Acabou o impulso de globalização?

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 27/04/2022

Além da inflação e da guerra, o que atrai o pensamento econômico atual é o aparente fracasso do que a teoria econômica mainstream aprecia chamar de “globalização”. O que ela quer dizer com esse termo? Refere-se à expansão livre do comércio e do fluxo de capital através das fronteiras. Em 2000, o FMI identificou quatro aspectos básicos da globalização: comércio e transações, movimentos de capitais e investimentos, migração e circulação de pessoas e disseminação do conhecimento. O seu perfil atualmente se apresenta assim:

Todos esses componentes aparentemente se expandiram a partir do início da década de 1980 como parte da reversão neoliberal das políticas nacionais de macrogestão anteriormente seguidas. Ditas keynesianos, elas eram adotadas por governos no ambiente da ordem econômica mundial de Bretton Woods (isto é, sob a hegemonia dos EUA). A nova regra agora era quebrar as barreiras tarifárias, cotas e outras restrições comerciais, permitindo assim que as multinacionais negociassem “livremente” e transferissem os seus investimentos no exterior, ou seja, para áreas de mão de obra barata, com a finalidade de aumentar a lucratividade. Isso levaria à expansão global e ao desenvolvimento harmonioso das forças produtivas e ao crescimento dos recursos do mundo – pelo menos era o que se afirmava então.

Não havia nada de novo nesse fenômeno. Desde que o capitalismo se tornou o modo de produção dominante nas principais economias, já em meados do século XIX, houve períodos de aumento do comércio internacional e de exportação crescente de capital. Em 1848, os autores do Manifesto Comunista notaram o aumento no nível de interdependência nacional trazido pelo capitalismo e previram o caráter universal da sociedade mundial moderna:

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Não há luz no túnel da longa depressão

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 13/03/2022

Uma das minhas teses básicas sobre o capitalismo moderno é que, desde 2008, as principais economias capitalistas estão no que chamo de “longa depressão”. No meu livro de 2016 com este mesmo nome, distingo entre o que os economistas chamam de recessões (quedas na produção, investimento e emprego) e depressões.

Sob o modo de produção capitalista (isto é, a produção social voltada lucro; este provém do trabalho humano e apropriado por um pequeno grupo de proprietários dos meios de produção), tem havido quedas regulares e recorrentes a cada 8-10 anos desde o início do século XIX. Após cada queda, a produção capitalista revive e se expande por vários anos, antes de retornar a uma nova queda.

No entanto, as depressões são diferentes. Em vez de sair após um tempo da recessão, as economias capitalistas permanecem deprimidas por longo tempo, com menor produção, investimento e crescimento do emprego.

A depressão não é uma novidade. Ela ocorreu por três vezes na história do capitalismo:

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Mais uma contradição prospera no capitalismo

Autor: Prabhat Patnaik

Nos Estados Unidos ainda há quatro milhões de pessoas que permanecem desempregadas em relação à situação antes da pandemia; e, no entanto, a tentativa do governo Biden de estimular a economia já entrou em crise com o ressurgimento da inflação não apenas naquele país, mas também em outras partes do mundo capitalista. 

O Federal Reserve Board (o equivalente ao banco central dos EUA) planeja em breve aumentar as taxas de juros (atualmente próximas de zero). Ademais, mesmo a expansão fiscal será difícil de sustentar diante da inflação. Tudo contribui, portanto, para truncar a recuperação que vem ocorrendo. 

Em outras palavras, mesmo no principal país capitalista do mundo, cuja moeda é “tão boa quanto o ouro” e que, portanto, não precisa temer qualquer fuga de capital debilitante, a capacidade do Estado de estimular a atividade dentro de suas próprias fronteiras encontra-se seriamente constrangido.

Esta é uma nova contradição básica que surgiu no capitalismo mundial e que merece atenção séria. Segundo John Maynard Keynes, o mais importante economista burguês do século XX, embora o capitalismo espontâneo fosse um sistema falho que mantinha grandes massas de trabalhadores desempregadas, a intervenção do Estado poderia consertar essa falha. Ora, esse prognóstico já havia sido contraditado pela globalização de finanças. 

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Dilema energético: eficiência ou eficácia?

