Socialismo: o melhor argumento contra ainda é muito ruim

Antes de apresentar e criticar o melhor argumento contra o socialismo é preciso falar um pouco, muito pouco, de um argumento muito, muito ruim. E ele se encontra no livro Capitalismo sem rivais de Branko Milanovic.[1] Neste folhoso, o seu autor oferece dois tipos ideais para entabular uma compreensão do capitalismo contemporâneo: um deles, que chama de “capitalismo meritocrático e liberal”; o outro, que denomina de “capitalismo político”. Estes dois “modelos” – como ele mesmo explica – representam em largos traços, por suposto, os capitalismos realmente existentes nos Estados Unidos e na China, respectivamente.

No último capítulo, denominado Futuro do capitalismo global, depois de apresentar o capitalismo contemporâneo como amoral porque impõe a forma mercadoria a quase tudo, Milanovic se pergunta se há um sistema alternativo que possa vir a substitui-lo no futuro. Põe essa questão de modo retórico para lhe dar, em sequência, uma resposta bem “thatcherita”: “o problema com tal avaliação sensata é que não há uma alternativa viável para o capitalismo hiper mercantilizado”. Justifica, então, essa conclusão peremptória de dois modos: a) “as alternativas criadas no mundo se mostraram piores – algumas delas muito piores”; b) “não se pode ter a esperança de manter tudo isso” – ou seja, os “bens e serviços que se tornaram parte integral de nossas vidas” – “destruindo o espírito aquisitivo ou eliminando a acumulação de riqueza como a única forma de sucesso”.

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Questionando a teoria de equilíbrio geral

Em videoaulas anteriores foram apresentados questionamentos à noção de utilidade e à teoria da preferência revelada. Esta última pretende substituir a primeira como fundamentação da teoria neoclássica. Se a primeira propõe uma fundamentação psicológica, a segunda propõe uma fundamentação empírica. Procurou-se mostra que nenhuma delas é bem sucedida. Nesta videoaula faz uma crítica tanto metodológica quanto estritamente lógica a essa teoria para mostrar, ao fim e ao cabo, um resultado que é conhecido, ainda que pouco divulgado: a teoria do equilíbrio geral é inconsistente.

Outro espectro ronda agora o capital

Para falar de um medo que ora chega ao capital, isto é, ao coração dos capitalistas, é preciso fazer uma comparação entre duas perspectivas sobre as condições atuais e futuras da sociedade humana. Num artigo publicado no sítio A terra é redonda, o Prof. Paulo Artaxo, docente titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), diz:

Nossa sociedade está simultaneamente convivendo com três emergências importantes: 1) a crise na saúde; 2) a crise de perda de biodiversidade; e 3) a crise climática. Salienta-se que essas crises têm ligações profundas entre si, e diferenças importantes, mas todas provocam impactos sociais e econômicos fortes e afetam nosso planeta globalmente.

Já num relatório sobre a estabilidade financeira publicado recentemente pelo banco central norte-americano, o Federal Reserve, constata-se uma preocupação diversamente orientada:

O curso da pandemia, sua extensão e duração, as consequências econômicas e financeiras, continua a ser um dos mais significantes riscos para o sistema financeiro. A efetivação desses riscos depende largamente do sucesso das medidas de saúde pública e outra ações governamentais para conter a difusão do COVID-19.

Ora, essa comparação leva imediatamente à seguinte questão: a finalidade última da sociedade atual é se preservar, difundindo melhor o nível de civilização até agora alcançado, ou, ao contrário, é manter a lógica de acumulação de capital e, assim, o seu sistema financeiro globalizado? É “ele” que importa?  O sistema econômico existente está a serviço da sociedade? Ou, ao contrário, é esta última que deve atuar e se sacrificar em função do sistema econômico?

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Crítica das “visões” metalista e cartalista do dinheiro no capitalismo

Introdução 

Que provisoriamente seja aquilo que Keynes quis que fosse! Admita-se, pois, que a economia capitalista possa ser tomada, tal como enfatizam os keynesianos, como uma economia monetária de produção, ou seja, como um sistema que se volta – ou pode se voltar quando bem conduzido – à produção de bens que atendem os desejos dos consumidores, mas que não prescinde – ao contrário, exige a presença – da moeda[1] para funcionar.

Creia-se que a moeda – como dizem – é uma mera instituição social necessária ao dinamismo do sistema econômico moderno, e que, por isso mesmo, não atua de modo neutro, como mera intermediária das trocas. Admita-se também que ela é ‘criada a partir do nada’ por meio de operações de débito e crédito que têm por função intrínseca estimular o funcionamento do sistema econômico. “A moeda ou o crédito” – diz uma economista pós-keynesiana – “não existe como resultado da atividade econômica… a moeda [ou o crédito] cria a atividade econômica” (Pettifor, 2017, p. 6).

