Da neurose à perversão: Crise moral no ocaso do capitalismo

O livro não é novo, mas a sua tese precisa ser recuperada, pois com o passar dos anos tornou-se ainda mais relevante. O homem sem gravidade – gozar a qualquer preço foi publicado, em 2003, na França e, em 2008, no Brasil. Aqui se apresenta a sua tese fazendo uma ponte com a crítica economia política,.

Ele contém uma longa conversa entre dois psicanalistas franceses, Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun. O primeiro deles alçara, nesse domínio do saber, uma questão associada à emergência e à difusão do neoliberalismo a partir do fim dos anos 1980. E ela, agora, na passagem do milênio, tornara-se motivo de um debate que buscava uma melhor compreensão do tema.

O livro retrata, pois, essa discussão. Eis, pois, o núcleo da tese levantada: com a vitória do neoliberalismo, “passou-se de uma cultura fundada no recalque dos desejos e, portanto, da cultura da neurose, para uma outra que recomenda a sua livre expressão e que promove a perversão”. A perversão, pois, é tomada aqui como um sintoma do ocaso do capitalismo, do fato de que ele não tem mais horizonte histórico progressivo – ao contrário, o seu futuro é a regressão.

O texto completo está aqui: Da neurose à perversão – Crise moral no ocaso do capitalismo

Da teoria econômica do socialismo – III

Conclui-se hoje a publicação neste blog do artigo seminal de Fikret Adaman e Pat Devine que versa sobre as alternativas teóricas existentes que ousaram repensar o socialismo, agora como socialismo radicalmente democrático. Manteve-se o título escolhido por eles, mas, para evitar confusão, realça-se fortemente que o texto e os seus argumentos se encontram no campo da economia política.

Todos eles, como já se afirmou anteriormente, pretendem superar a tese de que o futuro do socialismo é uma impossibilidade prática. Ademais, todos eles mantêm uma premissa implícita; “os socialistas democráticos acreditam que a democracia capitalista é capitalista demais para ser totalmente democrática” (Joseph M. Schwartz em A crise do liberalismo é a promessa do socialismo, em Jacobin Brasil, 2019). Ademais, nunca desaparece totalmente o risco de que se torne um autoritarismo…

Em consequência, os novos socialistas realmente “novos” não pretendem abolir o liberalismo realmente existente, mas sim, conservá-lo e ampliá-lo para superar algumas de suas deficiências. Um verdadeiro “florescimento da individualidade humana” não pode acontecer quando os seres humanos estão ainda submetidos à relação de capital. Mas também é necessário que fiquem estritamente garantidos, de modo institucional, os direitos civis e políticos postos na época moderna.

As alternativas discutidas em Da teoria econômica do socialismo se encontram num campo de um debate secular sobre a possibilidade e sobre a fertilidade (eficácia e eficiência) de uma nova experiência de socialismo. Como se sabe, a escola austríaca moderna (Mises e Hayek são os seus principais autores) contestam com argumentos fortes não só o último predicado desejável do socialismo, mas também o primeiro.

A terceira parte do artigo se encontra aqui: Da teoria econômica do socialismo – Parte III

Da teoria econômica do socialismo – II

Continua-se hoje a publicação neste blog do artigo seminal de Fikret Adaman e Pat Devine que versa sobre as alternativas teóricas existentes que ousaram repensar o socialismo, agora como socialismo radicalmente democrático. Todos eles, mantendo-se no campo da economia política rigorosa, pretendem superar a tese de que o futuro do socialismo é uma impossibilidade prática.

Todos eles, por isso mesmo, partem de um fracasso: como dizem os autores do primeiro artigo, “o modelo marxista clássico, entendido como planejamento centralizado de todas as decisões de produção, foi desacreditado pela experiência soviética”. Ao mesmo tempo, persiste no tempo um debate secular sobre a possibilidade e sobre a fertilidade de uma nova experiência de socialismo. Essa questão tem sido abordada dentro do chamado “debate sobre o cálculo socialista”, o qual já tem mais de um século de existência.

