XV Plano e o crescimento futuro da China

Michael Roberts – The next recession blog – 03/08/2026

O governo chinês está acabando de concluir suas “duas sessões” anuais ou “lianghui” como as chamam. As “duas sessões” referem-se a dois grandes encontros políticos: a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), um comitê consultivo político; e o Congresso Nacional do Povo (CNP), o principal órgão legislativo da China. Essas não são, ostensivamente, reuniões do Partido Comunista (PCC), mas sim reuniões do Estado chinês.

A reunião consultiva é em grande parte simbólica; dela participam os líderes empresariais e locais de destaque para discutir temas previamente acordados. O centro real de poder é o CNP, que decide oficialmente a política econômica. Na realidade, apenas aprova o que a elite líder do PCC já decidira antecipadamente. Com cerca de dois terços de seus membros pertencendo ao Partido Comunista, o CNP nunca rejeitou um projeto de lei proposto pelo partido.

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Todos os caminhos levam à estagflação

Michael Roberts – The next recession blog – 31/03/2026

Em sua mais recente análise do impacto do conflito no Oriente Médio nas economias mundiais, o FMI disse em resumo: “Embora a guerra possa moldar a economia global de maneiras diferentes, todos os caminhos levam a preços mais altos e crescimento mais lento.”

O preço global de referência do petróleo está a caminho de sua maior alta mensal já registrada em março, maior do que em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait. O conflito pode terminar em breve, como Trump e Rubio afirmam (presumivelmente com um acordo com o Irã no qual este último basicamente cede às exigências dos EUA).  Ou, mais provavelmente, haveria um conflito mais longo que poderia se estender até abril e além, possivelmente envolvendo tropas americanas no terreno tentando romper o domínio do Irã sobre o Estreito de Ormuz e buscando encontrar e destruir os seus estoques nucleares.

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As economias modelares vascilam

O autor do escrito abaixo mostra que os modelos econômicos da Alemanha e da China estão em crise. O artigo não é teoricamente rigoroso, mas tem uma mensagem relevante que contraria o otimismo de certos autores em relação ao progresso das economias chinesa e alemã vis-à-vis a economia norte-americana. (E.P.)

Ernst Lohoff [1] – 6 de março de 2026

Por muito tempo, Alemanha e China, com suas indústrias de exportação, estiveram entre os principais beneficiários da expansão do comércio mundial. Hoje, seus modelos de negócios estão ambos sob o impacto de uma crise séria [ou seja, de uma crise de superprodução].

“O primeiro será o último”, disse Jesus no Novo Testamento – um alerta que se aplica tanto à China quanto à Alemanha hoje. Após a grande crise financeira de 2007 a 2009, as duas economias foram por muito tempo consideradas modelos de sucesso, pois retomaram rapidamente o crescimento econômico. Na época, a China, que não havia passado por uma recessão nas últimas décadas, desacelerou já que a sua taxa anual crescimento de dois dígitos caiu para 9% em 2008 e para 6% no ano seguinte.

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Capitalismo, que capitalismo?

Eleutério F. S. Prado [1]

A questão da qualificação

Não faltam qualificativos para o capitalismo contemporâneo: pós-industrial (Alain Touraine), parasitário (Zygmunt Bauman), financeirizado (José Carlos de Souza Braga), pós-grande industrial (Ruy Fausto), cognitivo (Carlo Vercellone), 4.0 (Paulo Ghiraldelli), ecocida (Alain Bihr), superindustrial (Pierre Veltz) etc. etc. Aqui se examina o último citado e que veio à luz recentemente por meio do livro recém-publicado[2] de Fernando Haddad, professor no departamento de ciência política da FFLCH/USP.

Eis que causou algum espanto, talvez um choque: “Fernando Haddad” – protestou, por exemplo, Paulo Ghiraldelli –, para explicar o capitalismo atual, o chama estranhamente de “superindustrial”:

“É difícil ver o mundo corporativo de hoje, campo das empresas atuais, ser coberto pelo nome de “indústria”, menos ainda de “super indústria”. (…) Ao fazê-lo, ele “não conferiu importância para algo que as narrativas atuais sobre nossos últimos anos têm insistido, que é a hegemonia da lógica do capital financeiro.[3] Vivemos hoje sob a simbiose entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro (…).”[4]

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Finanças que operam na sombra

Lenore Palladino [1]

A finança não regulamentada cresce no coração da economia americana

Em outubro de 2025, a fabricante de autopeças First Brands, sediada em Ohio, enfrentou problemas para pagar a sua dívida. A imprensa financeira tratou do caso, mas não porque a First Brands fosse particularmente importante ou excepcional para a economia dos EUA. O fez porque várias instituições financeiras começaram a perceber que a exposição mantida com essa empresa — por meio de seus fundos de aplicação privados — era maior do que eles pensavam.

