Marx: o mito do egoísta inato

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Este estudo parte de duas lições que se aprende no “intelecto geral” da sociedade contemporânea. A primeira vem de Vladimir Safatle e vai orientar a redação do escrito que se segue; diz o seguinte: “nenhuma perspectiva sociológica pode abrir mão de uma análise das disposições subjetivas” (2008, p. 16) dos indivíduos que habitam a sociedade. Ou seja, tem de compreender como os “sujeitos” investem a libido na conformação de seus comportamentos, na manutenção de seus vínculos sociais com outros “sujeitos”, na aceitação ou rejeição das instituições etc. Ao fazê-lo, formulam representações imaginárias, aderem a códigos simbólicos e adquirem expectativas de satisfação.

Se assim for, interessa aqui perguntar que compreensão das pulsões humanas está implicitamente admitida na obra madura de Karl Marx, ou seja, em O capital?

Para responder essa pergunta, estuda-se aqui uma segunda lição e esta última vem de Adrian Johnston, um filósofo norte-americano da corrente de pensamento conhecida como lacano-marxista. Segundo ela, “o materialismo histórico e a crítica da economia política contém uma teoria da pulsão antropológica e filosófica” (2017, p. 286). Mais do que isso, esse autor sustenta mesmo que essa teoria antecipa até certo ponto a metapsicologia de Sigmund Freud.

Como encontrar nos textos de Marx, com o risco do anacronismo, as evidências dessa hipótese um tanto audaciosa? Eis que é preciso ler logo um trecho da introdução dos Grundrisse:

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Uma taxa de lucro mundial: novas evidências

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 22/01/2022

A lei de Marx da tendência de queda da taxa de lucro (LTQTL) foi sempre muito criticada ou mesmo ignorada. Foi tratada como uma explicação irrelevante das crises sob o capitalismo, tanto teórica quanto empiricamente.

Os críticos não pertencem à economia tradicional, já que eles geralmente ignoram completamente o papel do lucro nas crises. Eles vêm, em parte, de economistas pós-keynesianos que veem na “demanda agregada” o motor das economias capitalistas – e não diretamente o lucro. Mas os maiores céticos vêm dos próprios economistas marxistas.

Embora Marx considerasse a LTQTL como “a lei mais importante da economia política” (Grundrisse) e a causa subjacente dos ciclos recorrentes e das crises (O Capital, Volume 3, Capítulo 13) da economia capitalista, os céticos argumentam que a lei de Marx é ilógica e “indeterminada” enquanto proposição teórica (Michael Heinrich).

 Dizem que o suporte empírico para essa lei é inexistente ou impossível de obter. Em vez disso, afirmam que devemos procurar em outro lugar uma teoria da crise, seja recorrendo a Keynes seja amalgamando várias teorias ecléticas que se fundam na “superprodução”, no “subconsumo” ou na “financeirização” – ou simplesmente aceitando que não existe uma teoria marxista das crises. A meu ver, essas críticas foram respondidas de forma eficaz por vários autores, inclusive por mim.     

A linguagem messiânica da mercadoria

Introdução

Autor: Eleutério F S Prado

Apresenta-se em sequência um texto de um autor pós-estruturalista que pensa na perspectiva das ideias de Jacques Derrida. Ele se chama Werner Hamacher e sua área de pesquisa está no encontro da Filosofia com a Literatura. O seu escrito versa sobre o que Karl Marx chama de linguagem das mercadorias. Para comentar basicamente certos aspectos do primeiro capítulo de O capital, ele se inspira no livro Espectros de Marx do filósofo contemporâneo já mencionado.

Como os eventuais leitores podem verificar, ele se concentra muito mais na linguagem de O capital do que no seu objeto de exposição, o modo capitalista de produção. Terry Eagleton afirma que esse tipo de preocupação, que escalou no final do século XX, é a contrapartida de uma época em que as esperanças de transformação social se esvaíram. Nessas circunstâncias, pensar o mundo como uma construção da linguagem pareceu interessante para muitos intelectuais de esquerda.

Note-se, entretanto, que essa “operação” de desconstrução, que enxerga o texto em busca de seus pressupostos – e não a sua referência objetiva -, desmaterializa Marx: segundo Pierre Macherey, nessa perspectiva, não é mais a matéria que põe o espírito, mas o espírito que parece pôr a matéria. 

