A crise do poder de compra na França

Michael Roberts – The next recession blog – 23/10/2026

Os recentes protestos das escolas secundárias e dos estudantes na França têm um objetivo simples: obter mais recursos para a educação. A crise educacional na França é marcada por graves escassez de professores, deterioração dos resultados dos alunos e enormes déficits de financiamento que vão desde as escolas primárias até as universidades públicas. A educação pública na França está entre as mais desiguais do mundo desenvolvido: as escolas em áreas mais pobres são tão carentes de recursos que o sistema educacional está consolidando os níveis de desigualdade pré-existentes. Estudantes em bairros mais pobres são desproporcionalmente afetados pela falta de funcionários.

Estudantes franceses sofreram uma queda catastrófica e sem precedentes de 20% no orçamento educacional por estudante desde 2017. Eis o que disse o economista de esquerda francês Thoman Piketty:

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A termodinâmica do capital

Autor: Te Li [1]

Do código à matéria

Na primavera de 2023, a Microsoft anunciou um investimento bilionário na OpenAI, apresentando a parceria como um salto para uma civilização mais limpa, inteligente e eficiente. As imagens que acompanham tais anúncios são invariavelmente etéreas: redes neuronais luminosas, fluxos de dados sem peso e algoritmos a dançar num espaço digital sem atrito. A Inteligência Artificial (IA), no registo dominante de Silicon Valley e do seu ecossistema mediático, apresenta-se como a apoteose da desmaterialização — uma tecnologia tão refinada, tão puramente cognitiva, que finalmente escapou ao mundo sujo e entrópico das máquinas a vapor, das minas de carvão e das fábricas.

Este artigo defende que tais representações são ideológicas no sentido marxista preciso: invertem a realidade, apresentando como imaterial um processo que é profunda e consequentemente material. Estima-se que a formação do GPT-4 tenha consumido energia equivalente ao consumo anual de eletricidade de milhares de casas (1).

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Colapso ambiental e negacionismo renitente

Eleutério F. S. Prado [1]

Publica-se abaixo uma entrevista com o psicanalista Josep Maria Panés que foi publicada originalmente no jornal argentino Página 12 e que foi traduzida e republicada no IHU. E o fazemos porque esse autor expõe de uma forma simples, uma noção psicanalítica que vem de Sigmund Freud, por via de Jacques Lacan, e que é difícil de entender. Ora, ele o faz tentando compreender por que nada é feito decisivamente diante da catástrofe climática. Por que a reação a esse desastre que está certamente chegando – eis a sua questão – é tão tímida?

Como se sabe, Lacan sustentou que a psique pode ser acometida por uma lógica semelhante à lógica do capital; eis que elas seriam homólogas porque ambas seriam governadas por um princípio de desenvolvimento infinito. Com uma diferença: a lógica do capital se mostra acumulativa e a lógica que acomete a psique vem a ser meramente repetitiva. Se a primeira se alimenta de mais-valor, a segunda se nutre de mais-gozar.

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Acumulação de capital por evasão fiscal

Michael Tyrala – 23.04.2020

Uma análise do sistema mundial de evasão fiscal

[N. T.: Apresenta-se abaixo a tradução dos primeiros slides de uma longa apresentação da evasão fiscal no mundo como um todo do autor acima mencionado. Os resultados são assustadores. O conjunto dos slides encontra-se abaixo e está em inglês.]

O que é evasão fiscal offshore

Trata-se de um termo guarda-chuva para evasão fiscal e evasão fiscal usando estruturas offshore. Tal evasão envolve uma demanda e uma oferta:

Demanda: indivíduos de alto patrimônio líquido (sigla em inglês: HNWIs) e empresas multinacionais (sigla em inglês: MNEs).

Oferta: paraísos fiscais (também conhecidos como jurisdições de sigilo) e vários intermediários, principalmente dos setores contábil, jurídico, bancário e setores financeiros.

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Repensando o “capitalismo de vigilância”

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

Shoshana Zuboff, em seu A era do capitalismo de vigilância [2], fez uma crítica devastadora ao desenvolvimento contemporâneo dessa forma de sociedade, ainda que da perspectiva das ilusões reais da democracia liberal, especialmente daquela que existiu por cerca de 30 anos após o término da II Guerra Mundial. Eis que se está agora “destruindo o contrato social centenário entre o capitalismo e a comunidade”, pois se está abandonando “a reciprocidade orgânica” entre o crescimento econômico e o bem-estar das pessoas. As grandes plataformas tecnológicas – diz – além de extraírem mais-valor dos indivíduos enquanto trabalhadores, estão sugando agora todos os aspectos de suas experiências de vida visando controlá-los.

A sua lógica de funcionamento, ainda segundo ela, está contrariando a mão invisível. Continua-se demandando como sempre liberdade para os negócios, mas se está concentrando agora todo o conhecimento, antes disperso e que orientava o funcionamento dos mercados, em empresas gigantes que se tornam, assim, instrumentárias.[3] A vida social ganha, assim, “uma orientação coletivista que diverge dos valores tradicionais do capitalismo de mercado e da democracia de mercado”. Se decorre da evolução do capitalismo neoliberal, sucessor da economia socialdemocrática que reinou do fim da II Grande Guerra até o fim dos anos 1970, vem também contrariá-lo porque está transformando a sociedade dos indivíduos numa “colmeia coletivista”.

