Negacionismo in extremis

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Pouca gente acredita que se vive atualmente o ocaso do capitalismo e, talvez, o fim da história. Ao ser mencionada, a tese recebe frequentemente um sorrisinho de descaso como se autor fosse apenas um órfão do socialismo que não consegue ver a pujança e a dominância do sistema realmente existente. Julga-se que a previsão apocalíptica vem de alguém que espera o colapso do capitalismo para que se realize, como um milagre, a utopia milenar de uma sociedade em que as contradições estruturais e os conflitos manifestos foram abolidos.

Será? Eis como Murray Smith, o autor de Twilight capitalism caracteriza a situação atual da humanidade: “o capitalismo vai logo terminar – seja por um esforço consciente dos trabalhadores do mundo como um todo para substitui-lo por uma ordem social e uma organização econômica mais sustentável ou o capitalismo vai destruir a humanidade”. Veja-se: essa tese está fundamentada na própria natureza do capitalismo: ele se move pelo lucro e só pelo lucro e, para tanto, em consequência, não pode parar de explorar os trabalhadores e a natureza.

O capitalismo pode ser salvo de sua força evolutiva que se transformou já de predominantemente criativa em predominantemente destrutiva? O capital vai superar ainda as barreiras que ele própria cria como previu Marx em O capital? Reformadores keynesianos, seguidores de Karl Polanyi, marxistas, assim como outros, parecem acreditar que sim: os planos de salvamento não param de sair dos computadores para se instalar na internet e, assim, viajar pelo mundo. Ficam quase sempre aí nesse repositório do imaginário social concreto já que não podem se transformar em políticas econômicas efetivas.

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Eis como Lacan se serve de Marx

O artigo apresentado em sequência, de Frank Grohmann, apesar de difícil compreensão, mostra como o personalismo insuportável de Jacques Lacan cria uma enorme confusão ao tentar de se apropriar de frases de Marx para sustentar tanto a sua teoria do significante quando a sua hipótese do “estágio do espelho”.

Título original: Entre um casaco e 10 varas de linho: o problema do equivalente

Autor: Frank Grohmann – Artigo publicado no Blog Palim-Psao em 3 de março de 2022

A menção que se segue à obra de Karl Marx feita por Jacques Lacan em um de seus seminários, que então se realizava há cinco anos, apresenta boas razões para merecer nossa atenção.

É disso que se trata; eis o que quero apresentar no final da lição de hoje; é assim que a introduzo: a metonímia é propriamente o lugar onde devemos situar esse algo primordial, mas também essencial da linguagem humana na medida em que é possível apreendê-la. Ao contrário, a dimensão do sentido, ou seja, a diversidade desses objetos já constituídos pela linguagem em que se introduz o campo magnético do desejo de cada um, com as suas contradições. Eis a resposta que apresentei anteriormente, essa coisa outra que talvez pareça paradoxal, que é a dimensão do valor.

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Estagflação renitente

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Uma das contradições que sustentam a tese do ocaso do capitalismo se encontra na geopolítica do capital ou, o que é o mesmo, nas relações de concorrência – cooperação e competição – dos estados nacionais que formam a atual economia globalizada. O desenvolvimento das “forças produtivas” – diz Murray Smith em Invisible Leviathan[2] – “extrapolou os confins do sistema de estados-nações, mas são ainda as nações individuais que enfrentam os graves problemas”, isto é, os problemas causados pelo próprio processo contraditório de acumulação de capital.  

Eis alguns deles: a emergência climática, as pandemias, a poluição dos oceanos, a manutenção das cadeias da produção de mercadorias, a inflação global etc. Nesta nota quer-se tratar apenas do processo de estagflação que aparece agora como um fenômeno renitente e duradouro da produção capitalista. Baixo crescimento com inflação está aí como um novo “normal” que vai continuar assombrando o futuro das economias capitalistas em geral. Mas, para fazê-lo, é preciso dar dois passos iniciais com a finalidade de enquadrar esse fenômeno em suas condições objetivas.