Autor: Cédric Durand

Blog Sidecar, 5/11/2021

A bifurcação ecológica não é um jantar de gala. Após um verão de eventos climáticos extremos e um novo relatório do IPCC confirmando suas previsões mais preocupantes, grande parte do mundo está agora sendo sacudida por uma crise de energia que prefigura crescentes problemas econômicos no futuro. Essa conjuntura enterrou o sonho de uma transição harmoniosa para um mundo pós-carbono, trazendo à tona a questão da crise ecológica do capitalismo. Na COP26, o tom dominante foi de impotência. As tragédias iminentes deixaram a humanidade encurralada entre as demandas imediatas de reprodução sistêmica e a aceleração dos distúrbios climáticos.

Prima facie, pode-se pensar que medidas estão sendo tomadas para lidar com esse cataclismo. Mais de 50 países – além de toda a União Europeia – se comprometeram a cumprir as metas de emissões líquidas zero. Se isso ocorrer as emissões globais de CO2 relacionadas à energia cairiam em 40% entre hoje e 2050. No entanto, uma leitura sóbria dos dados científicos mostra que a transição verde está fora do bom caminho.

Ficar aquém desta meta, acréscimos nulos de emissões globalmente, significa que as temperaturas continuarão a aumentar, levando o mundo a ficar em média bem acima de 2° C até 2100. De acordo com o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), os países foram solicitados a apresentar antes da COP26 as contribuições que poderiam dar. Se elas se efetivarem, reduziriam as emissões de 2030 em 7,5%. No entanto, uma queda de 30% é necessária para limitar o aquecimento a 2° C, enquanto 55% seriam necessários para 1,5° C.

Como advertiu um editorial recente da revista Nature, muitos desses países fizeram promessas de zerar o crescimento, mas não apresentaram um plano concreto para atingir esse objetivo. Quais gases serão os alvos? Até que ponto o valor líquido zero depende de redução efetiva em vez cair no esquema da compensação? Este último tornou-se particularmente atraente para países ricos e empresas poluidoras, uma vez que não reduz diretamente as suas emissões, pois envolvem a transferência do fardo do corte de carbono para as nações de baixa e média renda (que serão mais gravemente afetadas pela quebra do clima).

Sobre essas questões cruciais, informações confiáveis ​​e compromissos transparentes não foram estabelecidos, o que coloca em risco a possibilidade de um monitoramento científico internacional confiável. Conclusão: com base nas políticas climáticas globais atuais – as já implementadas e as propostas – o mundo está a caminho de um aumento devastador nas emissões durante a próxima década.

Apesar disso, o capitalismo já experimentou o primeiro grande choque econômico relacionado à transição para além do carbono. O aumento nos preços da energia se deve a vários fatores, incluindo uma recuperação desordenada da pandemia, mercados de energia mal projetados no Reino Unido e na União Europeia, os quais exacerbam a volatilidade dos preços, assim como a disposição da Rússia em garantir sua receita de energia no longo prazo.

No entanto, em um nível mais estrutural, o impacto dos primeiros esforços já feitos para restringir o uso de combustíveis fósseis não pode ser negligenciado. Devido às limitações governamentais à queima de carvão, além da crescente relutância dos acionistas em se comprometer com projetos que poderiam estar obsoletos em trinta anos, o investimento em combustível fóssil tem caído. Embora essa contração da oferta não seja suficiente para salvar o clima, ela sacrifica de imediato o crescimento capitalista.

A reunião de vários eventos recentes dá uma ideia do que está por vir. Na região do Punjab, na Índia, uma grave escassez de carvão causou apagões de energia não programados. Na China, mais da metade das jurisdições provinciais impuseram medidas rígidas de racionamento de energia. Várias empresas, incluindo fornecedores importantes da Apple, foram recentemente forçadas a interromper ou reduzir as operações nas instalações na província de Jiangsu, depois que os governos locais restringiram o fornecimento de eletricidade.

Essas restrições resultaram de tentativas de cumprir as metas de emissões nacionais por meio da restrição à geração de energia usando carvão. Ora, essa fonte ainda responde por cerca de dois terços da eletricidade da China. Para conter a repercussão dessas interrupções, as autoridades chinesas colocaram um freio temporário em suas ambições climáticas, ordenando que 72 minas de carvão aumentassem seus fornecimentos; ao mesmo tempo, foram reiniciadas as importações de carvão australiano que haviam sido interrompidas por meses em meio a tensões diplomáticas entre os dois países.

