A clínica psicanalítica é política

Autor: Samo Tômsic [1]

Este livro [2] desenvolve ainda uma linha de pensamento adotada num volume anterior.[3] Trata-se de uma discussão em curso sobre a atualidade da psicanálise para fazer uma crítica ao modo de gozo historicamente introduzido e imposto pela organização capitalista do trabalho social e da vida social, bem como do pensamento em geral. Minha preocupação tem se voltado para os esforços freudianos e lacanianos para elaborar algo que poderia ser chamado de crítica da economia libidinal.

Esta última, pode-se argumentar como base no envolvimento de Jacques Lacan com Karl Marx, pode ser considerada um componente essencial da crítica da economia política. Gostaria de iniciar o presente estudo referindo-me ao modo como o próprio Lacan definiu o significado político de sua disciplina:

A intrusão no político só pode ser feita reconhecendo que o único discurso existente, e não apenas o discurso analítico, é o discurso do gozo, pelo menos quando se espera dele o trabalho da verdade”.[4]

Nesta observação densa e, seguramente, um tanto enigmática, a primeira palavra já chama nossa atenção.

A psicanálise entrou na esfera do político como um intruso, um convidado não convidado ou mesmo um encrenqueiro, que perturbou o sono dos habitantes desse mundo e, portanto, encontrou resistência. No entanto, essa intrusão crítica não veio de fora, de algum lugar exterior aparente. Ocorreu mais como uma ruptura imanente ou como um curto-circuito que expôs algo inerente ao cerne da política, algo que até então permanecia desconsiderado: o papel problemático do gozo na constituição dos vínculos sociais e na reprodução das relações de poder.

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O “Marx com Lacan” de Adrian Johnston

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Discute-se em sequência um escrito que ampara uma tese contrária àquela sustentada no artigo Lacan, crítico de Marx.[2] Argumentou-se nele que Lacan não compreendera corretamente a categoria de valor de Marx e, em consequência disso, sustentara que a dinâmica da economia psíquica dos indivíduos era confluente, guardava semelhanças, com a dinâmica da reprodução do capital apresentada já no capítulo IV do Livro I de O capital. Esse mencionado escrito é da lavra do filósofo americano Adrian Johnston, tendo sido publicado aqui sob o título Marx com Lacan: para criticar o capitalismo.[3]

Para esse autor, ao contrário do que se sugeriu naquele escrito, Lacan pode ser apresentado como um leitor rigoroso de Marx que compreendera adequadamente as categorias de valor e mais-valor desse autor clássico. E que, por isso mesmo, fora bem capaz de fazer um correto entrelaçamento entre marxismo e psicanálise. Foi com base nessa visão que ele, no escrito mencionado, juntou mais uma vez Marx com Lacan para renovar a teoria crítica do capitalismo. Ora, antecipando o que apenas se poderá provar logo adiante, chega a essa conclusão porque confia – assim como Lacan – na interpretação dessas categorias de Marx feita por Louis Althusser e associados, principalmente em Ler O capital[4].

Em resumo, a divergência acima relatada em largos traços se assenta sobre a seguinte afirmação de Adrian Johnston, posta logo no início do seu escrito: “o surgimento explícito do inconsciente analítico no capitalismo moderno revela uma metapsicologia já implicitamente operante na espécie homo sapiens muito antes do surgimento do modo de produção capitalista”. Sim, mas que metapsicologia?

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“Marx com Freud”: para a crítica do capitalismo

Autor: Eleutério F. S Prado [1]

Sim, é preciso assentir que o saber sociológico em geral não pode prescindir do saber sobre as disposições psíquicas dos indivíduos socialmente situados – e vice-versa, deve-se acrescentar enfaticamente. E isso vale também para as teorias críticas do capitalismo e do ser humano submetido às condições de vida próprias desse modo de produção. Entretanto, as duas principais teorias dessa espécie, elaboradas na época moderna, respectivamente, por Karl Marx e Sigmund Freud, a crítica da economia política e a psicanálise, nunca se reconciliaram de um modo satisfatório.

