China ou Estados Unidos?

Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

A resposta a essa pergunta, parece bem importante atualmente. Mesmo uma apresentação de fatos que ajudem a respondê-la pode ser útil.  Contudo, ela seria ainda mais importante se fosse capaz de indicar o significado histórico do poder relativo desses dois países. Contudo, mesmo ficando apenas nos fatos, não parece fácil obter uma resposta bem precisa. Mas é preciso tentar e aqui se fará um esforço nesse sentido.

 O primeiro modo – mas não o mais seguro – de chegar a uma definição consiste em comparar o “produto interno bruto” (PIB) desses países. Note-se, porém, que o PIB dos Estados Unidos é expresso em dólar enquanto o PIB da China é medido em yuan. Sendo assim, como é possível compará-los? Eis que é requirida uma taxa de câmbio que diga, por exemplo, quanto vale um yuan em dólar. Ora, duas taxas de câmbio são normalmente utilizadas com esse propósito: a taxa de câmbio comercial e a taxa de câmbio de paridade de poder de compra (PPC).

A primeira é formada no mercado monetário internacional em que se compra e vende dólares e yuans. Em geral, ela depende dos volumes de transação de mercadorias (bens, serviços e dinheiro), ou seja, dos balanços de comercio, serviços e capital e, assim, das políticas comerciais e monetárias dos países, implementadas por seus governos e bancos centrais.  

A segunda provém de um cálculo estatístico em que se compara os custos de uma determinada cesta de mercadorias (bens e serviços) segundos os seus preços médios nos mercados internos desses países. A cesta precificada representa, em geral, uma amostra de todos os itens incluídos no gasto de consumo final, no consumo intermediário e na formação bruta de capital fixo. Assim, têm-se:

Essas taxas são normalmente calculas pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial etc. E estão disponíveis para todos aqueles que querem investigar a questão. Há também informação que permite construir gráficos que mostram a evolução do PIB desses países tanto em dólares constantes e em PPC. Aqui se usará informação que se encontra publicada.

PIB da China e dos EUA

Quem tem, pois, o maior PIB segundo essas duas noções acima discutidas, China ou EUA? A figura em sequência mostra a evolução do PIB desses dois países[2], entre 1940 e 2025: no gráfico da esquerda, a comparação é feita empregando a taxa de câmbio em PPC e, no gráfico da direita, usando a taxa de câmbio de mercado. Se o EUA era e permanece como uma economia maior do que a da China nesse último conceito, foi maior, mas deixou de ser, no primeiro deles. Segundo a noção de paridade do poder de compra, desde 2015, o PIB da China tornou-se maior do que o PIB dos Estados Unidos.

Em ambos os gráficos os eixos verticais medem o PIB do país em questão como porcentagem do PIB mundial. No eixo horizontal estão registrados os anos de 1940 até 2025. E eles contam uma história parecida, mas que diferem significativamente entre si.

Qual dos dois gráficos seria a mais correto na apresentação da realidade? O primeiro fornece um bom indicador da capacidade interna e efetiva de produção e segundo mostra qual país tem maior poder de compra. Olhando para ambos, vê-se que os Estados Unidos tinham quase 40% da produção mundial no começo dos anos 1950, mas foi perdendo aos poucos essa participação; têm agora cerca de 15% conforme o primeiro indicador e algo como 25% conforme o outro. Se a China tinha bem menos de 5% no primeiro período acima mencionado, agora ela tem mais de 20% segundo o primeiro indicador e quase 20% no outro.

De qualquer modo, se a importância dos EUA declinou, a da China se elevou. Conforme o primeiro gráfico a China é agora maior economicamente do que os EUA, mas segundo gráfico nega esse suposto fato.

É interessante observar que a taxa de câmbio de mercado é bem mais volátil do que a taxa de câmbio em PPC. Vê-se claramente, por exemplo, que a distância dos EUA para a China aumentou significativamente a partir do começo dos anos 1980 e que isso também ocorreu a partir de meados dos anos 1990; contudo, 5 ou 6 anos depois essa tendência se inverteu em ambos os casos. Ora, isso ocorreu porque o dólar se valorizou nesses dois períodos. O exame é grosseiro, mas mostra claramente que flutuações conjunturais da taxa de câmbio de mercado podem alterar significativamente a posição relativas desses dois países.

