Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

A perversão da Economia Política como instrumento de governança

A ciência da economia nasceu com o nome de Economia Política; foi assim denominada pelos economistas clássicos. Porém, no último quartel do século XIX, os economistas neoclássicos mudaram o seu nome para Economia (Economics) simplesmente para ocultar o seu vínculo intrínseco com a política; haveria, segundo eles, há um saber sobre o sistema econômico que não poderia ser desafiado para atender certas demandas políticas.

Se os economistas clássicos compreendiam desassombradamente essa ciência como uma ciência social, histórica e política, os inovadores do final do século XIX, agora assombrados pelas lutas de classes que se desenvolviam na sociedade, passaram a encará-la como ciência positiva ou como ciência matemática, transistórica, semelhante à mecânica clássica.

Ora, mesmo se o sistema econômico da relação de capital tem, sim, imperativos que decorrem de sua natureza, estes não deixam de ser determinações estruturais sustentadas por meio das instituições políticas. A reificação do sistema econômico por meio da positivação metodológica dos seus fenômenos constituintes é apenas um meio de restringir as opções de política econômica àquelas desejadas pelo poder político das classes dominantes.

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A relação de capital: o fascismo e o stalinismo

Introdução

Como essas duas formas políticas, o fascismo e o stalinismo, podem ser compreendidas a partir da relação de capital – a relação social que subsumi o trabalho e, assim, o modo de trabalhar, por meio do assalariamento? Como essa relação estruturante da sociedade moderna é sustentada no fascismo e no stalinismo? Como o Estado garante a acumulação de capital em cada uma delas? Uma dessas formas, como se sabe, configura-se ainda no evolver do capitalismo e a outra aparece no “socialismo” burocrático – ambas, no entanto, mesmo se pareceram sólidas, revelaram-se ao fim reversíveis e transitórias. Para responder essa pergunta, que se tornou novamente central neste começo do século XXI, parte-se aqui da categoria de fetichismo apresentada em O capital.

Como já aconteceu outras vezes, o capitalismo enfrenta agora uma crise estrutural que coloca em dúvida a sua permanência na história. Diante dela, imensa como nunca fora antes, parece haver dois caminhos. A razão comunicativa recomenda aprofundar a democracia para resolver os impasses do desenvolvimento na sociedade contemporânea e, sobretudo, para contrariar o rumo do colapso societário. A sua negação extremista, entretanto, é que se tem apresentado e prosperado na cena política.

Diante dos esgarçamentos sociais produzidos pela atual crise estrutural, o fantasma de formas políticas totalitárias tem ressurgido no horizonte. E elas laboram para impedir a superação das ameaças à própria civilização humana. Não existe mais, portanto, a via de retorno à socialdemocracia. Logo, para as forças do desenvolvimento e da transformação só resta o caminho mais difícil do socialismo democrático. Por isso é que se afigura importante compreender melhor essas duas formas de totalitarismo, distinguindo o que tem de comum e o que tem de diferente.

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O Inesperado acerto de contas: coronavírus e capitalismo

Artigo de Radhika Desai – Tradução do blog  

Talvez seja auspicioso que a seriedade da ameaça do coronavírus tenha atingido a maior parte do mundo ocidental nos Idos de Março, justamente no momento tradicional do cálculo das dívidas pendentes na Roma antiga. A semana anterior havia sido uma verdadeira montanha-russa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) finalmente declarara o contágio do vírus como uma pandemia; os governos, em sequência, apressaram-se em dar uma resposta. O vírus passou a dominar o ciclo das novas notícias, surgiram uma multiplicidade de informações erradas e mesmo de desinformações nas mídias sociais. As cidades e até mesmo países inteiros foram fechados, os mercados de todos os tipos imagináveis ​​despencaram e as empresas anunciaram demissões e interrupções da produção.

Ficou claro que, quaisquer que fossem as origens, os caminhos e a letalidade do vírus, agora chamado de Covid-19, iria testar seriamente o capitalismo ocidental em seus mecanismos de enfrentamento. Quase certamente, eles seriam surpreendidos e falhariam. Afinal, problemas e desequilíbrios acumularam-se no sistema capitalista ocidental ao longo das últimas quatro décadas, aparentemente desde que tomou o caminho neoliberal para sair da crise da década dos anos 1970. Seguiu em frente desde então, sem levar em consideração o potencial de problemas e crises que engendrava.

