O socialismo é impossível como afirma Von Mises?

1. INTRODUÇÃO

            Mises publicou um texto em alemão versando sobre o cálculo econômico no modo de produção socialista, em 1920, o qual foi traduzido para o inglês em 1935, com o título de Economic Calculation in the Socialist Commonwealth (Mises, 1935). Desde logo, deve-se dizer que o termo comunidade (commonwealth, em inglês) aí empregado cria certa confusão, pois não se sabe bem se faz referência ao comunismo ou ao socialismo nas acepções de Marx – alvo principal do artigo.

Como as questões de que trata só fazem sentido ao se supor que visa uma sociedade em que a escassez não foi superada, deve-se admitir que trate mesmo do socialismo. O artigo, que é considerado um marco inicial no debate secular sobre o cálculo socialista, segundo um admirador incontinente, provou “de uma vez para sempre que, sob o planejamento central socialista, não há cálculo econômico possível e que, por isso, a própria economia socialista mostra-se ‘impossível’” (Salermo, 1990, p. 34).

            2. DO SOCIALISMO IMPOSSÍVEL

            Ludwig von Mises esforçou-se mesmo para provar que o socialismo seria impossível e as suas alegações tiveram enorme repercussão nos debates teóricos e práticos associados à construção desse novo modo de produção. Por razões que nascem daí, mas que só ficarão claras depois, faz ainda sentido indagar quais são os pontos centrais de sua argumentação. Em primeiro lugar, ele aponta que os socialistas em geral não se preocuparam ou se preocuparam de modo insuficiente com as questões relacionadas à organização econômica da nova sociedade. O seu texto indica que os seus defensores não se demoraram na consideração da extraordinária complexidade do processo de ajustamento entre as necessidades e as quantidades de bens e serviços a serem produzidas para atendê-las, entre as ofertas e as demandas em sua enorme diversidade, ignorando largamente as dificuldades da alocação de recursos escassos entre fins alternativos. Eis que a crítica do capitalismo – menciona – não resolve por si só o problema econômico do socialismo.

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Walras sob as luzes de Marx, Lacan e dele mesmo

Publicado originalmente em inglês na revista Brazilian Journal of Political Economy, no número de julho/setembro de 2020.

Introdução

Karl Marx escreveu numa das notas de rodapé do primeiro capítulo de O capital que “os economistas têm um modo peculiar de proceder. Para eles há apenas duas espécies de instituição, as artificiais e as naturais. As instituições do feudalismo são artificiais, as da burguesia naturais” (Marx, 1983, p. 77n). No entanto, se forneceu uma boa resposta para o enigma de saber por que essa duplicidade se impõe aos economistas em particular, não explorou todas as suas consequências. Pois, não presenciou a matematização da economia política que passou a ocorrer apenas no último quartel do século XIX.

É preciso observar que essa distinção é operada na linguagem. Portanto, as noções de natural e de artificial são ambas representações, as quais estão formadas por dualidades de significantes e de significados. Enquanto termos linguísticos são ambos artificiais, mesmo se não podem ser pensados como convenções, mas como signos que emergiram ao longo dos séculos de forma não intencional no próprio processo de formação da língua. Enquanto significados apontam – e por apontar mostram já lacunas e incerteza – para o que é próprio da natureza e para o que é próprio do homem. Ora, as instituições se encaixam sempre nesse último caso – e não do primeiro deles. São os homens que criam as instituições, ainda que possam fazê-las com consciência ou, até de modo mais comum, inconscientemente.

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O mainstream enfrenta desafios históricos. Vai superá-los?

Publicado por Michael Roberts – The next recession blog – 2/02/2021

Recentemente, a recém-confirmada secretária do Tesouro dos EUA e ex-chefe do Federal Reserve, Janet Yellen, expôs, em uma carta a sua equipe, os desafios que o capitalismo americano agora enfrenta.  Aí disse: “a crise atual é muito diferente daquela ocorrida em 2008. A sua escala é igualmente grande, se não for ainda maior. A pandemia causou uma devastação total na economia. Indústrias inteiras pararam suas operações. Dezesseis milhões de americanos ainda dependem do seguro-desemprego. As prateleiras dos bancos de alimentos estão ficando vazias.”  

