Entre o social e o associal no capitalismo

Autores: Lucas Pohl[1] e Samo Tomsic[2]

Neste início[3], pode valer a pena recordar a ocasional “definição” de gozo de Lacan, que condensa as várias complicações em jogo ao nível da pulsão e de sua satisfação: “gozo é o que não serve para nada”, ne sert a rien. Em outras palavras, o gozo não contribui em nada para a satisfação das necessidades e não tem utilidade ou propósito, exceto ele mesmo.

Entendida desta forma, gozo significa “prazer pelo prazer” – e o termo “mais-gozar” que Lacan cunhou tendo por referência o mais-valor de Marx pretende elevar ao nível de conceito o afastamento do gozo em relação à utilidade. Da mesma forma, segundo Marx, o mais-valor aponta para uma característica essencial do capitalismo, a organização da produção em torno do imperativo do crescimento perpétuo e do aumento do valor, ou seja, em torno da “produção pela produção”. Voltaremos a essa caracterização crucial mais adiante.

O mais-gozar, portanto, representa o gozo caracterizado por sua inutilidade. “Gozo é desperdício”, como afirma Alenka Zupancic. Essa característica diz respeito especificamente ao modo de gozo capitalista.[4] Mas então, o que isso diz sobre o vínculo social capitalista? Freud já chamava atenção para o caráter libidinal das relações sociais, ou seja, em outras palavras, afirmava que essas relações devem ser consideradas como vínculos libidinais.[5] Visto pelas lentes da teoria das pulsões, o social imediatamente se mostra dividido internamente entre a consistência e a dissolução. O par Eros e pulsão da morte contém uma tensão.

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O que é capitalismo?

Nancy Fraser[1]

Entrevista concedida por Nancy Fraser a Lara Monticeli, na qual defende a tese de que “precisamos de uma aliança radical, contra-hegemônica e anticapitalista”. Trata-se de um sumário de seu livro Capitalismo em debate – uma conversa em teoria crítica, produzido em coautoria com Rahel Jaeggi (Boitempo, 2020).

Primeira Parte.

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Lara Monticelli (LM): Como fica claro no título, o principal protagonista de seu livro é o capitalismo. E seu objetivo é retornar ao que você chama de teoria social de “grande escala”, “de tipo amplo”, uma teoria crítica do capitalismo que visa explicitamente integrar a crítica marxista com as críticas ecológicas, feministas e pós-coloniais. Para começar, gostaria de lhe perguntar: quando você começou a vislumbrar esse novo projeto intelectual? É uma continuação natural ou uma ligeira mudança de foco em relação à sua produção intelectual anterior?

Nancy Fraser (NF): Você está certa ao dizer que o protagonista de nosso livro é o capitalismo e que seu objetivo é reviver a teorização social de “grande escala” ou englobante.  Na verdade, esse não é um interesse novo para mim. Minha visão de mundo foi formada na Nova Esquerda, muito tempo atrás; quando entrei na academia, trouxe comigo a firme convicção de que o capitalismo era a categoria principal ou o conceito de enquadramento para toda teorização social séria.

Mas, à medida que as décadas passavam e o etos da Nova Esquerda se desvanecia, comecei a perceber que nem todos compartilhavam dessa suposição. Em vez disso, a posição padrão, pelo menos nos Estados Unidos, era (e ainda é) liberalismo de um tipo ou de outro, seja igualitário de esquerda ou individualista libertário. Quando essa compreensão ocorreu, vi que minha experiência formativa na Nova Esquerda havia sido uma aberração, assim como os anos 1930 o foram para uma geração anterior de radicais norte-americanos.

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A ameaça da estagflação

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Nouriel Roubini[2], um conhecido analista macroeconômico que opera nos EUA, tendo por referência os países ricos, pensa que a ameaça da estagflação se mostra cada vez mais fidedigna. A política econômica atual, que combina expansão monetária e creditícia, assim como impulsos fiscais, tendo em vista estimular a demanda, com respostas insuficientes da oferta, vai produzir, segundo ele, um aquecimento inflacionário. “Combinadas, tais dinâmicas de oferta e demanda” – afirma – “pode gerar estagflação, um aumento geral dos preços e recessão, ao estilo do que ocorreu na década dos anos 1970”. Mesmo uma crise severa das dívidas tal como sobreveio na naquela década pode, potencialmente, ocorrer. Eis como caracteriza a ameaça da estagflação:

Enquanto esses persistentes choques negativos de oferta ameaçam reduzir o potencial de crescimento, a continuidade das políticas monetárias e fiscais frouxas pode desancorar as expectativas inflacionárias. Uma espiral preços-salários pode então sobrevir num ambiente caracterizado por uma tendência recessiva pior do que aquela dos anos 70 do século passado – quando as razões dívida/PIB eram bem menores do que são agora.[3] 