Dizendo de outro modo, conforme Samo Tomšič, mesmo se a crítica da economia política exige uma crítica da economia libidinal, “a interação entre marxismo e psicanálise sempre foi marcada pela desconfiança mútua, pela crítica e pelo distanciamento” (2022a). Ora, foi com a finalidade de superar essa situação que escreveu o marcante livro O inconsciente capitalista – Marx e Lacan (2015), assim como, em complemento, diversos outros textos publicados em sequência. Aqui se faz uma crítica, ou melhor, uma apropriação crítica do artigo Labor/trabalho (2022b) em que esse autor procura aproximar a noção de trabalho mental que aparece em A interpretação dos sonhos com a categoria de trabalho social que permeia O capital como um todo.

Assim como Marx estabeleceu uma conexão sociológica entre trabalho abstrato e mais-valor na produção mercantil generalizada para explicar a dinâmica da acumulação de capital, Freud teria apresentado, segundo ele, uma ligação psicológica entre trabalho mental e gozo (ainda sob o nome de prazer) para explicar a dinâmica psíquica dos indivíduos na vida social. Assim, nessa perspectiva, Tomšič afirma no artigo em discussão que “o processo mental pode e deve ser visto como trabalho produtivo”. Segundo ele, o pai da psicanálise teria igualado “pensamento e trabalho”, formulando desse modo uma “teoria do trabalho do inconsciente”.

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Marx: o mito do egoísta inato

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Este estudo parte de duas lições que se aprende no “intelecto geral” da sociedade contemporânea. A primeira vem de Vladimir Safatle e vai orientar a redação do escrito que se segue; diz o seguinte: “nenhuma perspectiva sociológica pode abrir mão de uma análise das disposições subjetivas” (2008, p. 16) dos indivíduos que habitam a sociedade. Ou seja, tem de compreender como os “sujeitos” investem a libido na conformação de seus comportamentos, na manutenção de seus vínculos sociais com outros “sujeitos”, na aceitação ou rejeição das instituições etc. Ao fazê-lo, formulam representações imaginárias, aderem a códigos simbólicos e adquirem expectativas de satisfação.

Se assim for, interessa aqui perguntar que compreensão das pulsões humanas está implicitamente admitida na obra madura de Karl Marx, ou seja, em O capital?

Para responder essa pergunta, estuda-se aqui uma segunda lição e esta última vem de Adrian Johnston, um filósofo norte-americano da corrente de pensamento conhecida como lacano-marxista. Segundo ela, “o materialismo histórico e a crítica da economia política contém uma teoria da pulsão antropológica e filosófica” (2017, p. 286). Mais do que isso, esse autor sustenta mesmo que essa teoria antecipa até certo ponto a metapsicologia de Sigmund Freud.

Como encontrar nos textos de Marx, com o risco do anacronismo, as evidências dessa hipótese um tanto audaciosa? Eis que é preciso ler logo um trecho da introdução dos Grundrisse:

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Sensível suprassensível I

Introdução

Autor: Eleutério F. S. Prado

Como se sabe, “sensível suprassensível” é um termo que aparece na seção sobre o fetichismo da mercadoria do primeiro capítulo de O capital. Sami Khatib, professor da Leuphana University, em Lüneburg, Alemanha, apresenta abaixo uma interpretação desafiadora desse termo e, assim, da teoria do valor de Marx. Como é importante contestá-la, esse blogueiro, numa postagem posterior (Sensível suprassensível II), vai discuti-la mais a fundo tendo em mente os ensinamentos de Ruy Fausto sobre a dialética de Marx.

A Estética da Abstração Real [1]

Autor: Sami Khatib

A linguagem e o trabalho são expressões nas quais o indivíduo em si não mais se retém e se possui a si mesmo; antes, ele deixa o interior mover-se totalmente para fora dele e assim o abandona ao outro. Por essa razão, podemos dizer que essas expressões expressam tanto o interior quanto podemos dizer que o expressam muito pouco. Muito – porque o próprio interior irrompe nessas expressões, nenhuma oposição permanece entre elas e o interior; eles não fornecem meramente uma expressão do interior, eles fornecem imediatamente o próprio interior. Muito pouco – porque na fala e na ação o interior se transforma em outro e assim se abandona à mercê do elemento de transformação, que torce a palavra falada e a ação realizada e faz deles algo diferente do que eles, como as ações desse determinado indivíduo, são em si e para si.