Na segunda parte do artigo que agora vem a luz, os autores mencionados apresentam e discutem a alternativa que é usualmente chamada de “socialismo de mercado”. Trata-se este de um modelo de socialismo que abole a propriedade privada dos meios de produção, substituindo-a pela propriedade social ou comum dos próprios trabalhadores. No entanto, continua mantendo os mercados como fonte de articulação e de coordenação das unidades de produção entre si e entre elas e os consumidores.

A segunda parte do artigo se encontra aqui: Da teoria econômica do socialismo – Parte II

Macroideologia econômica

Neste post apresenta-se um comentário crítico de um pequeno texto de Simon Wren-Lewis, professor de Macroeconomia e Metodologia da Economia da Universidade de Oxford, Inglaterra: “Erros e ideologia em Macroeconomia” que foi publicado em 8 de janeiro de 2012 em seu blog na internet (Mainly Macro).

When-Lewis pensa os eventos macroeconômico da perspectiva da novo-keynesiana e, por isso, diverge  daqueles economistas que os analisam da ótica novo-clássica. Em seu post ele faz uma crítica à Robert Lucas e à John Cochrane, ambos da Universidade de Chicago, EUA. Esses dois autores, segundo ele, cometem um erro elementar quando pensam que o gasto público não tem o poder de elevar a renda nacional porque aquele montante que o governo gasta a mais é compensado por uma redução do gasto do setor privado.

O economista inglês, então, se pergunta: por que autores tão competentes em Economics cometem tal barbaridade. Primeiro, ele considera a hipótese de que eles não estejam bem esclarecidos sobre os resultados da teoria novo-keynesiana. No entanto, faz essa suposição apenas para descartá-la, sugerindo então que o problema se encontra na ideologia que professam. Como aqueles dois autores não apreciam a intervenção do Estado na regulação macroeconômica, eles se tornam ideólogos do mercado perfeito e, por isso, cometem tal erro elementar em teoria econômica. Mas qual seria o problema da teoria novo-keynesiana?

O texto se encontra aqui: Macroeconomia e ideologia

“Economics” e Ética científica

A ciência econômica corriqueira, aquela que é ensinada nos cursos de Economia na maior parte do mundo e de modo predominante, tem orgulho de se apresentar como ciência positiva. Eis que ela se esmera não apenas em apreender as relações externas entre os fenômenos econômicos, mas também em ser capaz de fazer previsões sobre o comportamento futuro das variáveis econômicas. Um campeão nessa área, Milton Friedman, escreveu em A metodologia da ciência positiva (1957):

“A Economia Positiva é, em princípio, independente de qualquer posição ética ou quaisquer juízos normativos. Se refere ao “o que é” e não ao que “deveria ser”. A sua tarefa consiste em fornecer um sistema de generalizações que possa fornecer previsões corretas acerca das consequências de qualquer mudança das circunstâncias. O seu funcionamento deve ser julgado por sua precisão, alcance e conformidade das predições que fornece com a experiência.”

Para instrumentar esse tipo de teorização, os economistas ditos do “mainstream” desenvolveram a Econometria, ou seja, um campo especializado no aprendizado de técnicas estatísticas simples ou sofisticadas de tratamento empírico de informações sobre variáveis econômicas. Esse saber permite supostamente que os iniciados nessa arte de manipulação de “dados” econômicos possam testar a validade de certas relações funcionais, assim como fazer projeções a partir delas.

Entretanto, na prática, a ambição de objetividade dos economistas do sistema se revela às vezes como o seu contrário, ou seja, como falsificação ou como ideologia vulgar. A arrogância teórica e a pretenciosa cientificidade transmutam-se, então, em grosseira culinária de séries estatísticas com a finalidade de sustentar determinadas proposições e posições de política econômica. Eis que os dados podem ser arrumados ou mesmo inventados, a direção de causação pode ser invertida, as estimações podem ser manipuladas de vários modos. Por isso mesmo, parece ser usual nesse campo a prática de evitar a replicação dos experimentos estatísticos.

