Ruy Fausto: “classe” trabalhadora

Eleutério F. S. Prado [1]

Às vezes se encontra a expressão “classe trabalhadora” em artigos e livros que tratam de questões sociais e/ou políticas. Ora, não é muito difícil mostrar que se trata de uma “noção” muito ampla. Pois, a condição de não-trabalhador(a) entre as pessoas ativas [2] é muito rara na sociedade atual. Veja-se que a condição de trabalhador(a) se afigura muito extensa já que inclui, por exemplo, as pessoas dedicadas aos serviços domésticos, militares e mesmo financistas. Não contribui, por isso mesmo, para compreender a estratificação social no modo de produção capitalista.

Karl Marx, como se sabe, após expor longamente as determinações do modo de produção capitalista, define a classe dos trabalhadores assalariados como uma das grandes classes do modo de produção capitalista. No capítulo 42 do Livro III de O capital [3], ele diz que essa classe inclui os proprietários de mera força de trabalho que, não tendo mais nada para vender, vendem-na por tempos determinados em troca de salário.  

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Ruy Fausto: sobre o Estado

Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

Sabe-se que o Estado, para Friedrich Engels, é uma fonte de poder situada acima da sociedade, que atua centralmente para atenuar o conflito entre as classes sociais. Para Vladimir Lenin, que o segue, o Estado é o produto do “antagonismo inconciliável das classes”.[2] Para Hegel, em contraposição, o Estado é a comunidade posta como tal, a corporificação da razão.[3] Todos têm por referência – e isso é bem óbvio – a época contemporânea. Mas, o que é o Estado para Marx?

Engels e Lenin derivam o Estado de um modo imediatamente político, ignorando as formas das relações sociais no capitalismo. Ademais, mesmo se eles se referem às relações sociais da sociedade civil, omitem o caráter comunitário do Estado. Como seria possível ir além deles de modo teoricamente rigoroso? Como o Estado pode aparecer como forma das relações sociais no modo de produção de capitalista? Derivando e apresentando o Estado – essa é a aposta de Ruy Fausto – a partir da lógica interna de O capital. No que segue, procurar-se-á apresentar respostas a essas questões com base em escrito seminal desse último autor.[4]

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Ruy Fausto: juízos de reflexão e do sujeito

Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

Em nota anterior[2], mostrou-se que a apresentação dialética em sua versão marxiana consistia em um juízo existencial amplo sobre o modo de produção capitalista. Eis que busca apreendê-lo criticamente já que se trata de um sistema social complexo – intransparente – cuja natureza interna é desconhecida. Ao ser revelada, fica bem claro que, apesar de sua aparência, ela está em desacordo com valores universais da igualdade, liberdade etc.

 Para realizar essa tarefa, a teoria crítica original parte da forma elementar da riqueza capitalista, a saber, a mercadoria, e caminha passo a passo para reconstruir conceitualmente esse sistema até que ele apareça na forma de um “concreto pensado” em processo de devir. Nesse procedimento, alguns passos cruciais são dados por meio de juízos específicos que apreendem o ser social como tal; os juízos de constatação descobrem modos de ser imediatos e os juízos críticos vão da aparência à essência desvelando a realidade. Assim, a aparência imediata ou “dada” se torna aparência mediata, ou seja, expressão de uma essência que a contraria.

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Ruy Fausto: apresentação dialética

Eleutério F. S, Prado [1]

Introdução

Max Horkheimer, em seu Teoria tradicional e teoria crítica [2], afirma que existem conexões entre as formas de juízos e os períodos históricos. Em sequência, ele opõe o juízo categórico ao juízo hipotético. O juízo categórico, ou seja, aquele que afirma ou nega incondicionalmente uma pertinência (X é A; X é não-B), mostra-se adequado nas sociedades pré-capitalistas. Pois, como tal, alude a um mundo que não pode ser mudado pelo homem. O juízo hipotético (se X, então A; se X, então não-B), ao contrário, afigura-se adequado no capitalismo, pois faz referência a um mundo passível de transformação. Indica a condição necessária para que algo aconteça ou não aconteça, expressando assim uma causalidade eficiente.

Ora, a própria noção de teoria altera-se na sociedade moderna. Se, para os gregos, significava contemplação, observação ou visão desinteressada da ordem do universo, para os modernos, ela significa “uma sinopse de proposições” que descrevem fatos e relações factuais hipotéticas ou conjecturais que permitem atuar no mundo praticamente para transformá-lo.  Em sentido usual e dominante, o termo teoria se refere – indica Horkheimer – “ao saber acumulado de tal forma que permita ser utilizado na caracterização dos fatos tão minuciosamente quanto possível”. Ou seja, dá nome à acumulação de juízos hipotéticos que permanecem hipotéticos porque codificam a transformação possível do mundo.

