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Lucratividade: o investimento e a pandemia

25/05/2020

Baixa rentabilidade e aumento da dívida são os dois muros, dez anos após a eclosão da Longa Depressão, contra os quais as principais economias estão batendo agora a própria cabeça.

Neste momento de pandemia, governos e bancos centrais estão dobrando as políticas de estímulo econômico, apoiadas por um coro aprovador de keynesianos de várias tonalidades (MMT etc.), na esperança e na expectativa de que isso consiga reviver as economias capitalistas após os bloqueios terem sido relaxados ou terminado.

Conforme Michael Roberts, é improvável que isso aconteça porque a lucratividade permanecerá baixa e pode até cair, enquanto que as dívidas aumentarão, alimentadas pela enorme expansão do crédito.

As economias capitalistas permanecerão deprimidas e, eventualmente, verão ocorrer um aumento da inflação, conformando, assim, uma nova fase em que a depressão se transforma numa estagflação.

O artigo de Michael Roberts se encontra aqui: Lucratividade – o investimento e a pandemia

O dilema da dívida

18/05/2020

O crédito tem um papel crucial na economia capitalista: um artigo de Michael Roberts esclarece esse tema justamente no momento em que se desenrola  aquela que será provavelmente a maior crise histórica do capitalismo. É bem possível que a crise catastrófica dos anos 1930 perderá o seu posto já que a economia capitalista está financeirizada como nunca esteve antes.

O crédito permite alongar o pagamento de mercadorias pelos consumidores, em especial as de grande valor monetário como os bens duráveis e as residências.

Ele permite que os investimentos em projetos maiores e mais longos sejam financiados quando os lucros reciclados internamente às empresas não são suficientes.

O crédito permite, portanto, uma circulação mais eficiente do capital destinado à circulação de mercadoria, ao investimento e à produção corrente.

Os mercados financeiros se alimentam do crédito concedido aos governos, às empresas e às família. Ele tem, portanto, o potencial para alavancar o funcionamento do sistema como um todo.

Mas o crédito se torna dívida; assim, embora possa ajudar a expandir a acumulação de capital, caso os lucros não sejam suficientes para servir a essa dívida (ou seja, para pagar o principal e os juros aos credores), a dívida se torna um fardo que consome os lucros e a capacidade de expansão do capital.

O escrito de Michael Roberts está aqui: O dilema da dívida

A provação política da pandemia

11/05/2020

         Para Pierre Dardot e Christian Laval – autores de Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI – a pandemia do Covid-19 está testando a capacidade das organizações políticas e econômicas de lidar com esse tipo de acontecimento. “Com as mudanças climáticas em curso, o que estamos experimentando agora mostra aquilo que aguardará a humanidade em poucas décadas se a estrutura econômica e política do mundo não mudar.”

O que eles reclamam é falta da perspectiva incisiva dos comuns nas lutas sociais por uma nova sociedade. Em seu livro acima mencionado, publicado em 2017,  eles mostraram que o desenvolvimento do capitalismo nas últimas décadas mostrou a necessidade de que os movimentos transformadores visem agora, centralmente, a instituição de comuns como forma de enfrentar o neoliberalismo, ou seja, a ideologia do capitalismo em seu ocaso.

Eles afirmam, agora, no artigo que aqui se publica, que essa demanda se tornou urgente em face das catástrofes sanitárias e climáticas que estão agora pairando ameaçadoramente no horizonte da humanidade.

O texto está aqui: A provação política da pandemia

O artigo foi originalmente publicado em Mediapart, 19/03/20.

Ruy Fausto: dentro e fora do marxismo

04/05/2020

Ruy Fausto faleceu no dia 1º de maio de 2020. Mesmo se ele se afastou do marxismo no correr de sua vida intelectual, continua a ser reconhecido como um filósofo original que mostrou certas chaves cruciais para melhor ler a obra de Karl Marx. Ao fazê-lo, abriu especialmente para os economistas o horizonte da crítica da economia política, sem a qual a ciência do capitalismo permanece um saber que esconde os seus fundamentos.

É evidente, o autor de Marx: Lógica e Política, dedicou quase toda a sua vida de professor universitário e pesquisador na área de Filosofia ao desenvolvimento de uma crítica rigorosa do marxismo herdado, a qual se fundamenta na logicidade da dialética de Hegel e Marx.

Como aquele que assina esse blog aprendeu com ele um pouco da lógica dialética que está implícita nos textos do filósofo alemão, julga então que não poderia faltar nesse momento. O texto que essa introdução encaminha aponta para o núcleo da contribuição de Ruy Fausto, que continua a ser de conhecimento necessário para o aprofundamento da compreensão não só do marxismo, mas também – é preciso dizer – para a política contemporânea.

