Materialismo crítico versus materialismo simbólico

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A questão de saber o que é o materialismo parece às vezes fácil de resolver. De imediato tem-se que se trata da posição filosófica que admite a existência de uma realidade exterior ao homem e que independe da sua subjetividade. Ora, desde que ele se tornou um ser social num passado muito distante, a própria realidade passou a ser transformada coletivamente, não apenas materialmente, mas também de outro modo. Como esse “senhor” passou a se comunicar por meio de linguagens cada vez mais complexas, a realidade para ele deixou de ser aquela que pode ser apreendida por meio dos sentidos, para se configurar como realidade simbólica. As simbolizações em geral e, em particular, a linguagem, recobrem um mundo real que continua subsistindo independentemente delas.

Aqui, para discutir um suposto materialismo de Jacques Lacan, parte-se de uma compreensão básica de linguagem. As formas elementares dessa complexidade são as palavras e estas consistem em princípio da reunião de uma forma (o significado) com um suporte da forma (o significante) – ainda que não de um modo rigidamente fixo. O significado diz respeito àquilo que é chamado de noção no plano da lógica; o significante, por sua vez, está constituído por sons devidamente concatenados, os quais são transmitidos por via oral ou por meio de um conjunto de sinais escritos que o fixam de modo duradouro. Em princípio, o significante transporta o significado. E ambos se ligam a um ou mais referentes por meio de conexões que também não são unas, estritamente estabelecidas.   

As palavras, portanto, não estão coladas a referentes, como se deles fossem meras imagens. Diferentemente, as palavras se referem ativamente às coisas por meio do uso que delas se faz na prática social. As pessoas que participam da associação linguística que se chama sociedade tem de apreender a usar a linguagem que, para elas, é um comum: eis que tem de se apoderar de suas regras, assim como do modo de empregar e combinar as palavras, as distinções entre elas, os seus limites referenciais etc. Ora, essa descrição sumária parece satisfatória, mas ela contém, entretanto, uma questão perturbadora: como as significações são postas socialmente, teriam elas alguma objetividade ou seriam meramente subjetivas? Os significantes apenas representam significados que moram na mente humana ou eles próprios são lugares onde moram os significados? 

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Walras sob as luzes de Marx, Lacan e dele mesmo

Publicado originalmente em inglês na revista Brazilian Journal of Political Economy, no número de julho/setembro de 2020.

Introdução

Karl Marx escreveu numa das notas de rodapé do primeiro capítulo de O capital que “os economistas têm um modo peculiar de proceder. Para eles há apenas duas espécies de instituição, as artificiais e as naturais. As instituições do feudalismo são artificiais, as da burguesia naturais” (Marx, 1983, p. 77n). No entanto, se forneceu uma boa resposta para o enigma de saber por que essa duplicidade se impõe aos economistas em particular, não explorou todas as suas consequências. Pois, não presenciou a matematização da economia política que passou a ocorrer apenas no último quartel do século XIX.

É preciso observar que essa distinção é operada na linguagem. Portanto, as noções de natural e de artificial são ambas representações, as quais estão formadas por dualidades de significantes e de significados. Enquanto termos linguísticos são ambos artificiais, mesmo se não podem ser pensados como convenções, mas como signos que emergiram ao longo dos séculos de forma não intencional no próprio processo de formação da língua. Enquanto significados apontam – e por apontar mostram já lacunas e incerteza – para o que é próprio da natureza e para o que é próprio do homem. Ora, as instituições se encaixam sempre nesse último caso – e não do primeiro deles. São os homens que criam as instituições, ainda que possam fazê-las com consciência ou, até de modo mais comum, inconscientemente.

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Um significante representa o sujeito para um outro significante

Eis aí a frase misteriosa de Jacques Lacan que parece escapar de qualquer compreensão satisfatória, mesmo após um grande esforço nesse sentido.

Bem, Slavoj Zizek procurou resolver esse problema mobilizando uma argumentação que se vale da dialética moderna, a qual emergiu por meio da filosofia idealista de Georg W F Hegel. Contudo, mesmo se o seu texto é imprescindível para um bom entendimento dessa questão, assim como para tentar compreender a solução do enigma que encerra, ele pensa rápido demais…

De qualquer modo, esse autor interpretou essa frase como expressão de relação social oculta no discurso das pessoas em geral.  Para explicitar o seu sentido fez uma analogia com a apresentação dialética do dinheiro que se encontra no primeiro capítulo de O capital.

