Por José Paulo Guedes Pinto[1]

“No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” – Guy Debord, tese 14 do livro “A Sociedade do Espetáculo”
Vivemos um momento em que a política internacional passou a operar cada vez mais como espetáculo. Em vez de enfrentar problemas estruturais, governos constroem narrativas dramáticas que dominam o noticiário e tentam reorganizar momentaneamente o apoio político. Como lembrava Guy Debord no livro, na nossa sociedade do espetáculo, a realidade social é substituída por imagens e encenações: a política torna-se uma produção permanente de narrativas, custe o que custar.
Em outro texto defendi que foi essa lógica que marcou o episódio do sequestro do presidente Nicolas Maduro autorizado por Trump na Venezuela. Sigo pensando que a retórica agressiva e violenta, as ameaças militares e as sanções econômicas são mecanismos espetaculares que seguem funcionando menos como soluções reais e mais como instrumentos simbólicos para reorganizar a política doméstica dos EUA, desviar a atenção das crises internas e tentar alimentar a base de Trump com a imagem de um líder forte.
Agora, porém, o espetáculo ganhou uma dimensão muito mais perigosa: ele se deslocou para uma guerra aberta contra o Irã. Tentarei argumentar que essa lógica espetacular continua: gerar o caos com decisões oportunas de curto prazo para encobrir o aprofundamento das crises estadunidenses. O palco, porém, se ampliou e os riscos agora são incomparavelmente mais altos, tanto para a humanidade, como para a própria continuidade de Donald no poder.
O espetáculo como método político
No texto sobre a Venezuela, observei que guerras e intervenções passaram a funcionar também como instrumentos de gestão simbólica do poder, organizados como narrativas morais simplificadas: democracia contra o autoritarismo, ordem contra o caos, bem contra o mal. Essa simplificação é essencial para a política-espetáculo. Conflitos complexos, com raízes históricas profundas e dinâmicas regionais intrincadas, são transformados em histórias facilmente consumíveis pelo público. A guerra deixa de ser vista em sua brutalidade, causadora de mortes (de civis, muitos deles crianças), destruição e deslocamentos em massa, e passa a ser apresentada como um episódio cinematográfico, com heróis e vilões bem definidos.
Nesse sentido, a guerra contra o Irã se encaixa perfeitamente nessa lógica. Ela produz imagens fortes de mísseis noturnos explodindo em cidades distantes, discursos inflamados no Salão Oval e mapas com setas indicando movimentações de tropas. Cria inimigos claros e inequívocos na figura dos aiatolás. Tenta gerar alguma mobilização nacional momentânea e, ao mesmo tempo e mais importante, desloca dia após dia a atenção pública de crises internas estadunidenses que não param de se aprofundar.
Não é a primeira vez que isso ocorre. Vimos bem isso operar no Brasil durante o governo Bolsonaro: diante de uma crise real, criavam-se outras crises artificiais, o noticiário era dominado por declarações bombásticas e depois se recuava ou reorganizava o conflito conforme a conveniência política. Trump inaugurou esses modus operandi com as sanções econômicas contra países como a China e o Brasil, anunciadas com estardalhaço e depois flexibilizadas.
Nessa lógica o caos não aparece como acidente ou efeito colateral indesejado. Ele se torna método de governo.
A guerra e seus financiadores internos
No caso atual, porém, existe um fator adicional que ajuda a compreender a escalada e que não estava tão evidente quanto no episódio venezuelano: a guerra contra o Irã atende a interesses geopolíticos e financeiros muito poderosos, organicamente ligados à base de sustentação do governo Trump.
A campanha eleitoral de Trump contou com apoio financeiro decisivo de grandes doadores alinhados ao governo israelense. Entre eles, destaca-se Miriam Adelson, bilionária do setor de cassinos e uma das maiores financiadoras da política republicana, que contribuiu com mais de 100 milhões de dólares para a campanha política de Trump. Viúva de Sheldon Adelson, também megadoador, Miriam é conhecida por seu apoio intransigente a Israel e por sua influência na definição da política externa americana para o Oriente Médio.
Esse tipo de financiamento não explica sozinho decisões de política externa, mas indica o campo de forças no qual elas se desenvolvem e as pressões a que estão submetidas. A guerra, nesse sentido, não é apenas um evento geopolítico. Ela também está inserida em redes políticas, financeiras e ideológicas que atravessam o sistema político norte-americano e que esperam retornos concretos para seus investimentos de campanha.