Neste post apresenta-se um caso exemplar fornecido pela economista crítica Jayati Ghosh. Ela mostra, numa nota publicada no portal Project Syndicate, que foi provado que um famoso artigo publicado numa “revista de primeira linha” torceu e corrompeu a econometria para provar que políticas pró-trabalhadores prejudicam os próprios trabalhadores.

Eis o artigo: Ciência e Subterfúgio em Economics

Marx e Polanyi juntos

Em virtude da onda populista de direita – Trump, Brexit etc. – que assola os países ditos desenvolvidos, alguns acreditam que o neoliberalismo está passando por um forte abalo. Não, não está. Na verdade, o que está perdendo a posição de pensamento político hegemônico é o neoliberalismo progressista cuja onda juntou tacitamente, a partir dos anos 1980, os defensores da liberalização dos mercados local e globalmente e os movimentos progressistas que se esmeraram na luta pela igualdade de gênero, sexo, etnia e religião.

Ora, o neoliberalismo progressista minou as suas próprias bases sociais e está sendo substituído atualmente pelo neoliberalismo conservador ou mesmo reacionário. Em vaga crescente, este neo-neoliberalismo figura como anti-globalista. Ele está conseguindo reunir os mesmos partidários da sociabilidade competitiva com as classes trabalhadoras revoltadas com um declínio econômico e social produzido pela redução sistemática da proteção social, assim como pela globalização, desindustrialização e financeirização das economias centrais. E essa aliança política tem sido mediada por um extremismo de direita que se caracteriza por propagar a misoginia, a xenofobia, o etnocentrismo etc.

Para compreender esse processo de mudança histórica parece bem importante tomar ciência das reflexões de Nancy Fraser, filósofa norte-americana que tem se destacado na análise do capitalismo contemporâneo. No texto que aqui se publica em português, ela defende a tese de que para entender bem o que está acontecendo é preciso desenvolver uma teoria crítica que combina e integra as “visões” de Karl Marx e Karl Polanyi sobre a sociedade moderna.

Para Fraser, o que se experimenta agora é uma crise multifacetada da civilização – não só ocidental; eis que essa crise se manifesta não apenas no interior do domínio econômico, mas também em suas relações contraditórias com a natureza humanizada, com a esfera da reprodução social e com o campo da política etc.  Tal compreensão macrossocial sugere, também, que essa reconfiguração do neoliberalismo vai acabar minando também as suas próprias bases de existência nos próximos anos.  

O texto, bem polêmico, encontra-se aqui: Por que dois Karls é melhor do que um

Rumo ao mercado total? – Primeira parte

A sociedade pode ser totalmente mercadorizada? Essa pergunta não é ingênua, pois põe um problema crucial da sociedade coCapa do livro Teoria dos Sentimentos Morais de Adam Smithntemporânea. Eis que faz referência a uma tendência bem evidente para muitos que ousam pensar criticamente:  quase tudo na vida social, atualmente, tende a se subordinar aos imperativos do sistema econômico. Ademais, a lógica de comportamento humano vigorante nas relações mercantis estão cada vez mais se infiltrando em todos os domínios da sociedade.

Neste post apresenta-se uma nota que procura fazer uma reflexão sobre essa questão. Ela procura responder a seguinte pergunta: essa transformação histórica é compatível com uma compreensão razoável do ser humano e da sociedade humana? Para tanto, confronta-se as teorias da ação humana de dois autores, os quais podem ser considerados sejam como economistas sejam como filósofos: Adam Smith, que representa aqui o liberalismo clássico, e Ludwig von Mises, que aparece aqui como representante do neoliberalismo.

Num post posterior pretende-se responder à seguinte questão complementar: à medida que ocorre historicamente quais seriam as suas consequências para a existência dessa sociedade enquanto tal? O tema é controvertido, mas precisa ser enfrentado.

