Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

Ocaso e fantasia: uma globalização melhor?

Autor: Eleutério F. S. Prado

Dani Rodrik é um economista e professor renomado que trabalha na Escola de Governo da Universidade de Havard. De origem turca, mas radicado nos Estados Unidos onde obteve o seu doutorado, trabalha nos temas da globalização, do crescimento econômico e da economia política administrativa. Recentemente, escreveu um artigo de divulgação em que apresenta a sua crença otimista de que das “cinzas da globalização” – que ele agora chama de hiperglobalização! – “pode surgir uma globalização melhor”. [1] Ora, supõe assim que uma globalização virtuosa possa vir superar uma globalização agora vista como desencaminhada, supostamente viciosa! Será?

Para encontrar uma resposta para essa dúvida não hiperbólica é preciso olhar seguramente para a história da taxa de lucro mundial do pós-guerra até o presente (apresentada na figura abaixo por meio de uma variável proxy, qual seja ela, a taxa de lucro média dos países do G20). Ela mostra, sem ilusão, que o capitalismo se encontra numa trajetória de declínio em nível global. 

Rodrik, porém, prefere não pensar nessa evidência empírica que comprova de algum modo a tese dos economistas clássicos e de Marx sobre a tendência declinante da taxa de lucro. Ora, como ele argumenta em favor de uma “globalização virtuosa” vista como possível? Será que esse momento feliz estaria esperando nas fórmulas abstratas da “melhor teoria” para ser implementada por meio de políticas econômicas “corretas”?

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A inciência e a inflação

Jayati Ghosh lamenta a incapacidade da profissão de economista de pensar além de análises grosseiras da inflação – e de políticas grosseiras para contê-la. Mas donde vem essa inciência? Qual a sua condição estrutural?

Autora: Jayati Ghosh; publicado em Social Europe, 25/07/2022

A onda inflacionária tem revelado várias coisas sobre os governos atuais, mas também, de forma mais patente, sobre os economistas. O número de economistas e, consequentemente, de formuladores de políticas, que permanecem presos à ideia inflexível de que a inflação resulta de uma política monetária muito frouxa – e que, portanto, os bancos centrais devem restringir a oferta de dinheiro e aumentar as taxas de juros – é enorme. Trata-se de algo que John K. Galbraith teria chamado de “sabedoria convencional”.

Mas isso está errado. As causas da inflação variam de acordo com o contexto e o período. Uma política monetária mais rígida é uma ferramenta perigosa que corre o risco de gerar recessão e desemprego – prejudicando ainda mais os trabalhadores do que os próprios aumentos de preços. Mas essa política não causa apenas sofrimento humano, pois, se os motores da inflação forem outros, reduzir o excesso de demanda supostamente culposo não resolverá o problema.

Esses fatos óbvios parecem quase esquecidos na discussão convencional. Até o respeitado economista Olivier Blanchard, em uma série de tweets, sugeriu que o aumento do desemprego era a única maneira de controlar a inflação. O problema, aparentemente, era como fazer com que os trabalhadores entendessem e aceitassem isso:

Um pensamento que luta contra a inflação, segundo ele, enfrenta certas crenças:

1. Quando a inflação vem de superaquecimento, é difícil convencer os trabalhadores de que a economia precisa desacelerar e que o desemprego precisa aumentar para controlar a inflação, mas pelo menos a lógica pode ser explicada;

2. Quando a inflação vem de um aumento nos preços de commodities e energia, é ainda mais difícil convencer os trabalhadores de que o desemprego deve aumentar para controlar a inflação. “Por que eu deveria perder meu emprego se foi Putin que invadiu a Ucrânia?” – pensam eles;

3. Isso dificulta muito o trabalho e a estratégia de comunicação dos bancos centrais.

Não aceite, caro leitor, a afirmação altamente problemática de que “o desemprego tem que aumentar para controlar a inflação”; ela foi efetivamente refutada, conceitual e empiricamente, nas últimas duas décadas. Considere, ademais, a possibilidade de que o motor dos aumentos de preços não vem a ser o “excesso de demanda” ou fas exigências feitas pelos trabalhadores para elevar os salários. A causa geradora de inflação não é “eles não estão sendo adequadamente “disciplinados” pelo desemprego”. Ela se encontra na especulação corporativa, juntamente com a especulação financeira nos mercados de commodities.