De qualquer modo, o que ele diz tem interesse para uma boa compreensão da Crítica da Economia Política.  Por que Marx emprega aí o que se chama de prosopopeia? De qualquer modo, ele diz que o “pano fala”.  

Língua amissa[1]

Autor: Werner Hamacher[2]

— O pano fala.

É Marx quem diz que o pano fala. E dizendo isso, ele fala a linguagem do tecido, ele fala “a partir de sua alma” com tanta certeza, em sua afirmação, quanto os economistas burgueses que ele critica. A linguagem de Marx é a linguagem do tecido quando ele diz “o tecido fala”. Mas, na linguagem de Marx, essa linguagem do pano é ao mesmo tempo traduzida na linguagem analítica – e irônica – da própria crítica da economia política que define as categorias da linguagem do pano.

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Sensível suprassensível II

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Esta nota visa comentar a interpretação de Sami Khatib[2] sobre a formação do valor apresentada no primeiro capítulo de O capital. Tal como se mostrou na postagem anterior[3] – sensível suprassensível (I) – esse autor aceita que a forma valor provém de uma abstração real e que tem, por isso, uma existência espectral. Como diz: “nas sociedades em que prevalece o modo de produção capitalista é como se a dimensão abstrata do valor adquirisse vida própria”; “é como se esse modo de abstração tivesse uma existência material própria, independente da mente humana”; “é um fato real – não o resultado de uma operação intelectual subjetiva, mas efeito de uma relação objetiva e realmente existente”.

Esse autor – é preciso esclarecer – pertence à corrente de pensamento que se autodenomina “lacano-marxista” e que está se esforçando para associar a psicanálise de Sigmund Freud/Jacques Lacan à crítica da economia política de Karl Marx. Ora, para fundar tal cooptação de modo sólido, parte ele de um ponto bem correto: a questão do valor aparece em O capital da maneira que se tornou conhecida porque Marx investiga aí – e ele próprio o diz claramente – a linguagem das mercadorias. Partindo daí, Khatib procura mostrar uma suposta convergência da apresentação do valor nessa obra com a linguística estrutural de Ferdinand de Saussure[4], a qual, como se sabe, está na base das reflexões psicanalíticas de Lacan.

Esse investigante lacano-marxista parte então – como diz – da noção de “abstração real”; eis que o valor das mercadorias – e sobre isso não há dúvida – advém por meio de uma abstração real. Sim, mas como pensá-la em sua efetividade no mundo real? Ao invés de investigar o que se encontra de fato na apresentação dialética da forma valor em O capital, Khatib procede do seguinte modo:

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Pulsão da morte e formação do sujeito

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Esta nota dá continuidade à anterior (publicada neste blog em 19/12/2021) que tratou do tema Pulsão da morte – Compulsão do capital, com o objetivo de buscar incorporar criticamente as descobertas da psicanálise na crítica da economia política. Aqui, considerando insuficiente o que foi dito naquela nota a respeito da noção freudiana de pulsão da morte, volta-se ao tema. A conjugação desses dois saberes afigura-se importante para compreender o devir possível da sociedade.

Em resumo, pode-se dizer que se havia chegado à conclusão naquele pequeno estudo que a pulsão da vida era conservativa e que a pulsão da morte, ambas como noções provindas de Freud, era consumativa. Ademais, concluíra-se lá que esse autor atribuirá um caráter unilateral à pulsão da morte; pois, como não há morte sem vida e vida sem morte, vida e morte formam uma contradição. Em consequência, a mesma pulsão poderia ser tomada tanto como pulsão de mais-viver quanto como pulsão de mais-morrer. Ora, a prevalência de uma ou outra dependeria de condições sociais determinadas. 

Nessa ótica, a pulsão da morte, tal como apresentada pelo psicanalista clássico, caracterizaria, na verdade, o sujeito sujeitado a uma compulsão interna e/ou externa que o domina – uma mortificação. Agora, quer-se testar melhor essa hipótese para ver se ela se sustenta. E, para tanto, vai-se comparar aqui interpretações críticas dessa noção: uma delas se encontra no livro Gozando com aquilo que não se tem de Todd McGowan (2013) e a outra se acha no livro O trabalho do gozo de Samo Tomšič (2019). Um texto de Slavoj Žižec será também usado para corroborar a tese contida nesta nota.   

