O capitalismo pode ser cognitivo?

Eleutério F. S, Prado

Introdução

Como se sabe, é com esse qualificativo que os intelectuais da corrente pós-operaísta costumam designar o sistema da relação de capital tal como se configurou depois dos anos 1970. Se antes o capitalismo era industrial, transformou-se, segundo eles, em pós-industrial. Se antes ele dependia de trabalhadores silenciosos, ainda segundo eles, passou a depender de trabalhadores comunicativos. Segundo esses autores, tal adjetivo se justifica porque nessa “nova economia” o conhecimento dos indivíduos e do “intelecto geral” se tornou supostamente a principal força produtiva.

Em sua Lectio Magistralis na Universidade de Pádua, intitulada Il linguaggio del lavoro[1], Christian Marazzi rememora o que ocorreu no processo de produção capitalista:

[Observou-se, então, uma] mudança de paradigma: a transição do capitalismo industrial fordista para o novo capitalismo digital, inscrito nos processos de globalização e financeirização. (…) Com ela, algo profundo aconteceu (…) na natureza do trabalho. (…) A linha de montagem rígida e mecânica (…) exigia que todos trabalhassem em silêncio de forma executiva e repetitiva. [Depois,] a montagem se tornou um fluxo comunicativo de informação que passou a clamar pela presença da linguagem. A ação comunicativa foi colocada no centro da ação instrumental.

 Tem-se nesse trecho de um discurso autolaudatório, uma descrição da transformação que ocorreu, grosso modo, nas formas concretas de trabalhar e na organização do trabalho na segunda metade do século XX. Ela contém verdade, mas Marazzi e seus colegas pós-operaístas tiram daí uma dupla crítica ao modo como Karl Marx pensou o capitalismo.

É preciso, pois, examiná-las com cuidado para poder verificar se a ideia de “capitalismo cognitivo” – ou “biocognitivo” ou ainda antropogenético[2] – faz ou não sentido. Para tanto leu-se, além do texto citado, O lugar das meias[3] e Capital e linguagem[4] sem encontrar grande novidade adicional sobre o ponto aqui visado. Em linhas gerais, a partir dessa transformação do modo concreto de trabalhar, ele achou que poderia colocar em questão as categorias valor e o mais-valor tal como foram expostas em O capital.[5]  A partir uma interpretação do que se encontra nesse livro famoso, discutida em sequência, ele encontra uma base para repensar a natureza do capitalismo, em particular em sua configuração contemporânea.

Uma interpretação do valor

Os pós-operaístas tem uma certa compreensão da categoria “valor” e ela se baseia na leitura do primeiro capítulo de O capital.[6] Como se discute aqui interpretações de textos, longas citações são necessárias. Marx começa a sua obra apresentando a mercadoria como a unidade aparente de valor de uso e valor de troca. O primeiro seria objeto da merceologia e interessa à crítica da economia política apenas como condição material e existencial da mercadoria. O segundo, ao contrário, é o objeto próprio dessa exposição. Em sequência, por isso, mostra que o valor de troca é apenas a forma aparente do valor. Como este último é enigmático e difícil de apreender, ele constrói a seguinte explicação como parte de um argumento mais amplo:

Deixando de lado então o valor de uso dos corpos das mercadorias, resta a elas apenas uma propriedade, que é a de serem produtos do trabalho. Assim, o produto do trabalho também se transformou em nossas mãos. Se abstraímos o seu valor de uso, abstraímos também os componentes e formas corpóreas que fazem dele valor de uso. Deixa já de ser mesa ou casa ou fio ou qualquer outra coisa útil. Todas as suas qualidades sensoriais se apagaram.