Tudo isso já aconteceu, mas o que o porvir lhe reserva? Sobre o futuro, Yellen diz que os Estados Unidos enfrentam agora “quatro crises históricas: a da COVID-19 é apenas uma delas. Além da pandemia, o país também enfrenta uma crise climática, uma crise de racismo sistêmico e uma crise econômica que se arrasta há cinquenta anos.”

Ela não explicou em que consiste essa crise que já dura cinquenta anos. Mas, apesar disso, afirmou que estava confiante de que a teoria econômica mainstream pode encontrar as soluções. “A teoria econômica não é apenas algo que se encontra nos livros. Nem é simplesmente uma coleção de modelos. Na verdade, passei da academia para o governo porque acredito que a política econômica pode ser uma ferramenta poderosa para melhorar a sociedade. Podemos – e devemos – usá-la para enfrentar a desigualdade, o racismo e as mudanças climáticas. Ainda tento ver minha ciência – a ciência da economia – da maneira como meu pai via a dele: como um meio de ajudar as pessoas.”

Em pdf: O mainstream enfrenta desafios

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Outro espectro ronda agora o capital

Para falar de um medo que ora chega ao capital, isto é, ao coração dos capitalistas, é preciso fazer uma comparação entre duas perspectivas sobre as condições atuais e futuras da sociedade humana. Num artigo publicado no sítio A terra é redonda, o Prof. Paulo Artaxo, docente titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), diz:

Nossa sociedade está simultaneamente convivendo com três emergências importantes: 1) a crise na saúde; 2) a crise de perda de biodiversidade; e 3) a crise climática. Salienta-se que essas crises têm ligações profundas entre si, e diferenças importantes, mas todas provocam impactos sociais e econômicos fortes e afetam nosso planeta globalmente.

Já num relatório sobre a estabilidade financeira publicado recentemente pelo banco central norte-americano, o Federal Reserve, constata-se uma preocupação diversamente orientada:

O curso da pandemia, sua extensão e duração, as consequências econômicas e financeiras, continua a ser um dos mais significantes riscos para o sistema financeiro. A efetivação desses riscos depende largamente do sucesso das medidas de saúde pública e outra ações governamentais para conter a difusão do COVID-19.

Ora, essa comparação leva imediatamente à seguinte questão: a finalidade última da sociedade atual é se preservar, difundindo melhor o nível de civilização até agora alcançado, ou, ao contrário, é manter a lógica de acumulação de capital e, assim, o seu sistema financeiro globalizado? É “ele” que importa?  O sistema econômico existente está a serviço da sociedade? Ou, ao contrário, é esta última que deve atuar e se sacrificar em função do sistema econômico?

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O Inesperado acerto de contas: coronavírus e capitalismo

Artigo de Radhika Desai – Tradução do blog  

Talvez seja auspicioso que a seriedade da ameaça do coronavírus tenha atingido a maior parte do mundo ocidental nos Idos de Março, justamente no momento tradicional do cálculo das dívidas pendentes na Roma antiga. A semana anterior havia sido uma verdadeira montanha-russa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) finalmente declarara o contágio do vírus como uma pandemia; os governos, em sequência, apressaram-se em dar uma resposta. O vírus passou a dominar o ciclo das novas notícias, surgiram uma multiplicidade de informações erradas e mesmo de desinformações nas mídias sociais. As cidades e até mesmo países inteiros foram fechados, os mercados de todos os tipos imagináveis ​​despencaram e as empresas anunciaram demissões e interrupções da produção.