O texto está aqui:  Dentro e fora do marxismo

Convite ao sacrifício

27/04/2020

“O sistema capitalista mundial entrou na crise mais grave de sua história, cujas consequências – caso ela não seja rapidamente superada – podem até ir além da crise da década de 1930.”

É assim que o editor alemão apresentou o artigo que se segue de um autor que parece ver um colapso econômico em consequência do estado da economia capitalista e do impacto da crise do coronavírus:

“Tomasz Konicz é um jornalista alemão-polonês, autor de vários ensaios teóricos e analíticos que perscrutam o mundo, neste século XXI, submetido à força de sucção do capital, com base na perspectiva da crítica do valor-dissociação.

A teoria da crise de Marx está geralmente associada à lei da tendência de queda da taxa de lucro apresentada no terceiro volume de O Capital. As correntes da crítica do valor e da crítica do valor-dissociação mostram, pelo contrário, que existe uma “primeira versão” da teoria da crise nos textos de Marx, a qual foi esboçada especialmente nos Grundrisse.

Ela atribui a crise secular da economia capitalista ao declínio absoluto do trabalho vivo e, consequentemente, à queda não apenas da taxa média de lucro, mas principalmente da massa de mais-valor socialmente produzido. Somente essa “primeira versão” da teoria da crise permite compreender de modo coerente o limite interno absoluto do capital.

A “riqueza” na era do capital fictício, momento em que o modo de produção e de vida capitalista não pode mais sobreviver, exceto por meio do consumo da produção futura de mais-valor,

E esta, em última análise, nunca chegará a ser realizada nas proporções requeridas. Eis que ela aparece, agora, como uma gigantesca coleção de dívidas públicas e privadas que ameaça entrar em colapso. Konicz analisa em sequência o último empurrão dado nesse processo fundamental de crise: sob os efeitos da pandemia do Covid-19, grande parte da máquina de exploração global está parando.”

O artigo está aqui: A crise do coronavírus e do capitalismo

Niilismo, capital, fascismo

20/04/2020

O termo niilismo foi empregado de várias formas na tradição cultural do Ocidente. Mesmo em Friedrich Nietzsche, em que se torna central, é de difícil compreensão já que foi usado de várias formas apenas aproximadas umas das outras ao longo de seus diversos textos.

Aqui se entende que niilismo se refere à “ruína da interpretação moral do mundo” depois do advento da racionalidade moderna, após o declínio da totalidade ética constituída pelo cristianismo na Idade Média. Segundo Max Weber, ele é o efeito de um desencantamento do mundo. Segundo Heidegger, ele traz como consequência o domínio da racionalidade técnica e instrumental do mundo.

Aqui se julga que essa irreligiosidade, que afetou o mundo da vida social e cultural, veio junto com um novo encantamento. Eis que a esfera econômica da sociedade moderna se destacou da sociedade, ganhou vida própria, tornando-se o domínio de um “deus” terreno. Em consequência, atribui-se aqui o advento do niilismo ao domínio crescente nessa sociedade do sujeito automático formado pela relação entre o capital e o trabalho assalariado.

De modo tentativo, considera-se então que o efeito do niilismo é incapacitar os valores humanistas que mal sobrevivem na sociedade moderna de conter as tendências à uma violência endêmica – assim como àquela que dá origem ao fascismo –, a qual passa a medrar nessa sociedade de forma incontida. Julga-se, então, que apenas um socialismo radicalmente democrático pode salvar a humanidade da barbárie que hoje se vê transpirar por todos os poros desse desencantamento.

Eis aqui o texto: Capital, niilismo, fascismo

Crise estrutural no ocaso do capitalismo

13/04/2020

Eis como Murray Smith apresenta o livro O invisível leviatã.

O capitalismo global, com a inclusão da humanidade, enfrenta agora uma crise tripla:

Um aprofundamento da contradição estrutural do modo de produção capitalista, que se manifesta como uma crise multidimensional de “valorização”, isto é, uma crise na produção de “mais-valor”, o elemento vital dos lucros;

Uma crise grave das relações internacionais derivada do fato de que as forças produtivas globais estão rompendo os limites do sistema de estados nacionais; assim, as nações continuam abordando os seus graves problemas de forma principalmente “nacional”;

Uma crescente “crise metabólica” decorrente da contradição entre a civilização humana e as “condições naturais de produção”, isto é, entre o seu modo de apropriação da natureza e os fundamentos ecológicos da sustentabilidade das sociedades.

Juntas, essas três crises inter-relacionadas sugerem que se entrou agora na era do crepúsculo do capitalismo – uma era em que a humanidade terá de encontrar uma ordem social e de organização econômica superior e mais racional ou o capitalismo decadente trará a destruição da civilização humana.

Uma apresentação do livro feita pelo responsável pelo blog se encontra aqui: Crise estrutural no ocaso do capitalismo