Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

Capitalismo subsidiado

O Estado, hoje, é uma grua que levanta um capitalismo arruinado

Autor: Paul Sweeney [1], Social Europe, 6/10/2022

Para lidar com a crise climática, os governos devem reconhecer que apenas o Estado foi capaz de conter as crises nas três últimas crises.

Eventos climáticos extremos, como as inundações no Paquistão, que deixam um enorme número de mortes e espalham miséria em seu rastro, tornam a crise climática uma ameaça existencial.

Houve uma transformação revolucionária do capitalismo, o sistema econômico ocidental, em pouco mais de uma década. Quatro eventos extraordinários demonstraram que, na maioria dos países, a relação entre o Estado e o mercado se transformou, alterando radicalmente o sistema econômico. O impacto na política está sendo sentido, mas ainda não foi totalmente reconhecido, especialmente pelos progressistas.

A primeira grande mudança foi a resposta dos Estados-nação ao colapso em 2008 do modelo de neoliberalismo – atores “racionais” operando em mercados “livres” – com a crise financeira. O resgate estatal de empresas financeiras privadas custou grandes somas aos contribuintes de todos os países. No Reino Unido, o National Audit Office colocou o resgate dos bancos em £ 1 trilhão em seu pico. Nos Estados Unidos, entre muitas estimativas, foi adiantado um valor de US$ 500 bilhões. Quanto à Irlanda, custou € 64 bilhões – mais que o dobro da receita tributária total em 2010 – para resgatar seus bancos.

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Prêmio Nobel ou Prêmio Ignóbil

Segue-se abaixo uma análise crítica, mas ainda convencional, da teoria imprestável dos fundos emprestáveis que deveria estar morta há cerca de um século, mas que sobrevive na cabeça dura de alguns economistas do sistema. E que ainda dá prêmio para os mais distinguidos dentre eles por terem cargos na administração do capitalismo.

Autor: Peter Bofinger [1]

Fonte: Europa Social – 17/10/2022

O Prêmio Riksbank deste ano em ciências econômicas em memória de Alfred Nobel homenageia Ben Bernanke, Douglas Diamond e Philip Dybvig. Na opinião da Real Academia Sueca de Ciências, os laureados “melhoraram significativamente nossa compreensão do papel dos bancos na economia”. Em minha opinião, trata-se, na verdade, de um prêmio para um “erro popular”.

Mas qual é o papel dos bancos na economia? A academia descreve assim esse papel: “Para entender por que uma crise bancária pode ter consequências tão enormes para a sociedade, precisamos saber o que os bancos realmente fazem: ora, eles recebem dinheiro de pessoas que fazem depósitos e o canalizam para os mutuários”. De acordo com essa visão, os bancos são, portanto, puros intermediários ou negociantes de poupança entre as famílias poupadoras e as empresas investidoras. É uma visão amplamente difundida na economia hoje, mas há muito tempo existe uma teoria completamente diferente da função dos bancos.

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A crítica frommiana da noção de “pulsão de morte”

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Em postagem anterior, procurou-se entender melhor a categoria psicanalítica de “pulsão de morte” tal como aparece na literatura mais recente, a qual tem feito um esforço contínuo para depurá-la de suas imprecisões.  Como foi visto nessa resenha, essa noção – e isso é algo bem conhecido – é bem ambígua e controversa; os psicanalistas em geral divergem não só quanto ao seu significado, mas também se ela deve ser acolhida ou não como válida no próprio corpo da teoria. Para apresentar uma crítica dessa suposta categoria, vale-se aqui de uma sua apresentação feita por Christian Dunker:

A hipótese mais especulativa de Freud, como cientista e materialista, consistiu em dizer que a vida é um parêntese entre dois estados inorgânicos. Por isso, haveria uma tendência de retorno ao estado anterior que explicaria o aparentemente gosto irracional do humano pela repetição, mesmo quando isso implica em dor, desprazer e morte.[2]

A pulsão de morte, portanto, está ligada às repetições compulsivas das experiências traumáticas. Manifesta-se, portanto, como um desejo de aniquilamento, de destruição seja de si mesmo seja dos outros. Por isso mesmo, a própria existência da sociedade dependeria de sua contenção, de seu enceramento dentro de limites.

A pulsão de morte explicaria por que parte substancial de nossa cultura, de nosso brincar e de nossos laços sociais depende de certa administração da agressividade e, portanto, da contenção, mas também da participação, de nosso gosto por destruir.[3]

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Como as finanças comandam o capitalismo

Autor: Pete Dolack,

Outras Palavras, 20/09/2022 – Counterpunch | Tradução: Vitor Costa

As dimensões do setor financeiro não têm relação com a economia. Deixando de lado a retórica, ele confisca, ou seja, não cria dinheiro. Quanto? Vale examinar alguns números: valor total das dívidas: US$ 305 trilhões; valor total de papéis financeiros negociados, em média, por dia: US$ 9,68 trilhões.

