A pandemia do coronavírus mostra como será o nosso futuro

De Sharon ZhangTruthout, 30/03/2020

A pandemia do COVID-19 está sendo rapidamente absorvida em nossa consciência coletiva, refazendo a tessitura de nossas vidas. De repente, milhões estão se abrigando em algum lugar, estranhos começaram a se desejar boa sorte na saída dos supermercados, as pessoas pararam de tocar os seus próprios rostos e as prateleiras que estocam normalmente água sanitária e desinfetante para as mãos estão vazias.

Para muitos, a sensação de pavor iminente é o novo normal.

“Algumas vezes por dia, eu me distraio o suficiente para esquecer que tudo mudou, muito provavelmente de uma forma que não será revertida quando a pandemia retroceder”, escreveu Amanda Mull, jornalista que escreve na revista The Atlantic, dos EUA. “Então me lembro e recaio numa vertigem psicológica, tentando reprimir uma mistura de ansiedade, terror e desorientação, algo tão profundo que mal consigo me lembrar do que devo fazer de um minuto para o outro. O medo da peste nunca me abandona por muito tempo.”

Mas, para aqueles que vivem com uma consciência aguda da realidade da crise climática, o estado atual de pandemia parece terrivelmente familiar – trata-se apenas uma versão mais imediata do pavor sobre as consequências das mudanças climáticas, que estamos sentindo há anos.

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Mortos pela desesperança

Eis como, os autores – fazendo uso de um pensamento positivo moderado – consolam-se diante de uma situação que se afigura como desconsolada: “mantemos o otimismo; acreditamos no capitalismo; continuamos a crer que a globalização e a mudança tecnológica podem ser orientadas em benefício de todos”.

A situação social que descrevem em Mortos pela desesperança e o futuro do capitalismo  (Deaths of despair and the future of capitalism. Princeton University Press, 2020) apresenta-se como desastrosa, indignante e cruel, mas ao invés de fazer uma crítica radical do sistema que, aliás, chamam pelo seu verdadeiro nome, preferem vê-lo apenas como mal administrado.

Anne Case e Angus Deaton, dois economistas consagrados da Universidade de Princeton (EUA), documentam nesse livro, de certo modo corajoso, os infortúnios, as ofensas sistêmicas e os bloqueios de perspectiva que os trabalhadores brancos menos instruídos (classe operária) vêm enfrentando na sociedade norte-americana.

Para mostrar que essa obra tem, sim, valor descritivo para compreender o que ocorreu nas últimas décadas com o sonho americano, leia-se a nota crítica se encontra aqui: Mortos por desesperança