O primeiro deles consiste em apresentar o atual estágio do processo de expansão da mundialização do capital. Um indicador desse processo histórico se encontra na figura abaixo; ele mostra graficamente a evolução da razão entre as exportações mundiais totais e o PIB mundial. Aparecem nesse perfil, notoriamente, três ondas de globalização que marcam a história do capitalismo: entre 1870 e 1914, entre 1945 e 1980 e entre 1980 e 2008; assim como, também, um período de desglobalização entre 1914 e 1945. Em adição, o gráfico indica o surgimento de um novo período de contração do comércio internacional, o qual ocorre após a grande crise de 2008.

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A inflação em curso e as suas causas

Autor: Nick Johnson

Blog The Political economy of development – em 30/05/2022

Eu postei algumas vezes este ano, neste blog, sobre o tema inflação. Expressei uma insatisfação com as abordagens mainstream e com uma variedade de teorias keynesianas (incluindo a Teoria Monetária Moderna ou MMT). Recentemente, isto me levou a revisitar algumas teorias mais radicais, mas também mais ricas e, em adição, mas realistas. Penso que as abordagens marxistas são mais adequadas ao fenômeno e à sua essência. Comecei com Robert Rowthorn, professor da Universidade de Cambridge, cuja principal contribuição sobre a inflação remonta à década de 1970.

Na época, muitas das economias avançadas estavam passando por estagflação (desemprego e inflação subindo juntos). O consenso social-democrata keynesiano sobre a política econômica estava sendo minado, tanto por eventos econômicos, mas também teoricamente, com o surgimento de ideias neoclássicas, pré-keynesianas, que tomaram a forma do monetarismo de Milton Friedman e depois a nova macroeconomia clássica incorporando expectativas racionais.

Não é o objetivo deste post revisar todas as teorias alternativas de inflação. Eu apenas quero estabelecer uma abordagem marxista, com base em Rowthorn, mas também nas ideias de Anwar Shaikh de seu livro Capitalism de 2016, bem como alguns outros economistas marxistas como Ben Fine da SOAS e Alfredo Saad-Filho do King’s College, Londres. Há uma sobreposição substancial entre as ideias desses autores sobre a inflação.

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A clínica psicanalítica é política

Autor: Samo Tômsic [1]

Este livro [2] desenvolve ainda uma linha de pensamento adotada num volume anterior.[3] Trata-se de uma discussão em curso sobre a atualidade da psicanálise para fazer uma crítica ao modo de gozo historicamente introduzido e imposto pela organização capitalista do trabalho social e da vida social, bem como do pensamento em geral. Minha preocupação tem se voltado para os esforços freudianos e lacanianos para elaborar algo que poderia ser chamado de crítica da economia libidinal.

Esta última, pode-se argumentar como base no envolvimento de Jacques Lacan com Karl Marx, pode ser considerada um componente essencial da crítica da economia política. Gostaria de iniciar o presente estudo referindo-me ao modo como o próprio Lacan definiu o significado político de sua disciplina:

A intrusão no político só pode ser feita reconhecendo que o único discurso existente, e não apenas o discurso analítico, é o discurso do gozo, pelo menos quando se espera dele o trabalho da verdade”.[4]

Nesta observação densa e, seguramente, um tanto enigmática, a primeira palavra já chama nossa atenção.

A psicanálise entrou na esfera do político como um intruso, um convidado não convidado ou mesmo um encrenqueiro, que perturbou o sono dos habitantes desse mundo e, portanto, encontrou resistência. No entanto, essa intrusão crítica não veio de fora, de algum lugar exterior aparente. Ocorreu mais como uma ruptura imanente ou como um curto-circuito que expôs algo inerente ao cerne da política, algo que até então permanecia desconsiderado: o papel problemático do gozo na constituição dos vínculos sociais e na reprodução das relações de poder.