Sim, mas o que se tem então em “nossas mãos”? Para encontrar a resposta a essa pergunta que aqui se faz, note-se que a abstração referida neste trecho é subjetiva. Ao se fazer mentalmente tal abstração, suprime-se as qualidades das mercadorias e se chega simplesmente à mercadoria em geral, ou seja, a um signo linguístico que aponta para uma “imensa coleção de mercadorias”. E esse signo guarda o seguinte significado: a mercadoria em geral é alguma coisa produzida pelo trabalho e que está pronta para ir ao mercado para ser vendida. Posto isso, eis como a explicação continua:

Também já não é o produto do trabalho do marceneiro ou do pedreiro ou do fiandeiro ou de qualquer outro trabalho produtivo determinado. Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados, e desaparecem também, portanto, as diferentes formas concretas desses trabalhos, que deixam de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual trabalho humano, a trabalho humano abstrato.

Veja-se, agora, que Marx, ainda por meio de um mero raciocínio, apaga mentalmente de todo trabalho concreto a sua especificidade para chegar à noção de trabalho em geral. Ora, essa abstração subjetiva permite associar o signo “trabalho abstrato” ao signo “mercadorias em geral”. Ao abstrair as especificidades dos trabalhos concretos enquanto tais, ele chega a uma “objetividade fantasmagórica, uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado”.  Se, enquanto concretos, os trabalhos diferem qualitativamente, enquanto abstratos, eles diferem apenas quantitativamente. 

Logo, valendo-se do escrito do próprio Marx, Marazzi toma o trabalho abstrato como trabalho concreto que deixou de ter qualquer especificidade qualitativa. Assim, passa a julgar que Marx funda a categoria valor no trabalho homogêneo com o objetivo de desenvolver a sua explicação científica sobre como funciona o modo de produção capitalista. Nessa explicação, o capital aparecerá como valor que se valoriza por meio da apropriação do mais-valor gerado pelo trabalho homogêneo na produção de mercadorias. Ora, é partindo daí que os pós-operaístas vão construir as suas próprias teorizações. Pois, parece que o próprio Marx se vale de um trabalho concreto homogêneo para pensar o trabalho abstrato.

Crítica do “trabalho mudo”

É por se basearem nessa interpretação da constituição do valor que os pós-operaístas encontrarão uma limitação da explicação marxiana do funcionamento do capitalismo. Eis que, para eles, tal teorização se afigurou plausível porque Marx observou cientificamente um capitalismo histórico que se caracterizava por homogeneizar, na prática industrial, o trabalho. Se ele nasceu na primeira revolução industrial já no final do século XVIII, se avançou no século XIX, realizou-se plenamente no fordismo do século XX.  Ora, para eles, essa teorização deixou de se afigurar plausível no capitalismo contemporâneo porque este se baseia num “trabalho que se tornou linguístico” – e que deixou de ser pensável, dizem eles, como homogêneo. Eis, pois, como Marazzi se refere ao trabalho nas fábricas (para ele) pós-industriais.

Comunicar, informar, interpretar, prescrever, compartilhar, verificar, lembrar, argumentar, explicar, justificar, contabilizar, planejar ações, decidir, negociar: todos esses são atos comunicativos, atos linguísticos, antes atribuídos essencialmente ao setor de serviços, mas hoje também às fábricas mais tradicionais. De fato, é justamente nas fábricas fordistas, como o automóvel, que o modelo de produção foi radicalmente revolucionado; é nelas que a interação linguística tornou possível emancipar-se dos princípios tayloristas da organização científica do trabalho.

Contudo, pode-se argumentar também que essa interpretação da categoria valor em Marx, apesar de sua base textual, não faz justiça à verdadeira concepção do autor. Eis que assim se transforma a dialética real do vir a ser mercadoria no capitalismo, apresentada na exposição dialética de O capital, numa mera teoria do entendimento sobre os objetos fenomênicos desse campo do conhecimento. Sendo assim, essa interpretação, mesmo tendo base textual, afigura-se como ciência vulgar, ou seja, como um saber pragmático que fica nas relações aparentes entre os fenômenos.

