O capitalismo pode ser cognitivo?

Eleutério F. S, Prado

Introdução [1]

Como se sabe, é com esse qualificativo que os intelectuais da corrente pós-operaísta costumam designar o sistema da relação de capital tal como se configurou depois dos anos 1970. Se antes o capitalismo era industrial, transformou-se, segundo eles, em pós-industrial. Se antes ele dependia de trabalhadores silenciosos, ainda segundo eles, passou a depender de trabalhadores comunicativos. Segundo esses autores, tal adjetivo se justifica porque nessa “nova economia” o conhecimento dos indivíduos e do “intelecto geral” se tornou supostamente a principal força produtiva.

Em sua Lectio Magistralis na Universidade de Pádua, intitulada Il linguaggio del lavoro[2], Christian Marazzi rememora o que ocorreu no processo de produção capitalista:

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Um novo cálculo da taxa de lucro mundial

Michael Roberts – The next recession blog – 04/05/2026

Em 2012, fiz uma tentativa inicial – para além da medição da taxa de lucro sobre o capital em diversos países – para calcular uma taxa de lucro mundial. Depois, argumentei que era importante testar a lei de Marx sobre a tendência à queda da taxa de lucro em nível mundial. Como o capitalismo espalhou seus tentáculos por todas as partes do mundo ao longo do século XX, foi necessário encontrar um suporte empírico melhor para a lei calculando uma taxa mundial, pois o capitalismo é apenas uma ‘economia fechada’ em nível global. A taxa de lucro em apenas um ou poucos países não seria precisa o suficiente, pois não levaria em conta os lucros obtidos com comércio e investimentos no exterior, e a taxa de lucro de cada país poderia ter tendências diferentes.

Em 2020, atualizei e melhorei significativamente minha medida de lucratividade global. E o resultado pode ser visto acima. Depois, meus cálculos foram feitos para a taxa média de lucro sobre o capital das 19 maiores economias (por exemplo, G20).  Minha fonte de dados era a série Penn World Tables 10.0. Meus resultados confirmaram a lei de Marx de que havia uma tendência de longo prazo para a lucratividade cair.  Isso foi importante porque levou à conclusão de que a expansão capitalista era transitória e sujeita a crises regulares e recorrentes de produção e investimento.  De fato, crises se afiguram como necessárias para ‘limpar’ o sistema do antigo capital e lançar as bases para um período de recuperação no que chamei de ‘ciclo de lucro’. A taxa mundial de lucro não caiu em linha reta, pois a tendência de longo prazo a cair foi intercalada com períodos em que a lucratividade subiu, geralmente após uma queda significativa.  Eis o meu gráfico de 2020:

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XV Plano e o crescimento futuro da China

Michael Roberts – The next recession blog – 03/08/2026

O governo chinês está acabando de concluir suas “duas sessões” anuais ou “lianghui” como as chamam. As “duas sessões” referem-se a dois grandes encontros políticos: a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), um comitê consultivo político; e o Congresso Nacional do Povo (CNP), o principal órgão legislativo da China. Essas não são, ostensivamente, reuniões do Partido Comunista (PCC), mas sim reuniões do Estado chinês.

A reunião consultiva é em grande parte simbólica; dela participam os líderes empresariais e locais de destaque para discutir temas previamente acordados. O centro real de poder é o CNP, que decide oficialmente a política econômica. Na realidade, apenas aprova o que a elite líder do PCC já decidira antecipadamente. Com cerca de dois terços de seus membros pertencendo ao Partido Comunista, o CNP nunca rejeitou um projeto de lei proposto pelo partido.

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Todos os caminhos levam à estagflação

Michael Roberts – The next recession blog – 31/03/2026

Em sua mais recente análise do impacto do conflito no Oriente Médio nas economias mundiais, o FMI disse em resumo: “Embora a guerra possa moldar a economia global de maneiras diferentes, todos os caminhos levam a preços mais altos e crescimento mais lento.”

O preço global de referência do petróleo está a caminho de sua maior alta mensal já registrada em março, maior do que em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait. O conflito pode terminar em breve, como Trump e Rubio afirmam (presumivelmente com um acordo com o Irã no qual este último basicamente cede às exigências dos EUA).  Ou, mais provavelmente, haveria um conflito mais longo que poderia se estender até abril e além, possivelmente envolvendo tropas americanas no terreno tentando romper o domínio do Irã sobre o Estreito de Ormuz e buscando encontrar e destruir os seus estoques nucleares.

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Uma “escolha de Hobson” para Trump

Michael Roberts – The next recession blog – 12/03/2026

Hoje, o petróleo bruto ultrapassou $95 por barril, apesar da Agência Internacional de Energia (AIE) ter aprovado a maior liberação já realizada de reservas emergenciais de petróleo. Os Estados-membros, em consequência, estão programando liberar 400 milhões de barris nos próximos dias. Isso terá pouco efeito no preço do petróleo porque o Iraque teve que suspender as operações em seus terminais de petróleo após dois petroleiros terem sido alvejados em águas iraquianas.

