Sem dívida conjunta em grande escala e mercados de ativos seguros, além de mais profundos, o euro não será capaz de capitalizar o ataque de Trump à credibilidade do dólar. [O gráfico abaixo mostra a evolução das reservas internacionais globais. Se o ouro dominou na maior parte do período, a partir de 1980 o dólar ganhou cada vez mais espaço; contudo começou a perder esse espaço no fim do período. Note-se que a posição do euro está em azul e do rebimbe em cinza.]
Continuar lendoArquivo da tag: crise do capitalismo
Depois do “pós-fordismo” vem o “muskismo”?
Quinn Slobodian [1] e Ben Tarnoff [2] – Fonte: Sin Permiso [3] – 26/04/2026
Tem sido apontado frequentemente que Elon Musk e Henry Ford têm muito em comum. Ambos foram aclamados como gênios tecnológicos que fizeram avanços revolucionários nos processos de produção e nos produtos de consumo. Ambos figuram como politicamente conservadores. E ambos defenderam visões reacionárias por meio de seus meios de comunicação pessoais: Ford publicou uma série famosa de artigos antissemitas em seu jornal, The Independent of Dearborn, e Musk usa o Twitter, depois X, como megafone para expressar sua hostilidade em relação aos imigrantes não brancos.
Contudo, já ao começarmos escrever o nosso livro recente sobre Elon Musk, percebemos rapidamente que os paralelos entre Musk e Ford não se relacionam principalmente às suas biografias pessoais. Eles concernem aos tipos de sociedade – sendo também requeridos por eles – que aparecem em seus modos de apreender a economia política realmente existente.
Continuar lendoChina ou Estados Unidos?
Eleutério F. S. Prado [1]
Introdução
A resposta a essa pergunta, parece bem importante atualmente. Mesmo uma apresentação de fatos que ajudem a respondê-la pode ser útil. Contudo, ela seria ainda mais importante se fosse capaz de indicar o significado histórico do poder relativo desses dois países. Contudo, mesmo ficando apenas nos fatos, não parece fácil obter uma resposta bem precisa. Mas é preciso tentar e aqui se fará um esforço nesse sentido.
O primeiro modo – mas não o mais seguro – de chegar a uma definição consiste em comparar o “produto interno bruto” (PIB) desses países. Note-se, porém, que o PIB dos Estados Unidos é expresso em dólar enquanto o PIB da China é medido em yuan. Sendo assim, como é possível compará-los? Eis que é requirida uma taxa de câmbio que diga, por exemplo, quanto vale um yuan em dólar. Ora, duas taxas de câmbio são normalmente utilizadas com esse propósito: a taxa de câmbio comercial e a taxa de câmbio de paridade de poder de compra (PPC).
Continuar lendoQuão severa é a desaceleração do crescimento da China?
Branko Milanovic – Blog do autor no Substack – 9/04/26
Há muitos artigos alarmistas sobre a desaceleração do crescimento da China (para ler um bom exemplar, abra-se o link aqui). A desaceleração é real. O crescimento anual médio da China nos últimos três anos foi ligeiramente inferior a 5% per capita. Dez anos atrás, a média de três anos era cerca de 7% per capita e alguns anos antes, a média de três anos chegava a 10% per capita.
Mas 5% de crescimento seria ruim? Quão ruim ele seria? Em 2024 (o último ano com taxas de crescimento detalhadas do banco de dados FMI/Banco Mundial), a taxa média de crescimento dos países como um todo não passou de 2%. Apenas um país em cada dez (ou seja, dez por cento dos países) teve taxas de crescimento acima de 4,7%. Assim, as taxas de crescimento chinesas, mesmo agora que se encontram em processo de desaceleração, ainda estão entre os mais altas do decil mais alto dentre todas as taxas anuais de crescimento de todos os países.
Continuar lendoPor que as tarifas de Trump não abalaram o comércio mundial?
Richard Baldwin [1]
Em 2025, os EUA lançaram o ataque tarifário mais agressivo que o mundo já viu. Não foi o protecionismo ingênuo da lei Smoot-Hawley. Foi algo com outra intenção. A intenção era punir todos os parceiros comerciais dos EUA. Era dar um suposto troco.
Trump explicou a sua política tarifária afirmando que a América “foi saqueada, pilhada, estuprada e saqueada por nações próximas e distantes, tanto amigas quanto inimigas.”
Mas algo estranho aconteceu. A história teve um reviravolta surpreendente à medida que guerra comercial mundial escalava em 2025. Estrangeiros não retaliaram com força – exceto a China; logo-logo trataremos melhor dessa história. Muitas economias estavam prestes a retaliar, mas depois o fizeram ou se o fizeram, logo=logo voltaram atrás.
Ora, isso se afigura como um quebra-cabeça que suscita uma pergunta crucial:
Continuar lendoAs finanças são parasitárias?
