A termodinâmica do capital

Autor: Te Li [1]

Do código à matéria

Na primavera de 2023, a Microsoft anunciou um investimento bilionário na OpenAI, apresentando a parceria como um salto para uma civilização mais limpa, inteligente e eficiente. As imagens que acompanham tais anúncios são invariavelmente etéreas: redes neuronais luminosas, fluxos de dados sem peso e algoritmos a dançar num espaço digital sem atrito. A Inteligência Artificial (IA), no registo dominante de Silicon Valley e do seu ecossistema mediático, apresenta-se como a apoteose da desmaterialização — uma tecnologia tão refinada, tão puramente cognitiva, que finalmente escapou ao mundo sujo e entrópico das máquinas a vapor, das minas de carvão e das fábricas.

Este artigo defende que tais representações são ideológicas no sentido marxista preciso: invertem a realidade, apresentando como imaterial um processo que é profunda e consequentemente material. Estima-se que a formação do GPT-4 tenha consumido energia equivalente ao consumo anual de eletricidade de milhares de casas (1). Uma única consulta a um modelo de linguagem complexo requer aproximadamente dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa padrão na Internet (2). O consumo de água da Microsoft aumentou 34% num único ano, um aumento que o seu próprio relatório ambiental atribuiu diretamente à expansão da infraestrutura de IA (3). Estas não são ineficiências incidentais que aguardam correção técnica; são necessidades estruturais de uma tecnologia cujo substrato físico — semicondutores, centros de dados, sistemas de refrigeração e redes de transmissão — está entre as infraestruturas mais intensivas em recursos que a humanidade já construiu.

O mito da desmaterialização digital tem uma longa história. Desde a década de 1990 que os teóricos da “economia da informação” defendem que a transição da manufatura para os serviços, e dos átomos para os bits, desvincularia o crescimento económico da produção material (4). A ascensão da IA deu a esta tese uma nova e mais poderosa versão: se as tecnologias digitais anteriores apenas processavam informação, a IA — segundo este argumento — gera a própria inteligência, um recurso cuja abundância não esgota a natureza, mas transcende-a. Esta é a visão que anima a retórica da “IA para o clima”, da “IA para a sustentabilidade” e a afirmação mais abrangente de que o poder computacional pode substituir os recursos naturais na solução da crise ecológica.

A estrutura teórica desenvolvida neste artigo desafia esta visão nos seus fundamentos. Baseio-me na tradição termodinâmica da economia política ecológica, desde a obra fundamental de Nicholas Georgescu-Roegen, A Lei da Entropia e o Processo Económico, até à síntese ecossocialista desenvolvida por John Bellamy Foster e Brett Clark, para defender que a ascensão da IA sob o capitalismo representa não uma transcendência do mundo material, mas uma intensificação da relação entrópica do capital com ele (5). A segunda lei da termodinâmica é implacável na sua universalidade: toda a computação é um evento termodinâmico. Consome energia de baixa entropia — ordenada, utilizável, livre para realizar trabalho — e devolve resíduos de alta entropia à biosfera sob a forma de calor, dióxido de carbono e matéria degradada. Nenhum algoritmo, por mais elegante que seja, suspende esta lei. A questão não é se a IA produz entropia, mas sim quanta, a que taxa e quais são os ecossistemas que absorvem as consequências.

Karl Marx entendia a produção como um processo metabólico — uma troca contínua entre as sociedades humanas e o mundo natural, mediada pelo trabalho e pela tecnologia. Em O Capital, observou que as máquinas não criam energia, mas transformam e transmitem as forças naturais nelas incorporadas, e que esta transformação envolve sempre o consumo de matéria natural (6). O que não poderia ter previsto era uma forma de acumulação de capital em que a principal força produtiva é o poder computacional, e em que as exigências termodinâmicas desse poder exerceriam uma pressão sem precedentes sobre os sistemas energéticos planetários, as reservas de água doce e a estabilidade climática. A ascensão da IA ​​confronta-nos com a necessidade de estender a análise metabólica de Marx ao domínio digital.

Para ler o artigo inteiro é preciso baixar o pdf abaixo anexado.


[1] Te Li é professor assistente na Escola de Economia e Gestão da Universidade Aberta de Yunnan, na República Popular da China. A sua investigação centra-se na matematização das instituições e na Economia Política. Este ensaio foi publicado em língua inglesa no Vol. 78 n.º 2 (junho de 2026) de Monthly Review. Todos os direitos reservados. A tradução é da responsabilidade de Ângelo Novo.

