Da neurose à perversão: Crise moral no ocaso do capitalismo

O livro não é novo, mas a sua tese precisa ser recuperada, pois com o passar dos anos tornou-se ainda mais relevante. O homem sem gravidade – gozar a qualquer preço foi publicado, em 2003, na França e, em 2008, no Brasil. Aqui se apresenta a sua tese fazendo uma ponte com a crítica economia política,.

Ele contém uma longa conversa entre dois psicanalistas franceses, Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun. O primeiro deles alçara, nesse domínio do saber, uma questão associada à emergência e à difusão do neoliberalismo a partir do fim dos anos 1980. E ela, agora, na passagem do milênio, tornara-se motivo de um debate que buscava uma melhor compreensão do tema.

O livro retrata, pois, essa discussão. Eis, pois, o núcleo da tese levantada: com a vitória do neoliberalismo, “passou-se de uma cultura fundada no recalque dos desejos e, portanto, da cultura da neurose, para uma outra que recomenda a sua livre expressão e que promove a perversão”. A perversão, pois, é tomada aqui como um sintoma do ocaso do capitalismo, do fato de que ele não tem mais horizonte histórico progressivo – ao contrário, o seu futuro é a regressão.

O texto completo está aqui: Da neurose à perversão – Crise moral no ocaso do capitalismo

A sociedade autofágica

Neste post se apresenta criticamente o livro de Anselm Jappe, A sociedade autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição (Antígona, 2019). Como se pode ver pelo próprio título, esse autor não apresenta um futuro otimista para a sociedade humana fundada no capitalismo.  Para ele, a civilização alcançada, agora agoniza e cambaleia no sofrido planeta Terra.

Para apresentar a sua concepção, Jappe se vale de uma metafora: o mito grego de Erisícton, que fora supostamente rei de Tessália numa época distante.  Vendo o mundo como parte integrante de seu domínio ilimitado, ele abate uma árvore sagrada para empregá-la na construção de seu palácio.

Eis que o seu ego narcisista desse monarca não tem qualquer limitação e, por isso, não é capaz de cultivar o razoável, o bom senso em sua relação com o mundo. Deméter, a deusa das colheitas, diante desse grave delito, despertou nele, como castigo, uma fome insaciável.

Para satisfazê-la, esse rei passou então a comer tudo o que encontrava em sua volta; depois de destruir a natureza e, assim, o seu próprio reino, como a sua fome não tinha limites, sem qualquer alternativa, ele passou a comer a si mesmo.

Ora, algo parecido com isso o que se delineia no horizonte da sociedade humana no vigésimo primeiro milênio da civilização ocidental que se orgulha de ser racional e livre? Ou será que essa compreensão esconde uma metafísica real, aquela da acumulação insaciável de capital?!

A resenha se encontra aqui: A sociedade autofágica – Um destino inexorável?

A provação política da pandemia

         Para Pierre Dardot e Christian Laval – autores de Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI – a pandemia do Covid-19 está testando a capacidade das organizações políticas e econômicas de lidar com esse tipo de acontecimento. “Com as mudanças climáticas em curso, o que estamos experimentando agora mostra aquilo que aguardará a humanidade em poucas décadas se a estrutura econômica e política do mundo não mudar.”

O que eles reclamam é falta da perspectiva incisiva dos comuns nas lutas sociais por uma nova sociedade. Em seu livro acima mencionado, publicado em 2017,  eles mostraram que o desenvolvimento do capitalismo nas últimas décadas mostrou a necessidade de que os movimentos transformadores visem agora, centralmente, a instituição de comuns como forma de enfrentar o neoliberalismo, ou seja, a ideologia do capitalismo em seu ocaso.

Eles afirmam, agora, no artigo que aqui se publica, que essa demanda se tornou urgente em face das catástrofes sanitárias e climáticas que estão agora pairando ameaçadoramente no horizonte da humanidade.

O texto está aqui: A provação política da pandemia
O artigo foi originalmente publicado em Mediapart, 19/03/20.

Crise estrutural no ocaso do capitalismo

Eis como Murray Smith apresenta o livro O invisível leviatã.

O capitalismo global, com a inclusão da humanidade, enfrenta agora uma crise tripla:

Um aprofundamento da contradição estrutural do modo de produção capitalista, que se manifesta como uma crise multidimensional de “valorização”, isto é, uma crise na produção de “mais-valor”, o elemento vital dos lucros;

Uma crise grave das relações internacionais derivada do fato de que as forças produtivas globais estão rompendo os limites do sistema de estados nacionais; assim, as nações continuam abordando os seus graves problemas de forma principalmente “nacional”;

Uma crescente “crise metabólica” decorrente da contradição entre a civilização humana e as “condições naturais de produção”, isto é, entre o seu modo de apropriação da natureza e os fundamentos ecológicos da sustentabilidade das sociedades.

Juntas, essas três crises inter-relacionadas sugerem que se entrou agora na era do crepúsculo do capitalismo – uma era em que a humanidade terá de encontrar uma ordem social e de organização econômica superior e mais racional ou o capitalismo decadente trará a destruição da civilização humana.

Uma apresentação do livro feita pelo responsável pelo blog se encontra aqui: Crise estrutural no ocaso do capitalismo