Ficou claro que, quaisquer que fossem as origens, os caminhos e a letalidade do vírus, agora chamado de Covid-19, iria testar seriamente o capitalismo ocidental em seus mecanismos de enfrentamento. Quase certamente, eles seriam surpreendidos e falhariam. Afinal, problemas e desequilíbrios acumularam-se no sistema capitalista ocidental ao longo das últimas quatro décadas, aparentemente desde que tomou o caminho neoliberal para sair da crise da década dos anos 1970. Seguiu em frente desde então, sem levar em consideração o potencial de problemas e crises que engendrava.

Durante essas décadas, tal como um analista importante mostrou, o mundo capitalista ocidental passou a ganhar tempo, por meio da acumulação de dívidas, tanto públicas quanto privadas. Buscava, assim, com os seus fracos e estreitos mercados, evitar o acerto de contas final, um problema que o neoliberalismo, com sua implacável pressão descendente sobre os salários reais, apenas exacerbava.

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O neoliberalismo globalista e antidemocrático de Friedrich Hayek

19Nada melhor mostra o que é o neoliberalismo do que a atitude de um de seus intelectuais mais célebres diante da ditadura sanguinária de Augusto Pinochet no Chile.Referindo-se ao déspota amedalhado, Hayek disse “preferir um ditador liberal a um governo democrático em que falta o liberalismo”. O que está implícito nessa afirmação cínica que desconecta o liberalismo da democracia e o reconecta circunstancialmente à ditadura mesmo em sua forma mais brutal e violenta? Uma defesa intransigente do capitalismo, dos direitos do capital, certamente. Mas para compreendê-lo melhor é preciso avançar além de sua aparência ideológica, atravessando assim ao seu invólucro libertário para chegar ao seu miolo, que é bem totalitário.

Se para Adam Smith, um liberal clássico, o sistema econômico é uma ordem natural, para Friedrich Hayek, um prócer do neoliberalismo, esse sistema consiste de uma ordem moral que precisa ser preservada porque, segundo ele, subsiste como a fonte primeira da civilização e da liberdade.[1] Esse segundo autor considera, assim, que o processo de mercado é existencialmente frágil e que está sempre em perigo; eis que ele pode mesmo ser ferido de morte por forças que medram espontaneamente na própria sociedade. Pois está constantemente ameaçado seja pelas demandas de justiça social – que se originam dos trabalhadores em geral – seja pelas pretensões nacionalistas – que medram entre os capitalistas menos capazes de competir de uma determinada nação.

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Mais sobre uma taxa de lucro mundial

Artigo original de Michael Roberts, publicado em seu blog The next recession blog, em 20/09/2020

No post anterior, apresentei uma nova abordagem para calcular a taxa de lucro mundial. Não vou repassar aqui os argumentos lá apresentados, pois aquele post, assim como os anteriores sobre o assunto, está disponível no blog original (e numa tradução antes apresentada na semana passada). Mas naquela publicação, disse que apresentaria uma decomposição da taxa de lucro mundial nos fatores que a determinam.

Ademais, disse que iria relacionar a mudança na taxa de lucro à regularidade e intensidade das crises no modo de produção capitalista. Ademais ainda, consideraria a questão de saber, dada à tendência para a taxa de lucro cair (algo bem é consistente com a argumentação de Marx), se ela poderia chegar a zero eventualmente? E se isso vier a ocorrer, o que isso significa sobre o próprio capitalismo? Vou responder partes dessas questões neste post.

Primeiro, vou reapresentar os resultados da medição da taxa de lucro mundial tal como apareceu na postagem de julho. Com base nos dados agora disponíveis no Penn World Tables 9.1 (série IRR original), calculei a taxa média (ponderada) de lucro sobre ativos fixos para as principais economias do G20 de 1950 a 2017 (último ano disponível).

O artigo completo está aqui: Mais sobre uma taxa de lucro mundial

Estimativas da taxa de lucro mundial

 Artigo de Michael Roberts, publicado no blog The next recession blog, em 25 de julho de 2020.

