As origens antidemocráticas do neoliberalismo

Quinn Slobodian [1]– Terrestres [2] –12/07/2026

Destino, que destino?

Ao final de A escolha da guerra civil [3], Pierre Dardot, Haud Guéguen, Christian Laval e Pierre Sauvêtre mencionam um encontro entre Napoleão e Goethe, ocorrido em 1808. Afirma-se que, na ocasião, Napoleão disse: “Por que sempre se fala em destino? O destino, ele está na política.” Essa frase, desde então, ressoou tão profundamente que o industrial alemão Walter Rathenau a retomou na década de 1920 para transformá-la em “O destino, ele está na economia”. Após a Segunda Guerra Mundial, Ludwig Erhard, Ministro da Economia da Alemanha Ocidental e figura-chave na implementação, no pós-guerra, de uma versão alemã inicial do neoliberalismo, usou a mesma fórmula: “O destino, ele está na economia.”

Essa reformulação reflete bem a oposição atual entre o neoliberalismo e os seus adversários no campo da direita. Alguns argumentam que existe uma “lei econômica” imperativa, em nome da qual burocratas responsáveis e instituições financeiras guiadas por algoritmos determinam o destino das pessoas segundo princípios abstratos extraídos da ciência econômica. Outros, porém, se recusam a se submeter às forças do mercado e supervalorizam o Estado, a soberania e o poder de um líder carismático, ou seja: a intervenção do que está fora daquela lei. Ora, essa alternativa nos leva de volta às ideias que circulam há uma década. Ouve-se falar do retorno dos homens fortes, de tantos pequenos napoleões que erguem a bandeira de que “o destino está na política”. E ela vem sendo também chamada por Timothy Snyder, diante da lógica distributiva implacável do mercado, de “política da eternidade”.

Continue lendo

Duas teses sobre o fascismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Neste pequeno artigo pretende-se fazer uma comparação de duas teses que buscaram compreender o fascismo como fenômeno político inerente ao capitalismo, ambas de modo rigoroso. Das lavras de Vladimir Safatle e Ruy Fausto, cada uma delas o ilumina a seu modo. A do primeiro autor veio de algum modo do estruturalismo francês [2] e a do outro veio da dialética marxiana. A questão que move este escrito, no entanto, não se resume à aludida comparação, já que se orienta também por uma dúvida crucial: o extremismo de direita contemporâneo pode ser tomado como uma variante de fascismo?

Com esse objetivo se examina dois textos em particular: a Introdução do livro A ameaça interna [3], recém-publicado, do primeiro autor e o capítulo Sobre o Estado [4] do tomo segundo de Marx: lógica e política, saído no final do século passado, do segundo autor acima mencionado. Como a comparação se dá no campo metodológico, o exame se vale fortemente de um escrito de Ruy Fausto intitulado Dialética, estruturalismo, pré(pós)-estruturalismo[5], que se ousou apresentar didaticamente em Ruy Fausto: dialética e estruturalismo[6].

Continue lendo

Que diabos acontecem em Delaware?

Emily Topping [1] – Current Affairs – 25/06/2026

Mais de dois terços das empresas da Fortune 500 estão baseadas neste pequeno estado e o restante dos norte-americanos está tendo que conviver com as consequências.[2]

Nacionalmente, o modesto estado de Delaware não recebe muita atenção. Como o segundo menor estado dos Estados Unidos, tem aproximadamente 154 km de comprimento e, em seu ponto mais largo, apenas 56 km. Querendo, leva-se cerca de uma hora e meia para dirigir de um lado ao outro, presumivelmente para chegar a um lugar mais emocionante. O produto mais famoso de Delaware é Joe Biden, junto com algo chamado “scrapple”: um prato regional de café da manhã do meio-Atlântico que é tentadoramente descrito como um “pedaço de restos de porco coalhado com farinha de milho”. No entanto, o que falta ao estado em matéria cultural é compensado por coisas mais insidiosas.

Continue lendo

Titãs da gestão de ativos

Benjamin Braun [1], Adrienne Buller [2]

Artigo publicado no portal Policrise que busca rastrear a ascensão e a política do capitalismo dos gestores de ativos.

Em meados de outubro de 2021, a BlackRock revelou os resultados do terceiro trimestre; viu-se, então, que essa gigante da gestão de ativos estava anunciando que o seu patrimônio em ativos sob gestão estava pouco abaixo de $10 trilhões de dólares. Era uma quantia enorme! Eis que era “aproximadamente equivalente a toda a indústria global de fundos de cobertura (hedge), capital privado (private equity) e capital de risco juntos”. O montante anunciado mostrava, ademais, que houvera um aumento de quase dez vezes em apenas alguns anos. Pois, a empresa ultrapassara pela primeira vez a marca de 1 trilhão de dólares pouco mais de 10 anos antes, em 2009.

Desde a crise financeira de 2008, testemunha-se a ascensão da BlackRock como uma superpotência indiscutível na gestão de ativos. Embora excepcional, ela não está sozinha. Aparece junto com a sua rival mais próxima, a Vanguard. Pois, essas duas empresas controlam quase US$ 20 trilhões em ativos, tendo assim uma participação combinada de mais de 50% no mercado em expansão de fundos negociados em bolsa (ETFs).