É muito dinheiro. Tanto que a imaginação tem dificuldades para compreender tais números. Uma maneira de enxergá-los em perspectiva é lembrar que o tamanho da economia mundial (produto interno bruto global para todos os países do mundo) foi de US$ 96,1 trilhões em 2021.

Em outras palavras, o volume de negociação de moedas (câmbio), ações, títulos e seus derivativos supera o tamanho da economia global a cada 10 dias úteis. (O período é quase certamente um pouco mais curto, já que os US$ 9,68 trilhões, média diária de negociação, não incluem a maior parte dos títulos dos Estados, cujo valor negociado é difícil de obter.) Para fazer outra comparação, o valor da dívida dos governos, empresas e famílias do mundo (o total de US$ 305 trilhões acima) é mais de três vezes e meia o valor de toda a atividade econômica produzida em um ano.

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Terapia de choque na economia mundial

Autor: Michael Roberts

Blog The next recession – 10/10/2022

O termo “terapia de choque” foi usado para descrever a mudança drástica de uma economia planejada, baseada na propriedade estatal, existente na antiga União Soviética, para um modo de produção capitalista integral, em 1990. Eis que produziu uma grande queda nos padrões de vida, por uma década.

O termo “doutrina do choque” foi usado por Naomi Klein para descrever a destruição dos serviços públicos e do estado de bem-estar pelos governos a partir da década de 1980. Agora, os principais bancos centrais estão aplicando uma “terapia de choque” na economia mundial: estão aumentando as taxas de juros com a intenção de controlar a inflação, mesmo se há uma crescente evidência de que isso levará a uma recessão global no próximo ano.

Veja-se o que dizem alguns de seus porta-vozes. Chris Waller, membro do conselho do Federal Reserve deixou bem claro essa intenção ao afirmar que “não estou pensando em desacelerar ou interromper os aumentos das taxas devido a preocupações com a estabilidade financeira”. Portanto, mesmo que o aumento das taxas de juros comece a abrir fissuras nas instituições financeiras e em seus ativos especulativos, isso não importa.

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Eis aí a crise da dívida estagflacionária

Autor: Nouriel Roubini [1] – Site Project Syndicate – 3/10/2022

A Grande Moderação {N.T. período que vai de 1982 a 2008, caracterizado por baixa inflação e crescimento razoável] deu lugar à Grande Estagflação. Esta última está se diferenciando pela instabilidade e por uma confluência de choques de oferta negativos e em câmera lenta. Os mercados de ações nos EUA e no mundo já estão em baixa, mas a escala da crise que se espera ainda não foi totalmente precificada.

Há um ano venho argumentando que o aumento da inflação será persistente e que as suas causas incluem não apenas más políticas, mas também choques negativos de oferta; ora, a tentativa dos bancos centrais de combatê-la causará um pouso econômico duro e turbulento. Quando a recessão vier, avisei, será severa e prolongada, com dificuldades financeiras generalizadas e crises de dívida.

Apesar das falas agressivas, os banqueiros centrais, presos em uma armadilha de endividamento, ainda podem desistir desse combate, contentando-se então com uma inflação acima da meta. Devido à inflação mais alta e às expectativas excitadas de mais inflação, quaisquer carteiras de ações (com maiores riscos) ou de títulos de renda (com menores riscos) perderão dinheiro.

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A liquidez e o afogamento

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 29/09/22

“Se não houvesse intervenção hoje, nesta manhã, os rendimentos dos títulos do governo britânico poderiam ter subido de 4,5% para 7-8%; nessa situação, cerca de 90% dos fundos de pensão do Reino Unido teriam ficado sem garantias colaterais… Eles teriam sido varridos do mercado”. Eis o que disse ontem um operador de títulos do Reino Unido.

Uma crise de liquidez eclodiu nos mercados de títulos britânicos após o anúncio do novo governo conservador de que gastaria até 60 bilhões de libras para manter um teto no preço da energia para famílias por até dois anos, para subsidiar os custos energéticos das empresas, assim como, também, para cortar os impostos sobre as rendas das famílias e das empresas.

O impacto total dessa grande generosidade (concedida principalmente para os ricos) no nível da dívida pública do Reino Unido nos próximos anos foi estimado em mais de 400 bilhões de libras ou quase 20% do PIB. Com a dívida pública do Reino Unido já se encontra em 100% do PIB, esse aviso soou como um alarme; caiu a confiança e os preços dos títulos do Reino Unido caíram. Pois, as taxas de juros (isto é, os rendimentos dos títulos) subiram vertiginosamente (veja-se isso no gráfico em sequência).