Durante essas décadas, tal como um analista importante mostrou, o mundo capitalista ocidental passou a ganhar tempo, por meio da acumulação de dívidas, tanto públicas quanto privadas. Buscava, assim, com os seus fracos e estreitos mercados, evitar o acerto de contas final, um problema que o neoliberalismo, com sua implacável pressão descendente sobre os salários reais, apenas exacerbava.

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Uma crise de crédito pronta para eclodir?

Michael Robert – Blog The next recession – 2/12/2020

A crise gerada globalmente pela pandemia global é diferente das crises anteriores do capitalismo. A mudança da expansão para a recessão no ciclo  capitalista – com os seus impactos recessivos na produção e no investimento – é frequentemente desencadeada por um crash financeiro. Não foi isto o que aconteceu agora.

A crise produzida pela pandemia do coronavírus tem também, no entanto, uma causa “próxima”  específica. Em certo sentido, essa queda global sem precedentes, afetando 97% das nações do mundo, começou por causa de um “evento exógeno”, ou seja, a propagação de um vírus mortal. No entanto, tenha-se em conta que esse próprio evento está fundado na relação predatória do capitalismo com a natureza.

De qualquer modo, as previsões de recuperação implicam numa perda discreta e aparentemente irrecuperável de PIB mundial. Pelo menos é o que indica as estimativas da OCDE. Ora, essa mesma estimativa não prevê qualquer novo desastre à frente. Será isso correto?

Fala-se constantemente em uma recuperação tão logo as vacinas comecem a ser aplicadas na população. Contudo, há elos mais fracos na malha das relações mercantis: boa parte das empresas médias e menores estão muito endividadas. Pode, pois, ocorrer uma crise de crédito seguida de colapso financeiro à medida que estas empresas começarem a quebrar. Estas colapsam na mesma medida em que o apoio do governo evapora: as suas receitas de vendas permanecem fracas, mas os custos da dívida e dos salários aumentam.

Uma tradução do artigo completo de Michael Roberts está aqui: Uma crise de crédito à frente

Questionando a teoria da preferência revelada

Na vídeo-aula anterior foi feita uma crítica radical – ou seja, que toma das coisas pela raíz – da teoria da utilidade que embasa a teoria neoclássica ensinada nos cursos de graduação em Economia. Essa aula foi denominada de Questionando a noção de utilidade.

Agora, traz-se aqui uma nova vídeo-aula com o objetivo de criticar a teoria neoclássica mais “avançada” e que é ensinada nos melhores cursos de pós-graduação, inclusive empregando topologia real – ou análise matemática. Tais “avanços” pretendem ter superado os vícios lógicos da teoria da utilidade original. Critica-se, assim, a teoria da preferência revelada mostrando que ela padece também de vício lógicos.

Argumenta-se que a teoria neoclássica não é ciência, mas apenas um saber tecno-normativo que visa defender certo tipo de política econômica, mais do interesse das classes dominantes.

 

Questionando a noção de utilidade

Vídeo

Os livros de microeconomia tratam da “utilidade” como se esta fosse algo bem evidente. “Os economistas” – diz um deles – “conceituam “utilidade” como uma singularidade que torna uma mercadoria desejada. Trata-se de um fenômeno subjetivo, porque cada pessoa é diferente da outra”. “Qualquer bem ou serviço deliberadamente consumido proporciona utilidade”.

É mesmo? O que é afinal utilidade?

No vídeo apresentado em sequência, a noção de utilidade é questionada. Apresenta-se como diversos economistas importantes na História do Pensamento Econômico a compreenderam e se mostra, em sequência, que ela é vazia ou uma transfiguração subjetiva do dinheiro. Questiona-se, finalmente, se a teoria neoclássica é de fato uma teoria científica.

G 20: há solução para a dívida global?

Michael Roberts – The next recession blog – 20/11/2020

Neste fim de semana, está acontecendo a cúpula dos líderes do G20 – não fisicamente, é claro, mas por vídeo. Orgulhosamente sediada pela Arábia Saudita – um conhecido bastião da democracia e dos direitos civis! –, ela reunirá os líderes do G20 que se concentrarão em discutir o impacto da pandemia COVID-19 na economia mundial.

Como se sabe, os líderes estão alarmados com o enorme aumento nos gastos governamentais gerados pelas quedas abruptas da produção. Ora, isso ocorreu e vem ocorrendo porque os principais governos capitalistas foram forçados a gastar mais para amenizar o impacto da crise nas empresas, grandes e pequenas, e até mesmo na população trabalhadora em geral. As estimativas do FMI afirmam que o estímulo fiscal e monetário combinado fornecido pelas economias avançadas atingiu cerca de 20 por cento da soma de seus produtos internos brutos.

