Por que as tarifas de Trump não abalaram o comércio mundial?

Richard Baldwin [1]

World map highlighting trade routes and tariffs between countries including US, China, Brazil, Germany, India, Japan, and Australia

Em 2025, os EUA lançaram o ataque tarifário mais agressivo que o mundo já viu. Não foi o protecionismo ingênuo da lei Smoot-Hawley. Foi algo com outra intenção. A intenção era punir todos os parceiros comerciais dos EUA. Era dar um suposto troco.

Trump explicou a sua política tarifária afirmando que a América “foi saqueada, pilhada, estuprada e saqueada por nações próximas e distantes, tanto amigas quanto inimigas.”

Mas algo estranho aconteceu. A história teve um reviravolta surpreendente à medida que guerra comercial mundial escalava em 2025. Estrangeiros não retaliaram com força – exceto a China; logo-logo trataremos melhor dessa história. Muitas economias estavam prestes a retaliar, mas depois o fizeram ou se o fizeram, logo=logo voltaram atrás.

Ora, isso se afigura como um quebra-cabeça que suscita uma pergunta crucial:

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As finanças são realmente parasitárias?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Desafiado com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; em linguagem mais rigorosa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de finanças parasita o capital industrial. Contudo, aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de início.

E que se pode – e até se deve – contestar esse difundido preconceito de uma perspectiva de esquerda. Para tanto se examina em sequência dois fundamentos possíveis dessa metáfora; ao apresentá-la na discussão pública – eis a questão crucial – o que se está criticando precisamente? Que princípio moral sustenta o uso extensivo dessa metáfora? Seguem-se duas respostas, uma depois da outra. Encaminha-se logo a primeira, ainda que de um modo inusitado.

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Aquanno e Maher: “Não, as finanças não são parasitas”

Entrevista com Scott Aquanno e Stephen Maher [1]

Os economistas esquerda tem lutado para combater as poderosas metáforas que sustentam o neoliberalismo. A ideia de que o governo estoura o seu “cartão de crédito”, por exemplo, ainda permeia as narrativas da mídia que clama por austeridade. E ela permanece apesar dos melhores esforços dos economistas para explicar aos jornalistas que o orçamento do governo não obedece às mesmas restrições dos orçamentos familiares.

Ademais, a alegoria crítica e opositora que vê as “finanças como parasitas” parece estar bem difundida nos grupos políticos progressistas. O argumento frequente  diz que o setor financeiro está superdimensionado e que ele se alimenta sugando a riqueza real produzida pela sociedade; ao fazê-lo, ele reduz os investimentos “produtivos” nas empresas, na infraestrutura e outros bens sociais, para gerar bolhas especulativas.

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Semiocapitalismo: uma crítica

Eleutério F. S. Prado [1]

Nome anterior: teoria crítica ou devaneio crítico?

Do capitalismo ao semiocapitalismo

Começo com uma questão: o intrigante e desafiante livro “And, Phenomenology of the end[2] de Franco “Bifo” Beraldi vem a ser uma adição à crítica da economia política ou um deslizamento numa outra forma de crítica? Nesse folhoso, esse teórico das mídias e do movimento operaísta italiano busca compreender de novo inovador a transformação do capitalismo que veio a existir após a crise dos anos 1970, com o advento da financeirização e do neoliberalismo.

Segundo ele, nessa década e nas seguintes, o capitalismo deixa de ser industrial para se tornar pós-industrial, ou melhor, deixa de ser capitalismo para se tornar semiocapitalismo – caracterização esta que requer certamente explicação. Para alcançá-la, note-se de início como resume o seu projeto de pesquisa: “Quero investigar aqui” – diz – “a genealogia do semiocapitalismo, e particularmente do capitalismo financeirizado, do ponto de vista da sensibilidade linguística”. Sendo assim, pode-se ver de imediato que ele não pensa mais no interior da exposição dialética que constitui O capital, mas fora dela.

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As economias modelares vascilam

O autor do escrito abaixo mostra que os modelos econômicos da Alemanha e da China estão em crise. O artigo não é teoricamente rigoroso, mas tem uma mensagem relevante que contraria o otimismo de certos autores em relação ao progresso das economias chinesa e alemã vis-à-vis a economia norte-americana. (E.P.)

Ernst Lohoff [1] – 6 de março de 2026

Por muito tempo, Alemanha e China, com suas indústrias de exportação, estiveram entre os principais beneficiários da expansão do comércio mundial. Hoje, seus modelos de negócios estão ambos sob o impacto de uma crise séria [ou seja, de uma crise de superprodução].

“O primeiro será o último”, disse Jesus no Novo Testamento – um alerta que se aplica tanto à China quanto à Alemanha hoje. Após a grande crise financeira de 2007 a 2009, as duas economias foram por muito tempo consideradas modelos de sucesso, pois retomaram rapidamente o crescimento econômico. Na época, a China, que não havia passado por uma recessão nas últimas décadas, desacelerou já que a sua taxa anual crescimento de dois dígitos caiu para 9% em 2008 e para 6% no ano seguinte.

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Capitalismo, que capitalismo?