Hegel, 1807, Fenomenologia do Espírito

Abstração Real

Explicando as peculiaridades da forma de valor, na edição original de 1867 de O capital, vol. I, Marx desdobra uma imagem convincente:

É como se ao lado e fora dos leões, tigres, coelhos e todos os outros animais reais, os quais formam, quando agrupados, os vários tipos, espécies, subespécies, famílias etc. do reino animal, existisse também em adição o animal, encarnação individual de todo o reino animal.

O projeto de Marx da crítica da economia política poderia ser resumido como a ciência desse animal e de seu modo de existência espectral. Nas “sociedades em que prevalece o modo de produção capitalista” é como se a dimensão abstrata do valor adquirisse vida própria.

O caráter dual da mercadoria – eis que ela é tanto valor de uso quanto valor de troca – cria uma esfera aparentemente autônoma de relações de valor, as quais se desvincularam do mundo sensível das mercadorias concretas e, assim, da dimensão valor de uso dessas mercadorias. Essa autonomia, porém, não é meramente intelectual ou ideal como na esfera da religião onde “os produtos do cérebro humano aparecem como figuras autônomas dotadas de vida própria”.

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Subsunção da pulsão de morte ao capital

Introdução: Eleutério F. S. Prado

Apresenta-se em sequência mais um trecho do livro Gozando com o que não se tem – o projeto político da psicanálise (Enjoying we don’t have – the political Project of psychoanalysis, 2013), de Todd McGowan. Assim como no anterior, busca-se nesta nova postagem continuar apresentado as conexões entre a psicanálise em sua versão não conformista e a crítica da economia política que vem de Karl Marx. Eis que esta última vem de Sigmund Freud, passa por Jacques Lacan e chega a autores como Slavoj Zizec.  

A tradução do trecho escolhido é literal, mas aqui se propõe que a sua noção central, pulsão de morte, seja lida criticamente. Segundo a psicanálise contemporânea – note-se –, a pulsão em geral – e não o mero instinto – é uma característica do ser humano justamente por que ele é um ser de linguagem. Ora, essa pulsão mora no inconsciente, mas se manifesta no consciente na forma do desejo em todas as formas de sociedade. Nem sempre do mesmo modo.

Como ocorre no capitalismo? Como esse modo de produção está baseado na subsunção do trabalho ao capital e na subsunção do sujeito à lógica do capital, o desejo das pessoas fica subsumido a um mandamento acumulativo. Eis que o superego reafirma constantemente ao “sujeito” o modo de ser do próprio capital que, como bem se sabe, move-se segundo a lógica do mau infinito. Tem-se, em consequência, um desejo insaciável que se dirige também para a acumulação. Assim, o capitalismo captura os desejos do sujeito oferecendo-lhe satisfação supostamente possível, mas lhe entrega, ao fim e ao cabo, apenas insatisfação. E isso será bem explicado no texto traduzido.

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A estagnação e o futuro da economia capitalista no Brasil

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

A economia capitalista no Brasil foi fortemente afetada pela crise do novo coronavírus que se iniciou em 2020 e que ainda não tem data certa para acabar: o nível do PIB caiu, o desemprego se elevou e a desigualdade de renda e riqueza aumentou. Considerando que a crise atual não vai durar para sempre, que talvez termine em 2022, o que os próximos anos reservam para os brasileiros? Sabendo que ela se encontrava estagnada ou quase-estagnada pelo menos desde o começo dos anos 1990, o que os brasileiros, especialmente os mais pobres, podem esperar do futuro?

Uma resposta será fornecida neste artigo, mas ela só virá ao final da exposição.