O Secretário de Estado, Marco Rubio, em um momento de rara sinceridade, declarou abertamente que Israel “empurrou” os EUA para esta guerra escancarando a subordinação da política externa americana aos interesses de um aliado e de seus poderosos lobbies internos.
O espetáculo político, nesse caso, mistura interesses estratégicos, pressões geopolíticas e alianças internas. O “América Primeiro” da retórica trumpista cedeu lugar à “Israel Primeiro” na prática concreta.
A crise econômica por trás da encenação
Mas o espetáculo sempre busca esconder algo mais profundo. No caso, a própria situação econômica dos Estados Unidos, que se deteriora rapidamente.
Trump chegou ao poder prometendo prosperidade econômica para a classe trabalhadora. Parte significativa de seu eleitorado (incluindo trabalhadores precarizados, setores populares e minorias que votaram no campo republicano) acreditou nessa promessa de que a economia voltaria a crescer e os empregos bem remunerados retornariam. Entretanto, os problemas estruturais da economia norte-americana permanecem e, em muitos aspectos, se agravam.
As políticas econômicas adotadas pelo governo, como a guerra tarifária contra parceiros comerciais, já produzem efeitos inflacionários e pressões sobre o crescimento do PIB. A elevação do custo de vida vem corroendo o poder de compra da classe trabalhadora e a promessa trumpista de “redução de preços desde o primeiro dia do governo” revelou-se claramente uma miragem.
Além disso, a indústria norte-americana vem enfrentando dificuldades persistentes que nenhum discurso nacionalista consegue reverter. Como analisa Richard Baldwin, o processo de desindustrialização das economias centrais, especialmente nos países do G7, reduziu drasticamente a capacidade dessas economias de gerar empregos industriais de qualidade. Durante décadas, essas economias concentraram a maior parte da produção manufatureira mundial, mas essa posição foi gradualmente erodida com a globalização produtiva e a transferência de cadeias industriais para outras regiões, notadamente a Ásia.
Os dados são contundentes: o G7 reduziu sua participação na indústria da transformação global de 67% em 1995 para 34% em 2022. Os Estados Unidos, apesar de terem estabilizado sua participação em torno de 17%, viram sua base industrial encolher e se financeirizar. O resultado é um paradoxo político que está no cerne da atual crise: Trump prometeu restaurar a prosperidade industrial americana, mas a própria estrutura da economia global e décadas de políticas neoliberais tornam essa promessa materialmente impossível de se cumprir no curto prazo de um mandato (e talvez mesmo no longo prazo por conta da concorrência chinesa).
Quando a prosperidade prometida não chega, o espetáculo tende a se intensificar. Criar um inimigo externo e deflagrar uma guerra torna-se uma forma desesperada de administrar a frustração social sem enfrentar suas causas profundas. Por um lado, a guerra mascara o fracasso econômico.
A erosão da confiança no dólar e a bolha da IA
Por outro lado, a guerra pode aparecer, para certos setores do poder econômico, não apenas como risco, mas também como uma possível saída para a crise. Uma das formas mais conhecidas dessa tentativa histórica de reativar a economia é o chamado keynesianismo militar, isto é, o uso do gasto público e da corrida tecnológica associada à defesa como motor de crescimento. Nesse contexto, chama atenção a proximidade crescente entre as grandes empresas de tecnologia — especialmente aquelas ligadas à inteligência artificial — e o governo Trump. Muitos dos bilionários que lideram esse setor vêm mantendo relações diretas com o poder em Washington, seja por meio do financiamento de campanhas, da participação em conselhos governamentais, da colaboração com as próprias forças armadas ou, sobretudo, através de contratos públicos cada vez mais volumosos.
Essa convergência não ocorre por acaso. A expansão da infraestrutura digital, dos sistemas de vigilância e das tecnologias militares baseadas em IA abre mercado gigantesco para essas empresas. Em contextos de tensão internacional e militarização crescente, essas tecnologias tornam-se ainda mais estratégicas, alimentando uma aproximação entre interesses corporativos e decisões de política externa. Nesse sentido, a escalada militar envolvendo o Irã não apenas mobiliza o espetáculo político interno, mas também pode contribuir para ampliar gastos militares que encontram na inteligência artificial uma nova, ainda que instável, fronteira de acumulação.