Na Europa, um aumento dos preços do gás desencadeou a crise atual. Assombrados pela memória das rebeliões dos coletes amarelos (gilets jaunes)contra o imposto na emissão de carbono de Marcon, os governos intervieram criando subsídios de energia para as classes populares.

De forma inesperada, porém, aumentos do preço do gás precipitaram reações em cadeia no setor manufatureiro. O caso dos fertilizantes é revelador. Um grupo americano, CF Industries, decidiu encerrar a produção em suas fábricas de fertilizantes no Reino Unido, as quais deixaram de ser lucrativas devido aos aumentos de preços dos insumos. Ora, essa empresa fornecia anteriormente 45% do CO2 usado no setor alimentício do Reino Unido. De qualquer modo, essa decisão desencadeou semanas de caos na indústria, afetando vários setores, de cerveja e refrigerantes a embalagens de alimentos e carnes.

Globalmente, o aumento dos preços do gás está afetando o setor agrícola por meio do aumento dos preços dos fertilizantes. Na Tailândia, o custo dos fertilizantes dobrou desde 2020, aumentando os custos para muitos produtores de arroz e colocando em risco a temporada de plantio. Se isso continuar, os governos podem ter que intervir para garantir o fornecimento de alimentos essenciais. 

As repercussões globais e generalizadas da escassez de energia e dos aumentos de preços ressaltam as consequências complexas envolvidas na transformação estrutural necessária para eliminar as emissões de carbono. À medida que ocorre uma redução no fornecimento de hidrocarbonetos, o aumento das fontes de energia sustentável não se afigura suficiente para atender à demanda crescente. Isso cria uma insuficiência de energia que pode atrapalhar a transição completamente.

Nesse contexto, os países podem retornar à fonte de energia mais facilmente disponível – o carvão – ou então terão de aceitar uma contração econômica impulsionada pelo aumento dos custos. Ora, isso terá efeitos na lucratividade, nos preços de consumo e na estabilidade do sistema financeiro. No curto prazo, então, há uma contradição entre os objetivos ecológicos e a necessidade de promover o crescimento. Esse dilema energético se manterá no médio e no longo prazo? Enfrentar-se-á agora, necessariamente, uma escolha entre cuidar do clima ou promover o crescimento? – eis a questão.

Uma transição de carbono bem-sucedida implica o desenvolvimento harmonioso de dois processos complexamente relacionados nos níveis material, econômico e financeiro. Primeiro, um processo progressivo de abandono deve ocorrer. As fontes produtoras de carbono devem ser drasticamente reduzidas; dentre elas, sobretudo a extração de hidrocarbonetos. Mas também devem ser diminuídas a produção de eletricidade a partir do carvão e do gás, assim como a amplitude do uso dos sistemas de transporte à base de combustíveis. Sofrerão consequências tanto o setor da construção (devido ao elevado nível de emissões envolvido na produção de cimento e aço) quanto a indústria da carne (devido ao gás metano produzido pelo gado).

O que está em jogo em tudo isso é o decrescimento e isso no sentido bem direto: equipamentos devem ser descartados, as reservas de combustível fóssil devem permanecer no solo, a pecuária intensiva deve ser abandonada e uma série de habilidades profissionais deve se tornar redundante.

Tudo o mais igual, a eliminação de capacidade de produção implica em contração da oferta, o que leva ao aumento das pressões inflacionárias generalizadamente. Isso é ainda mais provável porque os setores mais afetados estão localizados no alto escalão das economias modernas. Na forma de uma cascata destes para outros setores, a pressão sobre os custos afetará o mark-up das empresas, os lucros globais e/ou o poder de compra do consumidor, desencadeando fortes forças recessivas. Além disso, o decrescimento da economia de carbono é uma perda líquida do ponto de vista da valorização do capital financeiro: enormes quantidades de ativos “podres” terão de ser eliminados, uma vez que os lucros esperados subjacentes estarão perdidos, abrindo caminho para vendas incendiárias e ricocheteando no massa de capital fictício. Essas dinâmicas inter-relacionadas vão se alimentar mutuamente, à medida que as forças recessivas elevarem a inadimplência. Diante desta última, uma crise financeira congelará o acesso ao crédito. 