Eis que, ao contrário dos bancos, os fundos de aplicação privados não são regulados e, por isso, torna-se bem difícil apreciar o potencial de riscos interligados, realizar a devida diligência ou avaliar a razoabilidade dos empréstimos. Como o regulador financeiro do Reino Unido, Simon Walls, diretor executivo de mercados, tem apontado: “Não há uma distinção muito clara entre o setor bancário e o setor não bancário” — mas os reguladores só podem lidar com um ou outro.

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A relação credor-devedor como base do capitalismo

Publica-se em sequência um texto do autor dos livros cujas capas aparecem na figura abaixo, não sem acrescentar, após o seu final, uma nota crítica para censurar a sua tentativa pós-moderna de desprezar a economia política e a sua crítica exemplar, que, aliás, ele parece  ignorar.

Autor: Maurizio Lazzarato [1]

A economia da dívida parece ter produzido uma grande mudança em nossas sociedades. Vamos analisar o significado dessa mudança baseando-nos no segundo ensaio de A genealogia da moral, [obra clássica de Friedrich Nietzsche].

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A inflação real e o custo de vida

Corbin Trent – America’s Undoing

Titulo original: “It Works, If You Work It”; 23/11/2025

Para que a economia americana possa proporcionar uma vida boa para todos são necessárias reformas estruturais. Ela está muito ruim? Sim, bem ruim! [Mas já foi melhor: aquilo que foi chamado de “american way of life” parece ter existido, sim…, em meados do século passado.]

Desapontamento: de Obama à Trump

As eleições do início deste mês indicam para onde a coisa está indo. Os democratas varreram a Virgínia, Nova Jersey e Nova York. Pesquisas de boca de urna mostraram que 49% dos eleitores da Virgínia colocavam a economia como sua principal questão. Em Nova York, 56% disseram que era o custo de vida. Os eleitores de Nova Jersey focaram em impostos e, portanto, em economia.

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A política econômica do nacional-socialismo

Romaric Godin [1] – Sin Permiso [2] – 17/01/2026

Em um texto recentemente traduzido para o francês, o filósofo alemão Alfred Sohn-Rethel descreve o mecanismo pelo qual os nazistas, aproveitando-se da crise econômica, implantaram um tipo particular de economia que inevitavelmente levou à guerra e à violência. O escrito que se segue permite entender a lógica suicidária da economia fascista.

O livro de Sohn-Rethel

A ascensão da extrema-direita no Ocidente necessariamente nos leva a examinar as condições que levaram à vitória do fascismo na década de 1930. Sob esse ponto de vista, uma obra recentemente republicada em francês sob o título Industrie et national-socialisme, faz uma contribuição original e decisiva para uma boa compreensão da ascensão ao poder do nazismo na Alemanha, em 1933.

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O apocalipse cripto vindouro

Nouriel Roubini [1]  – Project Syndicate – 3 de fevereiro de 2026

O futuro do dinheiro e dos pagamentos terá uma evolução gradual, não a revolução que os vigaristas de cripto estão prometendo. A mais recente queda do Bitcoin e de outras criptomoedas ressalta ainda mais a natureza altamente volátil dessa pseudoclasse de ativos. Só resta esperar que os formuladores de políticas acordem para os riscos antes que seja tarde demais.

Há um ano, o presidente mais pró-cripto da história dos EUA havia acabado de voltar ao poder. Eles acabara de agradar um contingente de investidores de criptomoedas desinformados e de receber um enorme apoio financeiro de profissionais semi-corruptos do setor cripto. A segunda vinda de Donald Trump deveria ser um novo amanhecer para as criptomoedas, levando vários evangelistas auto-interessados a prever que o Bitcoin se tornaria “ouro digital”, alcançando pelo menos $200.000 até o final de 2025.

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Uma “escolha de Hobson” para Trump

Michael Roberts – The next recession blog – 12/03/2026

Hoje, o petróleo bruto ultrapassou $95 por barril, apesar da Agência Internacional de Energia (AIE) ter aprovado a maior liberação já realizada de reservas emergenciais de petróleo. Os Estados-membros, em consequência, estão programando liberar 400 milhões de barris nos próximos dias. Isso terá pouco efeito no preço do petróleo porque o Iraque teve que suspender as operações em seus terminais de petróleo após dois petroleiros terem sido alvejados em águas iraquianas.

O Estreito de Ormuz também permanece efetivamente fechado; vários navios comerciais parecem ter isso atingidos na costa do Irã. Isso levou grandes produtores do Oriente Médio a reduzirem a produção, restringindo ainda mais a oferta global. O governo iraniano afirma que os EUA devem garantir que nem ele nem Israel atacarão o país no futuro para que um cessar-fogo seja considerado.

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