Ruy Fausto e a política marxista

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Aqui se pretende investigar como esse filósofo brasileiro, que deu uma contribuição exemplar para a compreensão da obra de Karl Marx, apresenta os fundamentos da política marxista e como ele faz a crítica do marxismo consagrado como tal.  

Mesmo se atravessa a sua obra como um todo, essa questão é tocada explicitamente na introdução ao livro Sentido da Dialética – Marx: lógica e política [2], publicado em 2015. Vale notar que essa é uma nova edição de um livro publicado em 1983 – 32 anos antes, portanto – sob o título Marx: lógica e política [3], o qual recebeu depois o complemento Investigações para uma reconstituição do sentido da dialética.

Essa inversão na formação do título – o original é substituído pela parte mais expressiva do subtítulo, transformando-se por sua vez em subtítulo –, é explicada pelo autor como advinda da necessidade de expressar melhor o objetivo central de sua obra. Este não seria comentar filosoficamente a obra de Karl Marx, mas compreender a dialética por meio dela: “ainda se ocupando centralmente do corpus marxiano” – diz –, “o objeto fundamental dos textos é entender o significado da dialética”.

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Valor e capitalismo cognitivo

Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

A questão a ser considerada sob o título acima é teórica; concerne em especial à categoria valor enquanto determinação da mercadoria e, assim, com as devidas mediações, à compreensão científica do capitalismo tal como ele se apresenta contemporaneamente. Remete-se, portanto, a um tópico clássico: eis que a compreensão do valor das mercadorias nasce na Grécia Antiga, atravessa a Idade Média e se torna um grande problema após o fim da Idade Moderna, quando o capitalismo se torna propriamente industrial.

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Depois do “pós-fordismo” vem o “muskismo”?

Quinn Slobodian [1] e Ben Tarnoff [2] – Fonte: Sin Permiso [3] – 26/04/2026

Tem sido apontado frequentemente que Elon Musk e Henry Ford têm muito em comum. Ambos foram aclamados como gênios tecnológicos que fizeram avanços revolucionários nos processos de produção e nos produtos de consumo. Ambos figuram como politicamente conservadores. E ambos defenderam visões reacionárias por meio de seus meios de comunicação pessoais: Ford publicou uma série famosa de artigos antissemitas em seu jornal, The Independent of Dearborn, e Musk usa o Twitter, depois X, como megafone para expressar sua hostilidade em relação aos imigrantes não brancos.

Contudo, já ao começarmos escrever o nosso livro recente sobre Elon Musk, percebemos rapidamente que os paralelos entre Musk e Ford não se relacionam principalmente às suas biografias pessoais. Eles concernem aos tipos de sociedade – sendo também requeridos por eles – que aparecem em seus modos de apreender a economia política realmente existente.

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Tecnologia e pós-capitalismo segundo Morozov

Apresenta-se abaixo [1] uma continuação da crítica de Morozov a Benanav. Note-se que este blogue publicou vários artigos sobre essa controvérsia. Eis algumas traduções de partes do artigo original de Benanav: uma primeira, uma segunda e uma terceira. A crítica inicial de Morozov pode ser encontrada aqui neste artigo. A resposta de Aaron Benanav também pode ser encontrada aqui.

Evgeny Morozov [2]

Aaron Benanav publicou sua réplica[3] – e que documento curioso é esse. Ele me acusa de interpretar mal seus argumentos, de interpretações tão flagrantemente erradas, tão estupidamente obtusas, que seria de esperar que apresentasse provas cabais com o prazer de um promotor. Infelizmente, a arma fumegante permanece no coldre. As interpretações equivocadas que Benanav conjura são, de fato, espetaculares; só não são minhas. Minhas acusações reais permanecem intocadas, como aperitivos que ninguém se lembrou de servir.

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Tecnologia e pós-capitalismo segundo Benanav

Réplica de Aaron Benanav a Evgeny Morozov. Fonte: Blog da Boitempo – 02/04/2026. Eis algumas traduções de partes do artigo original de Benanav: primeiro, segundo e terceiro. A crítica inicial de Morozov encontra-se neste artigo.

Aaron Benanav [1]

Duas revoluções tecnológicas distintas estão em curso, e elas competem pela nossa atenção e recursos limitados – bem como pela prioridade política. Qual caminho recebe investimento sustentado e qual permanece marginal moldará os futuros que as sociedades serão capazes de construir.

Por um lado, há a IA generativa, que alguns descrevem como uma tecnologia de propósito geral, semelhante à eletricidade ou à internet. Seus defensores afirmam que, ao automatizar tarefas no setor de serviços – onde o crescimento da produtividade há muito tempo está defasado – a IA pode tirar as economias avançadas da estagnação[2], ao mesmo tempo em que reorganiza os fundamentos culturais e até cognitivos da vida humana.