O outro lado da transição é um grande impulso de investimento para acomodar o choque de oferta causado pelo decrescimento do setor baseado no carbono. Embora a mudança de hábitos de consumo possa desempenhar um papel, especialmente em países ricos, a criação de novas capacidades de produção sem carbono, melhorias na eficiência, eletrificação de transporte, sistemas industriais e de aquecimento (junto com a implantação de captura de carbono em alguns casos) também são necessários para compensar a eliminação progressiva das emissões de gases com efeito de estufa.

De uma perspectiva capitalista, isso poderia representar novas oportunidades de lucro, desde que os custos de produção não sejam proibitivos em relação à demanda disponível. Atraídas por essa valorização, as finanças verdes podem intervir e acelerar a transição, impulsionando uma nova onda de acumulação capaz de sustentar empregos e padrões de vida.

No entanto, é importante ter em mente que o tempo é tudo nesse processo: fazer esses ajustes em cinquenta anos é completamente diferente de ter que se desligar drasticamente em uma década. Dado onde se chegou e onde se está agora, as perspectivas de uma mudança suave e adequada para a energia verde são mínimas, para dizer o mínimo. A redução do setor baseado no carbono permanece incerta devido à contingência inerente dos processos políticos e à falta persistente de engajamento das autoridades estatais. É ilustrativo que um único senador, Joe Manchin III, da Virgínia Ocidental, foi capaz de bloquear o programa dos democratas dos EUA no sentido de facilitar a substituição de usinas movidas a carvão e gás. 

Conforme ilustrado pelas interrupções atuais, a falta de alternativas prontamente disponíveis também pode dificultar a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. De acordo com a AIE (Agência Internacional de Energia): “Os gastos relacionados à transição […] permanecem muito aquém do que é necessário para atender à crescente demanda por serviços de energia de forma sustentável. O déficit é visível em todos os setores e regiões”. Em seu último Relatório sobre a questão energética, a Bloomberg estima que uma economia global em crescimento exigirá um nível de investimento em fornecimento de energia e infraestrutura entre US $ 92 trilhões e US $ 173 trilhões nos próximos trinta anos. O investimento anual precisará mais do que dobrar, passando de cerca de US $ 1,7 trilhão por ano hoje, para algo entre US $ 3,1 trilhões e US $ 5,8 trilhões por ano em média. A magnitude de tal ajuste macroeconômico seria sem precedentes.

Do ponto de vista da teoria econômica dominante, esse ajuste ainda é uma questão de acertar os preços. Em um relatório recente encomendado pelo presidente francês Emmanuel Macron, dois importantes economistas da área, Christian Gollier e Mar Reguant, argumentam que “o valor do carbono deve ser usado como parâmetro para todas as dimensões da formulação de políticas públicas”. Embora os padrões e regulamentações não devam ser descartados, uma “precificação do carbono bem projetada”, feita por meio de um imposto sobre o carbono, deve desempenhar o papel principal em relação a um possível mecanismo limitador da produção e da comercialização.

Espera-se que os mecanismos de mercado internalizem as externalidades negativas das emissões de gases de efeito estufa, permitindo uma transição ordenada tanto do lado da oferta quanto da demanda. “A precificação do carbono tem a vantagem de focar na eficiência em termos de custo por tonelada de CO2, sem a necessidade de identificar com antecedência quais medidas vão funcionar.” Refletindo a plasticidade do ajuste de mercado, um preço de carbono – “ao contrário de medidas mais prescritivas” – abre um espaço para “soluções inovadoras”. 

Essa perspectiva de livre mercado e tecno-otimista garante que o crescimento capitalista e a estabilização do clima sejam reconciliáveis. No entanto, apresenta duas deficiências principais. O primeiro é a cegueira da abordagem de precificação do carbono para a dinâmica macroeconômica envolvida no esforço de transição. Um relatório recente de Jean Pisani Ferry, escrito para o Peterson Institute for International Economics, minimiza a possibilidade de qualquer ajuste suave impulsionado pelos preços de mercado, ao mesmo tempo que destrói as esperanças de um New Deal Verde que possa levantar todos os barcos simultaneamente. 