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Karl Marx: o papel alienação na compreensão do capitalismo

Marcello Musto

Autor: Marcello Musto[1]

A compreensão inovadora de Marx da alienação do trabalho é parte inestimável de seu pensamento. Para Marx, a alienação era fundamental para a compreensão do capitalismo e sua superação.

A alienação foi uma das questões mais importantes e debatidas do século XX e a teoria do fenômeno proposta por Karl Marx teve um papel fundamental na construção do conceito. No entanto, ao contrário do que se possa imaginar, a própria teoria da alienação não se desenvolveu de forma linear e a publicação de textos inéditos em que Marx analisou o conceito, marcou um momento significativo na transformação de sua teoria e na sua disseminação no uma escala global.

Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844, com a categoria de “trabalho alienado”, Marx não apenas estendeu o escopo do problema da alienação da esfera filosófica, religiosa e política para a esfera econômica da produção material, mas também converteu este último em condição indispensável para compreender e superar o primeiro. No entanto, essa primeira elaboração, escrita aos 26 anos, foi apenas o esboço inicial de sua teoria. Embora muitas das teorias marxistas posteriores de alienação tenham sido erroneamente fundadas nas observações incompletas dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 – que superestimam o conceito de “auto-alienação” (Selbst-Entfremdung) – não devemos esquecer que duas décadas ou mais de pesquisas que Marx fez antes de publicar O Capital produziram uma evolução considerável em seus conceitos.

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Subsunção da pulsão de morte ao capital

Introdução: Eleutério F. S. Prado

Apresenta-se em sequência mais um trecho do livro Gozando com o que não se tem – o projeto político da psicanálise (Enjoying we don’t have – the political Project of psychoanalysis, 2013), de Todd McGowan. Assim como no anterior, busca-se nesta nova postagem continuar apresentado as conexões entre a psicanálise em sua versão não conformista e a crítica da economia política que vem de Karl Marx. Eis que esta última vem de Sigmund Freud, passa por Jacques Lacan e chega a autores como Slavoj Zizec.  

A tradução do trecho escolhido é literal, mas aqui se propõe que a sua noção central, pulsão de morte, seja lida criticamente. Segundo a psicanálise contemporânea – note-se –, a pulsão em geral – e não o mero instinto – é uma característica do ser humano justamente por que ele é um ser de linguagem. Ora, essa pulsão mora no inconsciente, mas se manifesta no consciente na forma do desejo em todas as formas de sociedade. Nem sempre do mesmo modo.

Como ocorre no capitalismo? Como esse modo de produção está baseado na subsunção do trabalho ao capital e na subsunção do sujeito à lógica do capital, o desejo das pessoas fica subsumido a um mandamento acumulativo. Eis que o superego reafirma constantemente ao “sujeito” o modo de ser do próprio capital que, como bem se sabe, move-se segundo a lógica do mau infinito. Tem-se, em consequência, um desejo insaciável que se dirige também para a acumulação. Assim, o capitalismo captura os desejos do sujeito oferecendo-lhe satisfação supostamente possível, mas lhe entrega, ao fim e ao cabo, apenas insatisfação. E isso será bem explicado no texto traduzido.

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A estagnação e o futuro da economia capitalista no Brasil

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

A economia capitalista no Brasil foi fortemente afetada pela crise do novo coronavírus que se iniciou em 2020 e que ainda não tem data certa para acabar: o nível do PIB caiu, o desemprego se elevou e a desigualdade de renda e riqueza aumentou. Considerando que a crise atual não vai durar para sempre, que talvez termine em 2022, o que os próximos anos reservam para os brasileiros? Sabendo que ela se encontrava estagnada ou quase-estagnada pelo menos desde o começo dos anos 1990, o que os brasileiros, especialmente os mais pobres, podem esperar do futuro?

Uma resposta será fornecida neste artigo, mas ela só virá ao final da exposição.

Os economistas em geral acreditam na capacidade da política econômica de produzir o crescimento. Os neoliberais têm fé no mercado: se o Brasil tem mostrado pouco potencial para elevar o PIB é porque o Estado cometeu sucessivos erros estratégicos no passado: descuidou da educação e da estabilidade macroeconômica; pecou pelo protecionismo e pelo estatismo. A solução que propõem são as reformas liberalizantes, as quais, em última análise, visam aumentar a taxa de exploração da força de trabalho e desregular os mercados para que o capital possa exercer o seu mando sem entraves burocráticos.