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Um socialismo possível para o futuro

Autor: Aaron Benanav [1]

O primeiro artigo está aqui. O segundo artigo está aqui.

Título original: Beyond capitalism – Groundwork for a multi-criterial economy [2]

Primeiros passos

Como uma economia moderna poderia funcionar se fosse movida por múltiplos objetivos sociais em vez de ser regida pela busca do lucro privado? A primeira parte desta contribuição discutiu as formas como a tradição socialista clássica enfrentou essa questão, desde os utopistas do século XIX aos industrialistas da Rússia Soviética, passando pelos planejadores da Viena Vermelha, pelos socialistas guildas da Grã-Bretanha eduardiana e pelos arquitetos do estado de bem-estar social do pós-guerra. Um grande problema que essa tradição não conseguiu resolver foi como projetar instituições capazes de entreter múltiplos objetivos determinados democraticamente – eis que esses fins variados precisariam ser articulados e compostos a partir da alocação adequada dos recursos limitados.

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Um futuro possível para o socialismo

Autor: Aaron Benanav [1]

O primeiro artigo está aqui.

Título original: Beyond capitalism – Groundwork for a multi-criterial economy [2]

Quais conclusões devem ser tiradas da longa história do socialismo? Primeiro, a luta por uma ordem econômica governada por objetivos mais amplos do que apenas a busca pelo lucro, tão incansavelmente reimaginada de Thomas More à Étienne Cabet e à William Morris, só pode ser bem-sucedida se for capaz de compreender toda a complexidade das sociedades capitalistas contemporâneas. Karl Marx pensou tardiamente sobre esse problema, mas (…) não deu atenção suficiente aos problemas da transição para um sistema econômico pós-capitalista, especialmente no que diz respeito ao investimento.

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Para ir além do capitalismo

Autor: Aaron Benanav [1]

Título original: Beyond capitalism – Groundwork for a multi-criterial economy [2]

Poucos discordariam de que existe, por trás da turbulência política atual, um profundo mal-estar econômico. As taxas de crescimento nas economias avançadas são baixas. Quando são impulsionadas por gastos públicos, os ganhos se concentram, desproporcionalmente, nas faixas de renda alta. Empresas oligopolistas ocupam o topo das cadeias globais de valor, mantendo direitos de propriedade sobre uma variada gama de produtos, ao mesmo tempo em que terceirizam os processos de produção para licitantes com menores custos já que estão forçados a competirem entre si.

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Ouro: o que está por trás do boom?

Michael Roberts – The next recession blog – 9/10/ 2025

Esta semana, o preço do ouro em dólares americanos atingiu US $ 4.000 por onça-troy (que equivale a 24,3 gramas de ouro). Esta é uma alta histórica (pelo menos em dólares nominais). Mas mesmo essa alta parece destinada a ser superada. O banco de investimento Goldman Sachs prevê que chegará a um valor de US $ 4.900 por onça-troy até o final do ano. Note-se que preço do ouro em outras moedas importantes também tem se elevado.

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Do neofeudalismo ao capitalismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Faz-se nessa nota um comentário sobre um escrito de Jodi Dean em que essa autora do campo crítico explica por que pensa que o modo de produção capitalista está se transformando num novo outro que denomina de neofeudalismo. O seu artigo From neoliberalism to neofeudalism recém-publicado [2] se mostra bem apropriado como objeto de crítica porque está construído com base numa ingenuidade metodológica.

Eis que apresenta essa tese partindo de uma definição de capitalismo:

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A genealogia incomum do conceito de capitalismo

Autor : Marcello Musto [1] – Sin Permiso – 20/10/2024

Embora Karl Marx seja considerado o principal crítico do capitalismo, ele raramente usou esse termo. A palavra também estava ausente dos primeiros grandes clássicos da economia política. Não só não tinha lugar nas obras de Adam Smith e David Ricardo, como também não foi usado nem por John Stuart Mill nem pela geração de economistas contemporâneos de Marx. Eles usaram o termo capital — comum desde o século XIII – mas não o termo capitalismo, que dele se deriva.

O termo capitalismo não apareceu até meados do século XIX. Era uma palavra usada principalmente por aqueles que se opunham à ordem existente das coisas, o qual tinha ademais uma conotação muito mais política do que econômica. Alguns pensadores socialistas foram os primeiros a usar essa palavra, sempre de forma depreciativa. Na França, em uma reedição da famosa obra L’organisation du travail, Louis Blanc argumentou que a apropriação do capital – e, através do próprio capital, do poder político – era monopolizada pelas classes abastadas.

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