Observando que “a procrastinação reduziu as chances de engendrar uma transição ordenada”, o relatório observa que “não há garantia de que a transição para a neutralidade de carbono será boa para o crescimento”. O processo é bastante simples: 1) uma vez que a descarbonização implica numa obsolescência acelerada de alguma parte do estoque de capital existente, a oferta será reduzida; 2) entretanto, serão necessários mais investimentos. A questão candente então é: existem recursos suficientes na economia para permitir mais investimento ao lado da oferta enfraquecida?

A resposta depende do tamanho da folga na economia – ou seja, da capacidade produtiva ociosa e do desemprego existente. Mas, considerando o tamanho do ajuste e o prazo reduzido, isso não pode ser dado como certo. Na opinião de Pisani Ferry, “o impacto sobre o crescimento será ambíguo, o impacto sobre o consumo deverá ser negativo. A ação climática é como uma preparação militar diante de uma ameaça: boa para o bem-estar no longo prazo, mas ruim para a satisfação do consumidor”. Transferir os recursos do consumo para o investimento significa que os consumidores inevitavelmente arcarão com o custo do esforço.

Apesar de sua perspectiva neokeynesiana, Pisani-Ferry abre uma discussão perspicaz sobre as condições políticas que permitiriam uma redução nos padrões de vida e uma guerra de classes verde travada ao longo das linhas de renda. Ainda assim, em seu apego ao mecanismo de preços, seu argumento compartilha com a abordagem de ajuste de mercado uma ênfase irracional na eficiência da redução das emissões de CO2.

A segunda lacuna da contribuição de Gollier e Reguant torna-se aparente quando eles exigem “uma combinação de ações climáticas com o menor custo possível por tonelada-equivalente de CO2 não emitida”. Na verdade, como os próprios autores reconhecem, a definição dos preços do carbono é altamente incerta. As avaliações podem variar de US$ 45 a US$ 14.300 por tonelada, dependendo do horizonte de tempo e da redução almejada. Com tal variabilidade, não adianta tentar otimizar o custo da redução de carbono de modo intertemporal. O importante não é o custo do ajuste, mas a certeza de que ocorrerá a estabilização do clima.

Descortinando as especificidades do estado desenvolvimentista japonês, o cientista político Chalmers Johnson fez uma distinção que também poderia ser aplicada ao debate sobre a transição: 

Um estado regulador, ou racional de mercado, preocupa-se com a forma e os procedimentos – as regras, se preferir – da competição econômica, mas não se preocupa com questões substantivas […] O estado desenvolvimentista, ou estado racional planejador, ao contrário, tem como característica dominante precisamente o estabelecimento de tais objetivos sociais e econômicos substantivos.

Em outras palavras, enquanto o primeiro visa a eficiência – usar de modo mais econômico os recursos – o segundo se preocupa com a eficácia: ou seja, pela capacidade de atingir um determinado objetivo, seja na guerra ou na industrialização. Dada a ameaça existencial representada pelas mudanças climáticas e o fato de existir uma métrica simples e estável para orientar as decisões, a preocupação deve ser com a eficácia da redução dos gases de efeito estufa e não com a eficiência do esforço. Em vez de usar o mecanismo de preços para permitir que o mercado decida onde o esforço deve estar, é infinitamente mais simples somar metas nos níveis setorial e geográfico e fornecer um plano de redução consistente para garantir que a meta geral seja alcançada a tempo.

Ruchir Sharma do Morgan Stanley, escrevendo sobre essa questão no Financial Times, levanta um ponto que defende indiretamente o planejamento ecológico. Ele observa que o impulso de investimento necessário para a transição além de uma economia baseada no carbono apresenta um problema trivialmente material: por um lado, as atividades sujas – particularmente nos setores de mineração ou produção de metal – tornam-se não lucrativas devido ao aumento da regulamentação ou dos preços mais altos; por outro lado, o investimento para tornar a infraestrutura mais verde requer tais recursos para expandir as capacidades. A diminuição da oferta e o aumento da demanda são, portanto, uma receita para o que ele chama de “inflação verde”. Sharma, portanto, argumenta que “bloquear novas minas e plataformas de petróleo nem sempre será uma medida ambiental e socialmente responsável.”