Aqui vai-se tentar reapresentá-la de um modo mais lento e menos hermético. E, ademais, que vai além – talvez – das explicações que são dadas estritamente no campo da psicanálise.

O texto que apresenta essa interpretação encontra-se aqui: Um significante representa o sujeito para outro significante – II

 

O modo da dominação nazista segundo Zizek

Este post encaminha um pequeno artigo de Jodi Dean, cientista política norte-americana, professora do Departamento de Ciência Política das Faculdades Hobart e William Smith, no Estado de Nova York. Ela é autora do livro Zizec’s Politics (A política em Zizec), (Routledge, 2006). Nessa nota, essa autora procura apresentar de modo bem sintético como se dá, segundo Slajov Zizek, a dominação nazista e como ela teria de desembocar, necessariamente, no Holocausto.

O que caracteriza a explicação de Zizek do nazismo é o uso que faz da teoria do discurso de Jacques Lacan. Em decorrência, ele mostra como a dominação nazista se dá em várias instâncias da subjetividade individual e social, assim como do próprio social, ou seja, na do imaginário, na da fantasia e na das normas jurídicas e burocráticas (que Lacan denominava de simbólico). É também de se notar que Zizek combina em sua apresentação a crítica psicanalítica com a crítica da economia política de Karl Marx.

A nota se encontra aqui: O modo da dominação nazista segundo Zizek

O discurso autoritário do economista mainstream

Os economistas de centro-direita tem se esforçado para criticar as políticas econômicas do PT. Em geral, com essa intenção, eles não fazem referência aos objetivos desse partido político na condução do governo. Como se sabe, as políticas do PT nessa área tinham uma certa coerência: procuraram melhorar a repartição da renda, elevar os ganhos dos mais pobres, sem mudar as instituições que balizam o funcionamento do sistema capitalista realmente existente.

O Partido dos Trabalhadores, como se sabe, apesar de alguma retórica, não é e nunca foi um partido socialista. Na verdade, a sua política econômica nunca deixou de manter e promover o capitalismo tal como o herdou dos governos do PSDB. Note-se que ele nunca quis enfrentar o problema da desindustrialização e da reprimarização. Ora, a economia capitalista no Brasil, após a década perdida dos anos 1980, tem se mantido num padrão de lento crescimento que deve ser classificado como (neo) liberal e dependente.

Alguns economistas de centro-direita sustentam mesmo que “as políticas equivocadas dos petistas, ignoradas por Lula e seu partido, produziram crise e alimentaram a ascensão da extrema direita”. Ora, essa acusação, em primeiro lugar, ignora que as crises são inerentes ao capitalismo. Na verdade, como crítica, é destemperada e mesmo falsa.

Note-se por isso, em segundo lugar, que ela ignora que a ascensão da extrema direita foi alimentada por uma operação anticorrupção levada a efeito pelo judiciário, mas orientada politicamente inclusive por interesses externos. Como se sabe, a corrupção é endêmica na política brasileira e dela participaram tanto o PT quanto o PSDB, assim como quase todos os outros partidos políticos existente no Brasil.

Este post encaminha uma nota que procura fazer uma crítica mais geral ao padrão de argumentação dos economistas em geral, em particular dos economistas que se pautam pela teoria neoclássica. Baseia-se fortemente na teoria dos discursos de Jacques Lacan, para dizer que os economistas do “mainstream” costumam fundar a sua arenga numa cientificidade impessoal e positiva, supostamente isenta de valores morais e políticos, que funciona como um “grande Outro”.

Desse modo – sustenta-se enfaticamente – eles se sentem fortes tanto para recusarem toda crítica que atinge o sistema enquanto tal, quanto para se desresponsabilizarem quanto às consequências funestas, socialmente desastrosas, das políticas de prescrevem ou ajudam a implementar.

Quando chegam ao poder, promovem sistematicamente a concentração da renda nos estratos mais altos sem se sentirem minimamente culpados pelo feito. Afinal, acham-se muito competentes numa cientificidade matemática (Economics) que, por ter esse caráter, é julgada implicitamente melhor do que aquelas que se sustentam no campo da Economia Política. A matemática é o grande Escudo e a grande Espada da teoria econômica vulgar, ou seja, aquela que apreende apenas os nexos externos entre os fenômenos.

O texto está aqui: O discurso autoritário do economista mainstream