Entrevista com Michael Hudson [1]
Blogue: The new evolution of economics – 06/2016
Primeiro de uma série de três artigos que tratam da questão de saber se as finanças são ou não são parasitárias. Michael Hudson, numa entrevista dada a Eric Draitser, publicada na internet, argumenta que sim, que as finanças são parasitárias, com base numa compreensão não-marxiana da teoria do valor trabalho. Em sequência, publica-se uma entrevista dada a Anne Pick em que Scott Aquanno e Stephen Maher argumentam que as finanças não são parasitárias, contrariando o autor anterior. Finalmente, põe-se à luz do sol um texto deste blogueiro que discute os fundamentos morais de tal crítica, que supostamente atinge àqueles que vivem de rendas no capitalismo e ao capital de finanças que permite que elas existam. Eis a primeira entrevista:
Eric Draitser: Hoje tenho o privilégio de apresentar Michael Hudson neste programa. Ele vai nos contar que as finanças se comportam como um parasita em relação à economia real. Prazer em recebê-lo.
O parasitismo das finanças
Michael Hudson: É bom estar aqui.
ED: Muito obrigado por vir. Como gosto de mencionar, o título do seu livro – Matando o hospedeiro: como os parasitas financeiros e a escravidão da dívida destroem a economia global [2] – é uma boa metáfora. Você escreveu um livro sobre parasitismo do capital financeiro. Você nele explica que, em essência, as finanças sobrevivem alimentando-se do que poderíamos chamar de economia real. Você poderia falar dessa analogia mais um pouco? O que ela significa? Como as finanças se comportam como parasitas em relação ao restante da economia?
MH: Economistas dos últimos 50 anos usaram o termo “economia hospedeira” para indicar um país que permite a entrada de investimento estrangeiro. Esse termo aparece na maioria dos livros didáticos tradicionais. Um hospedeiro implica a existência de um parasita. O termo parasitismo foi aplicado às finanças por Martinho Lutero e outros, mas geralmente no sentido que você acabou de mencionar: o parasita tira simplesmente algo do hospedeiro.
Mas não é assim que os parasitas biológicos funcionam na natureza. O parasitismo biológico é mais complexo, e justamente por essa razão é uma metáfora melhor e mais sofisticada para o que acontece na economia atualmente. O segredo está em como um parasita assume o controle de um hospedeiro. Possui enzimas que anestesiam o sistema nervoso e o cérebro do hospedeiro. Então, se ele picar ou enfiar as garras nele, usa um anestésico soporífero que impede que o hospedeiro perceba que está sendo tomado. Então o parasita envia enzimas para o cérebro. Um parasita não pode tomar nada do hospedeiro a menos que ele tome conta do seu cérebro.
O cérebro nas economias modernas é o governo, o sistema educacional e a forma como governos e sociedades criam seus modelos de política econômica. Na natureza, o parasita faz o hospedeiro pensar que o parasita é sua cria, parte de seu corpo; assim, ele convence o hospedeiro a proteger o parasita que se implantara nele próprio.
Foi assim que o setor financeiro assumiu o controle da economia. Os seus lobistas e os seus defensores acadêmicos convenceram governos e eleitores de que precisam proteger os bancos, e que até mesmo precisam socorrê-los quando se tornam excessivamente predatórios e enfrentam o colapso. Governos e políticos são persuadidos a salvar bancos em vez de salvar a economia, como se a economia não pudesse funcionar sem que os bancos ficassem com as mãos livres para fazer o que quiserem, livres de regulações sérias e até mesmo de processos judiciais quando cometem fraudes. Isso significa salvar os credores – 1% dos adultos são credores, pois os 99% restantes são endividados.
Nem sempre foi assim. Um século atrás, dois séculos atrás, três séculos atrás e até a Idade do Bronze, quase todas as sociedades perceberam que as finanças são uma grande força desestabilizadora – ou seja, condenaram o processo de endividamento. A dívida cresce exponencialmente, permitindo que os credores executem, em última instância, os bens dos devedores. Os credores acabam reduzindo as sociedades à escravidão por dívida; como se sabe, o Império Romano terminou em servidão.