Como porta-voz de uma instituição com grande interesse em commodities poluentes, Sharma dificilmente pode ser visto como um comentarista neutro. Mas o problema que ele articula – como fornecer material sujo suficiente para construir uma economia de energia limpa? – é bem real. E está relacionado com outra questão, ou seja, com uma suposta transição impulsionada pelo mercado: a precificação do carbono não permite que a sociedade discrimine entre os usos espúrios de carbono – como enviar bilionários para o espaço – e usos vitais, como construir a infraestrutura para uma economia sem carbono. Em uma transição bem-sucedida, o primeiro uso deveria ser impossível, enquanto que o segundo deveria o mais barato possível. Como tal, um preço único de carbono torna-se um caminho claro para o fracasso.

Isso nos traz de volta a um argumento antigo, mas ainda decisivo: reconstruir uma economia – neste caso, aquela que elimina gradativamente os combustíveis fósseis – requer reestruturar a cadeia de relações entre seus diversos segmentos, o que sugere que o destino da economia como um todo depende de seu ponto de menor resistência. Como Alexandr Bogdanov observou no contexto da construção do jovem estado soviético, “por causa dessas relações interdependentes, o processo de expansão da economia está inteiramente sujeito à lei do ponto mais fraco”. Essa linha de pensamento foi posteriormente desenvolvida por Wassily Leontief em suas contribuições para a análise de insumo-produto. Afirma que os ajustes de mercado simplesmente não dependem de uma transformação estrutural. Em tais situações, o que é necessário é um mecanismo de planejamento cuidadoso e adaptativo, capaz de identificar e lidar com um aparecimento complexo de gargalos.

Quando se consideram os desafios econômicos da reestruturação das economias para manter as emissões de carbono em linha com a estabilização do clima, essa discussão adquire um novo enquadramento. A eficácia deve ter precedência sobre a eficiência na redução de emissões. Isso significa abandonar o fetiche do mecanismo de preço para planejar como os recursos sujos restantes serão usados ​​no serviço de infraestrutura limpa. Esse planejamento deve ter alcance internacional, uma vez que as maiores oportunidades de descarbonização do fornecimento de energia estão localizadas no Sul Global.

Além disso, como a transformação do lado da oferta não será suficiente, as transformações do lado da demanda também serão essenciais para permanecer dentro dos limites planetários. As necessidades de energia para fornecer padrões de vida decentes à população global podem ser drasticamente reduzidas, mas, além do uso das tecnologias disponíveis mais eficientes, isso implica uma transformação radical dos padrões de consumo, incluindo procedimentos políticos para priorizar entre reivindicações de consumo concorrentes.   

Com sua preocupação de longa data com o planejamento e o consumo socializado, o socialismo internacional é um candidato óbvio para assumir essa tarefa histórica. Embora o mau estado da política socialista não conjure muito otimismo, a conjuntura catastrófica em que estamos entrando – junto com a volatilidade dos preços e os espasmos contínuos das crises capitalistas – podem aumentar a fluidez da situação. Em tais circunstâncias, a esquerda deve ser flexível o suficiente para aproveitar qualquer oportunidade política que aumente a causa de uma transição ecológica democrática.

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Para onde vai a economia mundial?

Autor: Michael Roberts.

Fonte: The next recession blog. Data de publicação: 19/11/2021

Como está avançando a suposta recuperação global após o “fim” da pandemia de COVID? O consenso econômico é que as principais economias estão se recuperando rapidamente, impulsionadas pelo aumento dos gastos dos consumidores e do investimento corporativo.

O problema à frente não parece ser um retorno ao crescimento econômico sustentado, mas uma inflação mais alta ou mais duradoura nos preços de bens e serviços, que poderia forçar os bancos centrais e outros credores a aumentar as taxas de juros. E isso poderia levar à falência de empresas altamente endividadas e, em seguida, a um novo crash financeiro.

