Questionando a noção de utilidade

Vídeo

Os livros de microeconomia tratam da “utilidade” como se esta fosse algo bem evidente. “Os economistas” – diz um deles – “conceituam “utilidade” como uma singularidade que torna uma mercadoria desejada. Trata-se de um fenômeno subjetivo, porque cada pessoa é diferente da outra”. “Qualquer bem ou serviço deliberadamente consumido proporciona utilidade”.

É mesmo? O que é afinal utilidade?

No vídeo apresentado em sequência, a noção de utilidade é questionada. Apresenta-se como diversos economistas importantes na História do Pensamento Econômico a compreenderam e se mostra, em sequência, que ela é vazia ou uma transfiguração subjetiva do dinheiro. Questiona-se, finalmente, se a teoria neoclássica é de fato uma teoria científica.

Um prêmio para os leilões. E um desaforo aos humanos

Michael Roberts – The next recession blog – 13/10/2020

O prêmio Nobel de Economia deste ano – que, na verdade, é o prêmio Riksbank – foi dado aos economistas da Universidade de Stanford, Paul Milgrom e Robert Wilson. De acordo com a Royal Swedish Academy of Sciences, eles “estudaram como funcionam os leilões. Também projetaram novas formas de leilões para bens e serviços difíceis de vender da forma tradicional, tal como, por exemplo, as frequências de rádio. Suas descobertas beneficiaram vendedores, compradores e contribuintes em todo o mundo”.

Veja-se: num mundo em que a desigualdade está em níveis recordes, o aquecimento global e a degradação ambiental ameaçam destruir o planeta, em que há uma crise econômica mundial não vista desde os anos 1930, os concedentes do prêmio reconheceram o trabalho de dois economistas que pesquisaram como tornar os leilões de mercadorias, de terras e terrenos e de bens e serviços públicos mais eficientes.

O artigo completo está aqui: Roberts – Um prêmio para os leilões

 

A austeridade não se justifica nem teórica nem empiricamente

Neste post apresentamos uma nota curta de Robert Skidelsky, famoso historiador e economista que escreveu uma enorme e detalhada biografia de John M. Keynes, em três volumes. Nesse escrito, ele busca refutar a pretensão de cientificidade da teoria econômica que tenta promover a política de austeridade.

E o faz com extrema competência e simplicidade. A sua argumentação – é importante enfatizar – desenvolve inteiramente no campo da teoria econômica e da econometria. O seu argumento é que os defensores da austeridade – especialmente Alberto Alesina – vale-se de uma relação entre as taxas de crescimento e as variações do déficit público num certo conjunto de países para justificar a sua tese de que austeridade gera imediato crescimento. Mas, na verdade e de modo vulgar, toma uma correlação como se fosse uma relação de causalidade.

Neste blog já foi publicado um outro texto de John Milios que, entretanto, afirma a racionalidade da política de austeridade (em 14/11/2015). Segundo ele, austeridade é o modo por meio do qual é reforçada a disciplina do capital nas economias capitalistas contemporâneas. Ao implementá-la como política de Estado, visa-se, em última análise, a recuperação da lucratividade possível das empresas capitalistas. Mas os seus resultados podem ser ruins do ponto de vista macroeconômico, além de serem catastróficos para a grande maioria da população trabalhadora.

A nota crítica está aqui: A austeridade não se justifica nem teórica nem empiricamente

Macroeconomia Atônita

De volta para o futuro! Sim, mas que futuro? Dois macroeconomistas consagrados na academia norte-americana, Olivier Blanchard e Lawrence Progress and confusionSummers, juntaram-se para escrever uma proposta de reformulação das práticas de política e de regulação econômica e, talvez (e isto não está claro), de mudança da macroeconomia atualmente ensinada nos cursos ditos mainstream de Economics.

Eis o seu título: Repensando a política de estabilização. De volta para o futuro. Ora, quando se lê essa alvitrada atentamente, vê-se que eles estão confusos teoricamente. Pois, eles querem salvar a tradição neoclássica a qual pertencem e, ao mesmo tempo, salvar o capitalismo que agora voa baixo sob o comando do capital financeiro.

A proposta, pois, enseja um comentário crítico que, no entendimento dos economistas do sistema, talvez figure como mero blábláblá. Porém, os dois “gênios” não teriam cometido inconsistências, não teriam caído em vulgaridades? A nota que foi escrita para apontá-las está publicada aqui  A macroeconomia, sim, está atônita e, ao mesmo tempo, no Outras Palavras.

Demanda e oferta para incompetentes

Na maior parte do mundo e mesmo nos países ditos socialistas se ensina a microeconomia tal como foi img074desenvolvida pela teoria neoclássica. Ademais, grande parte do que se leciona sob o rótulo de macroeconomia funda-se também no modelo de equilíbrio geral que a cientificidade dominante põe como o arquétipo da boa teoria econômica. Ora, assim, se passa a pensar o sistema econômico real com base em uma noção positiva de equilíbrio que se caracteriza por afirmar o estado de repouso como o estado normal (pelo menos como forte tendência) de seu funcionamento.