Voltando ao texto, pode-se então argumentar que a abstração de que fala Marx vem a ser uma abstração real, uma redução do trabalho concreto ao abstrato, algo que ocorre efetivamente no processo mercantil generalizado do modo de produção capitalista. E essa redução – e isso é bem crucial – vem a ser uma medida objetiva (eidética) do conteúdo de trabalho socialmente necessário para produzir cada espécie de mercadoria, o qual se expressa nos valores de troca.

E a prova textual da validade dessa outra interpretação se encontra em muitos lugares, mas sobretudo na afirmação de Marx, contida na seção sobre o fetichismo da mercadoria, de que os valores se constituem como tais sem que os homens tenham disso consciência.

 “Os homens relacionam entre si seus produtos de trabalho como valores não porque consideram essas coisas meros envoltórios materiais de trabalho humano da mesma espécie. Ao contrário. Ao equiparar seus produtos de diferentes espécies na troca, como valores, equiparam seus diferentes trabalhos como trabalho humano. Não o sabem, mas o fazem.”

Marx admite, pois, a existência de um inconsciente social. Mais do que isso, ele acolhe que o processo de produção e circulação mercantil do capitalismo cria uma medida de trabalho que é necessária para o seu próprio processo de acumulação. A abstração em tela de juízo é objetiva – e não, portanto, subjetiva. Ela é constituída por redução – e não, portanto, por generalização. E essa redução põe uma medida.

Assim se vê que os textos antes citados do primeiro capítulo de O capital deveriam funcionar apenas como uma mediação – canhestra talvez – para chegar a uma concepção do valor como realidade social que se afigura metafísica, independente como tal da consciência dos agentes. Ademais, nessa última interpretação (que foi desenvolvida em outro artigo de modo melhor) a limitação apontada pelos pós-operaístas em geral se desvanece.

O processo de redução do trabalho concreto ao abstrato ocorre mesmo se os trabalhos são complexos, se envolvem cérebro e linguagem além de músculos, nervos, mãos humanas, se requerem capacidade de fala além de força física. Para tirar qualquer dúvida sobre essa afirmação, basta lembrar que Marx, tratando da questão trabalho produtivo e improdutivo em Adam Smith, diz expressamente que mesmo um cantor cria valor se a sua força de trabalho está submetida à relação de capital.

Crítica da “base miserável”

Mantendo-se na interpretação acima criticada, Marazzi afirma que a previsão de Marx sobre a libertação do trabalho no curso do desenvolvimento do capitalismo encontrada nos Grundrisse, precisamente no famoso capítulo que versa sobre “capital fixo e desenvolvimento das forças produtivas da sociedade”, não se confirmou. Eis o que dissera o filósofo da práxis nessa obra preparatória de O capital:

“À medida que a grande indústria se desenvolve, a criação de riqueza efetiva passa a depender menos do tempo de trabalho e do quantum de trabalho empregado que do poder dos agentes [ou seja, das máquinas que atuam no sistema de produção] postos em movimento durante o tempo de trabalho (…). O roubo de tempo de trabalho alheio, sobre o qual a riqueza atual se baseia, aparece como um fundamento miserável em comparação esse novo fundamento desenvolvido, criado por meio da própria grande indústria”.[7] 

Marazzi vê aí uma visão profética – e, portanto, mundana – de “alguém que fez do trabalho e do tempo de trabalho a base da lei do valor” e que ficou prisioneiro de seus limites (discutidos nas seções anteriores). Segundo essa previsão, a necessidade de trabalhar terminaria ou se reduziria muito devido ao próprio desenvolvimento do capitalismo. A partir dessa intepretação historicista do texto marxiano (ou seja, que confunde a temporalidade teórica com a temporalidade da história), Marazzi chega à conclusão que a história transcorrida mostrou que não foi isso o que aconteceu.