Se essa taxa de câmbio de mercado voltasse ao nível observado em 2008, ou caísse um pouco mais do que caíra nos anos precedentes, seria possível ver o PIB da China figurar, já nos próximos anos, como maior do que o PIB dos Estados Unidos também nesse critério mais usual. E isso seria bem provável também pelo fato de que a taxa de crescimento da China tem sido aproximadamente o dobro da taxa de crescimento dos EUA nos últimos anos. Veja-se que a dominância global do dólar é um fator importante para explicar a sua força, ou seja, o seu grau de valorização relativa.

Contudo, o uso apenas do PIB para avaliar o poder econômico relativos desses dois países é bem criticável.  Pois, as economias capitalistas não são em geral autárquicas, mas se encontram enlaçadas por relações de capital imperialistas, seja na condição de dominantes seja na condição de dominadas. Como se sabe, as potências imperiais inexoravelmente se projetam no exterior por meio das empresas que operam em múltiplos países e que podem ser chamadas de multinacionais ou de transnacionais. Nesse sentido, é bem sabido que esses dois países se encontram agora numa acirrada concorrência pela dominância global.

E esse padrão de projeção internacional das economias domésticas, presente já nos séculos de formação do capitalismo, intensificou-se muito nos últimos 70 anos. Como é bem sabido, as duas ondas de globalização da segunda metade do século XX (ocorridas entre 1945 e 1980 e entre 1990 e 2008[3]) produziram o que foi chamada, por um lado, de globalização da produção de mercadorias e, por outro, de mundialização do capital industrial e de finanças.

PIG da China e dos EUA

Em consequência, é preciso encontrar outros indicadores para avaliar a grandeza relativa do poder econômico internacional dos EUA vis-à-vis ao da China. Há evidentemente alternativas para construir esse indicador, mas aqui se escolheu duas delas dentre as que se encontram disponíveis: a) uma primeira baseada no valor da capitalização de mercados das 100 maiores sociedades anônimas e b) uma outra baseada ranqueamento da Forbes das 100 maiores empresas.

As duas tabelas em sequência mostram indicadores do que aqui se resolveu chamar de “poder imperialista global”; para nomeá-los sinteticamente, escolheu-se os acrônimos PIG-1 e PIG-2. Em ambas os casos, para construir essas tabelas sintetizadoras, partiu-se de ranqueamentos que indicavam onde se encontra a sede da matriz das empresas, o que permitiu classificá-las por origem; distinguiu-se, assim, empresas dos EUA, da China, da Europa e do resto do mundo.

Na primeira alternativa, as empresas, configuradas como sociedades anônimas (SAs) e ranqueadas com base na “capitalização de mercado”, foram agrupadas nas 10, 50 e 100 maiores.  Essa medida, que exclui as empresas privadas lato sensu e as empresas estatais, classifica as corporações multiplicando o valor de mercado de suas ações pela quantidade de ações em poder dos acionistas.

Note-se que esse primeiro indicador prejudica a avaliação da posição da China no domínio econômico já que as empresas estatais são aí muito importantes – o que não ocorre com os Estados Unidos.  Apesar disso, o PIG-1 mostra bem que os EUA mantêm ainda uma grande hegemonia enquanto potência imperialista: no conjunto das 100 maiores corporações os EUA têm 58, enquanto a China tem apenas 11.  

Para corrigir a deficiência acima aponta, construiu-se a tabela abaixo com base num ranqueamento da Forbes em que as empresas foram classificadas levando em conta o total das vendas, os lucros, os ativos e o valor de mercado, com pesos iguais. No conjunto das 100 maiores empresas, tem-se agora que 38 estão registradas como norte-americanas, enquanto 17 aparecem como chinesas. Segundo esse critério a China tem um pouco menos da metade das empresas que figuram com as 100 maiores. Ainda que o poder imperialista global da China relativamente ao dos EUA tenha aumentado nas últimas décadas, é de se notar que esse último pais mantém uma dominância imperialista bem expressiva.

Ainda que a pesquisa aqui apresentada seja modesta, ela mostra bem a concentração do poder econômico no mundo atual. Embora existam 195 países reconhecidos como tal, o número dos países que têm empresas entre as 100 maiores é muito pequeno, 16 ao todo, destacando-se a Alemanha (7), Japão (7), Suíça (5), França (5), Índia (4) Canadá (3), Reino Unido (2), Itália (2), Brasil (2) e todos os outros com 1, além de Estados Unidos e China.

