O Inesperado acerto de contas: coronavírus e capitalismo

Artigo de Radhika Desai – Tradução do blog  

Talvez seja auspicioso que a seriedade da ameaça do coronavírus tenha atingido a maior parte do mundo ocidental nos Idos de Março, justamente no momento tradicional do cálculo das dívidas pendentes na Roma antiga. A semana anterior havia sido uma verdadeira montanha-russa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) finalmente declarara o contágio do vírus como uma pandemia; os governos, em sequência, apressaram-se em dar uma resposta. O vírus passou a dominar o ciclo das novas notícias, surgiram uma multiplicidade de informações erradas e mesmo de desinformações nas mídias sociais. As cidades e até mesmo países inteiros foram fechados, os mercados de todos os tipos imagináveis ​​despencaram e as empresas anunciaram demissões e interrupções da produção.

Ficou claro que, quaisquer que fossem as origens, os caminhos e a letalidade do vírus, agora chamado de Covid-19, iria testar seriamente o capitalismo ocidental em seus mecanismos de enfrentamento. Quase certamente, eles seriam surpreendidos e falhariam. Afinal, problemas e desequilíbrios acumularam-se no sistema capitalista ocidental ao longo das últimas quatro décadas, aparentemente desde que tomou o caminho neoliberal para sair da crise da década dos anos 1970. Seguiu em frente desde então, sem levar em consideração o potencial de problemas e crises que engendrava.

Durante essas décadas, tal como um analista importante mostrou, o mundo capitalista ocidental passou a ganhar tempo, por meio da acumulação de dívidas, tanto públicas quanto privadas. Buscava, assim, com os seus fracos e estreitos mercados, evitar o acerto de contas final, um problema que o neoliberalismo, com sua implacável pressão descendente sobre os salários reais, apenas exacerbava.

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Da neurose à perversão: Crise moral no ocaso do capitalismo

O livro não é novo, mas a sua tese precisa ser recuperada, pois com o passar dos anos tornou-se ainda mais relevante. O homem sem gravidade – gozar a qualquer preço foi publicado, em 2003, na França e, em 2008, no Brasil. Aqui se apresenta a sua tese fazendo uma ponte com a crítica economia política,.

Ele contém uma longa conversa entre dois psicanalistas franceses, Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun. O primeiro deles alçara, nesse domínio do saber, uma questão associada à emergência e à difusão do neoliberalismo a partir do fim dos anos 1980. E ela, agora, na passagem do milênio, tornara-se motivo de um debate que buscava uma melhor compreensão do tema.

O livro retrata, pois, essa discussão. Eis, pois, o núcleo da tese levantada: com a vitória do neoliberalismo, “passou-se de uma cultura fundada no recalque dos desejos e, portanto, da cultura da neurose, para uma outra que recomenda a sua livre expressão e que promove a perversão”. A perversão, pois, é tomada aqui como um sintoma do ocaso do capitalismo, do fato de que ele não tem mais horizonte histórico progressivo – ao contrário, o seu futuro é a regressão.

O texto completo está aqui: Da neurose à perversão – Crise moral no ocaso do capitalismo

A sociedade autofágica

Neste post se apresenta criticamente o livro de Anselm Jappe, A sociedade autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição (Antígona, 2019). Como se pode ver pelo próprio título, esse autor não apresenta um futuro otimista para a sociedade humana fundada no capitalismo.  Para ele, a civilização alcançada, agora agoniza e cambaleia no sofrido planeta Terra.

Para apresentar a sua concepção, Jappe se vale de uma metafora: o mito grego de Erisícton, que fora supostamente rei de Tessália numa época distante.  Vendo o mundo como parte integrante de seu domínio ilimitado, ele abate uma árvore sagrada para empregá-la na construção de seu palácio.

Eis que o seu ego narcisista desse monarca não tem qualquer limitação e, por isso, não é capaz de cultivar o razoável, o bom senso em sua relação com o mundo. Deméter, a deusa das colheitas, diante desse grave delito, despertou nele, como castigo, uma fome insaciável.

Para satisfazê-la, esse rei passou então a comer tudo o que encontrava em sua volta; depois de destruir a natureza e, assim, o seu próprio reino, como a sua fome não tinha limites, sem qualquer alternativa, ele passou a comer a si mesmo.

Ora, algo parecido com isso o que se delineia no horizonte da sociedade humana no vigésimo primeiro milênio da civilização ocidental que se orgulha de ser racional e livre? Ou será que essa compreensão esconde uma metafísica real, aquela da acumulação insaciável de capital?!

A resenha se encontra aqui: A sociedade autofágica – Um destino inexorável?

A provação política da pandemia

         Para Pierre Dardot e Christian Laval – autores de Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI – a pandemia do Covid-19 está testando a capacidade das organizações políticas e econômicas de lidar com esse tipo de acontecimento. “Com as mudanças climáticas em curso, o que estamos experimentando agora mostra aquilo que aguardará a humanidade em poucas décadas se a estrutura econômica e política do mundo não mudar.”

O que eles reclamam é falta da perspectiva incisiva dos comuns nas lutas sociais por uma nova sociedade. Em seu livro acima mencionado, publicado em 2017,  eles mostraram que o desenvolvimento do capitalismo nas últimas décadas mostrou a necessidade de que os movimentos transformadores visem agora, centralmente, a instituição de comuns como forma de enfrentar o neoliberalismo, ou seja, a ideologia do capitalismo em seu ocaso.

Eles afirmam, agora, no artigo que aqui se publica, que essa demanda se tornou urgente em face das catástrofes sanitárias e climáticas que estão agora pairando ameaçadoramente no horizonte da humanidade.

O texto está aqui: A provação política da pandemia
O artigo foi originalmente publicado em Mediapart, 19/03/20.

Crise estrutural no ocaso do capitalismo

Eis como Murray Smith apresenta o livro O invisível leviatã.

O capitalismo global, com a inclusão da humanidade, enfrenta agora uma crise tripla:

Um aprofundamento da contradição estrutural do modo de produção capitalista, que se manifesta como uma crise multidimensional de “valorização”, isto é, uma crise na produção de “mais-valor”, o elemento vital dos lucros;

Uma crise grave das relações internacionais derivada do fato de que as forças produtivas globais estão rompendo os limites do sistema de estados nacionais; assim, as nações continuam abordando os seus graves problemas de forma principalmente “nacional”;

Uma crescente “crise metabólica” decorrente da contradição entre a civilização humana e as “condições naturais de produção”, isto é, entre o seu modo de apropriação da natureza e os fundamentos ecológicos da sustentabilidade das sociedades.

Juntas, essas três crises inter-relacionadas sugerem que se entrou agora na era do crepúsculo do capitalismo – uma era em que a humanidade terá de encontrar uma ordem social e de organização econômica superior e mais racional ou o capitalismo decadente trará a destruição da civilização humana.

Uma apresentação do livro feita pelo responsável pelo blog se encontra aqui: Crise estrutural no ocaso do capitalismo