O que impulsiona a inflação?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Há várias teorias de inflação. Há também várias pseudoexplicações para o fenômeno inflacionário que vem acompanhando o desenvolvimento do capitalismo no pós-guerra. Pode-se dizer que uma inflação rastejante nunca mais abandonou o capitalismo quando os sistemas monetários perderam a âncora do padrão-ouro. Pode-se lembrar que houve todo um período na década dos anos 1970 do século passado em ocorreu não apenas inflação, mas estagflação.

Aqui vai-se fazer um comentário sobre uma explicação da inflação encontrada numa postagem do famoso historiador econômico inglês, Adam Toose. Apresenta-se, por isso, em sequência um longo trecho traduzido de seu escrito no Chartbook 122, de 17 de maio de 2022.

O que impulsiona a inflação segundo Adam Toose?

O aumento dos preços continua a dominar as manchetes. O impacto nos orçamentos familiares é sentido sobretudo pelos menos favorecidos. Fala-se de uma crise de custo de vida que está tendo impactos na saúde pública. Enquanto isso, o medo de uma inflação persistente e acelerada domina a agenda de política monetária. Os bancos centrais estão encerrando suas compras de ativos e aumentando as taxas de juros.

Mas o que realmente está impulsionando a inflação atual?

Em ambos os lados do Atlântico, os analistas estão ocupados decompondo a fonte dos aumentos de preços. Os resultados são impressionantes. Para os EUA, Josh Bivens, do Economic Policy Institute, comparou os fatores que impulsionaram o crescimento dos preços unitários entre 1979 e 2019 com aqueles que contribuíram para a inflação nos EUA desde o segundo trimestre de 2020.

Considerando que, nas últimas décadas, os custos unitários do trabalho (salários/produtividade) representaram 62% dos aumentos de preços e os lucros corporativos por apenas 11,4%, com custos de insumos não trabalhistas (como energia) representando o restante, desde 2020 o saldo tem sido invertido.

Desde o choque do COVID em 2020, os salários representaram menos de 8% dos aumentos de preços nos EUA, em comparação com os lucros corporativos que representaram quase 54%. Os custos de insumos, principalmente energia, foram responsáveis por 38%. Ora, por mais impressionantes que sejam, esses dados são consistentes com o fato de que os salários reais (salários nominais ajustados pela inflação) nos EUA caíram desde 2021.

Comentário

Antes de apresentar um comentário breve sobre essa suposta “explicação” para a inflação nos Estados Unidos entre 2021-2022 e entre 1979-2019, é preciso mostrar como é feito esse tipo de decomposição. Veja-se que os valores das mercadorias, simples ou agregados, sempre podem ser apresentados como uma soma dos custos dos meios de produção mais o custo dos salários e do lucro. Considerem-se os seguintes pesos na composição do custo total: peso dos meios de produção (Hm), peso dos salários (Hs) e peso do lucro (Hl). Então, a seguinte decomposição valor total é válida:

Ora, o que se encontra no gráfico apresentado por Adam Toose é o resultado do uso desse tipo de decomposição, como base em informações adequadas, para os dois períodos mencionados. Para obter as percentagens, é evidente, basta ter os índices de preço para os três componentes do preço monetário total (indicados por Pm, Ps, Pl), assim como o próprio índice de preços (P).

No período longo mostrado pelo gráfico – confira-se agora – o custo salarial está sendo responsabilizado pela elevação da inflação. Eis que a contribuição do custo salarial chega a quase 62%.. Mas, no período curto, ou seja, no período mais recentes, quem supostamente responde pela inflação são os lucros. Pois, o custo o salarial responde por 7,9% enquanto que o lucro responde por 53,9%.

É bem evidente que essa decomposição fornece uma informação interessante sobre o andamento da composição em valor monetário da receita bruta das empresas coorporativas dos Estados Unidos, ou seja, da repartição funcional desse valor ocorrida durante os intervalos de tempo mencionados. No período mais longo, os salários cresceram mais rápido do que os lucros e, no período mais recente, isso se inverteu.

Note-se, no entanto, que não há realmente explicação alguma para a inflação nesse tipo de decomposição. O que Adam Toose, assim como os economistas do Economic Policy Institute, chamam de explicação – e explicação envolve necessariamente causalidade – não passa de uma tautologia; no entanto, no entender desses autores, sugere-se que preços explicam preços.

A explicação real para o aumento dos lucros no período recente está ligada, simplesmente, às restrições de oferta devido ao rompimento das cadeias produtoras de mercadorias da economia globalizada. Quando há restrições de oferta, as empresas capitalistas elevam os preços para conseguirem dar conta da demanda.

Em geral, a causa geradora da inflação são as decisões de elevação de preços das empresas capitalistas oligopólicas. Elas o fazem não apenas quando há restrições de oferta, mas também quando observam que as taxas e das margens de lucro obtidas lhes parecem insuficientes. Se estas estão em níveis muito baixos, por exemplo, diante de impulsos da demanda, elas preferem aumentar os preços do que elevar a quantidade a ser produzida.

Veja-se que no parágrafo acima apenas se fez uma referência a uma das teorias mais relevantes de inflação encontradas na literatura. Ela está apresentada com todo rigor que o tema exige, por Anwar Shaikh, em sua obra magna Capitalism, de 2016.


[1] Professor aposentado da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blog na internet: https://eleuterioprado.blog.