Apesar disso, uma parte crescente dos investidores internacionais vem demonstrando dúvidas sobre a capacidade de reação da economia americana sob o governo Trump. Como observa Paul Krugman em artigo recente, a forte alta do preço do ouro desde 2025 reflete o chamado debasement trade: um movimento de fuga de capitais dos ativos americanos motivado pelo temor de inflação futura, deterioração fiscal ou até medidas arbitrárias do governo contra investidores estrangeiros. O comportamento dos mercados também começou a mudar. Durante décadas, más notícias econômicas ou geopolíticas costumavam provocar uma corrida para os ativos denominados em dólar, considerados o porto seguro do sistema financeiro global. Agora, porém, observa-se o movimento inverso: quando surgem tensões ou decisões erráticas em Washington, o dólar tende a cair e as taxas de juros a subir.
Esse ambiente de desconfiança torna-se ainda mais preocupante quando combinado com outra vulnerabilidade estrutural da economia americana: a possível formação de uma bolha em torno da inteligência artificial.
O valor de mercado das empresas ligadas à IA cresceu de forma explosiva na última década, e hoje as maiores empresas do mundo estão diretamente associadas às expectativas de lucros futuros dessa tecnologia. Juntas, essas gigantes já representam um valor equivalente a mais da metade do PIB americano. Esse boom tem sido alimentado por investimentos colossais: estima-se que as empresas de tecnologia planejem gastar cerca de 5 trilhões de dólares em infraestrutura de IA até 2030.
O problema é que os números não fecham. Em vez de depender principalmente de lucros e fluxo de caixa, muitas empresas passaram a financiar sua expansão por meio de endividamento crescente e engenharia financeira complexa. Em alguns casos, surgem estruturas circulares de financiamento — como empresas fornecedoras de tecnologia investindo diretamente nos próprios clientes para garantir demanda por seus produtos. Outras companhias têm recorrido a joint ventures com fundos financeiros para construir centros de dados, transferindo riscos para investidores que muitas vezes não compreendem completamente a natureza desses ativos.
Essa dinâmica lembra, em certos aspectos, os mecanismos que antecederam a crise financeira de 2008: crescimento acelerado sustentado por crédito, instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados e uma aposta generalizada de que os retornos futuros justificarão os investimentos presentes. O problema é que os ganhos econômicos efetivos da IA ainda são incertos. Estudos mostram que a adoção empresarial da tecnologia tem sido mais lenta do que o esperado e que os ganhos imediatos de produtividade permanecem limitados. Para justificar os investimentos atuais, as empresas de IA precisariam gerar receitas gigantescas e sustentadas ao longo do tempo — algo que ainda está longe de se confirmar.
A economia americana passa, portanto, a combinar duas tendências potencialmente contraditórias: de um lado, a perda gradual de confiança nos ativos financeiros tradicionais; de outro, uma expansão ainda altamente especulativa no setor tecnológico. Nesse cenário, a escalada militar no Oriente Médio não apenas amplia os riscos geopolíticos, mas também adiciona instabilidade a um sistema financeiro que já apresenta sinais claros de fragilidade estrutural, ainda que momentaneamente sustentado pelo dinamismo (também militar) das big techs e de outras empresas que operam no paradigma da inteligência artificial.
Crise política e escândalos morais
O espetáculo também serve para reorganizar crises políticas internas de natureza ainda mais explosiva. Nos Estados Unidos, novos desdobramentos ligados aos arquivos de Jeffrey Epstein continuam alimentando um debate público incendiário envolvendo elites políticas, financeiras e midiáticas. O Departamento de Justiça, pressionado pelos próprios trumpistas a cumprir a Lei de Transparência, vem liberando levas de documentos que expõem as conexões profundas entre a rede de pedofilia e tráfico sexual e as altas esferas do poder mundial.
Trump aparece em diversos registros históricos associado ao círculo social de Epstein, tema que periodicamente retorna ao debate público e ameaça corroer sua legitimidade pessoal e simbólica.
Em contextos como esse, conflitos externos podem funcionar como mecanismos poderosos de reorganização da agenda política. A guerra desloca o foco da mídia e da opinião pública. As manchetes sobre bombardeios e movimentações de tropas substituem manchetes sobre depoimentos comprometedores e documentos reveladores. A crise interna desaparece temporariamente do centro do debate, dando ao governo um respiro político precioso.