Há cerca de cem anos, na América, John Bates Clark e outros ideólogos a favor das finanças argumentavam que elas não são externas à economia. Não são algo supérfluo, fazem parte da economia tal como os outros proprietários. Todos fazem parte da economia. Isso significa que, se o setor financeiro retira mais receita da economia como juros, taxas ou encargos de monopólio, é porque as finanças são uma parte inerente e vital da economia; elas contribuem para o PIB sem esfolar os produtores (Wall Street), ou seja, o 1%. Portanto, a política econômica deve proteger as finanças porque elas ajudam no crescimento – não comem parte do crescimento possível.
Há um ou dois anos, Lloyd Blankfein, do Goldman Sachs, disse que o motivo pelo qual os empresários do Goldman Sachs são pagos mais do que qualquer outro é porque são muito produtivos. A questão é: produtivo de quê? As contas nacionais que calculam a renda e o produto nacionais (NIPA) afirmam que todos são produtivos na mesma proporção do valor que ganham/recebem. Não importa se renda obtida é extrativa ou produtiva. Não importa se foi obtida fabricando produtos ou simplesmente tirando dinheiro das pessoas ou, pior ainda, por meio de fraude. Como se sabe, os bancos como Goldman Sachs, Citigroup, Bank of America e outros já pagaram dezenas de milhões de dólares em multas por cometer abusos econômicos.
Parasitismo e neoliberalismo
Qualquer forma de ganhar renda é considerada tão produtiva quanto qualquer outra. Essa é uma mentalidade que ajuda os parasitas, porque nega que exista algo como renda extraída sem contrapartida produtiva. Nega-se muitas vezes que haja almoço grátis. Milton Friedman ficou famoso por promover a ideia de que não existe almoço grátis. Ora, Wall Street sabe muito bem que isso existe e que é disso que vive. Nesse mundo, tudo gira em torno de como conseguir um almoço grátis, passando se possível os riscos para o governo. Não é à toa que apoiam economistas que negam que isso exista!
ED: Para chegar à raiz da questão, me interessa lembrar nessa analogia que apontamos o tempo todo para o termo neoliberalismo. Trata-se de uma ideologia que promove um ambiente no qual esse tipo parasitário de capital financeiro pode operar. Então, você poderia falar um pouco sobre a relação entre capital financeiro e neoliberalismo, este último como ideologia do primeiro?
MH: O vocabulário em questão contém o que Orwell chamaria de “duplipensar”. Se não se quer ser chamado de antiliberal, alguém que fica contra aquilo que Adam Smith, John Stuart Mill e outros economistas clássicos chamaram de mercados livres, então se assume a posição de neoliberal. O foco de Smith, Mill, Quesnay e de toda a economia clássica do século XIX era traçar uma distinção entre trabalho produtivo e improdutivo – ou seja, entre pessoas que ganham salários e lucros, e rentistas. Mill, por exemplo, se referiu jocosamente àqueles que “enriquecem enquanto dormem.” Foi assim que ele descreveu os proprietários de terras recebendo renda fundiária. Também o setor financeiro que recebe juros e ganhos de capital foi criticada por ele.
A primeira coisa que a Escola de Chicago neoliberal fez ao assumir o Chile foi fechar todos os departamentos de economia do país, exceto o da Universidade Católica. Eles iniciaram um programa de assassinatos de professores de esquerda, líderes sindicais e políticos, e impuseram o neoliberalismo sob a mira de armas. A ideia deles é que não se pode existir “mercados livres”, desregulados e que não protegem os trabalhadores dos infortúnios dos mercados, a menos que haja um controle totalitário.
Os economistas de Chicago dizem que é preciso censurar qualquer ideia de que já existiu uma alternativa, reescrevendo a história econômica para negar as reformas fiscais e regulatórias progressivas defendidas por Smith, Mill e outros economistas clássicos. Eles queriam libertar o capitalismo industrial dos privilégios feudais sobreviventes nos privilégios dos proprietários de terras e das finanças predatórias.
Essa reescrita da história do pensamento econômico envolve inverter o vocabulário comum que as pessoas utilizam. Então, a ideia do parasitismo é substituir o significado das palavras e do vocabulário cotidianos pelo seu oposto. Trata-se do “duplipensar”.