“As possibilidade econômicas de nossos netos” hoje

Branko Milanovic – Blog do autor no Substack – 28/09/2026

Subtítulo: Contra a atividade intencional e as religiões abraâmicas em um mundo de abundância

Em uma discussão recente sobre a “abundância iminente” produzida pela inteligência artificial e a redução da necessidade de mão de obra humana — aparentemente um futuro belo — citei, como muitas pessoas estão fazendo, o curto ensaio de Keynes, As possibilidades econômicas de nossos netos. Vindo a luz em 1930, mostra-se um tanto enigmático e com muitas camadas de significado.  

O que é relevante desse texto no contexto atual são as previsões extremamente otimistas de crescimento econômico. Keynes previu um aumento de quatro a oito vezes na renda média per capita em países avançados nos próximos cem anos. Segundo a sua visão tal abundância material levará a uma necessidade muito menor de mão de obra e, portanto, a uma semana de trabalho de cerca de 15 horas. Finalmente, mostrará um dilema sobre se a humanidade – tendo finalmente resolvido “o problema econômico” — saberá como usar todas essas horas extras de liberdade e lazer.

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Venceu por um século, mas não tem futuro

Autor: Bhaskar Sunkara [1]

A social-democracia transformou o século XX, dando aos trabalhadores uma parcela da riqueza e do poder que seus avós mal podiam imaginar. Mas o movimento que se propôs a superar o capitalismo acabou tendo dificuldades para defender o que havia conquistado dentro dele.

No domingo, 13 de setembro, o Partido Social-Democrata da Suécia (SAP) emergiu como o maior partido em uma eleição que será lembrada por todos os motivos errados. Magdalena Andersson está prestes a retornar como primeira-ministra, com seu bloco de quatro partidos detendo uma maioria de apenas uma cadeira no Riksdag, o parlamento sueco com 349 assentos. O SAP conquistou apenas 28% dos votos, seu pior resultado em mais de 110 anos.

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A guerra do Irã e a dívida dos EUA

Paolo de Mello – Sin Permiso – 07/10/2026

Por oitenta anos, toda vez que o mundo entrou em crise, o dinheiro buscou refúgio no mesmo lugar: a dívida do governo dos Estados Unidos. Isso aconteceu após os ataques de 11 de setembro, durante a falência do Lehman Brothers em 2008 e até mesmo em 2011, quando uma agência de classificação rebaixou a classificação da própria dívida dos EUA e os investidores, paradoxalmente, compraram ainda mais. Essa dívida era, por definição, o ativo livre de risco, a base sobre a qual o restante do sistema financeiro é construído. O que vem acontecendo desde este verão coloca essa condição em dúvida.

Em apenas um ano, o valor que o Tesouro dos EUA paga pela dívida de dez anos caiu em cerca de 4%, para 5,24%, em 1º de outubro, com um aumento particularmente acentuado desde meados de agosto, quando ainda era cerca de 4,6%. Não ultrapassou 5% desde o verão de 2007, quando começaram a surgir os primeiros calotes em hipotecas subprime que levariam à grande crise financeira.

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A ascensão da ultradireita na América Latina

Ela governa quase toda a região. Mas, quando se volta a falar em soberania, propõe um neoliberalismo mofado e recolonial. Espera em vão por capital externo. Não mobiliza esperanças, mas rancor. É individualista, não solidária; o seu desejo político é se ajoelhar ao imperialismo americano decadente.  

Álvaro García Linera [1] [2]

Uma onda reacionária varre a América Latina. Com exceção do México e Brasil (as duas maiores potências da região), Uruguai e Guatemala, os demais países (Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Paraguai, El Salvador, Honduras, Panamá etc.) elegeram governos autoritários de extrema-direita. Isso ocorreu no segundo turno das eleições, por uma margem estreita, mas esses governos estão no poder e expressam um sentimento de ressentimento e agressividade política anti-igualitária, forte em parcelas da população.

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Colapso ambiental e negacionismo renitente

Eleutério F. S. Prado [1]

Publica-se abaixo uma entrevista com o psicanalista Josep Maria Panés que foi publicada originalmente no jornal argentino Página 12 e que foi traduzida e republicada no IHU. E o fazemos porque esse autor expõe de uma forma simples, uma noção psicanalítica que vem de Sigmund Freud, por via de Jacques Lacan, e que é difícil de entender. Ora, ele o faz tentando compreender por que nada é feito decisivamente diante da catástrofe climática. Por que a reação a esse desastre que está certamente chegando – eis a sua questão – é tão tímida?