Autor: Eleutério F. S. Prado [1]
Desafiado com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; de maneira mais precisa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de finanças parasita o capital industrial (notando-se que indústria e industrial será tomado sempre em sentido amplo neste escrito).[2]
Contudo, aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de início. E que se pode – e até que se deve – contestar essa difundida tese que, aliás, não para de prosperar nos meios de esquerda. Para tanto, em sequência, se examina como essa metáfora surge na história da crítica ao capitalismo e quais seriam as razões usualmente apresentadas para sustentá-la. Ao longo e ao final se mostra também como se deve questioná-la.
Continuar lendoAquanno e Maher: “As finanças não são parasitas”
Entrevista com Scott Aquanno e Stephen Maher [1]
Os economistas esquerda tem lutado para combater as poderosas metáforas que sustentam o neoliberalismo. A ideia de que o governo estoura o seu “cartão de crédito”, por exemplo, ainda permeia as narrativas da mídia que clama por austeridade. E ela permanece apesar dos melhores esforços dos economistas para explicar aos jornalistas que o orçamento do governo não obedece às mesmas restrições dos orçamentos familiares.
Ademais, a alegoria crítica e opositora que vê as “finanças como parasitas” parece estar bem difundida nos grupos políticos progressistas. O argumento frequente diz que o setor financeiro está superdimensionado e que ele se alimenta sugando a riqueza real produzida pela sociedade; ao fazê-lo, ele reduz os investimentos “produtivos” nas empresas, na infraestrutura e outros bens sociais, para gerar bolhas especulativas.
Continuar lendoSemiocapitalismo: uma crítica
Eleutério F. S. Prado [1]
Nome anterior: teoria crítica ou devaneio crítico?
Do capitalismo ao semiocapitalismo
Começo com uma questão: o intrigante e desafiante livro “And, Phenomenology of the end”[2] de Franco “Bifo” Beraldi vem a ser uma adição à crítica da economia política ou um deslizamento numa outra forma de crítica? Nesse folhoso, esse teórico das mídias e do movimento operaísta italiano busca compreender de novo inovador a transformação do capitalismo que veio a existir após a crise dos anos 1970, com o advento da financeirização e do neoliberalismo.
Segundo ele, nessa década e nas seguintes, o capitalismo deixa de ser industrial para se tornar pós-industrial, ou melhor, deixa de ser capitalismo para se tornar semiocapitalismo – caracterização esta que requer certamente explicação. Para alcançá-la, note-se de início como resume o seu projeto de pesquisa: “Quero investigar aqui” – diz – “a genealogia do semiocapitalismo, e particularmente do capitalismo financeirizado, do ponto de vista da sensibilidade linguística”. Sendo assim, pode-se ver de imediato que ele não pensa mais no interior da exposição dialética que constitui O capital, mas fora dela.
Continuar lendoAs economias modelares vascilam
O autor do escrito abaixo mostra que os modelos econômicos da Alemanha e da China estão em crise. O artigo não é teoricamente rigoroso, mas tem uma mensagem relevante que contraria o otimismo de certos autores em relação ao progresso das economias chinesa e alemã vis-à-vis a economia norte-americana. (E.P.)
Ernst Lohoff [1] – 6 de março de 2026
Por muito tempo, Alemanha e China, com suas indústrias de exportação, estiveram entre os principais beneficiários da expansão do comércio mundial. Hoje, seus modelos de negócios estão ambos sob o impacto de uma crise séria [ou seja, de uma crise de superprodução].
“O primeiro será o último”, disse Jesus no Novo Testamento – um alerta que se aplica tanto à China quanto à Alemanha hoje. Após a grande crise financeira de 2007 a 2009, as duas economias foram por muito tempo consideradas modelos de sucesso, pois retomaram rapidamente o crescimento econômico. Na época, a China, que não havia passado por uma recessão nas últimas décadas, desacelerou já que a sua taxa anual crescimento de dois dígitos caiu para 9% em 2008 e para 6% no ano seguinte.
Continuar lendoCapitalismo, que capitalismo?
Eleutério F. S. Prado [1]
A questão da qualificação
Não faltam qualificativos para o capitalismo contemporâneo: pós-industrial (Alain Touraine), parasitário (Zygmunt Bauman), financeirizado (José Carlos de Souza Braga), pós-grande industrial (Ruy Fausto), cognitivo (Carlo Vercellone), 4.0 (Paulo Ghiraldelli), ecocida (Alain Bihr), superindustrial (Pierre Veltz) etc. etc. Aqui se examina o último citado e que veio à luz recentemente por meio do livro recém-publicado[2] de Fernando Haddad, professor no departamento de ciência política da FFLCH/USP.
Eis que causou algum espanto, talvez um choque: “Fernando Haddad” – protestou, por exemplo, Paulo Ghiraldelli –, para explicar o capitalismo atual, o chama estranhamente de “superindustrial”:
Continuar lendo“É difícil ver o mundo corporativo de hoje, campo das empresas atuais, ser coberto pelo nome de “indústria”, menos ainda de “super indústria”. (…) Ao fazê-lo, ele “não conferiu importância para algo que as narrativas atuais sobre nossos últimos anos têm insistido, que é a hegemonia da lógica do capital financeiro.[3] Vivemos hoje sob a simbiose entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro (…).”[4]