Jayati Ghosh[4], uma notória analista da economia mundial, julga que a estagflação é também uma ameaça, mas agora para os países não desenvolvidos, cujos mercados são ditos emergentes. A interdependência global se acentuou nas últimas décadas de tal modo que essas nações estão sob riscos devidos às consequências das políticas macroeconômicas implementadas pelos países ricos. Nota-se que muitos desses países estão sofrendo com os aumentos dos preços mesmo quando os níveis da atividade econômica e do emprego permanecem baixos e mesmo em declínio. Eis como caracteriza o risco de que essa situação possa perdurar:

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Roberts: quatro traduções

Os leitores deste blog podem baixar quatro artigos traduzidos de Michael Roberts

O capitalismo se tornou insustentável

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Para demonstrar empiricamente a tese contida no título deste artigo é preciso considerar, primeiro, o fenômeno da financeirização que vem se exacerbando desde os anos 80 do século passado. Eis que ele não se apresenta como uma passagem episódica na história do capitalismo, mas como um acontecimento decisivo. Faz ver que não se encontrou uma solução virtuosa para a crise de acumulação engendrada no período de ouro do capitalismo, ocorrido após o fim da II Guerra Mundial. Como se sabe, essa crise se manifestou já nos anos 70 por meio de uma forte e longa queda da taxa de lucro. Apontando para um impasse, a figura em sequência apresenta esse fenômeno. E o faz mostrando uma discrepância crescente entre o PIB global e a soma dos ativos financeiros globais. Por que isso ocorreu?

A crise de lucratividade dos anos 1970, que atingiu fortemente o centro do sistema – mas também a periferia –, nunca foi plenamente resolvida porque os principais estados capitalistas optaram por evitar uma recessão profunda. Como esta teria efeitos econômicos, sociais e políticos devastadores – por causa das ondas de falências e do altíssimo desemprego da força de trabalho que produziria –, preferiram uma alternativa que evitasse a destruição e a desvalorização dos capitais acumulados no passado. Ocorre que esse choque disruptivo é necessário para que ocorra uma verdadeira restauração da taxa de lucro.  Foi assim que o capitalismo se recuperou várias outras vezes no passado. Mas desta vez, não.

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O dilema de Jackson Hole

Autor: Michael Roberts – Publicação: The next recession blog, 22/08/2021

No próximo fim de semana, os banqueiros centrais do mundo se reunirão em uma convenção anual em Jackson Hole, Wyoming, EUA, sob a perspectiva o fim da crise produzida pelo novo coronavírus. Os banqueiros ouvirão o presidente do Fed, Jay Powell e a secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen. Ademais, examinarão trabalhos acadêmicos encomendados a vários “economistas convencionais” que estudam os fenômenos monetários.  

A grande questão em pauta é se chegou hora de os bancos centrais desacelerarem suas compras de títulos do governo destinadas a injetar dinheiro de crédito nas economias, com o objetivo de evitar o colapso de empresas na desaceleração da pandemia. No ano de 2020, marcado pela pandemia, o Federal Reserve fez compras equivalentes a 11% do PIB dos EUA, o Banco da Inglaterra 14% do PIB do Reino Unido e muitos outros bancos do G7 de cerca de 10% do PIB nacional.

Fonte: Banco Mundial
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Materialismo crítico versus materialismo simbólico

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A questão de saber o que é o materialismo parece às vezes fácil de resolver. De imediato tem-se que se trata da posição filosófica que admite a existência de uma realidade exterior ao homem e que independe da sua subjetividade. Ora, desde que ele se tornou um ser social num passado muito distante, a própria realidade passou a ser transformada coletivamente, não apenas materialmente, mas também de outro modo. Como esse “senhor” passou a se comunicar por meio de linguagens cada vez mais complexas, a realidade para ele deixou de ser aquela que pode ser apreendida por meio dos sentidos, para se configurar como realidade simbólica. As simbolizações em geral e, em particular, a linguagem, recobrem um mundo real que continua subsistindo independentemente delas.

Aqui, para discutir um suposto materialismo de Jacques Lacan, parte-se de uma compreensão básica de linguagem. As formas elementares dessa complexidade são as palavras e estas consistem em princípio da reunião de uma forma (o significado) com um suporte da forma (o significante) – ainda que não de um modo rigidamente fixo. O significado diz respeito àquilo que é chamado de noção no plano da lógica; o significante, por sua vez, está constituído por sons devidamente concatenados, os quais são transmitidos por via oral ou por meio de um conjunto de sinais escritos que o fixam de modo duradouro. Em princípio, o significante transporta o significado. E ambos se ligam a um ou mais referentes por meio de conexões que também não são unas, estritamente estabelecidas.   

As palavras, portanto, não estão coladas a referentes, como se deles fossem meras imagens. Diferentemente, as palavras se referem ativamente às coisas por meio do uso que delas se faz na prática social. As pessoas que participam da associação linguística que se chama sociedade tem de apreender a usar a linguagem que, para elas, é um comum: eis que tem de se apoderar de suas regras, assim como do modo de empregar e combinar as palavras, as distinções entre elas, os seus limites referenciais etc. Ora, essa descrição sumária parece satisfatória, mas ela contém, entretanto, uma questão perturbadora: como as significações são postas socialmente, teriam elas alguma objetividade ou seriam meramente subjetivas? Os significantes apenas representam significados que moram na mente humana ou eles próprios são lugares onde moram os significados? 