Os economistas em geral acreditam na capacidade da política econômica de produzir o crescimento. Os neoliberais têm fé no mercado: se o Brasil tem mostrado pouco potencial para elevar o PIB é porque o Estado cometeu sucessivos erros estratégicos no passado: descuidou da educação e da estabilidade macroeconômica; pecou pelo protecionismo e pelo estatismo. A solução que propõem são as reformas liberalizantes, as quais, em última análise, visam aumentar a taxa de exploração da força de trabalho e desregular os mercados para que o capital possa exercer o seu mando sem entraves burocráticos.

Os keynesianos confiam na capacidade do Estado para criar as condições e suplementar os mercados para que estes possam se desenvolver: é preciso elevar o investimento público, manter a empresas estatais estratégicas, sustentar um câmbio desvalorizado, taxar a exportação de bens primários, implementar políticas efetivas de distribuição da renda etc. Se o Brasil tem crescido pouco desde os anos 1990, isso se deve ao “thatcherismo tupiniquim” que, abandonando o nacionalismo econômico, produziu a desindustrialização, a reprimarização e a financeirização da economia brasileira, assim como uma enorme concentração da renda e da riqueza.

Para ler o artigo como um todo, favor baixar o pdf abaixo


[1] Professor Titular e sênior do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br; blog na internet: https://eleuterioprado.blog.

Lacan, crítico de Marx

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Crítico de Marx ou apenas um mal leitor de O capital já que ele o lê sob o visor de Louis Althusser? Eis uma dúvida que o texto em sequência não resolve. Mas que fica aí para uma discussão posterior.

Como sabem os psicanalistas, mas não provavelmente os críticos da economia política, o objeto “a” aparece atualmente como um conceito fulcral da psicanálise contemporânea. Mas o que é então esse objeto, noção de lavra própria, com base no qual Lacan se lança numa crítica sutil ao autor de O capital?

Lacan partiu dos descobrimentos de Sigmund Freud de quem se dizia um seguidor fiel – o que, aliás, se pode duvidar. Ora, todos aqueles que se depararam pela primeira vez – senão pela segunda, terceira etc. vezes – perceberam que se trata de um conceito enigmático e de difícil compreensão. Nessa nota pretende-se discutir esse enigma recorrendo a certas categorias lógicas, as quais aqui advirão no momento apropriado. Por enquanto, procurar-se-á simplesmente descrevê-lo como categoria da psicanálise.

No textos dessa disciplina, esclarece-se em primeiro lugar que o “a” – um “a” minúsculo – adicionado ao termo “objeto” vem de “autre” em francês, termo que corresponde ao termo “outro” em português. Como o desejo visa sempre algo, forma com esse outro uma relação de mútua determinação. Então, esse “objeto outro” é apresentado com o objeto causa do desejo. Enquanto tal, enquanto objeto de desejo, ele assinala a produção de gozo, de satisfação. Sem que esse objeto possa ser aqui bem identificado, dá-se um primeiro passo na sua compreensão.[2] 

Quando a criança passa, no curso de seu processo de crescimento, a identificar aqueles que a cercam (mãe, pai, irmãos etc.) como outras pessoas, ela toma conhecimento de si mesma, ao mesmo tempo, como uma pessoa. Ora, essa distinção apenas se consolida quando a criança aprende a linguagem dos pais e se torna capaz de nomeação. Assim, ela passa a distinguir, no seio da família, a duplicidade “eu/outros”. Nessa diferenciação surgem, necessariamente, desejos na criança que se dirigem para os familiares, vistos como outros. Ademais, os desejos passam a se dirigir não apenas para as outras pessoas, mas também para as coisas outras, tudo o que eventualmente caia no interesse e no alcance do “sujeito”.

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Como encontrar o gozo perdido

Autor: Todd McGowan[1]

Marx indica como o modo de produção capitalista captura e transforma a força pulsional da atividade humana, vendo o comunismo como um corretivo implícito para essa distorção. Em sua visão crítica, o impulso de acumular não é um impulso inerente à própria subjetividade humana de tal modo que uma alternativa aparece como possível. No segundo tomo de O Capital, Marx enuncia essencialmente a posição da política emancipatória que vem da psicanálise quando diz: “o capitalismo já estará essencialmente abolido quando se assumir que a satisfação é o motivo principal da ação humana – e não mais o enriquecimento por si mesmo”. Aqui, a distinção entre gozo e enriquecimento como motivos para a ação separam o capitalismo dos outros sistemas econômicos, mesmo os não mencionados. A alternativa à acumulação é a satisfação – ou, mais especificamente, o reconhecimento da satisfação.