Os keynesianos confiam na capacidade do Estado para criar as condições e suplementar os mercados para que estes possam se desenvolver: é preciso elevar o investimento público, manter a empresas estatais estratégicas, sustentar um câmbio desvalorizado, taxar a exportação de bens primários, implementar políticas efetivas de distribuição da renda etc. Se o Brasil tem crescido pouco desde os anos 1990, isso se deve ao “thatcherismo tupiniquim” que, abandonando o nacionalismo econômico, produziu a desindustrialização, a reprimarização e a financeirização da economia brasileira, assim como uma enorme concentração da renda e da riqueza.

Para ler o artigo como um todo, favor baixar o pdf abaixo


[1] Professor Titular e sênior do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br; blog na internet: https://eleuterioprado.blog.

Lacan, crítico de Marx

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Crítico de Marx ou apenas um mal leitor de O capital já que ele o lê sob o visor de Louis Althusser? Eis uma dúvida que o texto em sequência não resolve. Mas que fica aí para uma discussão posterior.

Como sabem os psicanalistas, mas não provavelmente os críticos da economia política, o objeto “a” aparece atualmente como um conceito fulcral da psicanálise contemporânea. Mas o que é então esse objeto, noção de lavra própria, com base no qual Lacan se lança numa crítica sutil ao autor de O capital?

Lacan partiu dos descobrimentos de Sigmund Freud de quem se dizia um seguidor fiel – o que, aliás, se pode duvidar. Ora, todos aqueles que se depararam pela primeira vez – senão pela segunda, terceira etc. vezes – perceberam que se trata de um conceito enigmático e de difícil compreensão. Nessa nota pretende-se discutir esse enigma recorrendo a certas categorias lógicas, as quais aqui advirão no momento apropriado. Por enquanto, procurar-se-á simplesmente descrevê-lo como categoria da psicanálise.

No textos dessa disciplina, esclarece-se em primeiro lugar que o “a” – um “a” minúsculo – adicionado ao termo “objeto” vem de “autre” em francês, termo que corresponde ao termo “outro” em português. Como o desejo visa sempre algo, forma com esse outro uma relação de mútua determinação. Então, esse “objeto outro” é apresentado com o objeto causa do desejo. Enquanto tal, enquanto objeto de desejo, ele assinala a produção de gozo, de satisfação. Sem que esse objeto possa ser aqui bem identificado, dá-se um primeiro passo na sua compreensão.[2] 

Quando a criança passa, no curso de seu processo de crescimento, a identificar aqueles que a cercam (mãe, pai, irmãos etc.) como outras pessoas, ela toma conhecimento de si mesma, ao mesmo tempo, como uma pessoa. Ora, essa distinção apenas se consolida quando a criança aprende a linguagem dos pais e se torna capaz de nomeação. Assim, ela passa a distinguir, no seio da família, a duplicidade “eu/outros”. Nessa diferenciação surgem, necessariamente, desejos na criança que se dirigem para os familiares, vistos como outros. Ademais, os desejos passam a se dirigir não apenas para as outras pessoas, mas também para as coisas outras, tudo o que eventualmente caia no interesse e no alcance do “sujeito”.

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O todo da tempestade: dinheiro, dívida e crise na atual longa depressão

Apresenta-se nessa postagem um artigo muito de Alan Freeman que este blogueiro traduziu já há dois anos para ser publicado numa revista de esquerda que tem a questão da crise capitalista como um tema importante. Infelizmente, por falta de periódico que publica traduções, ele permaneceu guardado no computador durante todo esse tempo. Agora, ele está sendo publicado no próprio blog Economia e Complexidade. Mesmo se perdeu um pouco a atualidade, o texto é muito instrutivo no que respeita à compreensão da crise da perspectiva de Karl Marx.

O artigo investiga os mecanismos e as causas das recessões e depressões. Investiga também a relação destas últimas com as crises financeiras mais espetaculares que as anunciam. Demonstra como o conceito de “expressão monetária do tempo de trabalho” permite entender o aspecto mais difícil dessa relação, a saber, como o dinheiro adquire valor e, assim, torna-se capaz de funcionar como “valor auto expansível”. Em consequência, permite compreender, nas condições específicas que caracterizam as recessões e depressões, porque ele funciona como alternativa ao emprego de capital na produção.

Para lê-lo, é preciso baixar o artigo em pdf.