Como se sabe, Lacan sustentou que a psique pode ser acometida por uma lógica semelhante à lógica do capital; eis que elas seriam homólogas porque ambas seriam governadas por um princípio de desenvolvimento infinito. Com uma diferença: a lógica do capital se mostra acumulativa e a lógica que acomete a psique vem a ser meramente repetitiva. Se a primeira se alimenta de mais-valor, a segunda se nutre de mais-gozar.

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A era da IA barata está acabando

Sophie Bandarkar [1]

Jacobin Brasil – Tradução Pedro Silva

Durante anos, as empresas de IA prometeram que seu produto se tornaria um serviço público democratizado e produtivo. Mas, à medida que o setor se volta para clientes corporativos e os custos financeiros e ambientais aumentam, a questão central é se os ganhos desiguais justificam o preço.

Quando a OpenAI lançou o ChatGPT no final de 2022, ele rapidamente quebrou recordes como o produto tecnológico de crescimento mais rápido da história. Fornecedores de modelos de IA, como OpenAI, Anthropic e Google, inicialmente usaram preços fixos artificialmente baixos para impulsionar a adoção de seus produtos e conquistar participação de mercado, confiando que poderiam queimar o capital dos investidores para gerar dependência e, em seguida, monetizar uma base de usuários cativa. Mas, em comparação com outras plataformas voltadas para o consumidor que seguiram essa estratégia desde os anos 2000, como Facebook, Uber ou Instagram, a IA generativa difere em dois aspectos cruciais.

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Os meus lucros e os seus salários

Branko Milanovic – Blogue no Substack – 14/07/2026

Uma discussão sobre como os capitalistas ocidentais criticam a China por manter os salários baixos para desviar a atenção da sua política neoliberal que se esforçou para manter os lucros em ascensão

Primeira rodada

A discussão começou comigo. Cansado das reclamações permanentes franco-alemãs sobre os superávits comerciais da China, escrevi o que se segue no Twitter:

“Ninguém pode levar a sério as reclamações europeias sobre a China. A China agora está construindo coisas melhores e mais baratas do que Alemanha ou França. Quando França e Alemanha construíam coisas melhores e mais baratas que outras, eles ridicularizavam essas reclamações. Agora eles estão perdendo e não estão gostando. Além disso, a Europa chegou a essa posição explorando o resto do mundo. A China não fez isso.”

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Uma estória crítica da teoria econômica

James K. Galbraith [1] – Project Syndicate – 2 de setembro de 2026 

Um novo livro conta a história da disciplina econômica e seu propósito original com um grau de energia e imaginação que envergonha economistas tradicionais e monótonos. No processo, ele aborda verdades fundamentais que grandes escolas dentro da disciplina conseguiram obscurecer.

A legitimidade da economia como disciplina acadêmica e ferramenta de formulação de políticas tem sido atacada de forma contínua pelo menos desde a crise financeira de 2008. Mas poucas críticas buscam lidar com as origens da disciplina e o propósito por trás dela. Agora, Antara Haldar[2], estudiosa de estudos jurídicos da Universidade de Cambridge, chamou atenção para ambas as questões em um novo livro, Everyman: The Untold Story of Economics.

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Acumulação de capital por evasão fiscal

Michael Tyrala – 23.04.2020

Uma análise do sistema mundial de evasão fiscal

[N. T.: Apresenta-se abaixo a tradução dos primeiros slides de uma longa apresentação da evasão fiscal no mundo como um todo do autor acima mencionado. Os resultados são assustadores. O conjunto dos slides encontra-se abaixo e está em inglês.]

O que é evasão fiscal offshore

Trata-se de um termo guarda-chuva para evasão fiscal e evasão fiscal usando estruturas offshore. Tal evasão envolve uma demanda e uma oferta:

Demanda: indivíduos de alto patrimônio líquido (sigla em inglês: HNWIs) e empresas multinacionais (sigla em inglês: MNEs).

Oferta: paraísos fiscais (também conhecidos como jurisdições de sigilo) e vários intermediários, principalmente dos setores contábil, jurídico, bancário e setores financeiros.

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