Aquanno e Maher: “Não, as finanças não são parasitas”

Entrevista com Scott Aquanno e Stephen Maher [1]

Os economistas esquerda tem lutado para combater as poderosas metáforas que sustentam o neoliberalismo. A ideia de que o governo estoura o seu “cartão de crédito”, por exemplo, ainda permeia as narrativas da mídia que clama por austeridade. E ela permanece apesar dos melhores esforços dos economistas para explicar aos jornalistas que o orçamento do governo não obedece às mesmas restrições dos orçamentos familiares.

Ademais, a alegoria crítica e opositora que vê as “finanças como parasitas” parece estar bem difundida nos grupos políticos progressistas. O argumento frequente  diz que o setor financeiro está superdimensionado e que ele se alimenta sugando a riqueza real produzida pela sociedade; ao fazê-lo, ele reduz os investimentos “produtivos” nas empresas, na infraestrutura e outros bens sociais, para gerar bolhas especulativas.

No livro Queda e Ascenção das finanças na América [2], Scott Aquanno e Stephen Maher contam uma história diferente. Argumentam que é um erro supor que a era das grandes finanças vem junto com o “esvaziamento” do setor industrial — e, ademais, com um recuo do Estado. Ao traçar o desenvolvimento das finanças contemporânea partindo de sua origem na própria empresa produtora de mercadorias, eles mostram que as finanças têm sido centrais para o capitalismo industrial desde o seu começo.

A entrevista abaixo foi feita em 25/06/2024; Anna Pick, estudante de pós-graduação da New School, entrevistou Scott Aquanno e Stephen Maher com o objetivo de esclarecer a razão pela qual eles afirmam que a finança não funciona como parasita no capitalismo contemporâneo. Eis que ela se soma ao capital industrial para compor e tornar mais eficiente o sistema de exploração do trabalho. Eis as questões e as respostas.

Anna Pick: Como vocês articulariam o principal ponto político do seu livro?

Scott Aquanno: Os problemas que estamos vendo agora são problemas do capitalismo, não problemas de uma força financeira parasitária se sobrepondo a um capitalismo que, de outra forma, seria “saudável”.

Steve Maher: Apesar do que alguns possam dizer, sustentamos que o capitalismo está forte, que não está em declínio e que essa vem a ser uma avaliação realista do desafio político que ora enfrentamos.

Anna Pick: Metodologicamente, qual foi a importância de fazer uma história crítica da financeirização, em vez de apenas analisar, por exemplo, o capitalismo dos gestores de ativos tal como ele existe hoje?

Aquanno: Se objetivo vem a ser entender a financeirização contemporânea, não faz sentido começar em 2008. Uma das coisas que se perde quando assim se procede é a origem daquilo que chamamos de “novo capital financeiro”; pois, essa origem se encontra numa financeirização anterior da empresa industrial, algo que tomou forma já na “era de ouro” do capitalismo do pós-guerra.

Paradoxalmente, foi a tentativa de impor uma separação rígida entre os bancos de investimento e os bancos comerciais, ocorrida nos anos trinta, que levou à financeirização da corporação não financeira — criou-se, então, um primeiro modelo de capitalismo financeirizado ao qual muitos social-democratas querem agora ver de volta.

Não se trata de pensar que há um sistema financeiro externo que se impõe sobre um sistema industrial que de outra forma não seria financeirizado. A empresa industrial já se encontrava financeirizada no momento em que a atual financeirização, muito notada como tal, começou (fins dos anos 1970). Da mesma forma, não se pode entender a globalização, o que ela de fato significou historicamente, a menos que se veja que ela surgiu como uma solução para uma crise de lucratividade subjacente.

Maher: Muitas vezes circula a ideia de que existiu um “bom” capitalismo pré-financeirizado, entre 1945 e 1979, e que se deveria simplesmente encontrar uma forma de voltar a ele, controlando um setor financeiro “parasita”. Mostramos que isso não é possível porque tal capitalismo nunca existiu: a onda recente financeirização surgiu bem no coração da era de ouro do pós-guerra justamente por causa das contradições da internacionalização — corporações financeiras e não financeiras como parte do processo de globalização. E à medida que esse processo se desenrolava, os interesses das finanças e da indústria se entrelaçavam cada vez mais. Então, a ideia de que se pode voltar ao keynesianismo baseia-se em uma percepção falsa do que ele era verdadeiramente.

Pick: Por que a história de que as finanças têm um efeito “parasitário” na economia real e são prejudiciais à concorrência do setor privado tem sido tão poderosa — e tão duradoura em um espectro político bastante amplo?

