As finanças são realmente parasitárias?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Desafiado com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; em linguagem mais rigorosa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de finanças parasita o capital industrial. Contudo, aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de início.

E que se pode – e até se deve – contestar esse difundido preconceito de uma perspectiva de esquerda. Para tanto se examina em sequência dois fundamentos possíveis dessa metáfora; ao apresentá-la na discussão pública – eis a questão crucial – o que se está criticando precisamente? Que princípio moral sustenta o uso extensivo dessa metáfora? Seguem-se duas respostas, uma depois da outra. Encaminha-se logo a primeira, ainda que de um modo inusitado.

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Aquanno e Maher: “Não, as finanças não são parasitas”

Entrevista com Scott Aquanno e Stephen Maher [1]

Os economistas esquerda tem lutado para combater as poderosas metáforas que sustentam o neoliberalismo. A ideia de que o governo estoura o seu “cartão de crédito”, por exemplo, ainda permeia as narrativas da mídia que clama por austeridade. E ela permanece apesar dos melhores esforços dos economistas para explicar aos jornalistas que o orçamento do governo não obedece às mesmas restrições dos orçamentos familiares.

Ademais, a alegoria crítica e opositora que vê as “finanças como parasitas” parece estar bem difundida nos grupos políticos progressistas. O argumento frequente  diz que o setor financeiro está superdimensionado e que ele se alimenta sugando a riqueza real produzida pela sociedade; ao fazê-lo, ele reduz os investimentos “produtivos” nas empresas, na infraestrutura e outros bens sociais, para gerar bolhas especulativas.

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Hudson: “sim, as finanças são parasitas”

Entrevista com Michael Hudson [1] 

Blogue: The new evolution of economics – 06/2016

Primeiro de uma série de três artigos que tratam da questão de saber se as finanças são ou não são parasitárias. Michael Hudson, numa entrevista dada a Eric Draitser, publicada na internet, argumenta que sim, que as finanças são parasitárias, com base numa compreensão não-marxiana da teoria do valor trabalho. Em sequência, publica-se uma entrevista dada a Anne Pick em que Scott Aquanno e Stephen Maher argumentam que as finanças não são parasitárias, contrariando o autor anterior. Finalmente, põe-se à luz do sol um texto deste blogueiro que discute os fundamentos morais de tal crítica, que supostamente atinge àqueles que vivem de rendas no capitalismo e ao capital de finanças que permite que elas existam. Eis a primeira entrevista:

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Semiocapitalismo: uma crítica

Eleutério F. S. Prado [1]

Nome anterior: teoria crítica ou devaneio crítico?

Do capitalismo ao semiocapitalismo

Começo com uma questão: o intrigante e desafiante livro “And, Phenomenology of the end[2] de Franco “Bifo” Beraldi vem a ser uma adição à crítica da economia política ou um deslizamento numa outra forma de crítica? Nesse folhoso, esse teórico das mídias e do movimento operaísta italiano busca compreender de novo inovador a transformação do capitalismo que veio a existir após a crise dos anos 1970, com o advento da financeirização e do neoliberalismo.

Segundo ele, nessa década e nas seguintes, o capitalismo deixa de ser industrial para se tornar pós-industrial, ou melhor, deixa de ser capitalismo para se tornar semiocapitalismo – caracterização esta que requer certamente explicação. Para alcançá-la, note-se de início como resume o seu projeto de pesquisa: “Quero investigar aqui” – diz – “a genealogia do semiocapitalismo, e particularmente do capitalismo financeirizado, do ponto de vista da sensibilidade linguística”. Sendo assim, pode-se ver de imediato que ele não pensa mais no interior da exposição dialética que constitui O capital, mas fora dela.

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XV Plano e a autarquia tecnológica da China

Romaric Godin [1] – Sin Permiso 03/08/2026

Na reunião de duas sessões, as autoridades chinesas apresentaram seu próximo plano quinquenal, focado principalmente no desenvolvimento da inovação e autonomia tecnológica. Uma aposta que visa responder à desaceleração do crescimento, mas que é arriscada.

A China está tentando redefinir seu futuro. Desde quarta-feira, 4 de fevereiro, as “duas sessões” são realizadas, uma reunião anual que reúne a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e o Congresso Nacional do Povo, a câmara teoricamente legislativa. O plano de 2026 é especial porque deve validar o novo plano quinquenal, o XV da República Popular, que vai de 2026 a 2030.

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XV Plano e o crescimento futuro da China

Michael Roberts – The next recession blog – 03/08/2026

O governo chinês está acabando de concluir suas “duas sessões” anuais ou “lianghui” como as chamam. As “duas sessões” referem-se a dois grandes encontros políticos: a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), um comitê consultivo político; e o Congresso Nacional do Povo (CNP), o principal órgão legislativo da China. Essas não são, ostensivamente, reuniões do Partido Comunista (PCC), mas sim reuniões do Estado chinês.

A reunião consultiva é em grande parte simbólica; dela participam os líderes empresariais e locais de destaque para discutir temas previamente acordados. O centro real de poder é o CNP, que decide oficialmente a política econômica. Na realidade, apenas aprova o que a elite líder do PCC já decidira antecipadamente. Com cerca de dois terços de seus membros pertencendo ao Partido Comunista, o CNP nunca rejeitou um projeto de lei proposto pelo partido.

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Todos os caminhos levam à estagflação

Michael Roberts – The next recession blog – 31/03/2026

Em sua mais recente análise do impacto do conflito no Oriente Médio nas economias mundiais, o FMI disse em resumo: “Embora a guerra possa moldar a economia global de maneiras diferentes, todos os caminhos levam a preços mais altos e crescimento mais lento.”

O preço global de referência do petróleo está a caminho de sua maior alta mensal já registrada em março, maior do que em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait. O conflito pode terminar em breve, como Trump e Rubio afirmam (presumivelmente com um acordo com o Irã no qual este último basicamente cede às exigências dos EUA).  Ou, mais provavelmente, haveria um conflito mais longo que poderia se estender até abril e além, possivelmente envolvendo tropas americanas no terreno tentando romper o domínio do Irã sobre o Estreito de Ormuz e buscando encontrar e destruir os seus estoques nucleares.

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As economias modelares vascilam

O autor do escrito abaixo mostra que os modelos econômicos da Alemanha e da China estão em crise. O artigo não é teoricamente rigoroso, mas tem uma mensagem relevante que contraria o otimismo de certos autores em relação ao progresso das economias chinesa e alemã vis-à-vis a economia norte-americana. (E.P.)

Ernst Lohoff [1] – 6 de março de 2026

Por muito tempo, Alemanha e China, com suas indústrias de exportação, estiveram entre os principais beneficiários da expansão do comércio mundial. Hoje, seus modelos de negócios estão ambos sob o impacto de uma crise séria [ou seja, de uma crise de superprodução].

“O primeiro será o último”, disse Jesus no Novo Testamento – um alerta que se aplica tanto à China quanto à Alemanha hoje. Após a grande crise financeira de 2007 a 2009, as duas economias foram por muito tempo consideradas modelos de sucesso, pois retomaram rapidamente o crescimento econômico. Na época, a China, que não havia passado por uma recessão nas últimas décadas, desacelerou já que a sua taxa anual crescimento de dois dígitos caiu para 9% em 2008 e para 6% no ano seguinte.

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