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O papel das mídias sociais

O economista do desenvolvimento, Daron Acemoglu, vê uma influência perniciosa das redes sociais como o Facebook, o Tweeter, o Reddit etc. na formação das pessoas. Ao mediarem as interações, eis que elas parecem criar indivíduos não só alienados, mas desvirtuados culturalmente. Mesmo se o meio influi no conteúdo das informações veiculadas, esse autor, como economista do sistema, é incapaz de enxergar o papel da economia, da concorrência e do individualismo capitalista, no mal uso corrente dessas redes.

O fim das boas interações sociais

Autor: Daron Acemoglu [1]

Publicação original: Project Syndicate, 7/09/22

As plataformas de mídia social não estão apenas criando câmaras de eco e, assim, propagando mentiras e facilitando a circulação de ideias extremistas. Inovações de mídia anteriores, que remontam pelo menos à imprensa, também fizeram isso, mas nenhuma delas abalou os próprios fundamentos da comunicação humana e da interação social.

Não apenas bilhões de pessoas em todo o mundo estão grudadas em seus telefones celulares, mas as informações que consomem mudaram drasticamente – e não para melhor. Nas plataformas de mídia social dominantes, como o Facebook, os pesquisadores documentaram que as falsidades se espalham mais rapidamente e mais amplamente do que conteúdo semelhante baseado em informações corretas. Embora os usuários não exijam desinformação, os algoritmos que determinam o que as pessoas veem tendem a favorecer conteúdo sensacionalista, impreciso e enganoso, porque é isso que gera “engajamento” e, portanto, receita de publicidade.

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Economia pós-global: o que esperar?

As três ondas de globalização e as eras de catástrofe [2]

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A primeira parte do título deste artigo é uma tradução direta do cabeço – The post-global economy – de um conjunto de artigos sobre o futuro do capitalismo, que foi publicado no portal Project Syndicate, em 18 de agosto de 2022. O que aqui se apresenta é uma crítica desses textos escritos por economistas do sistema, pois busca fornecer uma outra perspectiva sobre o mesmo tema.

O que está em curso na economia capitalista mundial após as crises de 2008 (bolha imobiliária nos EUA) e 2020 (pandemia do novo coronavírus) e 2022 (guerra da Ucrânia)? – eis, pois, a grande interrogação. O que o futuro reserva para a humanidade diante desta mutação conservativa do sistema econômico ora largamente hegemônico?

Eis como a gerência desse sítio apresenta o problema:

Uma sucessão de choques ao longo da última década e meia reverteu significativamente a tendência econômica internacional dominante de toda a era da pós-Guerra Fria. Mas mesmo se os relatos da morte da globalização têm sido exagerados, as interrupções contínuas nas redes de comércio e produção apresentam grandes dores de cabeça para governos e para as empresas em todo o mundo.

Dois artigos se sobressaem num conjunto de seis e eles são bem otimistas na caraterização do futuro. Um deles, escrito por André Velasco, professor da London School of Economics, julga que vai nascer uma globalização mitigada, ao mesmo tempo mais sustentável e mais duradoura. O outro, Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard, acha que um novo consenso está se formando em torno do que denomina de “produtivismo”; os países vão voltar a cuidar de sua própria economia real em detrimento da ênfase nas finanças: “trabalho e localismo em vez de financeirização, consumismo ao invés de globalismo” – afirma ele sem corar provavelmente. O primeiro prevê a continuação do neoliberalismo nas próximas décadas do século XXI e o segundo acredita no surgimento de um novo keynesianismo.

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Sob o céu negro do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

O nome dado a este artigo provém de mera tradução do título do último livro de Anselm Jappe, Sous le soleil noir du capital, recentemente publicado[2] em França. Já de início – recomenda-se fortemente – deve-se notar o seu caráter hiperbólico: se o sol amarelo que faz o dia e se esconde na noite garante a vida na face do planeta, um sol negro só pode representar a morte.

O sol negro é, como se sabe, um símbolo fascista. A negação da vida que ele representa se afigura, pois, enfática, terrível, absoluta. Eis que ela provém de um ressentimento e mesmo ódio profundo engendrado pelas frustrações que o capitalismo proporciona para muitos, especialmente para os integrantes das classes médias. Mas essa visão soturna não é uma novidade na obra desse autor. Vale lembrar que o seu penúltimo livro, A sociedade autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição, também apontava para um fim trágico.

O livro reúne vinte e cinco artigos escritos nos últimos dez anos por um dos principais líderes atuais da corrente de pensamento crítico que se dá a conhecer como “crítica do valor” ou “crítica do valor/dissociação”. Fundada por Robert Kurz no começo dos anos 1990, tem atualmente seguidores na Alemanha, França, Brasil e em outros países, mas sempre na forma de pequenos grupos. O livro começa com uma breve história da crítica do valor com base nos escritos de Kurz, discute o fetichismo em Lukács e Adorno assim como outros temas, para se perguntar, ao final, o que falta às crianças.

De onde vem Anselm Jappe?

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