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O que impulsiona a inflação?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Há várias teorias de inflação. Há também várias pseudoexplicações para o fenômeno inflacionário que vem acompanhando o desenvolvimento do capitalismo no pós-guerra. Pode-se dizer que uma inflação rastejante nunca mais abandonou o capitalismo quando os sistemas monetários perderam a âncora do padrão-ouro. Pode-se lembrar que houve todo um período na década dos anos 1970 do século passado em ocorreu não apenas inflação, mas estagflação.

Aqui vai-se fazer um comentário sobre uma explicação da inflação encontrada numa postagem do famoso historiador econômico inglês, Adam Toose. Apresenta-se, por isso, em sequência um longo trecho traduzido de seu escrito no Chartbook 122, de 17 de maio de 2022.

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O “Marx com Lacan” de Adrian Johnston

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Discute-se em sequência um escrito que ampara uma tese contrária àquela sustentada no artigo Lacan, crítico de Marx.[2] Argumentou-se nele que Lacan não compreendera corretamente a categoria de valor de Marx e, em consequência disso, sustentara que a dinâmica da economia psíquica dos indivíduos era confluente, guardava semelhanças, com a dinâmica da reprodução do capital apresentada já no capítulo IV do Livro I de O capital. Esse mencionado escrito é da lavra do filósofo americano Adrian Johnston, tendo sido publicado aqui sob o título Marx com Lacan: para criticar o capitalismo.[3]

Para esse autor, ao contrário do que se sugeriu naquele escrito, Lacan pode ser apresentado como um leitor rigoroso de Marx que compreendera adequadamente as categorias de valor e mais-valor desse autor clássico. E que, por isso mesmo, fora bem capaz de fazer um correto entrelaçamento entre marxismo e psicanálise. Foi com base nessa visão que ele, no escrito mencionado, juntou mais uma vez Marx com Lacan para renovar a teoria crítica do capitalismo. Ora, antecipando o que apenas se poderá provar logo adiante, chega a essa conclusão porque confia – assim como Lacan – na interpretação dessas categorias de Marx feita por Louis Althusser e associados, principalmente em Ler O capital[4].

Em resumo, a divergência acima relatada em largos traços se assenta sobre a seguinte afirmação de Adrian Johnston, posta logo no início do seu escrito: “o surgimento explícito do inconsciente analítico no capitalismo moderno revela uma metapsicologia já implicitamente operante na espécie homo sapiens muito antes do surgimento do modo de produção capitalista”. Sim, mas que metapsicologia?

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“Marx com Lacan”: para a crítica do capitalismo

Autor: Adrian Johnston [1]

Quais são – caso existam – os resultados da ligação feita pelo último Lacan entre a economia libidinal (centrada no gozo, no desejo, no “objeto a” etc.) e a economia política em geral, assim como, especificamente, a crítica histórico-materialista da economia política? Da mesma forma, como interpretar as glosas de Lacan sobre as analogias de Freud com o capitalista-empresário que põe uma interface entre a psicanálise e o marxismo? Samo Tomšič, em seu estudo de 2015, O inconsciente capitalista: Marx e Lacan, aborda assim esta segunda questão:

Freud não diz o que os freudo-marxistas dirão mais tarde, ou seja, que o inconsciente explica o capitalismo; ele afirma precisamente o contrário: é o capitalismo que elucida o inconsciente. O inconsciente descoberto em A Interpretação dos Sonhos nada mais é do que o inconsciente capitalista, o entrelaçamento da satisfação inconsciente com a estrutura e a lógica do modo de produção capitalista.

Tenho duas hesitações sobre essa leitura de Tomšič. A primeira revela uma preocupação:  pelo menos de uma perspectiva lacaniana, acho que ele corre o risco de historicizar excessivamente o inconsciente psicanalítico. Nem Lacan nem eu discordaríamos que as estruturas e dinâmicas do inconsciente são significativamente influenciadas por forças e fatores sócio-históricos, inclusive os do capitalismo. Mas acredito que Lacan sustentaria que as contribuições da modernidade capitalista para a descoberta e teorização do inconsciente freudiano caem na tese de Marx segundo a qual “a anatomia humana contém uma chave para a anatomia do macaco”. Dito de outra forma, o surgimento explícito do inconsciente analítico no capitalismo moderno revela uma metapsicologia já implicitamente operante na espécie homo sapiens muito antes do surgimento do modo de produção capitalista.