Por que essa autora pensa assim? É evidente que o Estado provê o dinheiro no capitalismo contemporâneo. O que ela não vê é que o dinheiro como dinheiro é intrínseco à economia mercantil e que o dinheiro como capital é intrínseco ao modo de produção capitalista. Eis que pensa o dinheiro como mera “coisa” que é produzida de modo ad hoc por um agente externo ao sistema econômico. Se o Estado, por qualquer razão, deixar de prover o dinheiro, o que ocorre no sistema econômico baseado na relação de capital? É evidente que haverá um enorme colapso da atividade econômica, mas esta não se extinguirá completamente; pois, em certo momento, a própria atividade econômica precária exigirá que exista, ainda que de modo incipiente, um novo dinheiro. E este surgirá espontaneamente, por meio de um poder central ou por uma combinação dessas duas formas – pouco importa.

Ora, ao invés de definir a moeda como algo que modifica crucialmente a produção humana em geral e que, assim, caracteriza aquela existente na época moderna, não seria mais adequado inquerir sobre as razões da inerência do dinheiro no sistema econômico atual? Apreendendo o dinheiro, por isso, como expressão das relações sociais de produção e circulação desse sistema?

Em pdf: Crítica da visões metalista e cartalista do dinheiro no capitalismo

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A perversão da Economia Política como instrumento de governança

A ciência da economia nasceu com o nome de Economia Política; foi assim denominada pelos economistas clássicos. Porém, no último quartel do século XIX, os economistas neoclássicos mudaram o seu nome para Economia (Economics) simplesmente para ocultar o seu vínculo intrínseco com a política; haveria, segundo eles, há um saber sobre o sistema econômico que não poderia ser desafiado para atender certas demandas políticas.

Se os economistas clássicos compreendiam desassombradamente essa ciência como uma ciência social, histórica e política, os inovadores do final do século XIX, agora assombrados pelas lutas de classes que se desenvolviam na sociedade, passaram a encará-la como ciência positiva ou como ciência matemática, transistórica, semelhante à mecânica clássica.

Ora, mesmo se o sistema econômico da relação de capital tem, sim, imperativos que decorrem de sua natureza, estes não deixam de ser determinações estruturais sustentadas por meio das instituições políticas. A reificação do sistema econômico por meio da positivação metodológica dos seus fenômenos constituintes é apenas um meio de restringir as opções de política econômica àquelas desejadas pelo poder político das classes dominantes.

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A relação de capital: o fascismo e o stalinismo

Introdução

Como essas duas formas políticas, o fascismo e o stalinismo, podem ser compreendidas a partir da relação de capital – a relação social que subsumi o trabalho e, assim, o modo de trabalhar, por meio do assalariamento? Como essa relação estruturante da sociedade moderna é sustentada no fascismo e no stalinismo? Como o Estado garante a acumulação de capital em cada uma delas? Uma dessas formas, como se sabe, configura-se ainda no evolver do capitalismo e a outra aparece no “socialismo” burocrático – ambas, no entanto, mesmo se pareceram sólidas, revelaram-se ao fim reversíveis e transitórias. Para responder essa pergunta, que se tornou novamente central neste começo do século XXI, parte-se aqui da categoria de fetichismo apresentada em O capital.

Como já aconteceu outras vezes, o capitalismo enfrenta agora uma crise estrutural que coloca em dúvida a sua permanência na história. Diante dela, imensa como nunca fora antes, parece haver dois caminhos. A razão comunicativa recomenda aprofundar a democracia para resolver os impasses do desenvolvimento na sociedade contemporânea e, sobretudo, para contrariar o rumo do colapso societário. A sua negação extremista, entretanto, é que se tem apresentado e prosperado na cena política.

Diante dos esgarçamentos sociais produzidos pela atual crise estrutural, o fantasma de formas políticas totalitárias tem ressurgido no horizonte. E elas laboram para impedir a superação das ameaças à própria civilização humana. Não existe mais, portanto, a via de retorno à socialdemocracia. Logo, para as forças do desenvolvimento e da transformação só resta o caminho mais difícil do socialismo democrático. Por isso é que se afigura importante compreender melhor essas duas formas de totalitarismo, distinguindo o que tem de comum e o que tem de diferente.