Há boas razões para acreditar que este é o caso, especialmente nos mercados globais e nas economias avançadas. Em muitos países de renda baixa e média, as causas da inflação são mais complexas e vêm principalmente de fatores de aumento de custos, incluindo inflação importada de preços globais e depreciações cambiais.

Lucro corporativo

Nos Estados Unidos, por exemplo, o Economic Policy Institute mostrou que o aumento dos lucros corporativos contribuiu desproporcionalmente para a inflação. Do segundo trimestre de 2020 ao último trimestre de 2021, os lucros corporativos foram responsáveis por 54% da inflação geral – um aumento dramático em relação aos 11% que representaram nas quatro décadas anteriores (1979-2019).

Em contraste, os custos unitários do trabalho foram responsáveis por menos de 8% da inflação, em comparação com 62% nas quatro décadas anteriores. De fato, por causa dos recentes aumentos de preços, o valor real do salário-mínimo federal está agora em seu ponto mais baixo em 66 anos! A contribuição dos custos de insumos não trabalhistas – as famosas “quebras das cadeias de suprimentos” tão amplamente divulgadas – foi de 38%, em comparação com 27% no período anterior.

A capacidade das empresas de aumentar as margens de lucro pode advir do aumento da demanda. A demanda reprimida de famílias que foram incapazes de gastar muito durante a pandemia pode ter tido algum efeito, especialmente devido aos grandes estímulos fiscais de sucessivas administrações dos EUA.

Mas um papel muito maior foi desempenhado pela crescente concentração e poder de monopólio na indústria. Os lucros corporativos massivamente aumentados foram mais evidentes em energia, alimentos e produtos farmacêuticos, já que a escassez de oferta resultante da guerra na Ucrânia se tornou uma desculpa conveniente para aumentos desproporcionais de preços.

Forte preditor

As pesquisas do Roosevelt Institute mostram que, em 2021, as empresas nos EUA aumentaram suas margens e lucros no ritmo anual mais rápido desde 1955, levando ambos aos seus níveis absolutos mais altos desde a próspera década do pós-guerra. Os pesquisadores observam que as margens de lucro antes da pandemia foram um forte preditor de aumentos de margem em 2021, tornando o poder de mercado um fator significativo da inflação.

Embora a percepção pública de que a atual crise alimentar possa gerar choques de oferta relacionados à guerra, na verdade, foi o comportamento das empresas é que se mostraram mais significativos. As principais agroindústrias de comércio de grãos experimentaram aumentos dramáticos na lucratividade em janeiro-março de 2022. Elas aumentaram os seus preços sem serem questionadas – pois todos os observadores fizeram a suposição de que isso ocorria em face da escassez causada pela guerra.

A especulação financeira, tal como ocorre nos mercados futuros de trigo, elevou os preços mesmo nos mercados à vista; o recente declínio nos preços do trigo, por sua vez, reflete de forma semelhante as mudanças nos contratos futuros. Ora, isso é típico de bolhas especulativas, que, embora muitas vezes impulsionadas por notícias, também tendem a ser afetadas pelo comportamento de rebanho – e não pelos eventos do mundo real.

Esse aumento da atividade especulativa é confirmado pelo importante trabalho de Agarwal, Lei Win e Gibbs. Eis que eles acompanharam as atividades de investidores financeiros (fundos de investimento em particular) em mercados de commodities. Eles descobriram que, por exemplo, “no mercado de trigo para moagem de Paris, a referência para a Europa, a participação dos especuladores nos contratos futuros de trigo do lado da compra aumentou de 23% do interesse aberto em maio de 2018 para 72% em abril de 2022”. Da mesma forma, em maio de 2022, as chamadas posições longas dos especuladores (posições de compra) constituíam mais de 50% do incremento de preços nas variedades de trigo “hard e soft red winter

Ação regulatória

Se os recentes aumentos dos preços globais – que se traduzem em inflação de grau variado em diferentes países – são impulsionados por tais fatores, então a resposta da política deveria ser muito diferente do uso do instrumento perigoso da política monetária agregada. Em vez disso, deveria se concentrar em ações regulatórias para conter o poder de monopólio e a especulação financeira.

A tributação de lucros excedentes pode ser um impedimento para tal comportamento no futuro, mas ações específicas para controlar os preços de commodities estratégicas também têm um papel, como observou Isabella Weber. Aqueles que criticaram tais políticas parecem desconhecer tanto a história quanto a experiência mais ampla.

A escassez de pensamento criativo sobre as causas e respostas à inflação reflete o estado lastimável da disciplina econômica. É provável que isso tenha consequências graves, econômicas e politicamente.