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“Marx com Freud”: para a crítica do capitalismo

Autor: Eleutério F. S Prado [1]

Sim, é preciso assentir que o saber sociológico em geral não pode prescindir do saber sobre as disposições psíquicas dos indivíduos socialmente situados – e vice-versa, deve-se acrescentar enfaticamente. E isso vale também para as teorias críticas do capitalismo e do ser humano submetido às condições de vida próprias desse modo de produção. Entretanto, as duas principais teorias dessa espécie, elaboradas na época moderna, respectivamente, por Karl Marx e Sigmund Freud, a crítica da economia política e a psicanálise, nunca se reconciliaram de um modo satisfatório.

Dizendo de outro modo, conforme Samo Tomšič, mesmo se a crítica da economia política exige uma crítica da economia libidinal, “a interação entre marxismo e psicanálise sempre foi marcada pela desconfiança mútua, pela crítica e pelo distanciamento” (2022a). Ora, foi com a finalidade de superar essa situação que escreveu o marcante livro O inconsciente capitalista – Marx e Lacan (2015), assim como, em complemento, diversos outros textos publicados em sequência. Aqui se faz uma crítica, ou melhor, uma apropriação crítica do artigo Labor/trabalho (2022b) em que esse autor procura aproximar a noção de trabalho mental que aparece em A interpretação dos sonhos com a categoria de trabalho social que permeia O capital como um todo.

Assim como Marx estabeleceu uma conexão sociológica entre trabalho abstrato e mais-valor na produção mercantil generalizada para explicar a dinâmica da acumulação de capital, Freud teria apresentado, segundo ele, uma ligação psicológica entre trabalho mental e gozo (ainda sob o nome de prazer) para explicar a dinâmica psíquica dos indivíduos na vida social. Assim, nessa perspectiva, Tomšič afirma no artigo em discussão que “o processo mental pode e deve ser visto como trabalho produtivo”. Segundo ele, o pai da psicanálise teria igualado “pensamento e trabalho”, formulando desse modo uma “teoria do trabalho do inconsciente”.

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A religião na crítica do capitalismo

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Este artigo pretende expor resumidamente a tese do filósofo freudo ou lacano-marxista Adrian Johnston sobre o lugar da religião nos últimos dois séculos frente à secularização produzida pelo crescimento exponencial das relações mercantis. Ele quer saber, dizendo de outro modo, como a religião ocupou o espaço social conforme ocorreu o desenvolvimento do capitalismo. A sua exposição encontra-se num extenso artigo publicado na revista Philosophy Today, em 2019: The triumph of theological economics: god goes underground, título que pode ser assim traduzido: O triunfo da teologia econômica: deus se tornou subterrâneo.

Johnston se inspira numa prédica de Jacques Lacan deixada nas linhas de seu famoso seminário sobre Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, de 1964: “a verdadeira fórmula do ateísmo não é que Deus esteja morto… a verdadeira fórmula do ateísmo é que Deus se tornou inconsciente”.

Se assim for, isso mostra que o governo da divindade sobre a sociedade é tão poderoso que apenas pode ser abandonado na aparência; quando isso ocorre, quando os crentes se tornam descrentes, ele vai sobreviver oculto no inconsciente daqueles que agora são “ateus” – incluindo-se nessa categoria os que se assumem agnósticos e aquele que o são devido ao seu comportamento social, mas não se assumem como tais. Mais do que isso, Johnston sustenta que a crença em um ser todo poderoso, quando passa a ser renegada explicita ou implicitamente, se torna ainda mais enérgica, pois agora ela passa a reinar sobre os “sujeitos” sociais sem que eles o saibam.

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