Não por acaso, a escalada militar contra o Irã ocorre justamente no momento em que as investigações sobre Epstein avançavam e novas listas de nomes estavam prestes a ser divulgadas (e não o foram). O espetáculo da guerra serve, assim, a múltiplos propósitos: alimenta a imagem do líder forte, desvia a atenção das crises internas e enterra temporariamente os escândalos sob uma avalanche de notícias “sérias” sobre segurança nacional.
O risco sistêmico: quando o espetáculo pode incendiar a plateia
O problema, porém, é que o cenário atual pode produzir efeitos econômicos e geopolíticos muito mais amplos e incontroláveis do que aqueles previstos pelos estrategistas políticos que imaginam controlar o espetáculo.
Diferentemente da Venezuela, o Irã possui capacidade estratégica real de pressionar o sistema energético do Oriente Médio, região que desempenha papel central na reciclagem global de petrodólares, que são os excedentes financeiros acumulados pelos exportadores de petróleo e reinvestidos em ativos financeiros ocidentais, especialmente títulos do Tesouro americano e ações de empresas de tecnologia.
Essa reciclagem de capitais tem sido um dos pilares da estabilidade dos mercados financeiros globais nas últimas décadas. Os petrodólares do Golfo ajudam a financiar o déficit público e externo estadunidense e a sustentar a demanda por ativos financeiros. Se o conflito no Irã desestabilizar seriamente as economias petrolíferas de países vizinhos como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, seja por ataques diretos, seja pelo fechamento do Estreito de Ormuz, os efeitos podem atingir diretamente o coração dos mercados financeiros ocidentais.
Nesse cenário frágil, uma crise geopolítica de grandes proporções poderia rapidamente se transformar em uma crise financeira sistêmica. O estouro da bolha da IA, combinado com uma disparada nos preços do petróleo e uma interrupção nos fluxos de petrodólares, poderia levar a uma recessão profunda nos Estados Unidos, com efeitos de contágio globais.
O espetáculo e o caos
Como foi dito, a política-espetáculo opera através da simplificação. Ela transforma crises complexas em narrativas fáceis de consumir: heróis, inimigos e ameaças imediatas. O líder forte que enfrenta o tirano estrangeiro, a nação unida contra o perigo externo, a missão civilizatória de levar alguma “democracia” ao Oriente. Mas a história raramente segue esse roteiro.
Guerras frequentemente começam como operações limitadas, controladas por estrategistas confiantes em sua capacidade de administrar o conflito. Os mísseis são lançados com a expectativa de uma resposta calculada, de uma escalada controlada, de um desfecho rápido e glorioso. O problema é que guerras têm dinâmica própria e escapam rapidamente ao controle daqueles que as iniciam, arrastando países inteiros para abismos imprevistos.
O espetáculo político vive da imagem imediata, da manchete do dia, da mobilização emocional da audiência, no curto prazo. A história, no entanto, se desenrola em outro tempo: o tempo longo das consequências, das vidas destruídas, das economias arrasadas, dos ódios que se perpetuam por gerações.
No caso do confronto dos EUA e de Israel com o Irã, essa incerteza é ainda mais profunda. Estamos diante de um adversário com capacidade de retaliar em múltiplas frentes, de desestabilizar o mercado energético global e de arrastar a região inteira para um conflito de consequências imprevisíveis.
A combinação entre a lógica do espetáculo, que empurra para decisões precipitadas e cinematográficas, e a fragilidade da economia global, sustentada por bolhas especulativas e fluxos voláteis de capital, vem criando um cenário explosivo.
Por isso, um antigo ditado da diplomacia continua atual e talvez nunca tenha sido tão verdadeiro quanto agora: geralmente se sabe como uma guerra começa, mas quase nunca sabemos como ela termina.
Arrisco escrever que o espetáculo de Trump no Irã pode ser um dos últimos atos de um império que, ao tentar provar sua força por meio da guerra, está apenas exibindo publicamente suas fragilidades mais profundas.
[1] José Paulo Guedes Pinto é professor Associado no Bacharelado em Relações Internacionais, no Bacharelado em Ciências Econômicas e no programa de pós-graduação em Economia Política Mundial da Universidade Federal do ABC (UFABC). Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (2011) e pós-doutor pela London School of Economics and Political Science.