O quadro como um todo expressa de um modo sintético a estrutura atual do imperialismo, ou seja, do capitalismo monopolista, segundo a conceituação clássica de Vladimir Lenine.[4] É desse autor a tese segundo a qual, junto com a monopolização, vem o capital financeiro, ou seja, a subordinação do capital industrial às finanças, concorrendo ambos para a exportação de capitais e a internacionalização da produção. Daí que o imperialismo seja “exploração de um número cada vez maior de nações pequenas ou fracas por um punhado de nações riquíssimas ou muito fortes”.[5]

O quadro mostra, portanto, em grandes traços, a estrutura de competição monopolista existente, a qual exclui tanto a livre concorrência quanto o desenvolvimento autônomo das nações. Tem-se atualmente três grandes polos imperialistas, os quais se encontram numa relação de hierarquia: primeiro Estados Unidos, depois a China e pôr fim a União Europeia (um bloco heterogêneo de países quanto ao poder econômico).

Ora, essa estrutura implica não apenas a luta sem trégua para o domínio do espaço econômico, mas também o uso da força militar na luta para manter a hegemonia regional ou no mundo como um todo. É a partir dele que se pode entender os atuais conflitos bélicos entre USA/União Europeia/Ucrânia e a Rússia e entre os Estados Unidos/Israel e o Irã; eis que figuram como guerras locais, mas que fazem parte de uma disputa estratégia pela hegemonia global cujos resultados parecem incertos por enquanto.  

Dominância imperialista

Os Estados Unidos estão em declínio? São uma potência imperialista decadente já que a China está ocupando o seu lugar? Para responder a essas duas perguntas, suponha-se de início que fosse possível construir um quadro semelhante ao último apresentado para o ano de 1950 do século passado. Admita-se também que esse país tivesse então 90% das grandes empresas; veja-se que essa suposição é bem razoável já que a Europa, o Japão e a URSS estavam ainda devastadas e em recuperação devido à II Guerra Mundial, que a Índia era uma colônia e que a China estava em guerra civil.  Como agora têm apenas 38%, parece razoável admitir que os EUA estão declínio.

Contudo, essa resposta está errada e pode ser contestada.[6] Pois, os dados mostram não uma queda dos Estados Unidos, cujo crescimento tem-se mantido ano após ano, mas uma ascensão de países que estavam muito atrás, em particular da China. É verdade, porém, que dos seus antagonistas sucessivos, a URSS (de 1945 a 1991), o Japão (de 1991-2000) e a China (de 2000 em diante), apenas o último pôs um verdadeiro desafio econômico para a hegemonia norte-americana.

Contudo, a menos que ocorra uma crise tal como a de 1929 e que ela não atinja a China tão fortemente quanto a América, é de se prever que esse último país não vai perder a hegemonia tão cedo (veja-se a projeção de crescimento até o ano 2030 no gráfico abaixo). Portanto, o lema “make América great again” do movimento trumpista é “fake”, assim como é falsa a crença, difundida em parte da esquerda, segundo a qual os Estados Unidos estão em decadência acelerada. Pois, essa tese se afigura falsa mesmo se a hegemonia incontestável que tinham décadas atrás está agora abalada e pode ser superada Mesmo se têm perdidos guerras sucessivas, representa ainda um perigo mortal para a humanidade.    


[1] Professor aposentado do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blogue na internet: https://eleuterioprado.blog

[2] Fonte: Milanovic, Branko – The global transformation – The Unite States, China, and the remaking of the world economic order. The University of Chicago Press, 2026, p. 28.

[3] Ver Prado, Eleutério F. S. – Capitalismo no século XXI – Ocaso por meio de eventos catastróficos. CEFA Editorial, 2023, p. 17.

[4] Lenine, V. I. – O imperialismo – Fase superior do capitalismo. Centauro Editora, 2002, p. 93.

[5] Op. cit., p. 94. Em continuação, Lenine diz que o capitalismo se tornou, assim, parasitário e que está em estado de decomposição. Ambas essas adjetivações, contudo, não parecem corretas.

[6] Ver Milanovic, op. cit., p. 26-30.

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