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Economia da complexidade: uma revisão

Uma Nova Ciência com Raízes Históricas Profundas

Nick Johnson – 5/08/2026 – Blog do autor

Da mão invisível de Adam Smith à incerteza de Keynes e à causalidade cumulativa de Kaldor, esta postagem argumenta que a economia da complexidade não é uma ruptura radical com a história, mas o capítulo mais recente de uma longa e frequentemente negligenciada tradição intelectual.

A economia da complexidade é frequentemente apresentada como uma nova forma revolucionária de entender a economia. Em vez de enxergar os mercados como sistemas que naturalmente se estabilizam em equilíbrio, os economistas da complexidade veem as economias como redes em evolução de indivíduos, empresas, governos e instituições cujas interações geram continuamente inovação, instabilidade e mudanças estruturais. A economia, nessa visão, é menos uma máquina buscando equilíbrio e mais um ecossistema que está constantemente se adaptando.

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Esperando a quebradeira

Frédéric Lordon [1] – Sidecar – 09/07/2026

O que é uma bolha? É uma crença coletiva. O que é um estouro? É o colapso dessa crença. A IA deu origem a duas bolhas. Há uma bolha no mercado de ações – os dois players de maior destaque, OpenAI e Anthropic, devem lançar IPOs com capitalizações de mercado astronômicas em torno de 1 trilhão de dólares cada. Mas essa bolha é sustentada por uma bolha de crédito, a qual é ainda mais preocupante. As quedas do mercado de ações costumam ser mais espetaculares do que destrutivas – causando perdas no valor dos ativos – enquanto as bolhas de crédito, quando estouram, desencadeiam uma cascata de inadimplências em todo o sistema financeiro.

Tem-se, pois, duas bolhas geradas por uma crença coletiva forte o suficiente para sustentar uma mobilização de capital sem precedentes na história do capitalismo. Vamos admitir que os capitalistas americanos sabem uma coisa ou duas sobre como criar uma boa estória – ou seja, como gerar uma crença difusiva. Desta vez, eles não pouparam esforços, nos presenteando com as visões grandiosas. Em consequência, temos uma questão incomum e paradoxal: como convencer a humanidade dos terríveis e quase existenciais riscos do que está sendo difundido?

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Duas teses sobre o fascismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Neste pequeno artigo pretende-se fazer uma comparação de duas teses que buscaram compreender o fascismo como fenômeno político inerente ao capitalismo, ambas de modo rigoroso. Das lavras de Vladimir Safatle e Ruy Fausto, cada uma delas o ilumina a seu modo. A do primeiro autor veio de algum modo do estruturalismo francês [2] e a do outro veio da dialética marxiana. A questão que move este escrito, no entanto, não se resume à aludida comparação, já que se orienta também por uma dúvida crucial: o extremismo de direita contemporâneo pode ser tomado como uma variante de fascismo?

Com esse objetivo se examina dois textos em particular: a Introdução do livro A ameaça interna [3], recém-publicado, do primeiro autor e o capítulo Sobre o Estado [4] do tomo segundo de Marx: lógica e política, saído no final do século passado, do segundo autor acima mencionado. Como a comparação se dá no campo metodológico, o exame se vale fortemente de um escrito de Ruy Fausto intitulado Dialética, estruturalismo, pré(pós)-estruturalismo[5], que se ousou apresentar didaticamente em Ruy Fausto: dialética e estruturalismo[6].

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A IA está inflando uma bolha?

C.P. Chandrasekhar [1] e Jayati Ghosh [2]

A febre dos investimentos financeiros desencadeada pela oferta pública inicial da SpaceX é um sinal de que o boom dos investimentos em IA é uma bolha.[3]

Os mercados financeiros dos EUA estão em êxtase. Algumas empresas estão batendo recordes de ofertas públicas iniciais (IPO), transmitindo a impressão de uma transformação do papel dos mercados de ações no capitalismo americano. A tendência começou com a SpaceX, a megacorporação criada ao converter a plataforma de mídia social Twitter, renomeada X, no player de inteligência artificial xAI, e depois fundi-la com o operador de satélites e gigante das telecomunicações.

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O problema dos três corpos do capitalismo

Autor: Romaric Godin

Tradução do subtítulo: Sobre a gestão autoritária do desastre (e os meios para lidar com ele).

Publica-se abaixo uma tradução da introdução do livro de Romaric Godin, a qual foi disponibilizada no sítio da própria editora La découverte, em francês. Como o texto é extenso, a sua publicação encontra-se abaixo na forma de pdf que pode ser baixado pelos interessados. Segue-se o endereço do sítio da editora para os eventuais interessados: https://www.editionsladecouverte.fr/2