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Jayati Ghosh é professora de economia na Universidade de Massachusetts, em Amherst, e secretária executiva da International Development Economics Associates. Ela é membro da Comissão Independente para a Reforma da Tributação Corporativa Internacional e do Conselho Consultivo de Alto Nível do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Multilateralismo Efetivo.

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Morrer de tanto verde!

Autores: Sandrine Aumercier [1] e Frank Grohmann [2]

Fonte: Blog Grundrisse – Psychanalyse et capitalisme

Durante os últimos anos, não se passou um dia sem que a mídia nos falasse sobre a crise climática. Temperaturas sem precedentes, estado de emergência no norte da Itália, incêndios incontroláveis, seca de rios e estresse hídrico, agricultura seriamente afetada, aumento da fome no mundo etc. É agora normal nos atormentar com o catálogo dos desastres climáticos; até mesmo os céticos do clima estão expostos a essa punição normalizada.

Ora, até quando ainda vamos aceitar essa forma de terror, que apresenta quase como um fato consumado a destruição das bases da vida? Até quando será “possível” viver sem estremecer sob a ameaça da eclosão de um conflito nuclear?

Ao mesmo tempo, à direita ou à esquerda, todos se gabam de um aumento da “consciência climática” e voluntariamente acrescentam sua voz ao coro das lamentações e das recomendações. Os patrões franceses das empresas fornecedoras de energia estão até se dividindo: enquanto uns apelam para cortar o consumo privado, outros castigam seus lucros; os governos nesse entretempo estão buscando algum tipo de equilíbrio.

Ao mesmo tempo, a invasão russa da Ucrânia levanta a questão da “independência energética”. Não passa um dia sem que este tema apareça também nas manchetes. Anuncia-se a moralização direcionada dos suprimentos, grandes mudanças na política energética e incitações hipócritas à sobriedade. As propagandas de sorvete devem ser acompanhadas, como se sabe, de uma recomendação de consumo de “cinco frutas e verduras por dia”. Do mesmo modo, não está longe o momento em que todo incentivo ao consumo será acompanhado de um incentivo à sobriedade no consumo.

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Acabou o impulso de globalização?

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 27/04/2022

Além da inflação e da guerra, o que atrai o pensamento econômico atual é o aparente fracasso do que a teoria econômica mainstream aprecia chamar de “globalização”. O que ela quer dizer com esse termo? Refere-se à expansão livre do comércio e do fluxo de capital através das fronteiras. Em 2000, o FMI identificou quatro aspectos básicos da globalização: comércio e transações, movimentos de capitais e investimentos, migração e circulação de pessoas e disseminação do conhecimento. O seu perfil atualmente se apresenta assim:

Todos esses componentes aparentemente se expandiram a partir do início da década de 1980 como parte da reversão neoliberal das políticas nacionais de macrogestão anteriormente seguidas. Ditas keynesianos, elas eram adotadas por governos no ambiente da ordem econômica mundial de Bretton Woods (isto é, sob a hegemonia dos EUA). A nova regra agora era quebrar as barreiras tarifárias, cotas e outras restrições comerciais, permitindo assim que as multinacionais negociassem “livremente” e transferissem os seus investimentos no exterior, ou seja, para áreas de mão de obra barata, com a finalidade de aumentar a lucratividade. Isso levaria à expansão global e ao desenvolvimento harmonioso das forças produtivas e ao crescimento dos recursos do mundo – pelo menos era o que se afirmava então.

Não havia nada de novo nesse fenômeno. Desde que o capitalismo se tornou o modo de produção dominante nas principais economias, já em meados do século XIX, houve períodos de aumento do comércio internacional e de exportação crescente de capital. Em 1848, os autores do Manifesto Comunista notaram o aumento no nível de interdependência nacional trazido pelo capitalismo e previram o caráter universal da sociedade mundial moderna:

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Crítica do sujeito moderno e crítica da economia política

Notas sobre o método da crítica

Autora: Sandrine Aumercier – Blog Pslim-Psao – Publicado em 18/06/2022

Em busca de um conceito político de psicanálise

Por que é tão difícil falar de Psicanálise em Economia Política? Farei algumas considerações de método sobre essa questão. Freud nunca se perguntou se a psicanálise deveria evitar falar sobre sociedade, civilização ou fenômenos coletivos: para ele, isso era evidente e constituía uma parte muito importante de seu trabalho. É até incrível o quanto ele nunca deixou de trazer essa questão de volta à tona.