Eleutério F. S. Prado [1]

A questão da qualificação

Não faltam qualificativos para o capitalismo contemporâneo: pós-industrial (Alain Touraine), parasitário (Zygmunt Bauman), financeirizado (José Carlos de Souza Braga), pós-grande industrial (Ruy Fausto), cognitivo (Carlo Vercellone), 4.0 (Paulo Ghiraldelli), ecocida (Alain Bihr), superindustrial (Pierre Veltz) etc. etc. Aqui se examina o último citado e que veio à luz recentemente por meio do livro recém-publicado[2] de Fernando Haddad, professor no departamento de ciência política da FFLCH/USP.

Eis que causou algum espanto, talvez um choque: “Fernando Haddad” – protestou, por exemplo, Paulo Ghiraldelli –, para explicar o capitalismo atual, o chama estranhamente de “superindustrial”:

“É difícil ver o mundo corporativo de hoje, campo das empresas atuais, ser coberto pelo nome de “indústria”, menos ainda de “super indústria”. (…) Ao fazê-lo, ele “não conferiu importância para algo que as narrativas atuais sobre nossos últimos anos têm insistido, que é a hegemonia da lógica do capital financeiro.[3] Vivemos hoje sob a simbiose entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro (…).”[4]

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A política econômica do nacional-socialismo

Romaric Godin [1] – Sin Permiso [2] – 17/01/2026

Em um texto recentemente traduzido para o francês, o filósofo alemão Alfred Sohn-Rethel descreve o mecanismo pelo qual os nazistas, aproveitando-se da crise econômica, implantaram um tipo particular de economia que inevitavelmente levou à guerra e à violência. O escrito que se segue permite entender a lógica suicidária da economia fascista.

O livro de Sohn-Rethel

A ascensão da extrema-direita no Ocidente necessariamente nos leva a examinar as condições que levaram à vitória do fascismo na década de 1930. Sob esse ponto de vista, uma obra recentemente republicada em francês sob o título Industrie et national-socialisme, faz uma contribuição original e decisiva para uma boa compreensão da ascensão ao poder do nazismo na Alemanha, em 1933.

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O apocalipse cripto vindouro

Nouriel Roubini [1]  – Project Syndicate – 3 de fevereiro de 2026

O futuro do dinheiro e dos pagamentos terá uma evolução gradual, não a revolução que os vigaristas de cripto estão prometendo. A mais recente queda do Bitcoin e de outras criptomoedas ressalta ainda mais a natureza altamente volátil dessa pseudoclasse de ativos. Só resta esperar que os formuladores de políticas acordem para os riscos antes que seja tarde demais.

Há um ano, o presidente mais pró-cripto da história dos EUA havia acabado de voltar ao poder. Eles acabara de agradar um contingente de investidores de criptomoedas desinformados e de receber um enorme apoio financeiro de profissionais semi-corruptos do setor cripto. A segunda vinda de Donald Trump deveria ser um novo amanhecer para as criptomoedas, levando vários evangelistas auto-interessados a prever que o Bitcoin se tornaria “ouro digital”, alcançando pelo menos $200.000 até o final de 2025.

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A Guerra-Espetáculo de Trump no Irã: cortina de fumaça para a grande crise

Por José Paulo Guedes Pinto[1]

“No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” – Guy Debord, tese 14 do livro “A Sociedade do Espetáculo”

Vivemos um momento em que a política internacional passou a operar cada vez mais como espetáculo. Em vez de enfrentar problemas estruturais, governos constroem narrativas dramáticas que dominam o noticiário e tentam reorganizar momentaneamente o apoio político. Como lembrava Guy Debord no livro, na nossa sociedade do espetáculo, a realidade social é substituída por imagens e encenações: a política torna-se uma produção permanente de narrativas, custe o que custar.

Em outro texto defendi que foi essa lógica que marcou o episódio do sequestro do presidente Nicolas Maduro autorizado por Trump na Venezuela. Sigo pensando que a retórica agressiva e violenta, as ameaças militares e as sanções econômicas são mecanismos espetaculares que seguem funcionando menos como soluções reais e mais como instrumentos simbólicos momentâneos para reorganizar a política doméstica dos EUA, desviar a atenção das crises internas e tentar alimentar a base de Trump com a imagem de um líder forte.

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Haverá uma catástrofe com adoção da IA?

Michael Roberts – The next recession blog –26/02/2026

Um relatório publicado no último fim de semana pelo obscuro grupo de analistas financeiros “Citrini Research”, versando sobre o impacto futuro da IA, causou uma venda de ações das empresas de software.  A “Citrini” era pouco conhecida até publicar o seu “Global intelligence crisis report” – um aviso sobre uma crise global que viria com a adoção da IA”. Mas, subitamente, a publicação acumulou mais de 22 milhões de visualizações só no X.

A mensagem básica do aviso diz que, em poucos anos, os “agentes” de IA podem substituir amplamente o trabalho humano em todos os setores da economia.  Se acontecer, isso levaria a um aumento massivo do desemprego, seguido por um colapso do consumo e uma crise financeira no setor de ‘crédito privado’ às famílias e nas hipotecas, desencadeando assim uma brutal recessão.

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