Maher: Muitas pessoas boas, incluindo pessoas com quem partilhamos esforços de organização política e que conhecemos muito bem, têm essa visão sobre finanças. Acho que essa tese nasce de um fracasso em aceitar os impasses da política social-democrata. O capitalismo não podia sustentar o tipo de estado de bem-estar keynesiano que havia surgido nas décadas do pós-guerra.

Ademais, acho que é muito difícil aceitar o que isso significa politicamente. Pois, sendo assim, tem-se como perspectiva lutar para implementar uma reforma verdadeiramente radical que vá contra os interesses de toda a classe capitalista ou, alternativamente, aceitar passivamente o neoliberalismo por falta alternativa melhor. Ironicamente, quando Margaret Thatcher disse “não há alternativa”, ela estava certa: não há alternativa dentro do capitalismo.

Pick: Competição é uma palavra usada de forma flexível em debates de políticas. Por exemplo, há um grande debate acontecendo no Reino Unido sobre como manter a “competitividade” da indústria de serviços financeiros após o Brexit. Vocês poderiam falar um pouco mais sobre sua teoria da competição e como ela se relaciona com a financeirização?

Maher: O argumento típico sobre a concorrência é que o capitalismo se desenvolve de uma fase de suposta concorrência perfeita para uma concorrência imperfeita, à medida que a concentração e centralização reduzem o número de vendedores em determinados mercados. De acordo com esse argumento, o capitalismo se tornou menos competitivo com o tempo.

Argumentamos, pelo contrário, que não há uma ligação necessária entre a crescente concentração de capital em empresas monopolistas e a competitividade: o capitalismo tornou-se mais competitivo porque a competitividade não é função do número de vendedores em um mercado, mas da mobilidade do capital.

Quanto mais fácil e barato o capital pode se mover, mais ele pode disciplinar todos os investimento para maximizar os próprios retornos ou enfrentar uma baixa no investimento. A gigante financeira consegue movimentar capital com mais liberdade, com custos de transação menores, sendo, portanto, uma forma mais competitiva de organização capitalista do que uma empresa menor.

Pick: Dado seu argumento de que o capitalismo sempre foi “financeiro” e que é difícil separar capital industrial e financeiro, faz sentido falar em “mais” ou “menos” financeirização ao longo do tempo ou na locação espacial?

Maher: O termo financeirização parece distinguir um capitalismo novo e anormal de um antigo e normal. Podemos defini-lo por referência ao domínio relativo do setor financeiro ou à predominância das lógicas financeiras nas estruturas de governança — incluindo aquelas das universidades e das corporações industriais.

Ora, é preciso notar que as finanças sempre foram, em todos os momentos, fundamentalmente centrais para a economia capitalista e que elas se encontravam bem integradas à economia produtiva. Há uma tendência estrutural no sistema capitalista – e isso é bem crucial – para a financeirização. Medidas para suprimir as finanças, para contê-las, não mudam as leis básicas do movimento do sistema.

Aquanno: Uma das ideias que estamos desafiando é a noção de que uma economia “mais” financeirizada pode ser avaliada pelo grau de envolvimento das empresas em atividades que beneficiam seus acionistas, às custas de investir na produtividade de seus negócios.

Em parte, isso vem da nova literatura que explora o capitalismo dos gestores de ativos — incluindo as análises feitas por Benjamin Braun e Brett Christophers,[3] Ela vem sugerindo que essas empresas de gestão de ativos, BlackRock, Vanguard e State Street, são gerentes gerais da economia e que isso não é bom. Mais do que isso, dizem que é antitético ao investimento de longo prazo porque priorizam recompras de ações e os pagamentos de dividendos.

Ora, esses autores olham para as recompras de ações vendo-as como extração de capital do sistema industrial pelo sistema financeiro. Mas, ao fazê-lo, eles contam apenas parte da história: uma vez “extraído” do sistema industrial, para onde ele vai? Não vai ficar só no sistema financeiro, já que vai ser reinvestido em algum lugar.

Pick: A ideia de “captura do Estado” — ou seja, de que os bancos estão pondo as leis mediante uma infiltração sub-reptícia nos órgãos públicos tem ressoado entre as pessoas. Como entender, por exemplo, a crise de 2008? Qual é o papel da corrupção na história que vocês estão contando?