O seu problema era saber se os conceitos resultantes da cura individual eram adequados teoricamente. Ele não estava satisfeito com as analogias que tinha que produzir, nem com certos discursos transculturais. É necessário notar uma aporia em sua investigação: se trata da autonomização do desenvolvimento cultural, é obrigado ao mesmo tempo a se referir a um fenômeno orgânico. Ele permanece, portanto, dependente de uma visão historicista, imperialista e lamarckiana característica de seu tempo. Por isso, os termos de Freud não são mais nossos, ainda que ele lance as bases para uma teorização psicanalítica dos processos culturais.

Se Lacan rompe com a herança do Iluminismo, a sua teorização do coletivo também não se envolve em profundidade com a crítica da economia política. O eco fantástico de algumas referências de Lacan a Marx não vem a ser uma salvação. Lacan, aliás, nunca desenvolveu as suas intuições e hoje elas parecem requerer uma releitura de Marx por quem as examina. Porém, o nome de Lacan não é uma garantia.

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Negacionismo in extremis

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Pouca gente acredita que se vive atualmente o ocaso do capitalismo e, talvez, o fim da história. Ao ser mencionada, a tese recebe frequentemente um sorrisinho de descaso como se autor fosse apenas um órfão do socialismo que não consegue ver a pujança e a dominância do sistema realmente existente. Julga-se que a previsão apocalíptica vem de alguém que espera o colapso do capitalismo para que se realize, como um milagre, a utopia milenar de uma sociedade em que as contradições estruturais e os conflitos manifestos foram abolidos.

Será? Eis como Murray Smith, o autor de Twilight capitalism caracteriza a situação atual da humanidade: “o capitalismo vai logo terminar – seja por um esforço consciente dos trabalhadores do mundo como um todo para substitui-lo por uma ordem social e uma organização econômica mais sustentável ou o capitalismo vai destruir a humanidade”. Veja-se: essa tese está fundamentada na própria natureza do capitalismo: ele se move pelo lucro e só pelo lucro e, para tanto, em consequência, não pode parar de explorar os trabalhadores e a natureza.

O capitalismo pode ser salvo de sua força evolutiva que se transformou já de predominantemente criativa em predominantemente destrutiva? O capital vai superar ainda as barreiras que ele própria cria como previu Marx em O capital? Reformadores keynesianos, seguidores de Karl Polanyi, marxistas, assim como outros, parecem acreditar que sim: os planos de salvamento não param de sair dos computadores para se instalar na internet e, assim, viajar pelo mundo. Ficam quase sempre aí nesse repositório do imaginário social concreto já que não podem se transformar em políticas econômicas efetivas.

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Eis como Lacan se serve de Marx

O artigo apresentado em sequência, de Frank Grohmann, apesar de difícil compreensão, mostra como o personalismo insuportável de Jacques Lacan cria uma enorme confusão ao tentar de se apropriar de frases de Marx para sustentar tanto a sua teoria do significante quando a sua hipótese do “estágio do espelho”.

Título original: Entre um casaco e 10 varas de linho: o problema do equivalente

Autor: Frank Grohmann – Artigo publicado no Blog Palim-Psao em 3 de março de 2022

A menção que se segue à obra de Karl Marx feita por Jacques Lacan em um de seus seminários, que então se realizava há cinco anos, apresenta boas razões para merecer nossa atenção.

É disso que se trata; eis o que quero apresentar no final da lição de hoje; é assim que a introduzo: a metonímia é propriamente o lugar onde devemos situar esse algo primordial, mas também essencial da linguagem humana na medida em que é possível apreendê-la. Ao contrário, a dimensão do sentido, ou seja, a diversidade desses objetos já constituídos pela linguagem em que se introduz o campo magnético do desejo de cada um, com as suas contradições. Eis a resposta que apresentei anteriormente, essa coisa outra que talvez pareça paradoxal, que é a dimensão do valor.

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Estagflação renitente

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Uma das contradições que sustentam a tese do ocaso do capitalismo se encontra na geopolítica do capital ou, o que é o mesmo, nas relações de concorrência – cooperação e competição – dos estados nacionais que formam a atual economia globalizada. O desenvolvimento das “forças produtivas” – diz Murray Smith em Invisible Leviathan[2] – “extrapolou os confins do sistema de estados-nações, mas são ainda as nações individuais que enfrentam os graves problemas”, isto é, os problemas causados pelo próprio processo contraditório de acumulação de capital.  