“Na realidade, a digitalização, a robotização e a automação – a indústria 4.0 – trouxeram nas últimas décadas não, de forma alguma, o fim do trabalho, muito menos o término do trabalho manual. O que aconteceu, em vez disso, foi uma transformação do trabalho inscrito na rede digital, um processo de plataformização do trabalho no qual prosperou a comunicação intersubjetiva. (…) Em vez de desemprego, deveríamos falar de “emprego precário pleno”.

Isso ocorreu em primeiro lugar, segundo ele, porque o impacto do aumento da produtividade do trabalho no emprego foi sempre mais do que compensado pela expansão da produção. Eis que apareceram novos e novos produtos, que se somaram aos velhos, para alimentar um crescimento econômico exponencial que vacilou às vezes, mas nunca deixou de ocorrer para além do curto prazo.  Marazzi não vê aí a lógica expansiva do capital, mas uma compulsão por consumir que parece ser ilimitada. As pessoas, em consequência, para poderem consumir mais e mais se enrolam numa espiral de dívidas que as forçam a trabalhar sempre mais e mais.

A essa elevação do trabalho produtor de mercadorias que ocorre devido à própria dinâmica da relação de capital, ele junta uma expansão do trabalho de manutenção da vida social em geral, por exemplo, daquele que ocorre “nas cozinhas das fazendas de cliques na África e nas fábricas de faxina das Filipinas”. Mas isso não é tudo, pois ele acrescenta também o “trabalho” de prestar atenção: eis que, para ele, atualmente “até mesmo a ‘ociosidade’ é ‘colocada a trabalhar’; pois, “ao nos distrairmos na internet, estamos na verdade produzindo dados que serão comercializados” pelas chamadas, apologeticamente, de “bigtechs”. Em resumo, ao pensar o trabalho abstrato como trabalho em geral que perdeu todas as suas qualidades, todo trabalho pode passar a se afigurar como trabalho produtivo. Assim, os pós-operaístas passam a tomar a sociedade como uma grande fábrica.

Conclusão

Christian Marazzi se afasta da concepção de valor encontrada em Marx inclusive porque apreende – como ele próprio diz – as categorias econômicas na perspectiva da virada linguística, ou seja, do “linguistic turn de Richard Rorty”. O valor, o dinheiro e o capital, assim, passam a ser compreendidos como eventos linguísticos que devem ser compreendidos como tais – não por referência ao que existe e acontece no mundo real. “Como a linguagem” – diz Marazzi – “define fundamentalmente o valor econômico, segue-se [tautologicamente, é claro] que o dinheiro, que é expressão abstrata do valor, tem por sua vez um valor linguístico”.[8] A relação do valor com o trabalho e com o modo pelo qual o processo social consome o trabalho torna-se assim elusiva; o rigor conceitual que preside a categoria valor é perdido.

Para Marx, o valor é uma categoria teórica que se encontra devidamente referenciada a uma realidade social própria do capitalismo. Como se sabe, a redução do trabalho concreto ao abstrato, operada que está pela dinâmica do processo de produção e circulação mercantil, está fundada no “dispêndio de força humana de trabalho” que não é linguístico; esse dispêndio ocorre numa prática produtiva que também não é meramente linguística. Eis que no valor de uso produzido como mercadoria “está objetivado ou materializado trabalho humano abstrato [9]. Como?

Não se trata evidentemente de uma realidade que independe do homem e da linguagem como instituição humana, pois vem a ser uma realidade objetiva que é constituída num processo em que se conjugam a matéria natural devidamente transformada pelo labor humano na prática e uma linguagem apropriada que codifica a lógica do sistema de produção baseado na relação de capital. Para se referir a ela, Marx diz que a esfera econômica da sociedade é regida por uma linguagem própria que designa como “linguagem das mercadorias”.

