Branko Milanovic – Blog do autor no Substack – 9/04/26
Há muitos artigos alarmistas sobre a desaceleração do crescimento da China (para ler um bom exemplar, abra-se o link aqui). A desaceleração é real. O crescimento anual médio da China nos últimos três anos foi ligeiramente inferior a 5% per capita. Dez anos atrás, a média de três anos era cerca de 7% per capita e alguns anos antes, a média de três anos chegava a 10% per capita.
Mas 5% de crescimento seria ruim? Quão ruim ele seria? Em 2024 (o último ano com taxas de crescimento detalhadas do banco de dados FMI/Banco Mundial), a taxa média de crescimento dos países como um todo não passou de 2%. Apenas um país em cada dez (ou seja, dez por cento dos países) teve taxas de crescimento acima de 4,7%. Assim, as taxas de crescimento chinesas, mesmo agora que se encontram em processo de desaceleração, ainda estão entre os mais altas do decil mais alto dentre todas as taxas anuais de crescimento de todos os países.
A desaceleração chinesa significa simplesmente o quê? A China havia crescido na mais alta taxa do mundo por cerca de vinte anos sem parar (algo semelhante ocorreu apenas em países que desfrutaram de crescimento temporário devido a recursos extraordinários ou recuperação de guerra); entretanto, agora, esse ritmo está caindo um pouco; contudo, ela ainda vai estar no decil mais alto dentre todos os países em termos de taxas de crescimento.
Obviamente, trata-se de uma desaceleração que a maioria dos países – 90% deles, para ser exato – gostaria de poder experimentar. Entre os grandes países, apenas a Índia tem se saído melhor recentemente do que a China nos últimos anos; sabe-se que a taxa média de crescimento da Índia nos últimos três anos chegou a cerca de 6% per capita.
A desaceleração chinesa também é “normal” e esperada porque o país ficou mais rico; afinal, sabe-se que uma aproximação da fronteira tecnológica tem usualmente o efeito de rebaixar as taxas de expansão do PIB. Talvez ainda não tenha chegado lá, mas isso vai acontecer em uma ou duas gerações, dependendo, essencialmente, da velocidade do progresso tecnológico nos próximos anos.
Portanto, faz sentido fazer a seguinte pergunta. Vamos coletar todos os dados históricos (desde 1950 até 2024) sobre os níveis do PIB per capita e as taxas de crescimento do PIB per capita de todos os países que estão no banco de dados do Banco Mundial/FMI, e comparar o perfil do crescimento global com o da China. Ora, é isso o que se mostra na figura abaixo.
Existem cerca de 11.000 pontos de dados sobre o PIB per capita para 187 países (ou seja, medidos em dólares no critério da paridade do poder de compra – PPC). E eles podem ser sintetizados do seguinte modo. No eixo horizontal está plotado o PIB médio em PPC calculado para o período dos últimos 80 anos; no eixo vertical estão indicadas as taxas de crescimento médias do PIB per capita. A linha azul espessa apresenta as taxas médias de crescimento estimadas para as economias em um determinado nível do PIB per capita. Ele mostra uma espécie de expectativa da taxa de crescimento conforme os países avançam em seu desenvolvimento.
Como pode ser facilmente visto, essa taxa de crescimento aumenta de pouco acima de 0 para o país/ano mais pobre para quase 2,5% para o país/anos que estão em cerca de $PPP 10.000. Hoje, esses países (onde, em princípio, a taxa de crescimento deveria atingir o pico) são Tunísia e Equador; mas em 1994, eram Líbano, Romênia e Suriname; e em 1964, eram Grécia, Gabão e Espanha, e assim por diante (para qualquer ano entre 1950 e 2024). Após esse pico, o caminho de crescimento “esperado” mundial diminui e, no nível do país/anos com PIB per capita de $50.000 ou mais, a taxa de crescimento esperada passa a ser 1,5%.
Onde está a China nessa história? A sua trajetória de crescimento é mostrada pela linha vermelha. Claramente, a China teve uma aceleração tremenda de crescimento em comparação com o caminho típico de crescimento mundial, mas também uma desaceleração muito mais acentuada. (As encostas tanto das partes ascendente quanto da descendente da China invertidas As curvas em U são muito mais nítidas do que para a mesma curva do mundo.) Mas, apesar de uma desaceleração acentuada, o crescimento da China hoje ainda é muito maior do que o crescimento típico de um país no nível de renda da China. Há uma diferença entre a linha vermelha e a linha azul: em média, esperaríamos — seguindo a experiência mundial — que a China cresça 2%, mas está crescendo 4,5%.
Então, sim: o crescimento chinês está desacelerando mais rápido do que o crescimento mundial típico desaceleraria, mas a China ainda cresce em taxas significativamente maiores do que esperaríamos, baseando-nos nos dados globais dos últimos 75 anos.
Como isso se compara à experiência do Japão a qual tem vista por muitas pessoas como um paradigma que serve também para prever a experiência da China? O que observamos na figura abaixo é que o Japão também teve taxas de crescimento muito maiores durante sua expansão do que se esperaria com base na experiência global.
Quando o PIB per capita do Japão era cerca de $PPP 10.000, esse país cresceu quase 6% ao ano contra cerca de 2,5% no mundo tal como se havia visto. Mas então, de cerca de $PPP 30.000 (veja a linha tracejada no gráfico), a desaceleração do Japão foi notavelmente acentuada, tanto que, eventualmente e por muito pouco tempo, o desempenho de crescimento do Japão tornou-se inferior ao desempenho médio mundial nesse nível de renda. Desde então, o Japão parece ter retornado totalmente à “linha mundial”; em outras palavras, seu desempenho não é excepcionalmente bom nem excepcionalmente ruim, mas médio para o nível de renda de um país japonês.
A questão é: a desaceleração da China será tão rápida quanto a do Japão? Será que o gráfico que conta a história da China cairá tão rápido e tanto quanto ao do Japão quando a China vier atingir cerca de $PPP 30.000? Ela vai chegar na linha azul de tal maneira que o seu crescimento chinês deixe de ser notável? Essa é, claro, uma questão crucial que ninguém pode responder agora.
Mas se alguém simplesmente pegasse um lápis grosso e traçasse a linha vermelha continuando o caminho que parece seguir agora (ou seja, mantendo a inclinação observada), a China atingiria a linha azul em torno de um PIB per capita de $PPP 32.000, nível de renda cerca de 50% maior que o atual. Isso não significa que ele vai parar de crescer. Ainda assim, cresceria a uma taxa de aproximadamente 2% per capita ao ano, mas essa taxa não seria nem maior nem menor do que a de países com o mesmo nível de renda. Nesse caso (hipotético), o excepcionalismo da China teria acabado.



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