O Estreito de Ormuz também permanece efetivamente fechado; vários navios comerciais parecem ter isso atingidos na costa do Irã. Isso levou grandes produtores do Oriente Médio a reduzirem a produção, restringindo ainda mais a oferta global. O governo iraniano afirma que os EUA devem garantir que nem ele nem Israel atacarão o país no futuro para que um cessar-fogo seja considerado.

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Haverá uma catástrofe com adoção da IA?

Michael Roberts – The next recession blog –26/02/2026

Um relatório publicado no último fim de semana pelo obscuro grupo de analistas financeiros “Citrini Research”, versando sobre o impacto futuro da IA, causou uma venda de ações das empresas de software.  A “Citrini” era pouco conhecida até publicar o seu “Global intelligence crisis report” – um aviso sobre uma crise global que viria com a adoção da IA”. Mas, subitamente, a publicação acumulou mais de 22 milhões de visualizações só no X.

A mensagem básica do aviso diz que, em poucos anos, os “agentes” de IA podem substituir amplamente o trabalho humano em todos os setores da economia.  Se acontecer, isso levaria a um aumento massivo do desemprego, seguido por um colapso do consumo e uma crise financeira no setor de ‘crédito privado’ às famílias e nas hipotecas, desencadeando assim uma brutal recessão.

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Além do capitalismo: outros passos são necessários

Título original: Replacing capitalism – not with socialism, but with democracy? (Substituir o capitalismo, não pelo socialismo, mas pela democracia?) Apresenta-se abaixo uma crítica ao artigo de Jason Hickel e Yanis Varoufakis abaixo mencionado, traduzido e republicado aqui, neste blog, sob o título Além do capitalismo: três primeiros passos.

Michael Roberts – The next recession blog – 13/02/2026

Os economistas de esquerda Jason Hickel e Yanis Varoufakis escreveram juntos um artigo para o jornal britânico The Guardian.  Eis o seu título original: We can move beyond the capitalist model and save the climate – here are the first three steps (Podemos ir além do modelo capitalista e salvar o clima – aqui estão os três primeiros passos). Jason Hickel é professor na Universidade Autônoma de Barcelona e pesquisador sênior visitante na LSE. Yanis Varoufakis é líder da MeRA25, ex-ministro das finanças e autor do livro Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. [1]

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Venezuela: a crise final

Michael Roberts – The next recession blog – 17/02/2026

Em artigo anterior, Michael Roberts examinou a economia petrolífera da Venezuela, agora ele revisita esse país para mostrar o que aconteceu com a Revolução Bolivariana.

O sequestro do presidente venezuelano Maduro e de sua esposa pelas forças militares dos EUA foi o primeiro sinal. A subsequente tomada do poder pela vice-presidente Delcy Rodriguez e seu acordo para permitir que os EUA controlassem as receitas de exportação de petróleo da Venezuela e atraíssem multinacionais de energia americanas para investir, tudo isso sinaliza o fim da revolução chavista que começou há mais de 25 anos. Por isso, é muito oportuno que um novo livro tenha sido publicado para mostrar o que aconteceu na Venezuela para chegar a esse ponto.

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Do Consenso de Washington ao de Londres?

Michael Roberts – The next recession blog – 16/01/2026

O Consenso de Washington consistia num conjunto de dez prescrições de política econômica, as quais, nas décadas de 1980 e 1990, eram consideradas como um pacote “padrão”. Recomendava reformas a serem implementadas nos países em desenvolvimento que passassem por crises, sob o controle do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, instituições multilaterais instaladas em Washington DC.

O termo Consenso de Washington foi cunhado, em 1989, pelo economista britânico John Williamson. Tornou-se depois uma base para políticas globais destinadas a promover “mercados livres”, tanto domésticos quanto globais, além de redução do papel do Estado por meio de privatizações e ‘desregulamentação’ dos mercados de trabalho e financeiros. O seu lema era “mantenha os gastos e déficits do governo baixos e deixe o mercado fazer seu trabalho”. Na prática, o Consenso de Washington era um conjunto de diretrizes econômicas que formava o núcleo do que depois viria a ser chamado de “neoliberalismo”.

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Japão: da estagnação à estagflação

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 7 de fevereiro de 2026

No Japão, uma eleição geral aconteceu no último domingo, dia 8/02/2026, poucos meses depois de Sanae Takaichi se tornar a primeira primeira-ministra mulher do país. Takaichi é uma política ultraconservadora, ultranacionalista e devota de Margaret Thatcher. Ela se tornou primeira-ministra em outubro passado ao vencer uma disputa interna do partido para a presidência do governista Partido Liberal Democrata (PLD). O PLD havia sido devastado por duas eleições desastrosas nos dois últimos anos e se encontrava atualmente sem maioria em nenhuma das casas do parlamento japonês.

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