O que impulsiona a inflação?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Há várias teorias de inflação. Há também várias pseudoexplicações para o fenômeno inflacionário que vem acompanhando o desenvolvimento do capitalismo no pós-guerra. Pode-se dizer que uma inflação rastejante nunca mais abandonou o capitalismo quando os sistemas monetários perderam a âncora do padrão-ouro. Pode-se lembrar que houve todo um período na década dos anos 1970 do século passado em ocorreu não apenas inflação, mas estagflação.

Aqui vai-se fazer um comentário sobre uma explicação da inflação encontrada numa postagem do famoso historiador econômico inglês, Adam Toose. Apresenta-se, por isso, em sequência um longo trecho traduzido de seu escrito no Chartbook 122, de 17 de maio de 2022.

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Dilema energético: jogo de soma zero

Autor: Cédric Durand – 17/11/2021 – Blog Sidecar da NLR

Em minha recente intervenção no blog Sidecar, desenvolvi o argumento de que as perturbações econômicas desencadeadas pela alta dos preços de energia – especialmente no mercado de gás – podem estar conectadas às políticas climáticas dos governos. Adam Tooze, respondendo em seu Chartbook # 51 , desafia essa tese que chamei de “dilema energético”. O que Tooze rejeita sem ambiguidade é o mote de que as empresas de combustíveis fósseis ocidentais avaliaram a perspectiva de mudanças nas políticas relacionadas ao clima em seu comportamento de investimento e que isso contribuiu para as tensões no lado da oferta que vieram à tona neste outono. Embora eu concorde que evidências mais fortes são necessárias para chegar a uma conclusão definitiva, ainda assim tenho várias reservas sobre o ensaio de Tooze.

No contexto da crise atual, o termo “dilema energético” foi cunhado por Lara Dong, analista da consultoria IHS Markit, que explicou como as autoridades chinesas têm lutado para equilibrar as preocupações ambientais com o carvão com a necessidade de segurança energética. No entanto, esta não é uma ideia nova. Trata-se de uma tese que pode ser rastreada desde a década de 1970, quando os especialistas se tornaram cada vez mais conscientes da tensão entre alcançar o fornecimento de energia confiável e acessível e limitar o impacto prejudicial do crescente consumo de combustível fóssil. Em 2010, o geógrafo Michael J. Bradshaw produziu uma formulação sistemática do dilema apresentando-o em “Global Energy Dilemmas: A Geographical Perspective”. Nesse escrito, perguntou: “é possível ter a energia necessária para o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, gerenciar a transição para um sistema de energia de baixo carbono necessário para evitar mudanças climáticas catastróficas?

Tooze, em sua peça, apresenta a tese do “dilema da energia” da seguinte forma: “o boato que continua circulando é que o déficit de oferta está diretamente ligado à política climática. Muita conversa sobre a “zeragem líquida” desencorajou os investidores de combustíveis fósseis, resultando em menor investimento, oferta restrita e vulnerabilidade a choques de demanda.

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Dilema energético: outra explicação

No texto em sequência Adam Toose contesta a tese de Cédric Durand de que uma contradição – a acumulação de capital requer elevação da oferta de energia, mas a crise climática opera para diminui-la – está presente na transição energética. Num poste a ser brevemente publicado, Cédric Durand fornece a sua resposta.

Autor: Adam Toose, 20/11/2021, Chartbook

Em 2021, os preços da energia em todo o mundo dispararam dando origem ao boato sobre a existência de uma “crise energética”.

Por que a oferta de carvão, petróleo e gás ficou tão aquém da demanda? Depois de um artigo no New Statesman e uma troca de ideias com Richard Seymour, volto à questão novamente. E não apenas porque a indústria de energia é complicada e fascinante, mas porque a resposta que dei é crucial para localizar onde se está na batalha pela transição energética.   

O boato que continua a circular é que a escassez de oferta está diretamente ligada à política climática. Muita falação sobre uma “zeragem líquida” desencorajou os investidores em combustíveis fósseis, resultando em menor investimento, oferta restrita e vulnerabilidade a choques de demanda. Essa ideia tem uma atração óbvia para os lobistas dos combustíveis fósseis, que podem usá-la para argumentar que a transição energética deve ser adiada. Mas também tem tração na esquerda, como argumentado mais recentemente e explicitamente em Cédric Durand em um ensaio intitulado “dilema de energia” no blog Sidecar da New Left Review. Aí ele escreve:    

O capitalismo já está experimentando o primeiro grande choque econômico relacionado à transição além do carbono. O aumento nos preços da energia se deve a vários fatores, incluindo uma recuperação desordenada da pandemia, mercados de energia mal projetados no Reino Unido e na EU, os quais exacerbam a volatilidade dos preços, assim como a disposição da Rússia em garantir sua receita de energia de longo prazo. No entanto, em um nível mais estrutural, o impacto dos primeiros esforços feitos para restringir o uso de combustíveis fósseis não pode ser negligenciado. Devido aos limites do governo à queima de carvão, além da crescente relutância dos acionistas em se comprometer com projetos que poderiam estar obsoletos em trinta anos, o investimento em combustível fóssil tem caído. Embora esta contração da oferta não seja suficiente para salvar o clima, ela se mostra capaz de abalar o crescimento capitalista.   

A atração desse tipo de argumento para um teórico da crise de tendência marxista é óbvia. Contém em si o anel de uma contradição da qual se poderia derivar um modelo geral de crise. Ele também apareceu um surpreendente número de vezes nas páginas do Financial Times. Pois se trata de um cenário aparentemente plausível. Mas, enquanto relato da crise de energia de 2021, é fundamentalmente enganoso. Atribui demasiada influência à política climática e confunde a dinâmica básica de investimento no setor.

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Do keynesianismo ainda

Publica-se nesse post a tradução para o português de uma terceira resenha do livro In the long run we are dead (No longo prazo estaremos todos mortos) de Geoff Mann que trata do keynesianismo e de sua importância histórica como posição diante do evolver inquieto do capitalismo.

Como se sabe, o keynesianismo se apresenta como uma alternativa de política econômica que se contrapõe às correntes liberais que minimizam ou pretendem minimizar o papel do Estado no provimento do emprego no sistema econômico como um todo.

Trata-se de uma resenha feita pelo historiador britânico Adam Toose que tem, como se sabe, uma enorme simpatia pelo keynesianismo. A grande interrogação que ele nos apresenta é a seguinte: “enquanto o mundo derrete diante de nossos olhos [devido às mudanças climáticas], o que o gerencialismo keynesiano tem a oferecer aos nossos filhos e netos?

De qualquer forma, ela aponta a China pós Mao como o país em que ainda estão sendo aplicadas as lições do keynesianismo, aliás, como enorme sucesso – ainda que esse sucesso não esteja isento de graves problemas ambientais, econômicos e sociais e que seja da modalidade autoritária.

A tradução se encontra aqui: Tempos tempestuosos