Mas nem sempre, entretanto, foi assim. A teoria clássica e Marx, bem ao contrário, afirmam antes a anarquia e o desequilíbrio como o estado constante de seu evolver turbulento, um evolver complexo que põe uma certa ordem por meio apenas de permanente desordem. Por isso, essas teorias empregam noções negativas de equilíbrio: eis que permitem pensar o sistema num estado puro que ele só produz como resultado de intermináveis oscilações irregulares que se compensam ao longo do tempo.  

Aqui se desafia esse consenso e se busca mostrar que teoria neoclássica, mesmo se se apresenta como uma construção teórica que pode reivindicar a exatidão formal, não é rigorosa – ao contrário, sustenta-se numa pequena nota que até mesmo as suas noções usuais de oferta e demanda são artificiosas e mal fundamentadas.

A nota se encontra aqui:  Oferta e demanda para incompetentes

Kalecki: Entre Marx e Keynes

Kalecki - Marx - Keynes

Michal Kalecki, mesmo tendo partido da obra de Marx, nunca adotou de fato as suas diretrizes metodológicas. Desenvolveu apenas, isto sim, uma longa e profícua carreira de economista. De fato, ele nunca pretendeu mais do que desenvolver uma teoria positiva do funcionamento do capitalismo. Apesar de algumas divergências, construiu uma teoria muito similar à de Keynes – um economista liberal por formação e por opção política. Mesmo sendo um socialista, Kalecki não produziu uma teoria crítica do capitalismo. Tal como Keynes, analisou o sistema capitalista pela ótica da circulação do capital, dando sustentação à tese de que a meta desse sistema é a produção de valores de uso. Não escapou também, verdadeiramente, do paradigma da economia do equilíbrio.

Procura-se mostrar no texto que se segue que a compreensão de Kalecki da economia capitalista é bem mais próxima daquela desenvolvida por Keynes do que daquela desenvolvida por Marx. O texto foi publicado na Revista da SEP e se encontra aqui: Kalecki – Entre Marx e Keynes (SEP).

 

Discriminação

A construção das diferenças entre os economistas

Buscamos neste artigo uma explicação para a origem das diferenças entre os economistas e para o modo como elas são construídas. Sugerimos que se trata de uma prática discriminatória ligada à hegemonia americana e ao advento do neoliberalismo, a qual está assentada no modo de emprego da matemática na teoria econômica ortodoxa. Apresentamos uma discussão sobre a síndrome da formalização em Economia, resumindo teses de McCloskey e Katzner que permitem formar um quadro mais claro do problema. Discutimos a metafísica da formalização empregada pela teoria econômica ortodoxa. Procuramos mostrar, finalmente, porque esta última se tornou, recentemente, mais frágil, pretensiosa e dogmática.

Ver texto completo em Notas/Posições (5)

Microdinâmica

Desafios à teoria neoclássica

Nesse artigo busca-se examinar criticamente o suposto mais importante da teoria neoclássica, ou seja, aquele que afirma serem as preferências subjetivas os fundamentos dos preços. Questiona-se a plausibilidade dessa construção paradigmática elaborando modelos econômicos focados de sistemas adaptativos complexos. Estes divergem da microeconomia tradicional por permitirem a interação descentralizada de grandes coleções de agentes heterogêneos, em ambientes que também se encontram em permanente processo de mudança. Faz-se, portanto, exercícios de microeconomia sistêmica, não reducionista. O método aqui empregado costuma ser denominado de modelagem computacional baseada em múltiplos agentes, vindo a ser também, frequentemente, encarado como meio de investigação social baseado na construção de sociedades artificiais. O artigo se inspira fortemente no livro Growing artificial societies – social science from the bottom up, de Epstein e Axtell (1996), que o utilizou de modo ilustrativo e exemplar na investigação abstrata de processos de coevolução que combinavam sub-processos demográficos, econômicos, culturais, etc., os quais são em geral tratados separadamente em campos científicos pertinentes. Em particular, eles examinaram certos processos dinâmicos associados ao evolver de uma economia de troca, os quais serão aqui retomados.

Veja o artigo completo na pasta Artigos

Teoria e Crise

A economia ortodoxa e a crise econômica

Recentemente criticaram-se os economistas ortodoxos porque eles não foram capazes nem de prever e nem de interpretar a crise econômica mais recente. Ora, os economistas ortodoxos não acreditam mais em qualquer possibilidade de transformação civilizadora do sistema. Eles se contentam com a expansão modernizadora que advém da acumulação descontrolada de capital. Pragmáticos por excelência, eles estão muito mais interessados no jogo do mercado e na defensa de teses profissionais e políticas que lhes parecem convenientes, do que em entender com certa profundidade científica os processos sociais e econômicos.

A verdade é que a teoria econômica ortodoxa, ao se afastar do compromisso da ciência moderna com a emancipação do homem, transformou-se duplamente: enquanto atividade para dentro do campo, ou seja, enquanto atividade legitimadora de competência, ela caiu num formalismo do irrelevante; enquanto atividade para fora do campo, ou seja, enquanto atividade funcional para o próprio funcionamento do sistema, ela se transformou em mercadoria – mercadoria que já não é coisa, mas imagem, propaganda e marketing de teses econômicas.  

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