A estagnação e o futuro da economia capitalista no Brasil

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

A economia capitalista no Brasil foi fortemente afetada pela crise do novo coronavírus que se iniciou em 2020 e que ainda não tem data certa para acabar: o nível do PIB caiu, o desemprego se elevou e a desigualdade de renda e riqueza aumentou. Considerando que a crise atual não vai durar para sempre, que talvez termine em 2022, o que os próximos anos reservam para os brasileiros? Sabendo que ela se encontrava estagnada ou quase-estagnada pelo menos desde o começo dos anos 1990, o que os brasileiros, especialmente os mais pobres, podem esperar do futuro?

Uma resposta será fornecida neste artigo, mas ela só virá ao final da exposição.

Os economistas em geral acreditam na capacidade da política econômica de produzir o crescimento. Os neoliberais têm fé no mercado: se o Brasil tem mostrado pouco potencial para elevar o PIB é porque o Estado cometeu sucessivos erros estratégicos no passado: descuidou da educação e da estabilidade macroeconômica; pecou pelo protecionismo e pelo estatismo. A solução que propõem são as reformas liberalizantes, as quais, em última análise, visam aumentar a taxa de exploração da força de trabalho e desregular os mercados para que o capital possa exercer o seu mando sem entraves burocráticos.

Os keynesianos confiam na capacidade do Estado para criar as condições e suplementar os mercados para que estes possam se desenvolver: é preciso elevar o investimento público, manter a empresas estatais estratégicas, sustentar um câmbio desvalorizado, taxar a exportação de bens primários, implementar políticas efetivas de distribuição da renda etc. Se o Brasil tem crescido pouco desde os anos 1990, isso se deve ao “thatcherismo tupiniquim” que, abandonando o nacionalismo econômico, produziu a desindustrialização, a reprimarização e a financeirização da economia brasileira, assim como uma enorme concentração da renda e da riqueza.

Para ler o artigo como um todo, favor baixar o pdf abaixo


[1] Professor Titular e sênior do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br; blog na internet: https://eleuterioprado.blog.

Lacan, crítico de Marx

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Crítico de Marx ou apenas um mal leitor de O capital já que ele o lê sob o visor de Louis Althusser? Eis uma dúvida que o texto em sequência não resolve. Mas que fica aí para uma discussão posterior.

Como sabem os psicanalistas, mas não provavelmente os críticos da economia política, o objeto “a” aparece atualmente como um conceito fulcral da psicanálise contemporânea. Mas o que é então esse objeto, noção de lavra própria, com base no qual Lacan se lança numa crítica sutil ao autor de O capital?

Lacan partiu dos descobrimentos de Sigmund Freud de quem se dizia um seguidor fiel – o que, aliás, se pode duvidar. Ora, todos aqueles que se depararam pela primeira vez – senão pela segunda, terceira etc. vezes – perceberam que se trata de um conceito enigmático e de difícil compreensão. Nessa nota pretende-se discutir esse enigma recorrendo a certas categorias lógicas, as quais aqui advirão no momento apropriado. Por enquanto, procurar-se-á simplesmente descrevê-lo como categoria da psicanálise.

No textos dessa disciplina, esclarece-se em primeiro lugar que o “a” – um “a” minúsculo – adicionado ao termo “objeto” vem de “autre” em francês, termo que corresponde ao termo “outro” em português. Como o desejo visa sempre algo, forma com esse outro uma relação de mútua determinação. Então, esse “objeto outro” é apresentado com o objeto causa do desejo. Enquanto tal, enquanto objeto de desejo, ele assinala a produção de gozo, de satisfação. Sem que esse objeto possa ser aqui bem identificado, dá-se um primeiro passo na sua compreensão.[2] 

Quando a criança passa, no curso de seu processo de crescimento, a identificar aqueles que a cercam (mãe, pai, irmãos etc.) como outras pessoas, ela toma conhecimento de si mesma, ao mesmo tempo, como uma pessoa. Ora, essa distinção apenas se consolida quando a criança aprende a linguagem dos pais e se torna capaz de nomeação. Assim, ela passa a distinguir, no seio da família, a duplicidade “eu/outros”. Nessa diferenciação surgem, necessariamente, desejos na criança que se dirigem para os familiares, vistos como outros. Ademais, os desejos passam a se dirigir não apenas para as outras pessoas, mas também para as coisas outras, tudo o que eventualmente caia no interesse e no alcance do “sujeito”.

Continuar lendo