O texto se encontra aqui: Rumo ao mercado total? – primeira parte

Avesso do discurso econômico

Mafalda e os valores do capitalismo

Os economistas se enxergam como fontes inesgotáveis de racionalidade. Quando escrevem, costumam derramar sobre as pessoas “comuns” receitas sobre como devem gerir sua vida econômica atribulada; mais frequentemente, pontificam sobre como deve ser gerido o sistema econômico, sempre passando por infindáveis turbulências.  Por isso mesmo deveriam estar interessados no último número da Revista Limiar (vol.1, nº2) do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unifesp. Aí, eles podem encontrar dois artigos bem interessantes que lhes amassam o topete.

O primeiro, de Alselm Jappe, trata de alienação, reificação e fetichismo da mercadoria, um tema central para a compreensão da crítica da economia política de Karl Marx. Ora, esses termos apontam para o caráter intrinsecamente religioso do sistema econômico, mostrando, assim, que sob a sua fachada de racionalidade mora e se oculta uma irracionalidade altamente destrutiva que ora ameaça a existência da humanidade. O artigo contrapõe a ontologia do trabalho de Lukács à crítica do trabalho feita pelos autores da escola da “critica do valor” (Robert Kurz, por exemplo). O acesso ao artigo Alienação, reificação e fetichismo da mercadoria  encontra-se aqui: http://www.revistalimiar.org/uploads/2/1/6/4/21648538/1._anselm_jappe_-_limiar_n.2.pdf.

O segundo, de Tales Ab’Sáber, trata de uma perspectiva psicanalítica o comportamento dos analistas econômicos mais em evidência diante da crise econômica mundial de 2008. Como se sabe, mesmo vários “gênios” consagrados por meio do Prêmio Nobel fracassaram miseravelmente em antecipar que do “boom” vinha um formidável “bum”. Segundo esse autor, “os agentes que recusavam a realidade da crise assim a aprofundaram”. Eles foram cruelmente pervertidos pela recusa da realidade que claramente transbordava em relação ao seu modo vulgar de apreender o sistema fetichista da mercadoria. O acesso ao artigo Interesse e verdade: neoliberalismo e mentira encontra-se aqui: http://www.revistalimiar.org/uploads/2/1/6/4/21648538/7.tales_-_limiar_n.2.pdf

Para superar o capitalismo II

Para retomar ainda a questão da superação do capitalismo, esta postagem apresenta um texto que trata da vigência histórica do valor como regulação social inconsciente das transações econômicas. Nessa perspectiva, sustenta que a teoria do valor em Marx não é propriamente uma teoria do valor-trabalho com validade transistórica. É, isto sim, uma teoria do trabalho como ‘valor’ – uma categoria cujo espaço histórico está restrito ao modo de produção capitalista. Sustenta que, na história, o ‘valor’ não é posto de imediato em seus primórdios e nem vai ser deposto de uma vez em seu fim – quando, então, é suprimido politicamente para dar lugar a uma sociedade transparente. Ao invés, passa por um processo de formação e de desformação. O ato revolucionário vindouro que acaba com a regulação inconsciente do processo de produção e instaura o socialismo não deixa de ser precedido pela deterioração das condições necessárias para a formação do valor já no capitalismo.

 

Para ler o texto clique aqui: Da posição e da deposição do valor

Para superar o capitalismo I

????????????????????????????????????????

Este postagem vem ao espaço virtual para recomendar fortemente um texto de Peter Hudis que retoma a questão da superação do capitalismo por meio da instituição de uma sociedade verdadeiramente humana: Trabalho social direto e indireto: que espécie de relação humana pode transcender o capitalismo. A partir de uma leitura apaixonada e rigorosa da Crítica ao Programa de Gotha, esse autor mostra que, para Marx, o socialismo é um modo de produção baseado em relações sociais diretas, democráticas, entre produtores livremente associados. E que, por isso, o seu advento depende crucialmente da deposição do valor como regulação social inconsciente das transações econômicas – o que, aliás, nunca aconteceu nos “socialismos” fracassados, baseados no planejamento centralizado e na governança de um partido-estado.

Para ler a tradução clique aqui: Hudis – Trabalho social direto e indireto.