. A maioria delas aponta uma disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.

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A IA está inflando uma bolha?

C.P. Chandrasekhar [1] e Jayati Ghosh [2]

A febre dos investimentos financeiros desencadeada pela oferta pública inicial da SpaceX é um sinal de que o boom dos investimentos em IA é uma bolha.[3]

Os mercados financeiros dos EUA estão em êxtase. Algumas empresas estão batendo recordes de ofertas públicas iniciais (IPO), transmitindo a impressão de uma transformação do papel dos mercados de ações no capitalismo americano. A tendência começou com a SpaceX, a megacorporação criada ao converter a plataforma de mídia social Twitter, renomeada X, no player de inteligência artificial xAI, e depois fundi-la com o operador de satélites e gigante das telecomunicações.

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O problema dos três corpos do capitalismo

Autor: Romaric Godin

Tradução do subtítulo: Sobre a gestão autoritária do desastre (e os meios para lidar com ele).

Publica-se abaixo uma tradução da introdução do livro de Romaric Godin, a qual foi disponibilizada no sítio da própria editora La découverte, em francês. Como o texto é extenso, a sua publicação encontra-se abaixo na forma de pdf que pode ser baixado pelos interessados. Segue-se o endereço do sítio da editora para os eventuais interessados: https://www.editionsladecouverte.fr/2