O modelo de capitalismo de Marx pressupõe uma economia mundial. Ademais, ele começou o seu estudo pelo “capital em geral”. Foi nesse nível de abstração que Marx desenvolveu o seu modelo das leis do movimento do capitalismo e, em particular, o que ele considerava como a mais importante lei do movimento do processo de produção capitalista, a lei da tendência de queda da taxa de lucro.

Em consequência, a taxa de lucro é o melhor indicador da ‘saúde’ de uma economia capitalista. Ele fornece um previsor significativo sobre o investimento futuro e a probabilidade de recessão ou crise econômica. Portanto, o andamento, o nível e a direção da taxa de lucro mundial pode ser um guia importante para predizer o desenvolvimento futuro da economia capitalista como um todo.

No entanto, no mundo real, existem muitos capitais particulares. Ademais, não há apenas um estado capitalista mundial, mas muitos estados capitalistas nacionais. Portanto, existem barreiras para o estabelecimento de uma economia mundial e uma taxa mundial de lucro. O comércio e as restrições de capital tentam preservar e proteger os mercados nacionais e regionais do fluxo de capital global. Mesmo assim, o modo de produção capitalista agora se espalhou por todos os cantos do globo e a “globalização” do comércio e dos fluxos de capital torna o conceito de medida de uma taxa mundial de lucro mais realista. Parece, pois, fazer sentido.

O artigo completo está aqui: Uma taxa de lucro mundial

Chegar depois para chegar junto: eis a ambição da dialética

“Se o conhecimento humano avança, não há como antecipar hoje, o que tão-somente se saberá amanhã”. Como é bem sabido, essa é uma sentença fundamental do livro A miséria do historicismo de Karl Popper (Cultrix/USP, 1980). Como se afigura bem evidente, por meio dela, este metodólogo da ciência faz uma afirmação sobre o saber da história; ele afirma simplesmente que não é possível conhecer o futuro antes que ele sobrevenha. E, como base, nessa proposição, ela vai criticar todos aqueles que parecem conhecer aquilo que estaria reservado no futuro para a humanidade.

Ora, para pensar a história, pode-se examinar por simplicidade um simulacro dela, focando o famoso paradoxo da transformação do cabeludo no careca: se um homem é cabeludo aos vinte anos e careca ao sessenta, em que momento de sua vida pessoal, entre esses dois momentos, ele se transformou de cabeludo em careca? No preciso instante em que isto aconteceu, esse homem era, simultaneamente, cabeludo e careca? Não seria esta última uma afirmação arrevessada que contém em si mesma uma contradição formal, a qual é proibida pelo entendimento e mesmo pela razão dialética? A lógica aristotélica colapsa quando quer apreender o movimento em geral?

O texto completo se encontra aqui: Chegar depois para chegar junto

 

O caráter fetichista do partido stalinista e seu segredo

É possível expor o partido stalinista do mesmo modo que Karl Marx, em O capital, expôs o fetichismo da mercadoria? Slavoj Zizek acha que sim e a sua apresentação crítica dessa forma de partido político encontra-se no seu livro Eles não sabem o que fazem – O objeto sublime da ideologia (Zahar, 1992). Ele, como se sabe, existiu concretamente e governou o sistema centralizado de acumulação de capital que vigorou na Rússia de 1917 até 1991. Mas será que ele desapareceu totalmente?

Como ainda parece importante entender melhor esse “desvio” – na verdade, um afundamento – totalitário de uma organização política que se apresentou na cena histórica como socialista democrática e, ao mesmo tempo, como autoritária. Por que respondeu tão mal à tradição política originada nas propostas de Marx e Engels para superar o modo de produção capitalista?

Que fracassou, todos sabem; não foi muito longe, ao contrário, e isto foi provado cabalmente pelo retorno da Rússia ao capitalismo, agora, na forma de um sistema de acumulação descentralizado. Logo, parece importante saber se esse fracasso não estava inscrito em sua forma própria desde o início? Como não cair no mesmo erro?

De qualquer modo, eis aqui uma apresentação didática de seu argumento: O caráter fetichista do partido stalinista e o seu segredo