Finanças que operam na sombra

Lenore Palladino [1]

A finança não regulamentada cresce no coração da economia americana

Em outubro de 2025, a fabricante de autopeças First Brands, sediada em Ohio, enfrentou problemas para pagar a sua dívida. A imprensa financeira tratou do caso, mas não porque a First Brands fosse particularmente importante ou excepcional para a economia dos EUA. O fez porque várias instituições financeiras começaram a perceber que a exposição mantida com essa empresa — por meio de seus fundos de aplicação privados — era maior do que eles pensavam.

Eis que, ao contrário dos bancos, os fundos de aplicação privados não são regulados e, por isso, torna-se bem difícil apreciar o potencial de riscos interligados, realizar a devida diligência ou avaliar a razoabilidade dos empréstimos. Como o regulador financeiro do Reino Unido, Simon Walls, diretor executivo de mercados, tem apontado: “Não há uma distinção muito clara entre o setor bancário e o setor não bancário” — mas os reguladores só podem lidar com um ou outro.

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A relação credor-devedor como base do capitalismo

Publica-se em sequência um texto do autor dos livros cujas capas aparecem na figura abaixo, não sem acrescentar, após o seu final, uma nota crítica para censurar a sua tentativa pós-moderna de desprezar a economia política e a sua crítica exemplar, que, aliás, ele parece  ignorar.

Autor: Maurizio Lazzarato [1]

A economia da dívida parece ter produzido uma grande mudança em nossas sociedades. Vamos analisar o significado dessa mudança baseando-nos no segundo ensaio de A genealogia da moral, [obra clássica de Friedrich Nietzsche].

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A inflação real e o custo de vida

Corbin Trent – America’s Undoing

Titulo original: “It Works, If You Work It”; 23/11/2025

Para que a economia americana possa proporcionar uma vida boa para todos são necessárias reformas estruturais. Ela está muito ruim? Sim, bem ruim! [Mas já foi melhor: aquilo que foi chamado de “american way of life” parece ter existido, sim…, em meados do século passado.]

Desapontamento: de Obama à Trump

As eleições do início deste mês indicam para onde a coisa está indo. Os democratas varreram a Virgínia, Nova Jersey e Nova York. Pesquisas de boca de urna mostraram que 49% dos eleitores da Virgínia colocavam a economia como sua principal questão. Em Nova York, 56% disseram que era o custo de vida. Os eleitores de Nova Jersey focaram em impostos e, portanto, em economia.

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Formas sociais e políticas contemporâneas

Autor: Ruy Fausto [1]

No tomo III de Marx: lógica e política, Ruy Fausto faz uma apresentação das estruturas sociais contemporâneas que existem e podem existir, a partir da apresentação dialética dos modos de produção de Karl Marx. Aqui se faz um esforço de expor esse material didaticamente como um convite para que eventuais interessados busquem ler o original.

A primeira seção é preliminar. Ruy Fausto começa dizendo que o comunismo, diante dos eventos da história e do saber psicanalítico introduzido por Sigmund Freud, tornou-se uma utopia irrealizável. Na segunda seção, faz uma apresentação estruturalista  das formas sociais contemporâneas. Em sequência, na terceira seção, mostra como essas formas podem ser explicadas dialeticamente.

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Keynes e o “keynesianismo” militar

Robert Skidelsky – Blogue do autor no Substack – 23/01/2026

Neste post, chamo atenção para o uso indevido da teoria de Keynes para justificar o rearmamento, algo que denomino de “keynesianismo militarista”. Em outras postagem, chamei atenção para o perigo das guerras imaginárias, não apenas para justificar aumentos nos gastos militares, mas para conduzir guerras reais num processo de escalada. Denomino, por isso, a guerra imaginária contra a Rússia ou a China de cena paranoica.

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Haverá uma catástrofe com adoção da IA?

Michael Roberts – The next recession blog –26/02/2026

Um relatório publicado no último fim de semana pelo obscuro grupo de analistas financeiros “Citrini Research”, versando sobre o impacto futuro da IA, causou uma venda de ações das empresas de software.  A “Citrini” era pouco conhecida até publicar o seu “Global intelligence crisis report” – um aviso sobre uma crise global que viria com a adoção da IA”. Mas, subitamente, a publicação acumulou mais de 22 milhões de visualizações só no X.