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As finanças são parasitárias?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Desafiado com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; de maneira mais precisa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de finanças parasita o capital industrial (notando-se que indústria e industrial será tomado sempre em sentido amplo neste escrito).[2]

Contudo, aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de início. E que se pode – e até que se deve – contestar essa difundida tese que, aliás, não para de prosperar nos meios de esquerda. Para tanto, em sequência, se examina como essa metáfora surge na história da crítica ao capitalismo e quais seriam as razões usualmente apresentadas para sustentá-la. Ao longo e ao final se mostra também como se deve questioná-la.

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Semiocapitalismo: uma crítica

Eleutério F. S. Prado [1]

Nome anterior: teoria crítica ou devaneio crítico?

Do capitalismo ao semiocapitalismo

Começo com uma questão: o intrigante e desafiante livro “And, Phenomenology of the end[2] de Franco “Bifo” Beraldi vem a ser uma adição à crítica da economia política ou um deslizamento numa outra forma de crítica? Nesse folhoso, esse teórico das mídias e do movimento operaísta italiano busca compreender de novo inovador a transformação do capitalismo que veio a existir após a crise dos anos 1970, com o advento da financeirização e do neoliberalismo.

Segundo ele, nessa década e nas seguintes, o capitalismo deixa de ser industrial para se tornar pós-industrial, ou melhor, deixa de ser capitalismo para se tornar semiocapitalismo – caracterização esta que requer certamente explicação. Para alcançá-la, note-se de início como resume o seu projeto de pesquisa: “Quero investigar aqui” – diz – “a genealogia do semiocapitalismo, e particularmente do capitalismo financeirizado, do ponto de vista da sensibilidade linguística”. Sendo assim, pode-se ver de imediato que ele não pensa mais no interior da exposição dialética que constitui O capital, mas fora dela.

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Capitalismo, que capitalismo?

Eleutério F. S. Prado [1]

A questão da qualificação

Não faltam qualificativos para o capitalismo contemporâneo: pós-industrial (Alain Touraine), parasitário (Zygmunt Bauman), financeirizado (José Carlos de Souza Braga), pós-grande industrial (Ruy Fausto), cognitivo (Carlo Vercellone), 4.0 (Paulo Ghiraldelli), ecocida (Alain Bihr), superindustrial (Pierre Veltz) etc. etc. Aqui se examina o último citado e que veio à luz recentemente por meio do livro recém-publicado[2] de Fernando Haddad, professor no departamento de ciência política da FFLCH/USP.

Eis que causou algum espanto, talvez um choque: “Fernando Haddad” – protestou, por exemplo, Paulo Ghiraldelli –, para explicar o capitalismo atual, o chama estranhamente de “superindustrial”:

“É difícil ver o mundo corporativo de hoje, campo das empresas atuais, ser coberto pelo nome de “indústria”, menos ainda de “super indústria”. (…) Ao fazê-lo, ele “não conferiu importância para algo que as narrativas atuais sobre nossos últimos anos têm insistido, que é a hegemonia da lógica do capital financeiro.[3] Vivemos hoje sob a simbiose entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro (…).”[4]

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A relação credor-devedor como base do capitalismo

Publica-se em sequência um texto do autor dos livros cujas capas aparecem na figura abaixo, não sem acrescentar, após o seu final, uma nota crítica para censurar a sua tentativa pós-moderna de desprezar a economia política e a sua crítica exemplar, que, aliás, ele parece  ignorar.

Autor: Maurizio Lazzarato [1]

A economia da dívida parece ter produzido uma grande mudança em nossas sociedades. Vamos analisar o significado dessa mudança baseando-nos no segundo ensaio de A genealogia da moral, [obra clássica de Friedrich Nietzsche].

A economia neoliberal se consolida como uma economia subjetiva, ou seja, uma economia que solicita e produz processos de subjetivação cujo modelo não está mais centrado, como na economia clássica, no comerciante e no produtor. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, o modelo exemplar se tornou o empreendedor (de si mesmo), conforme a definição de Foucault. Ele o descreveu com base em noções como mobilização, engajamento e ativação da subjetividade por meio das técnicas de gestão empresarial e de governo social. Diante da emergência de uma série de crises financeiras, é mais o “homem endividado” que parece incorporar a figura subjetiva do capitalismo moderno.

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Formas sociais e políticas contemporâneas

Autor: Ruy Fausto [1]

No tomo III de Marx: lógica e política, Ruy Fausto faz uma apresentação das estruturas sociais contemporâneas que existem e podem existir, a partir da apresentação dialética dos modos de produção de Karl Marx. Aqui se faz um esforço de expor esse material didaticamente como um convite para que eventuais interessados busquem ler o original.

A primeira seção é preliminar. Ruy Fausto começa dizendo que o comunismo, diante dos eventos da história e do saber psicanalítico introduzido por Sigmund Freud, tornou-se uma utopia irrealizável. Na segunda seção, faz uma apresentação estruturalista  das formas sociais contemporâneas. Em sequência, na terceira seção, mostra como essas formas podem ser explicadas dialeticamente.

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