Portant0, diante da exposição precedente, já se pode responder de forma incisiva à pergunta inicial: o capitalismo pode ser cognitivo? Sim, pode. Mas não aquele verdadeiramente existente e que foi exposto realisticamente por Karl Marx em O capital. Vem a ser aquele que está posto no discurso pós-operaísta em geral e na aludida peça discursiva em particular. Ela serviu de base para esse comentário, apresentando-se ao mundo como uma Lectio Magistralis.  


[1] Marazzi, Christian – Il linguaggio del lavoro. Euronomade, 2022: https://www.euronomade.info/il-linguaggio-del-lavoro/

[2] Apud Fumagalli, Andrea – O conceito de subsunção do trabalho ao capital: rumo à subsunção da vida no capitalismo biocognitivo. Cardenos IHUideias, 2016, nº 246.

[3] Marazzi, Christian – O lugar das meias – A virada linguística da economia e seus efeitos sobre a política. Civilização Brasileira, 2009.

[4] Marazzi, Christian – Capital and language – From the new economy to the war economy. Semiotext(e), 2008.

[5] Para conhecer uma crítica alternativa, mas convergente com aquela aq, ver Colombini, Iderley – Limites lógicos das teses do capitalismo cognitivo e do tecnofeudalismo. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, nº 65, janeiro-abril de 2023. Para um endosso da tese aqui combatida, ver Guiraldelli, Paulo – Capitalismo 4.0 = Sociedades e subjetividades. CEFA Editorial, 2025.

[6] Marx, Karl – O capital – Crítica da Economia Política. Livro I, volume I. Abril Cultural, 1983.

[7] Marx, Karl – Grundrisse – Manuscritos econômicos de 1857-1858. Boitempo, 2011, p. 587-588.

[8] Numa versão anterior deste escrito havia um erro e ele me foi apontado por Paulo Guiraldelli, a quem agradeço. Note-se que no texto origianl está escrito em italiano: “L’idea del primato del linguaggio e della comunicazione nell’attuale sistema produttivo di beni e servizi andrebbe estesa al funzionamento del sistema monetario e finanziario. D’altronde, se il linguaggio è oggi una dimensione fondamentale del valore economico, ne consegue che il denaro, che è l’espressione astratta del valore, deve a sua volta avere una valenza linguistica.

[9] Citações de trechos e frases encontrada na primeira seção do primeiro capítulo de O capital, op. cit.

Um novo cálculo da taxa de lucro mundial

Michael Roberts – The next recession blog – 04/05/2026

Em 2012, fiz uma tentativa inicial – para além da medição da taxa de lucro sobre o capital em diversos países – para calcular uma taxa de lucro mundial. Depois, argumentei que era importante testar a lei de Marx sobre a tendência à queda da taxa de lucro em nível mundial. Como o capitalismo espalhou seus tentáculos por todas as partes do mundo ao longo do século XX, foi necessário encontrar um suporte empírico melhor para a lei calculando uma taxa mundial, pois o capitalismo é apenas uma ‘economia fechada’ em nível global. A taxa de lucro em apenas um ou poucos países não seria precisa o suficiente, pois não levaria em conta os lucros obtidos com comércio e investimentos no exterior, e a taxa de lucro de cada país poderia ter tendências diferentes.

Em 2020, atualizei e melhorei significativamente minha medida de lucratividade global. E o resultado pode ser visto acima. Depois, meus cálculos foram feitos para a taxa média de lucro sobre o capital das 19 maiores economias (por exemplo, G20).  Minha fonte de dados era a série Penn World Tables 10.0. Meus resultados confirmaram a lei de Marx de que havia uma tendência de longo prazo para a lucratividade cair.  Isso foi importante porque levou à conclusão de que a expansão capitalista era transitória e sujeita a crises regulares e recorrentes de produção e investimento.  De fato, crises se afiguram como necessárias para ‘limpar’ o sistema do antigo capital e lançar as bases para um período de recuperação no que chamei de ‘ciclo de lucro’. A taxa mundial de lucro não caiu em linha reta, pois a tendência de longo prazo a cair foi intercalada com períodos em que a lucratividade subiu, geralmente após uma queda significativa.  Eis o meu gráfico de 2020:

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Thatcher não salvou a economia britânica

Andrew Kersley [1] – Tradução Isabela Gesser, Jacobin Brasil.