A mensagem básica do aviso diz que, em poucos anos, os “agentes” de IA podem substituir amplamente o trabalho humano em todos os setores da economia.  Se acontecer, isso levaria a um aumento massivo do desemprego, seguido por um colapso do consumo e uma crise financeira no setor de ‘crédito privado’ às famílias e nas hipotecas, desencadeando assim uma brutal recessão.

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Troca, dívida e sociedade

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Da troca à dívida; da dívida à troca

A nota que se segue é autodidática. Ela pretende tomar ciência e refletir um pouco sobre a constituição das sociedades humanas em geral. E foi suscitada pela leitura de uma tese que se encontra na obra O anti-Édipo [2] de Gilles Deleuze e Felix Guattari e que está exposta didaticamente no livro A vingança dos capatazes [3] de Rodrigo Guéron.

“Para Deleuze e Guattari – diz ele – a (…) dívida é o elemento decisivo para o surgimento de qualquer forma do que eles preferem chamar de “máquinas sociais”: [ela dá origem] às relações sociais, às sociedade propriamente ditas, e não apenas a capitalista”.

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Além do capitalismo: outros passos são necessários

Título original: Replacing capitalism – not with socialism, but with democracy? (Substituir o capitalismo, não pelo socialismo, mas pela democracia?) Apresenta-se abaixo uma crítica ao artigo de Jason Hickel e Yanis Varoufakis abaixo mencionado, traduzido e republicado aqui, neste blog, sob o título Além do capitalismo: três primeiros passos.

Michael Roberts – The next recession blog – 13/02/2026

Os economistas de esquerda Jason Hickel e Yanis Varoufakis escreveram juntos um artigo para o jornal britânico The Guardian.  Eis o seu título original: We can move beyond the capitalist model and save the climate – here are the first three steps (Podemos ir além do modelo capitalista e salvar o clima – aqui estão os três primeiros passos). Jason Hickel é professor na Universidade Autônoma de Barcelona e pesquisador sênior visitante na LSE. Yanis Varoufakis é líder da MeRA25, ex-ministro das finanças e autor do livro Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. [1]

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Do Consenso de Washington ao de Londres?

Michael Roberts – The next recession blog – 16/01/2026

O Consenso de Washington consistia num conjunto de dez prescrições de política econômica, as quais, nas décadas de 1980 e 1990, eram consideradas como um pacote “padrão”. Recomendava reformas a serem implementadas nos países em desenvolvimento que passassem por crises, sob o controle do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, instituições multilaterais instaladas em Washington DC.

O termo Consenso de Washington foi cunhado, em 1989, pelo economista britânico John Williamson. Tornou-se depois uma base para políticas globais destinadas a promover “mercados livres”, tanto domésticos quanto globais, além de redução do papel do Estado por meio de privatizações e ‘desregulamentação’ dos mercados de trabalho e financeiros. O seu lema era “mantenha os gastos e déficits do governo baixos e deixe o mercado fazer seu trabalho”. Na prática, o Consenso de Washington era um conjunto de diretrizes econômicas que formava o núcleo do que depois viria a ser chamado de “neoliberalismo”.

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A erosão da confiança nos EUA

Até que ponto a confiança dos investidores na América se encontra degradada?

Paul Krugman – 30/01/2025 – Blog do autor no Substack

Não é bem isso que quero dizer com degradação, mas tudo bem, pois não deixa de ser uma metáfora visual.

Nunca considerei o preço do ouro um indicador econômico importante. Afinal, ouro não é dinheiro — ou seja, não é um meio de troca, que pode ser usado para fazer compras, nem uma unidade de conta na qual os preços são cotados. Ele fica guardado em cofres. No passado, zombei de comentaristas de direita que estrilaram sobre a alta dos preços do ouro durante os anos Obama, alegando que isso era um presságio de alta da inflação e de uma queda do valor do dólar em queda. Ora, isso estava errado.

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