Continue lendo

Afogados em dívídas impagáveis

Autor: Fernando Rugitsky [1]

Inclusão financeira e expropriação financeira no Brasil [2]

Na eleição de outubro, o Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva enfrentará pela terceira vez o movimento de extrema direita liderado por Jair Bolsonaro. Lula disputa a reeleição a seu quarto mandato presidencial amparado por um desempenho macroeconômico relativamente bem-sucedido. Após um longo período de crise e estagnação — entre 2015 e 2022, o crescimento médio anual do PIB foi de apenas 0,3% —, a economia brasileira cresceu cerca de 3% anuais nos três primeiros anos do atual governo, enquanto a taxa de desemprego caiu de 9,5% para algo em torno de 6%, na comparação entre as médias de 2022, último ano do governo anterior, e de 2025. Mas as pesquisas indicam que isso pode não ser suficiente para garantir uma reeleição tranquila. A maioria delas aponta uma disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.

Continue lendo

A IA está inflando uma bolha?

C.P. Chandrasekhar [1] e Jayati Ghosh [2]

A febre dos investimentos financeiros desencadeada pela oferta pública inicial da SpaceX é um sinal de que o boom dos investimentos em IA é uma bolha.[3]

Os mercados financeiros dos EUA estão em êxtase. Algumas empresas estão batendo recordes de ofertas públicas iniciais (IPO), transmitindo a impressão de uma transformação do papel dos mercados de ações no capitalismo americano. A tendência começou com a SpaceX, a megacorporação criada ao converter a plataforma de mídia social Twitter, renomeada X, no player de inteligência artificial xAI, e depois fundi-la com o operador de satélites e gigante das telecomunicações.

Continue lendo

O problema dos três corpos do capitalismo

Autor: Romaric Godin

Tradução do subtítulo: Sobre a gestão autoritária do desastre (e os meios para lidar com ele).

Publica-se abaixo uma tradução da introdução do livro de Romaric Godin, a qual foi disponibilizada no sítio da própria editora La découverte, em francês. Como o texto é extenso, a sua publicação encontra-se abaixo na forma de pdf que pode ser baixado pelos interessados. Segue-se o endereço do sítio da editora para os eventuais interessados: https://www.editionsladecouverte.fr/2

Subprodução dos EUA causa superprodução da China?

Eis aqui duas frases em que uma diz o mesmo que a outra de movo invertido: “A superprodução chinesa causou o déficit comercial dos Estados Unidos” e “A subprodução dos EUA causou o superávit da China”. Ambas estão erradas, mas é preciso explicar o porquê.

Richard Baldwin [1] – Blog no Substack – 11/06/2026

Introdução

Nota para mim mesmo: não se pode estabelecer causalidade a partir de uma identidade. Todo mundo sabe disso; ora, absolutamente todo mundo sabe disso – e com certeza.

A China está produzindo produtos manufaturados em excesso e isso gera um enorme superávit comercial que o resto do mundo é obrigado a absorver. Leve-se isso em conta: se a China tem superávit comercial, alguém precisa manter um déficit comercial.

Será que ao se apontar para “todo mundo” não se está colocando a carroça na frente dos bois ao invés dos bois em frente da carroça? Será? Com certeza?

Continue lendo

Ruy Fausto: Dialética e estruturalismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Uma questão difícil

Faz-se aqui um esforço para compreender e explicitar de um modo didático o miolo de um texto de Ruy Fausto que ele denominou por Dialética, estruturalismo, pré(pós)-estruturalismo[2], sem pretender, contudo, abarcá-lo por inteiro. A questão que aborda se apresenta assim: Karl Marx e Claude Lévi-Strauss compreendiam o social como realidade constituída material e linguisticamente; empregaram em suas obras analogias com a linguagem natural para apreender os fenômenos sociais; sendo assim, como apresentar a diferença entre os seus métodos? Eis como o problema se apresenta nas palavras desse autor:

“Qual a relação que existe entre as analogias com a linguagem que encontramos em Marx e o modelo linguístico que permeia as ciências do homem já antes do estruturalismo e que tem o seu desenvolvimento mais característico na antropologia estrutural?”

Continue lendo

A capacidade de resistência do dólar

Autor: Ho-fung Hung [1] – Fonte: Sidecar – 05 de junho de 2026

Toda vez que a economia global mergulha em turbulência, emergem discussões sobre o fim iminente da hegemonia do dólar. Em março de 1978 – após o colapso do sistema de Bretton Woods e em meio à estagflação nos Estados Unidos – o New York Times publicou um artigo de opinião do economista soviético Stanislav M. Menshikov, Um Olhar Marxista sobre a Crise do Dólar.

Acompanhado por um cartoon de um urso em uniforme do Exército Vermelho examinando uma nota de dólar com uma lupa, o artigo proclamava que as contradições e crises do capitalismo monopolista dos EUA estavam acabando com a dominação global do dólar, e que grandes economias haviam começado a se mover para ouro e moedas mais seguras como reservas de valor.

Continue lendo