 O problema fundamental do capitalismo é este: ele não permite reconhecer o gozo ou mesmo entender o gozo como aquilo que move as pessoas. Não é que o capitalismo as prive da satisfação de pensar, amar, teorizar, cantar, pintar e esgrimir – para usar os exemplos do próprio Marx; ele não permite que as pessoas vejam a satisfação como um motivo possível para os seus atos. Pode-se pensar no impulso para o gozo ou num impulso centrado no gozo como uma possibilidade existente para além do sistema capitalista. Fora já dele, essa pulsão – pulsão de morte[2] – não teria outra finalidade senão o gozo, ou seja, operaria em contraposição à lógica acumulativa da pulsão capitalista. A pulsão capitalista de acumulação representa uma distorção da pulsão de morte, uma reescrita dela que muda a sua estrutura.

A luta política não é simplesmente uma luta pelo direito de usufruir de certos bens e pela melhor repartição desse direito. É também – e mesmo predominantemente – uma luta sobre como identificar e localizar o modo satisfação. A ideologia capitalista é hoje triunfante porque venceu esta luta no passado. Como sujeitos sujeitados ao capitalismo, as pessoas definem o gozo em termos de acumulação: goza-se na medida em que se acumula objetos desejados. E essa definição se tornou onipresente: de acordo com a lógica que prevalece hoje, até a satisfação que deriva do romance vem da aquisição de um objeto desejado. Mas essa não é a única maneira de pensar a satisfação. Uma das tarefas mais importantes para a política emancipatória hoje consiste em transformar a maneira usual de pensar o gozo – mediante uma quebra do vínculo posto pela ideologia capitalista entre acumulação e o gozo.

Mas o impulso capitalista para acumular não liquida simplesmente com a satisfação. Mesmo estando reescrita, essa pulsão continua a proporcionar uma satisfação costumeira. Contudo, a pulsão de acumulação dominante torna mais difícil para os sujeitos identificarem como desfrutam-na. A adesão pessoal ao capitalismo não ocorre por causa de uma negligência completa da satisfação própria, pois, na verdade, isso depende de modo fundamental da capacidade de proporcionar satisfação desse sistema. Se os súditos capitalistas não estivessem realmente se divertindo, não continuariam a ser súditos capitalistas. As pessoas realmente se divertem no mundo capitalista – a pulsão de morte continua a funcionar – mas elas não gozam da maneira pela qual a ideologia capitalista as apreende em sua lógica econômica.

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Economia pulsional: como o ser humano obtém satisfação

Introdução: Eleutério F. S. Prado

Como se sabe, é urgente uma renovação do projeto político do socialismo democrático, um projeto que deixe para trás os socialismos autoritários do século XX, alguns dos quais resistem ainda no tempo. Com esse fim, alguns autores, raros ainda, estão trabalhando para unir a crítica da economia política com uma crítica da economia pulsional dos indivíduos sociais, especialmente, sob as condições do capitalismo. Trata-se de um esforço para unificar as críticas sociais de Karl Marx e Sigmund Freud por meio de uma integração conceitual, não por mera junção externa, algo que ainda não havia sido feito.

Um deles é o autor do livro Gozando com o que não se tem – o projeto político da psicanálise (Enjoying we don’t have – the political Project of psychoanalysis, 2013), do qual que foi traduzindo o excerto abaixo. Esse recorte foi escolhido porque ele sustenta que a “psicanálise é fundamentalmente uma teoria econômica da psique”. Eis que o trabalho – mesmo com sentidos distintos – encontra-se no núcleo do modo de ser do sistema econômico e o do sistema psicológico. Assim como o a captura do trabalho define a economia política, a captura da pulsão define a economia pulsional.

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