Michael Roberts e a crítica do keynesianismo (II)

A dúvida de um leitor do primeiro artigo com este título, mostrou a necessidade de explicar melhor um ponto central da argumentação aí contida, a qual buscou indicar uma falha capital da macroeconomia keynesiana. Pois, ela se reflete na própria crítica de Michael Roberts. Pode se afirmar mesmo que esse blogueiro famoso é induzido a fazer afirmações imprecisas porque ele próprio não foi capaz de descobrir essa falha originária. Tal como anteriormente, é preciso começar citando por extenso o seu argumento contra o pós-keynesianismo, que se dirige a um texto de Alex Willians.

O que diz Roberts em sua crítica?

Alex nos diz que um princípio fundamental do pós-keynesianismo (PK) é analisar as expectativas: “nosso próximo princípio é que tudo é expectativa”.  “As expectativas informam as ações dos agentes e essas ações, por sua vez, criam realidade. Talvez o modelo mais simples do ciclo causal keynesiano seja dizer que a demanda esperada impulsiona o investimento, o investimento impulsiona o emprego, o emprego impulsiona os salários, os salários impulsionam o consumo, o consumo impulsiona a demanda e a demanda valida o investimento. A demanda esperada impulsiona os investimentos porque as empresas só investem em capacidade e na contratação de mais trabalhadores quando acham que mais pessoas vão querer comprar seu produto no futuro, mais do que têm feito no momento presente. Se esperassem a mesma demanda, ou menos, não haveria necessidade de investir. Eles poderiam continuar a usar o mesmo equipamento”.

Ora, agora foi dito o que importa. O investimento sob o capitalismo não é movido pelo lucro ou pela lucratividade, mas finalmente pelas “expectativas”. Não é movido nem mesmo pelo lucro futuro, mas sim pela “demanda esperada”. Isso impulsiona o investimento que, por sua vez, gera empregos e salários.

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Austeridade e keynesianismo

Publica-se aqui a tradução de uma postagem muito interessante de Michael Roberts, a qual foi divulgada recentemente (13/07/2017) em seu blog The next recession. Ela se intromete criticamente no debate muito atual entre os economistas partidários da austeridade e os economistas keynesianos sobre a melhor forma de enfrentar uma recessão profunda – estagnação prolongada, depressão – tal como a que abateu a economia mundial a partir da crise de 2007/2008 e que vem se demorando até o presente. E o faz de uma perspectiva marxista.

O seu texto curto discute dois pontos centrais entrelaçados: 1º) a depressão é causada – ou aprofundada – pelas políticas de austeridade?; 2º) a política keynesiana de gastos públicos pode mesmo tirar o sistema econômico da depressão?  A sua discussão tem como referência principal a situação econômica da Europa, mas ela tem um rebatimento evidente e muito importante na situação atual da economia capitalista no Brasil.

Os economistas keynesianos costumam classificar a austeridade como mero produto de ideologia conservadora ou como decorrência desastrada de má teoria econômica. O texto de Michael Roberts contesta essa tese, assim como, também, a enorme pretensão da teoria keynesiana. Procura mostrar, por um lado, que as evidências empíricas e históricas não abonam uma grande eficácia do multiplicador dos gastos públicos. Sustenta, por outro lado, que a política de austeridade tem, sim, uma racionalidade e que esta é capitalista por excelência. Eis que visa rebaixar ao máximo o salário real seja diretamente, reduzindo os ganhos dos trabalhadores, seja indiretamente, comprimindo os gastos sociais do Estado.

Sustenta que a crise e a recessão prolongada ora observadas devem ser explicadas, em última análise, pela baixa da lucratividade e pelos óbices existentes à retomada da acumulação de capital – e não pela carência de demanda efetiva. Eis que essa última é consequência e não causa última das crises em geral. Sugere, em consequência, que a esquerda deve deixar de se guiar pelas miragens geradas pela teoria de John M. Keynes, passando a se orientar melhor pelos ensinamentos, muito mais sólidos, que vem de Karl Marx. Ele recomenda, também, que se leia o livro de José A. Tapia, cuja imagem de capa está aqui também reproduzida.

O texto de Michael Roberts se encontra aqui: A reversão da austeridade acaba com a depressão?

Marx e Keynes

capa-revista-da-sepO artigo que aqui se publica defende a tese de que há três subcampos radicalmente distintos entre si no campo da macroeconomia. E que eles estão demarcados pelas obras de Marx e Keynes. Sustenta, por isso, que duas clivagens os separam: a Lei de Say e a meta objetiva do sistema econômico. Há o subcampo da macroeconomia walrasiana em que se acolhe a Lei de Say. Há o subcampo da macroeconomia keynesiana em que se rejeita a Lei de Say para aceitar o princípio da demanda efetiva. Tal como no primeiro, aí se toma a produção de valores de uso como a meta própria do sistema econômico. Há o subcampo da macroeconomia marxiana em que se recusa tanto a lei dos mercados quanto o princípio da demanda efetiva. Para esta última, o próprio modo de funcionamento da sociabilidade capitalista põe o capital como um “sujeito automático”, de tal maneira que a acumulação de capital devém a meta própria do sistema econômico.

O texto esta aqui: como-marx-e-keynes-demarcam-o-campo-da-macroeconomia

 

Kalecki: Entre Marx e Keynes

Kalecki - Marx - Keynes

Michal Kalecki, mesmo tendo partido da obra de Marx, nunca adotou de fato as suas diretrizes metodológicas. Desenvolveu apenas, isto sim, uma longa e profícua carreira de economista. De fato, ele nunca pretendeu mais do que desenvolver uma teoria positiva do funcionamento do capitalismo. Apesar de algumas divergências, construiu uma teoria muito similar à de Keynes – um economista liberal por formação e por opção política. Mesmo sendo um socialista, Kalecki não produziu uma teoria crítica do capitalismo. Tal como Keynes, analisou o sistema capitalista pela ótica da circulação do capital, dando sustentação à tese de que a meta desse sistema é a produção de valores de uso. Não escapou também, verdadeiramente, do paradigma da economia do equilíbrio.

Procura-se mostrar no texto que se segue que a compreensão de Kalecki da economia capitalista é bem mais próxima daquela desenvolvida por Keynes do que daquela desenvolvida por Marx. O texto foi publicado na Revista da SEP e se encontra aqui: Kalecki – Entre Marx e Keynes (SEP).

 

Dinheiro em Keynes: questões lógicas

IS-LM ModelComo se sabe, Keynes define o capitalismo como uma economia monetária de produção, ou seja, como um arranjo institucional destinado à produção de bens que funciona mediante trocas necessariamente mediadas pelo dinheiro. Isto não impede que seja capaz de pensar uma economia capitalista “não monetária”. Ora, essa incongruência e outras que se encontram em seu texto sugerem que se examine a teoria monetária desse autor de uma perspectiva lógica. Pois, é possível que lhe falte uma concepção justa sobre a natureza do dinheiro no capitalismo. Por que esse autor é capaz de pensar o capitalismo como uma economia monetária e, ao mesmo tempo, como uma economia não monetária? Ora, isto não tem uma raiz profunda no terreno metodológico? Não é o próprio modo de racionar de Keynes que gera necessariamente uma visão dicotômica do sistema econômico?  Como pensar desse modo parece absurdo do ponto de vista da teoria marxiana do capitalismo, o texto procura investigar essa questão. Chega à conclusão que há uma diferença profunda entre esses dois autores, sugerindo que eles não podem e não devem ser confundidos como tem acontecido frequentemente nos escritos de economia política. O texto se encontra aqui: Dinheiro em Keynes – Questões Lógicas