Embora esse risco esteja claramente presente nos próximos dois anos, haverá realmente uma recuperação sustentada do crescimento econômico nos próximos cinco anos? Vamos nos lembrar das previsões oficiais. O FMI estima que em 2024 o PIB global ainda estará 2,8% abaixo de onde pensava que o PIB mundial estaria antes da crise pandêmica.

E a perda relativa de renda é muito maior nas chamadas economias emergentes – excluindo a China, a perda é próxima a 8% do PIB na Ásia e 4 a 6% no restante do Sul Global. De fato, as previsões para o crescimento real médio anual do PIB em praticamente todas as principais economias são de um crescimento menor nesta década em comparação com a década de 2010 – que chamei de Longa Depressão. 

Para ler o artigo todo é preciso baixar o pdf, que tem muitos gráficos.

Tecno-feudalismo ou socialismo do capital?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Os contornos da hipótese

Esta nota visa apresentar criticamente uma conjectura sobre natureza do capitalismo contemporâneo contida no livro Techno-féodalisme – Critique de l’économie numérique de Cédric Durand (La Découverte, 2020). Segundo essa hipótese, o capitalismo industrial, enquanto um modo de produção progressivo, gerador de crescimento econômico, foi já substituído por um capitalismo rentista, moroso e depredador, que deve ser agora cognominado de tecno-feudalismo.

Segundo esse autor, as tecnologias digitais não trouxeram, tal como havia sido prometido pela ideologia do Vale do Silício, um horizonte radiante para o capitalismo; ao contrário, elas tanto enrijeceram o neoliberalismo quanto produziram a degradação do próprio modo de produção. Pois, reconfiguraram as relações sociais de um modo reacionário: se antes delas prevalecia ainda um sistema descentralizado de produção de mercadorias em que imperava concorrência, com elas e por meio delas ocorreu uma centralização e monopolização que criou de novo uma estrutura de dependência na esfera da produção, uma nova forma de submissão das unidades de produção aos donos de um poder “fundiário”. E essa forma – diz ele – tinha sido suprimida historicamente pelo capitalismo concorrencial dos séculos XVII, XVIII e XIX, tendo se mantido mesmo quando sobreveio a fase monopolista no final do século XIX.

Eis que agora todas as empresas individuais, pequenas, médias e grandes se tornaram dependentes de um recurso, as plataformas digitais, as quais são detidas por uma fração privilegiada de capitalistas; ademais, elas são mantidas e comandadas apenas por um conjunto restrito de trabalhadores, dependentes diretos também dessa fração. Ora, essas plataformas se tornaram meios de produção universais já que contêm as bases de dados e os algoritmos indispensáveis para o exercício de qualquer atividade econômica importante e, assim, em geral.

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Morbidez capitalista e a crise global

Murray Smith, Jonah Butovsky e Josh Watterton[1]

A convulsão social de 2020-21 pode muito bem marcar uma virada importante na história mundial. A emergência global de saúde pública trazida pela Covid-19 e a crise econômica associada produziram efeitos sociais e políticos extremamente disruptivos e de longo alcance.  Mesmo antes do início da pandemia – note-se –, a economia mundial já estava à beira de uma recessão severa, titubeando após uma prolongada – e notavelmente morna – recuperação da Grande Recessão de 2008-09. Foi só isso o que era capaz de apresentar após várias décadas decrescimento lento, austeridade e problemas persistentes de lucratividade na esfera do capital industrial, em que se produz o valor e o mais-valor.  A recessão, então, foi grandemente ampliada por bloqueios (totais ou parciais) impostos pelos estados nacionais às indústrias, serviços governamentais e pequenas empresas. Como resultado desse processo, chegou-se a níveis de desemprego e de contração econômica que rivalizam com aqueles observados na Grande Depressão da década de 1930.

Como se deve encarar essa crise global “combinada” ocorrida entre 2020 e 2021?  Com poucas exceções, a resposta da mídia corporativa, dos estratos gerenciais profissionais, das elites políticas e de muitos economistas são notavelmente uniformes.  Consistente com a maioria das avaliações convencionais sobre os atuais problemas da humanidade, vê-se essa ocorrência como um fenômeno natural: eis que, súbita e “misteriosamente”, surgiu um vírus invulgarmente infeccioso e furtivo… Diante dessa emergência, fala-se muito então das decisões consciente e das ações de indivíduos (profissionais de saúde, políticos, líderes empresariais e jornalistas da grande mídia) em reação a ele. Assim, minimiza-se o papel decisivo desempenhado por poderosas forças sociais estruturais que instigam, exploram e determinam a forma e a magnitude da crise.

