A ameaça da estagflação

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Nouriel Roubini[2], um conhecido analista macroeconômico que opera nos EUA, tendo por referência os países ricos, pensa que a ameaça da estagflação se mostra cada vez mais fidedigna. A política econômica atual, que combina expansão monetária e creditícia, assim como impulsos fiscais, tendo em vista estimular a demanda, com respostas insuficientes da oferta, vai produzir, segundo ele, um aquecimento inflacionário. “Combinadas, tais dinâmicas de oferta e demanda” – afirma – “pode gerar estagflação, um aumento geral dos preços e recessão, ao estilo do que ocorreu na década dos anos 1970”. Mesmo uma crise severa das dívidas tal como sobreveio na naquela década pode, potencialmente, ocorrer. Eis como caracteriza a ameaça da estagflação:

Enquanto esses persistentes choques negativos de oferta ameaçam reduzir o potencial de crescimento, a continuidade das políticas monetárias e fiscais frouxas pode desancorar as expectativas inflacionárias. Uma espiral preços-salários pode então sobrevir num ambiente caracterizado por uma tendência recessiva pior do que aquela dos anos 70 do século passado – quando as razões dívida/PIB eram bem menores do que são agora.[3] 

Jayati Ghosh[4], uma notória analista da economia mundial, julga que a estagflação é também uma ameaça, mas agora para os países não desenvolvidos, cujos mercados são ditos emergentes. A interdependência global se acentuou nas últimas décadas de tal modo que essas nações estão sob riscos devidos às consequências das políticas macroeconômicas implementadas pelos países ricos. Nota-se que muitos desses países estão sofrendo com os aumentos dos preços mesmo quando os níveis da atividade econômica e do emprego permanecem baixos e mesmo em declínio. Eis como caracteriza o risco de que essa situação possa perdurar:

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“Economics” e Ética científica

A ciência econômica corriqueira, aquela que é ensinada nos cursos de Economia na maior parte do mundo e de modo predominante, tem orgulho de se apresentar como ciência positiva. Eis que ela se esmera não apenas em apreender as relações externas entre os fenômenos econômicos, mas também em ser capaz de fazer previsões sobre o comportamento futuro das variáveis econômicas. Um campeão nessa área, Milton Friedman, escreveu em A metodologia da ciência positiva (1957):

“A Economia Positiva é, em princípio, independente de qualquer posição ética ou quaisquer juízos normativos. Se refere ao “o que é” e não ao que “deveria ser”. A sua tarefa consiste em fornecer um sistema de generalizações que possa fornecer previsões corretas acerca das consequências de qualquer mudança das circunstâncias. O seu funcionamento deve ser julgado por sua precisão, alcance e conformidade das predições que fornece com a experiência.”

Para instrumentar esse tipo de teorização, os economistas ditos do “mainstream” desenvolveram a Econometria, ou seja, um campo especializado no aprendizado de técnicas estatísticas simples ou sofisticadas de tratamento empírico de informações sobre variáveis econômicas. Esse saber permite supostamente que os iniciados nessa arte de manipulação de “dados” econômicos possam testar a validade de certas relações funcionais, assim como fazer projeções a partir delas.

Entretanto, na prática, a ambição de objetividade dos economistas do sistema se revela às vezes como o seu contrário, ou seja, como falsificação ou como ideologia vulgar. A arrogância teórica e a pretenciosa cientificidade transmutam-se, então, em grosseira culinária de séries estatísticas com a finalidade de sustentar determinadas proposições e posições de política econômica. Eis que os dados podem ser arrumados ou mesmo inventados, a direção de causação pode ser invertida, as estimações podem ser manipuladas de vários modos. Por isso mesmo, parece ser usual nesse campo a prática de evitar a replicação dos experimentos estatísticos.

Neste post apresenta-se um caso exemplar fornecido pela economista crítica Jayati Ghosh. Ela mostra, numa nota publicada no portal Project Syndicate, que foi provado que um famoso artigo publicado numa “revista de primeira linha” torceu e corrompeu a econometria para provar que políticas pró-trabalhadores prejudicam os próprios trabalhadores.

Eis o artigo: Ciência e Subterfúgio em Economics