As pessoas costumam dizer que a política de austeridade implantada por Margaret Thatcher foi “um remédio difícil de engolir”, mas acabou salvando a Grã-Bretanha da ruína. Na verdade, a evidência que temos hoje é que ela deixou a economia do Reino Unido mais fraca e desigual. Aqui estão os principais fatos e dados para desmontar o thatcherismo.

Em 28 de novembro de 1990, Margaret Thatcher passou por Downing Street pela última vez. Falando para uma multidão de jornalistas, ela descreveu como ela estava orgulhosa por ter deixado “o Reino Unido em um estado muito melhor do que quando ingressou no governo”. Como no mês retrasado marcou o 30º aniversário daquele dia, o debate sobre o legado de Thatcher voltou ao noticiário. Muitas de suas políticas foram discutidas até a morte, porém, uma área que permanece praticamente intocada é de seu legado econômico.

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Tecnologia e pós-capitalismo segundo Benanav

Réplica de Aaron Benanav a Evgeny Morozov. Fonte: Blog da Boitempo – 02/04/2026. Eis algumas traduções de partes do artigo original de Benanav: primeiro, segundo e terceiro. A crítica inicial de Morozov encontra-se neste artigo.

Aaron Benanav [1]

Duas revoluções tecnológicas distintas estão em curso, e elas competem pela nossa atenção e recursos limitados – bem como pela prioridade política. Qual caminho recebe investimento sustentado e qual permanece marginal moldará os futuros que as sociedades serão capazes de construir.

Por um lado, há a IA generativa, que alguns descrevem como uma tecnologia de propósito geral, semelhante à eletricidade ou à internet. Seus defensores afirmam que, ao automatizar tarefas no setor de serviços – onde o crescimento da produtividade há muito tempo está defasado – a IA pode tirar as economias avançadas da estagnação[2], ao mesmo tempo em que reorganiza os fundamentos culturais e até cognitivos da vida humana.

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Por que as tarifas de Trump não abalaram o comércio mundial?

Richard Baldwin [1]

World map highlighting trade routes and tariffs between countries including US, China, Brazil, Germany, India, Japan, and Australia

Em 2025, os EUA lançaram o ataque tarifário mais agressivo que o mundo já viu. Não foi o protecionismo ingênuo da lei Smoot-Hawley. Foi algo com outra intenção. A intenção era punir todos os parceiros comerciais dos EUA. Era dar um suposto troco.

Trump explicou a sua política tarifária afirmando que a América “foi saqueada, pilhada, estuprada e saqueada por nações próximas e distantes, tanto amigas quanto inimigas.”

Mas algo estranho aconteceu. A história teve um reviravolta surpreendente à medida que guerra comercial mundial escalava em 2025. Estrangeiros não retaliaram com força – exceto a China; logo-logo trataremos melhor dessa história. Muitas economias estavam prestes a retaliar, mas depois o fizeram ou se o fizeram, logo=logo voltaram atrás.

Ora, isso se afigura como um quebra-cabeça que suscita uma pergunta crucial:

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As ilhas financeiras do império britânico

John P. Ruehl [1] Sin Permiso[2] – 03/04/2026

A China, que era a maior detentora de dívida do governo dos EUA até 2019, reduziu agora as suas posições para um nível tão baixo quanto aquele de 2008. Fez isso devido às mudanças nos padrões comerciais, nas preocupações geopolíticas e nas pressões econômicas internas.