Eis alguns deles: a emergência climática, as pandemias, a poluição dos oceanos, a manutenção das cadeias da produção de mercadorias, a inflação global etc. Nesta nota quer-se tratar apenas do processo de estagflação que aparece agora como um fenômeno renitente e duradouro da produção capitalista. Baixo crescimento com inflação está aí como um novo “normal” que vai continuar assombrando o futuro das economias capitalistas em geral. Mas, para fazê-lo, é preciso dar dois passos iniciais com a finalidade de enquadrar esse fenômeno em suas condições objetivas.

O primeiro deles consiste em apresentar o atual estágio do processo de expansão da mundialização do capital. Um indicador desse processo histórico se encontra na figura abaixo; ele mostra graficamente a evolução da razão entre as exportações mundiais totais e o PIB mundial. Aparecem nesse perfil, notoriamente, três ondas de globalização que marcam a história do capitalismo: entre 1870 e 1914, entre 1945 e 1980 e entre 1980 e 2008; assim como, também, um período de desglobalização entre 1914 e 1945. Em adição, o gráfico indica o surgimento de um novo período de contração do comércio internacional, o qual ocorre após a grande crise de 2008.

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A inflação em curso e as suas causas

Autor: Nick Johnson

Blog The Political economy of development – em 30/05/2022

Eu postei algumas vezes este ano, neste blog, sobre o tema inflação. Expressei uma insatisfação com as abordagens mainstream e com uma variedade de teorias keynesianas (incluindo a Teoria Monetária Moderna ou MMT). Recentemente, isto me levou a revisitar algumas teorias mais radicais, mas também mais ricas e, em adição, mas realistas. Penso que as abordagens marxistas são mais adequadas ao fenômeno e à sua essência. Comecei com Robert Rowthorn, professor da Universidade de Cambridge, cuja principal contribuição sobre a inflação remonta à década de 1970.

Na época, muitas das economias avançadas estavam passando por estagflação (desemprego e inflação subindo juntos). O consenso social-democrata keynesiano sobre a política econômica estava sendo minado, tanto por eventos econômicos, mas também teoricamente, com o surgimento de ideias neoclássicas, pré-keynesianas, que tomaram a forma do monetarismo de Milton Friedman e depois a nova macroeconomia clássica incorporando expectativas racionais.

Não é o objetivo deste post revisar todas as teorias alternativas de inflação. Eu apenas quero estabelecer uma abordagem marxista, com base em Rowthorn, mas também nas ideias de Anwar Shaikh de seu livro Capitalism de 2016, bem como alguns outros economistas marxistas como Ben Fine da SOAS e Alfredo Saad-Filho do King’s College, Londres. Há uma sobreposição substancial entre as ideias desses autores sobre a inflação.

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A clínica psicanalítica é política

Autor: Samo Tômsic [1]

Este livro [2] desenvolve ainda uma linha de pensamento adotada num volume anterior.[3] Trata-se de uma discussão em curso sobre a atualidade da psicanálise para fazer uma crítica ao modo de gozo historicamente introduzido e imposto pela organização capitalista do trabalho social e da vida social, bem como do pensamento em geral. Minha preocupação tem se voltado para os esforços freudianos e lacanianos para elaborar algo que poderia ser chamado de crítica da economia libidinal.

Esta última, pode-se argumentar como base no envolvimento de Jacques Lacan com Karl Marx, pode ser considerada um componente essencial da crítica da economia política. Gostaria de iniciar o presente estudo referindo-me ao modo como o próprio Lacan definiu o significado político de sua disciplina:

A intrusão no político só pode ser feita reconhecendo que o único discurso existente, e não apenas o discurso analítico, é o discurso do gozo, pelo menos quando se espera dele o trabalho da verdade”.[4]

Nesta observação densa e, seguramente, um tanto enigmática, a primeira palavra já chama nossa atenção.

A psicanálise entrou na esfera do político como um intruso, um convidado não convidado ou mesmo um encrenqueiro, que perturbou o sono dos habitantes desse mundo e, portanto, encontrou resistência. No entanto, essa intrusão crítica não veio de fora, de algum lugar exterior aparente. Ocorreu mais como uma ruptura imanente ou como um curto-circuito que expôs algo inerente ao cerne da política, algo que até então permanecia desconsiderado: o papel problemático do gozo na constituição dos vínculos sociais e na reprodução das relações de poder.

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