Os países de renda média no mundo em desenvolvimento não têm sido capazes de fazer o mesmo, mas ainda assim apresentaram uma resposta combinada igual a 6 ou 7% do PIB, ainda de acordo com o FMI. Para os países mais pobres, porém, a reação foi muito mais modesta. Juntos, eles injetaram gastos iguais a apenas 2% de sua produção nacional para fazer frente à pandemia. De qualquer modo, isso deixou as economias muito mais vulneráveis ​​à uma recessão prolongada, a qual levará potencialmente milhões de pessoas à pobreza.

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Um prêmio para os leilões. E um desaforo aos humanos

Michael Roberts – The next recession blog – 13/10/2020

O prêmio Nobel de Economia deste ano – que, na verdade, é o prêmio Riksbank – foi dado aos economistas da Universidade de Stanford, Paul Milgrom e Robert Wilson. De acordo com a Royal Swedish Academy of Sciences, eles “estudaram como funcionam os leilões. Também projetaram novas formas de leilões para bens e serviços difíceis de vender da forma tradicional, tal como, por exemplo, as frequências de rádio. Suas descobertas beneficiaram vendedores, compradores e contribuintes em todo o mundo”.

Veja-se: num mundo em que a desigualdade está em níveis recordes, o aquecimento global e a degradação ambiental ameaçam destruir o planeta, em que há uma crise econômica mundial não vista desde os anos 1930, os concedentes do prêmio reconheceram o trabalho de dois economistas que pesquisaram como tornar os leilões de mercadorias, de terras e terrenos e de bens e serviços públicos mais eficientes.

O artigo completo está aqui: Roberts – Um prêmio para os leilões

 

A crítica de Deleuze à dialética: uma boa crítica?

Como vimos na nota anterior – Dialética: lógica da contrariedade ou lógica da contradição? –, Gilles Deleuze marcou a sua trajetória intelectual como crítico da dialética hegeliana e como aquele pensador que reformulou a noção de “diferença”.

Aqui se volta a discutir o mesmo tema tendo por base o livro Gilles Deleuze – Um aprendizado em Filosofia de Michael Hardt (Editora 34: 1996).

Esse último autor indica que o filósofo francês fez três triangulações especulares para criticar Hegel, primeiro com Henri Bergson, depois com Friedrich Nietzsche e finalmente com Baruch Espinoza. Aqui se acompanhará apenas a exposição da primeira delas que se concentra numa questão de lógica.

Trata-se de uma boa crítica? Este blogueiro ficou em dúvida – mesmo se lhe falta título, ele acha que não.

A nota se encontra aqui: A crítica de Deleuze à dialética – uma boa crítica?

Dialética: lógica da contrariedade ou lógica da contradição

Na nota Verdade como perda do objeto, enquanto “em si” fixo e imutável, antes publicada neste blog, mostrou-se como a dialética de Hegel apreende o movimento de deslocamento no espaço e no tempo. O exemplo tem um caráter didático. De qualquer modo, dois pontos foram enfatizados: um deles expositivo e o outro ontológico.

Primeiro, para a razão dialética, o móvel passa pelos pontos de sua trajetória de tal modo que, para apreender o seu movimento, é preciso dizer que ele “está-agora/não-está-agora”, “está-agora/não-está-agora”, “está-agora/não-está-agora” e assim sucessivamente. Considerando, também, as determinações “posição” e “pressuposição” do móvel que passa.

Segundo, para essa compreensão de mundo, o próprio móvel não permanece idêntico a si mesmo conforme percorre o seu caminho. Não só, porém, porque as suas coordenadas de tempo e espaço mudam, mas porque a mudança de si mesmo é a condição de sua existência. Eis que a própria ideia de que ele permanece o mesmo em sua trajetória é já metafísica. E essa metafísica – note-se bem – é inerente e mesmo necessária ao pensamento comum e ao pensamento mecanicista.

Agora chegou o momento de discutir um pouco dois modos de pensar a dialética: trata-se de uma lógica da contrariedade ou da contradição? Para proporcionar esse esclarecimento de um modo didático, vale-se aqui de considerações de Vladimir Safatle em seu livro Dar corpo ao impossível – O sentido da dialética a partir de Adorno (Autêntica, 2019). Aí, entre outros objetivos, esse autor busca contestar a crítica central à dialética hegeliana feita por Gilles Deleuze (assim como, também, por outros filósofos).

O texto completo se encontra aqui: Lógica da contrariedade ou lógica da contradição?