As Ilhas Cayman vieram, então, preencher, inesperadamente, aquele lugar abandonado. Eis que esse pequeno território britânico ultramarino detinha oficialmente US$ 427 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA em novembro de 2025. Mesmo se esse montante está longe da realidade, elas detinham a sexta posição dentre os maiores possuidores estrangeiros de títulos do tesouro americano.

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As finanças são realmente parasitárias?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Desafiado com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; em linguagem mais rigorosa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de finanças parasita o capital industrial. Contudo, aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de início.

E que se pode – e até se deve – contestar esse difundido preconceito de uma perspectiva de esquerda. Para tanto se examina em sequência dois fundamentos possíveis dessa metáfora; ao apresentá-la na discussão pública – eis a questão crucial – o que se está criticando precisamente? Que princípio moral sustenta o uso extensivo dessa metáfora? Seguem-se duas respostas, uma depois da outra. Encaminha-se logo a primeira, ainda que de um modo inusitado.

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Aquanno e Maher: “Não, as finanças não são parasitas”

Entrevista com Scott Aquanno e Stephen Maher [1]

Os economistas esquerda tem lutado para combater as poderosas metáforas que sustentam o neoliberalismo. A ideia de que o governo estoura o seu “cartão de crédito”, por exemplo, ainda permeia as narrativas da mídia que clama por austeridade. E ela permanece apesar dos melhores esforços dos economistas para explicar aos jornalistas que o orçamento do governo não obedece às mesmas restrições dos orçamentos familiares.

Ademais, a alegoria crítica e opositora que vê as “finanças como parasitas” parece estar bem difundida nos grupos políticos progressistas. O argumento frequente  diz que o setor financeiro está superdimensionado e que ele se alimenta sugando a riqueza real produzida pela sociedade; ao fazê-lo, ele reduz os investimentos “produtivos” nas empresas, na infraestrutura e outros bens sociais, para gerar bolhas especulativas.

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Hudson: “sim, as finanças são parasitas”

Entrevista com Michael Hudson [1] 

Blogue: The new evolution of economics – 06/2016

Primeiro de uma série de três artigos que tratam da questão de saber se as finanças são ou não são parasitárias. Michael Hudson, numa entrevista dada a Eric Draitser, publicada na internet, argumenta que sim, que as finanças são parasitárias, com base numa compreensão não-marxiana da teoria do valor trabalho. Em sequência, publica-se uma entrevista dada a Anne Pick em que Scott Aquanno e Stephen Maher argumentam que as finanças não são parasitárias, contrariando o autor anterior. Finalmente, põe-se à luz do sol um texto deste blogueiro que discute os fundamentos morais de tal crítica, que supostamente atinge àqueles que vivem de rendas no capitalismo e ao capital de finanças que permite que elas existam. Eis a primeira entrevista:

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Semiocapitalismo: uma crítica

Eleutério F. S. Prado [1]

Nome anterior: teoria crítica ou devaneio crítico?

Do capitalismo ao semiocapitalismo

Começo com uma questão: o intrigante e desafiante livro “And, Phenomenology of the end[2] de Franco “Bifo” Beraldi vem a ser uma adição à crítica da economia política ou um deslizamento numa outra forma de crítica? Nesse folhoso, esse teórico das mídias e do movimento operaísta italiano busca compreender de novo inovador a transformação do capitalismo que veio a existir após a crise dos anos 1970, com o advento da financeirização e do neoliberalismo.

Segundo ele, nessa década e nas seguintes, o capitalismo deixa de ser industrial para se tornar pós-industrial, ou melhor, deixa de ser capitalismo para se tornar semiocapitalismo – caracterização esta que requer certamente explicação. Para alcançá-la, note-se de início como resume o seu projeto de pesquisa: “Quero investigar aqui” – diz – “a genealogia do semiocapitalismo, e particularmente do capitalismo financeirizado, do ponto de vista da sensibilidade linguística”. Sendo assim, pode-se ver de imediato que ele não pensa mais no interior da exposição dialética que constitui O capital, mas fora dela.

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