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O Inesperado acerto de contas: coronavírus e capitalismo

Artigo de Radhika Desai – Tradução do blog  

Talvez seja auspicioso que a seriedade da ameaça do coronavírus tenha atingido a maior parte do mundo ocidental nos Idos de Março, justamente no momento tradicional do cálculo das dívidas pendentes na Roma antiga. A semana anterior havia sido uma verdadeira montanha-russa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) finalmente declarara o contágio do vírus como uma pandemia; os governos, em sequência, apressaram-se em dar uma resposta. O vírus passou a dominar o ciclo das novas notícias, surgiram uma multiplicidade de informações erradas e mesmo de desinformações nas mídias sociais. As cidades e até mesmo países inteiros foram fechados, os mercados de todos os tipos imagináveis ​​despencaram e as empresas anunciaram demissões e interrupções da produção.

Ficou claro que, quaisquer que fossem as origens, os caminhos e a letalidade do vírus, agora chamado de Covid-19, iria testar seriamente o capitalismo ocidental em seus mecanismos de enfrentamento. Quase certamente, eles seriam surpreendidos e falhariam. Afinal, problemas e desequilíbrios acumularam-se no sistema capitalista ocidental ao longo das últimas quatro décadas, aparentemente desde que tomou o caminho neoliberal para sair da crise da década dos anos 1970. Seguiu em frente desde então, sem levar em consideração o potencial de problemas e crises que engendrava.

Durante essas décadas, tal como um analista importante mostrou, o mundo capitalista ocidental passou a ganhar tempo, por meio da acumulação de dívidas, tanto públicas quanto privadas. Buscava, assim, com os seus fracos e estreitos mercados, evitar o acerto de contas final, um problema que o neoliberalismo, com sua implacável pressão descendente sobre os salários reais, apenas exacerbava.

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Uma crise de crédito pronta para eclodir?

Michael Robert – Blog The next recession – 2/12/2020

A crise gerada globalmente pela pandemia global é diferente das crises anteriores do capitalismo. A mudança da expansão para a recessão no ciclo  capitalista – com os seus impactos recessivos na produção e no investimento – é frequentemente desencadeada por um crash financeiro. Não foi isto o que aconteceu agora.

A crise produzida pela pandemia do coronavírus tem também, no entanto, uma causa “próxima”  específica. Em certo sentido, essa queda global sem precedentes, afetando 97% das nações do mundo, começou por causa de um “evento exógeno”, ou seja, a propagação de um vírus mortal. No entanto, tenha-se em conta que esse próprio evento está fundado na relação predatória do capitalismo com a natureza.

De qualquer modo, as previsões de recuperação implicam numa perda discreta e aparentemente irrecuperável de PIB mundial. Pelo menos é o que indica as estimativas da OCDE. Ora, essa mesma estimativa não prevê qualquer novo desastre à frente. Será isso correto?

Fala-se constantemente em uma recuperação tão logo as vacinas comecem a ser aplicadas na população. Contudo, há elos mais fracos na malha das relações mercantis: boa parte das empresas médias e menores estão muito endividadas. Pode, pois, ocorrer uma crise de crédito seguida de colapso financeiro à medida que estas empresas começarem a quebrar. Estas colapsam na mesma medida em que o apoio do governo evapora: as suas receitas de vendas permanecem fracas, mas os custos da dívida e dos salários aumentam.

Uma tradução do artigo completo de Michael Roberts está aqui: Uma crise de crédito à frente

Questionando a teoria da preferência revelada

Na vídeo-aula anterior foi feita uma crítica radical – ou seja, que toma das coisas pela raíz – da teoria da utilidade que embasa a teoria neoclássica ensinada nos cursos de graduação em Economia. Essa aula foi denominada de Questionando a noção de utilidade.

Agora, traz-se aqui uma nova vídeo-aula com o objetivo de criticar a teoria neoclássica mais “avançada” e que é ensinada nos melhores cursos de pós-graduação, inclusive empregando topologia real – ou análise matemática. Tais “avanços” pretendem ter superado os vícios lógicos da teoria da utilidade original. Critica-se, assim, a teoria da preferência revelada mostrando que ela padece também de vício lógicos.

Argumenta-se que a teoria neoclássica não é ciência, mas apenas um saber tecno-normativo que visa defender certo tipo de política econômica, mais do interesse das classes dominantes.

 

Questionando a noção de utilidade

Vídeo

Os livros de microeconomia tratam da “utilidade” como se esta fosse algo bem evidente. “Os economistas” – diz um deles – “conceituam “utilidade” como uma singularidade que torna uma mercadoria desejada. Trata-se de um fenômeno subjetivo, porque cada pessoa é diferente da outra”. “Qualquer bem ou serviço deliberadamente consumido proporciona utilidade”.

É mesmo? O que é afinal utilidade?

No vídeo apresentado em sequência, a noção de utilidade é questionada. Apresenta-se como diversos economistas importantes na História do Pensamento Econômico a compreenderam e se mostra, em sequência, que ela é vazia ou uma transfiguração subjetiva do dinheiro. Questiona-se, finalmente, se a teoria neoclássica é de fato uma teoria científica.