As doutrinas dos governos democrático e oligárquico
ED: Não quero me desviar muito, mas você mencionou o golpe de 1973 no Chile e o assassinato de Allende como forma de impor a ditadura de Pinochet. Essa foi uma operação de Kissinger/Nixon, como sabemos, mas o interessante é que o Chile foi transformado em uma espécie de laboratório experimental para impor o modelo econômico da escola de Chicago, o qual hoje chamamos de neoliberalismo. Mais adiante em nossa conversa, quero falar um pouco sobre alguns laboratórios recentes que vimos na Europa Oriental e, agora, também no sul da Europa. O ponto importante sobre o neoliberalismo é a relação entre o governo totalitário e essa forma de economia que você está descrevendo.
MH: Isso mesmo. Os neoliberais dizem que são contra o governo, mas o que realmente são contra é o governo democrático. O tipo de governo que eles apoiam são aquele da Grécia pré-referendo ou a Ucrânia pós-golpe. Como disse Wolfgang Schäuble, da Alemanha, “a democracia não conta.” Os neoliberais querem um tipo de governo que traga ganhos para os bancos, não necessariamente para a economia como um todo. Esses governos basicamente são oligárquicos. Quando as altas finanças assumem o controle dos governos como meio de explorar os 99 por cento de endividados, tudo se fará por políticas governamentais ativas – voltadas para os ganhos financeiros.
Aristóteles falou sobre isso há mais de 2.000 anos. Ele afirmou que a democracia é um estágio precedente à oligarquia. Todas as economias passam por três estágios repetindo um ciclo: da democracia elas vão para a oligarquia quando, então, os oligarcas se tornam hereditários.
Atualmente, o governo Bush quer abolir o imposto sobre o capital para ajudar a elite emergente a se transformar numa aristocracia hereditária. Então, algumas famílias aristocráticas brigam entre si, levam o público para o seu campo e promovem a democracia, então o ciclo começa de novo. Esse é o tipo de ciclo que estamos tendo agora, assim como na antiga Atenas. É uma transição da democracia para a oligarquia a caminho de se formar uma aristocracia da elite do poder.
ED: Quero voltar ao livro em um segundo, mas preciso mencionar um economista em particular que ainda não foi mencionado: Karl Marx. Lembre-se então que a teoria do valor do trabalho de Marx mostra que esse valor, em última análise, deriva do trabalho. Capital financeiro parasita é o oposto disso. Pode aumentar os seus ganhos sem criar valor.
MH: Correto, mas devo apontar que há uma má interpretação, muito frequente, do contexto em que se formulou e se refinou a teoria do valor do trabalho. Marx e os outros economistas clássicos – William Petty, Smith, Mill e outros – formularam essa teoria para isolar aquela parte do preço das mercadorias que não consiste de valor. O objetivo deles era definir a renda de aluguel como algo que não provinha do valor.
Essa renda era, pois, um bocado que estava além da produção, se apresentava como um almoço grátis. Como isso é possível? O elemento de preço cobrado dos consumidores e outros não tem base no trabalho, nem no custo real, pois advém como resultado de um preço monopolista ou retorno ao privilégio. Ou seja, a renda da terra era uma sobrevivência da época feudal, sobretudo da aristocracia rural que era herdeira dos conquistadores militares, e do setor financeiro das famílias bancárias e seus herdeiros.
O objetivo da teoria do valor do trabalho era mostrar que havia uma divisão na economia entre aquilo que era produzido pelo trabalho e um excesso. O objetivo dos economistas clássicos era alinhar os preços com o valor para barrar os monopólios, para evitar que assomasse na economia uma classe de latifundiários ausentes, a fim de libertar a sociedade do legado do feudalismo e das conquistas militares que dividiram a terra da Europa há mil anos e que ainda fundamentam nossas relações de propriedade.
[1] Presidente do The Institute for the Study of Long-Term Economic Trends (ISLET), analista financeiro de Wall Street, professor e pesquisador econômico da University of Missouri, Kansas.
[2] Hudson, Michael – Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy – Islet, 2015.

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