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Do futuro da economia mundial

A economia do mundo como um todo decresceu -3,5% em 2020 em decorrência da crise provocada pelo novo coronavírus; entretanto, segundo estimativas recentes da OCDE, crescerá 5,8% em 2021 e provavelmente algo em torno de 4,4% em 2022. Essa perspectiva tem trazido esperança e até um pouco de euforia para os agentes econômicos que dão suporte ao capital e que se beneficiam de seu processo de valorização: o mundo, segundo eles, vai recuperar o caminho de prosperidade – mesmo, porém, se desconfiam racionalmente dessa predição, é isso o que mais desejam.  Mas, o que esperar de fato da economia mundial na próxima década – e mesmo depois dela?

Fonte: Banco Mundial

Uma primeira resposta a essa pergunta pode ser encontrada examinando simplesmente a evolução da economia mundial nas últimas décadas. A figura acima mostra de forma iniludível que as taxas de crescimento do PIB global têm caído tendencialmente desde o fim da II Guerra Mundial. Se entre 1961 e 1970, esse indicador avançou segundo uma taxa média de 5,4% ano, nas décadas seguintes, essa taxa foi caindo até chegar à média de 2,2% ao ano entre 2011 e 2020.

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Recuperação econômica e ameaça inflacionária

Postado em 22 de maio de 2021 no blog The political economy of development

Nick Johnson  

O medo do aumento da inflação em países emergentes da recessão induzida pela pandemia do Covid-19 tem se difundido em toda a imprensa financeira e de negócios nos últimos dias. Eis que tem ocorrido aumentos de preços além do esperado, principalmente nos EUA. Alguns economistas e comentaristas argumentaram que o aumento é temporário. Ocorre devido a fatores do lado da oferta, como gargalos, uma “recuperação” dos gastos dos consumidores à medida que as famílias começam a gastar a poupança acumulada, mas também devido ao estímulo fiscal significativo. A abundância de demanda e problemas de oferta oferecem uma explicação simples para os aumentos de preços. Quando a demanda excede a oferta, os preços sobem, algo que também pode acontecer no caso do nível de preços da economia como um todo.

Quando eu estava estudando economia na faculdade, os livros didáticos ofereciam uma variedade de explicações para a inflação, ou seja, para os aumentos sustentados no nível de preços. Uma delas era o “puxão da demanda”: gastos excessivos batendo contra a falta de oferta, sejam estes dos trabalhadores, do governo ou mesmo dos capitalistas. Uma outra era o “empurrão de custos”: subidas de salários ou de outros insumos importantes, como o petróleo. Trata-se aqui de aumentos de preços que alimentam aumentos do nível geral de preços.

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A economia norte-americana com Joe Biden

Michael Roberts[1]

Eis o dia da inauguração. Há, pois, um novo presidente nos Estados Unidos, país este que tem a economia e o estado capitalista mais poderosos do mundo. O mandato de quatro anos de Joe Biden começou quando Donald Trump fugiu para sua propriedade e campo de golfe na Flórida. Mas antes de ir, ele disse: “o meu movimento está apenas começando”.

Qual é a situação dos Estados Unidos no momento em que Biden assume o cargo? A pandemia COVID-19 causou enormes danos às vidas e aos meios de subsistência de milhões de americanos. O seu impacto foi muito pior do que poderia ter sido por vários motivos. Primeiro, o governo dos Estados Unidos, assim como os outros governos, nada fez para se preparar para a pandemia COVID-19. 

Como outras postagens explicaram, os governos foram devidamente alertados de que patógenos perigosos para a vida humana – e para os quais não havia imunidade – estavam aparecendo. Outras pandemias antes do COVID-19 já haviam aparecido. Mas a maioria dos governos não gastou em prevenção (pesquisa de vacinas, por exemplo) ou em proteção (provisão de recursos robustos para a saúde e sistemas de teste e rastreamento). 

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