A infinitude do desejo e da riqueza (II)

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Pulsão/Capitalismo

Como foi visto ao final do primeiro texto de um conjunto de dois, a questão ajuizada nesta investigação conceitual precisa ser reposta diante do modo como os psicanalistas lacanianos pensam a pulsão. Como foi visto, o próprio Lacan, na interpretação da herança de Freud, introduziu uma mudança bem fundamental nesse conceito. Diante dessa alteração, o passo decisivo no esforço de repensar a questão da infinitude do desejo e da riqueza consiste em explicar melhor essa concepção renovada de pulsão, isto é, esse impulso interior contraditório que, em última análise, põe o humano como ser que luta pela vida, pelo menos em condições normais. Aqui se começa, entretanto, pelo fim.

Buscando aproximar os dois campos do conhecimento evolvidos na investigação da relação entre psique e capitalismo, Johnston concebe esse impulso de um modo transistórico.

A minha própria visão da interface do marxismo com a psicanálise não equivale a uma simples e direta historicização desta última – especificamente, ela não mantém a tese segundo a qual os impulsos da economia libidinal são apenas e tão somente criações sócio-históricas da economia política do capitalismo. [2]

Ora, essa tese parece fazer sentido. Afigura-se sensato pensar que o ser humano tem um caráter distintivo em relação aos outros animais, mas ainda assim ele possui uma constituição básica que se mantém grosso modo no tempo histórico: ele fala, é um ser que se constitui, se expressa e se realiza por meio de linguagem. Logo, ele não tem meros instintos que se mantém constantes, mas a sua potência vem à tona e se torna ato, necessariamente, nesse meio: o ser humano é e está no mundo das palavras como os peixes dentro da água. No entanto, o conteúdo específico desse caráter constitutivo ainda não foi exposto.

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