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Morbidez capitalista e a crise global

Murray Smith, Jonah Butovsky e Josh Watterton[1]

A convulsão social de 2020-21 pode muito bem marcar uma virada importante na história mundial. A emergência global de saúde pública trazida pela Covid-19 e a crise econômica associada produziram efeitos sociais e políticos extremamente disruptivos e de longo alcance.  Mesmo antes do início da pandemia – note-se –, a economia mundial já estava à beira de uma recessão severa, titubeando após uma prolongada – e notavelmente morna – recuperação da Grande Recessão de 2008-09. Foi só isso o que era capaz de apresentar após várias décadas decrescimento lento, austeridade e problemas persistentes de lucratividade na esfera do capital industrial, em que se produz o valor e o mais-valor.  A recessão, então, foi grandemente ampliada por bloqueios (totais ou parciais) impostos pelos estados nacionais às indústrias, serviços governamentais e pequenas empresas. Como resultado desse processo, chegou-se a níveis de desemprego e de contração econômica que rivalizam com aqueles observados na Grande Depressão da década de 1930.

Como se deve encarar essa crise global “combinada” ocorrida entre 2020 e 2021?  Com poucas exceções, a resposta da mídia corporativa, dos estratos gerenciais profissionais, das elites políticas e de muitos economistas são notavelmente uniformes.  Consistente com a maioria das avaliações convencionais sobre os atuais problemas da humanidade, vê-se essa ocorrência como um fenômeno natural: eis que, súbita e “misteriosamente”, surgiu um vírus invulgarmente infeccioso e furtivo… Diante dessa emergência, fala-se muito então das decisões consciente e das ações de indivíduos (profissionais de saúde, políticos, líderes empresariais e jornalistas da grande mídia) em reação a ele. Assim, minimiza-se o papel decisivo desempenhado por poderosas forças sociais estruturais que instigam, exploram e determinam a forma e a magnitude da crise.

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Do futuro da economia mundial

A economia do mundo como um todo decresceu -3,5% em 2020 em decorrência da crise provocada pelo novo coronavírus; entretanto, segundo estimativas recentes da OCDE, crescerá 5,8% em 2021 e provavelmente algo em torno de 4,4% em 2022. Essa perspectiva tem trazido esperança e até um pouco de euforia para os agentes econômicos que dão suporte ao capital e que se beneficiam de seu processo de valorização: o mundo, segundo eles, vai recuperar o caminho de prosperidade – mesmo, porém, se desconfiam racionalmente dessa predição, é isso o que mais desejam.  Mas, o que esperar de fato da economia mundial na próxima década – e mesmo depois dela?

Fonte: Banco Mundial

Uma primeira resposta a essa pergunta pode ser encontrada examinando simplesmente a evolução da economia mundial nas últimas décadas. A figura acima mostra de forma iniludível que as taxas de crescimento do PIB global têm caído tendencialmente desde o fim da II Guerra Mundial. Se entre 1961 e 1970, esse indicador avançou segundo uma taxa média de 5,4% ano, nas décadas seguintes, essa taxa foi caindo até chegar à média de 2,2% ao ano entre 2011 e 2020.

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Michael Roberts e a crítica do keynesianismo (II)

A dúvida de um leitor do primeiro artigo com este título, mostrou a necessidade de explicar melhor um ponto central da argumentação aí contida, a qual buscou indicar uma falha capital da macroeconomia keynesiana. Pois, ela se reflete na própria crítica de Michael Roberts. Pode se afirmar mesmo que esse blogueiro famoso é induzido a fazer afirmações imprecisas porque ele próprio não foi capaz de descobrir essa falha originária. Tal como anteriormente, é preciso começar citando por extenso o seu argumento contra o pós-keynesianismo, que se dirige a um texto de Alex Willians.

O que diz Roberts em sua crítica?

Alex nos diz que um princípio fundamental do pós-keynesianismo (PK) é analisar as expectativas: “nosso próximo princípio é que tudo é expectativa”.  “As expectativas informam as ações dos agentes e essas ações, por sua vez, criam realidade. Talvez o modelo mais simples do ciclo causal keynesiano seja dizer que a demanda esperada impulsiona o investimento, o investimento impulsiona o emprego, o emprego impulsiona os salários, os salários impulsionam o consumo, o consumo impulsiona a demanda e a demanda valida o investimento. A demanda esperada impulsiona os investimentos porque as empresas só investem em capacidade e na contratação de mais trabalhadores quando acham que mais pessoas vão querer comprar seu produto no futuro, mais do que têm feito no momento presente. Se esperassem a mesma demanda, ou menos, não haveria necessidade de investir. Eles poderiam continuar a usar o mesmo equipamento”.

Ora, agora foi dito o que importa. O investimento sob o capitalismo não é movido pelo lucro ou pela lucratividade, mas finalmente pelas “expectativas”. Não é movido nem mesmo pelo lucro futuro, mas sim pela “demanda esperada”. Isso impulsiona o investimento que, por sua vez, gera empregos e salários.

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