Maher: Obviamente, não se quer descartar a possibilidade de relações impróprias entre instituições privadas, indivíduos e reguladores estaduais. Mas acho que esse tipo de argumento não é necessário para explicar o que o Estado faz.

Está enraizado na ideia social-democrata – bem errônea – de que o Estado capitalista é, em seu DNA, neutro entre a classe capitalista e a classe trabalhadora.  Aceito isso, torna-se possível admitir que os interesses da classe capitalista estão sendo privilegiados porque ela faz lobby melhor do que a classe trabalhadora. A verdade é que o Estado é, em seu próprio DNA, um Estado capitalista. Suas instituições evoluíram especificamente para fazer o capitalismo funcionar e lidar com as contradições que surgem enquanto ele funciona.

Pick: Considerando que o Fed nem sempre resgatou os bancos, existe alguma contingência histórica sobre como o banco central responde às crises capitalistas? E, de forma mais ampla, há espaço em sua explicação para uma teorização do Estado como local de disputa política?

Aquanno: O Fed nem sempre atuou para resgatar os bancos, mas sempre interveio para apoiar o sistema financeiro. O banco central dos EUA – ou outro qualquer – não é um observador passivo que intervém periodicamente. Ele está ativamente envolvido no sistema financeiro para fazer o sistema bancário funcionar. O Estado é um terreno de luta, não apenas entre a classe capitalista e a classe trabalhadora, mas também entre diferentes frações de classe capitalista.

À medida que as finanças se tornam mais significativas dentro da economia política americana, também os aparatos de poder estatal mais intimamente ligados ao setor financeiro sobem na hierarquia das instituições estaduais — incluindo o Federal Reserve. Então o Estado é uma espécie de relação social, como Gramsci disse. Está constantemente sendo feito e refeito à medida que o próprio sistema capitalista evolui.

Maher: A razão pela qual o Federal Reserve foi criado em primeiro lugar foi porque o sistema precisava de uma instituição mais pública que pudesse coordenar a gestão de crises e estabilizar o sistema financeiro. O fato de não ter socorrido os bancos durante a Grande Depressão não decorreu de uma decisão do tipo “não nos importamos, deixe tudo desabar.” O fato verdadeiro é que o Estado nunca havia se deparado com algo assim antes. E, por isso, não tinha experiência e capacidade para gerenciar uma crise naquelas proporções.

Um equívoco comum cometido na avaliação do período keynesiano é admitir que o Estado, enquanto ele vigorou, se concentrava em manter ou limitar as finanças. Não — o seu problema foi reconstruir o sistema financeiro após a maior e mais profunda crise do capitalismo da história. Eventualmente, o sistema financeiro saiu da incubadora e voltou a ser hegemônico. A crise de 2008 foi enfrentada por um Estado que tinha capacidades muito mais amplas de intervir no sistema financeiro. Estado, na verdade, está sempre agindo para estabilizar o sistema capitalista.

Pick: Então, a sua visão do Fed é que ele é basicamente um braço do Estado e, por isso, sempre vai agir no interesse da acumulação de capital, mesmo se isso ocorre como consequência não intencional. Essa concepção não corre o risco de despolitizar o banco central? Um ativista climático, por exemplo, não deveria tentar responsabilizar o Fed?

Maher: Não se trata de despolitizar o Estado, trata-se de politizar o capitalismo. Ativistas climáticos deveriam, sim, mirar no Fed, mas como parte de uma visão mais ampla sobre o que significaria democratizar o Estado. O problema não é o que o Federal Reserve faz ou deixa de fazer, ou quem faz lobby, mas o sistema no qual ele está incorporado. O Estado é o que é porque evoluiu como parte do sistema capitalista — não apenas porque foi corrompido no seu curso de desenvolvimento. Claramente, a ideia de que vivemos em uma democracia é, no mínimo, uma verdade muito limitada.

Diante da questão “o que significaria democratizar o estado?”, respondemos que isso significa aprofundar o controle público sobre o Fed e outras instituições macroeconômicas, para administrar as finanças como utilidade pública – e não como utilidade privada individual ou coletiva.


[1] Professores do Departamento de Ciência Política da Universidade Técnica de Ontario, Canadá. Correios eletrônicos: scott.aquanno@ontariotechu.ca e stephen.maher@ontariotechu.ca.

[2] Aquanno, Scott e Maher, Stephen – The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to Blackrock (Verso, 2024)

[3] Braun, Benjamin e Christophers, Brett – Asset manager capitalism: An introduction to its political economy and economic geography. Environment and planning: economy and space, volume 56, nº

2, março de 2024.

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