Marx e Polanyi juntos

Em virtude da onda populista de direita – Trump, Brexit etc. – que assola os países ditos desenvolvidos, alguns acreditam que o neoliberalismo está passando por um forte abalo. Não, não está. Na verdade, o que está perdendo a posição de pensamento político hegemônico é o neoliberalismo progressista cuja onda juntou tacitamente, a partir dos anos 1980, os defensores da liberalização dos mercados local e globalmente e os movimentos progressistas que se esmeraram na luta pela igualdade de gênero, sexo, etnia e religião.

Ora, o neoliberalismo progressista minou as suas próprias bases sociais e está sendo substituído atualmente pelo neoliberalismo conservador ou mesmo reacionário. Em vaga crescente, este neo-neoliberalismo figura como anti-globalista. Ele está conseguindo reunir os mesmos partidários da sociabilidade competitiva com as classes trabalhadoras revoltadas com um declínio econômico e social produzido pela redução sistemática da proteção social, assim como pela globalização, desindustrialização e financeirização das economias centrais. E essa aliança política tem sido mediada por um extremismo de direita que se caracteriza por propagar a misoginia, a xenofobia, o etnocentrismo etc.

Para compreender esse processo de mudança histórica parece bem importante tomar ciência das reflexões de Nancy Fraser, filósofa norte-americana que tem se destacado na análise do capitalismo contemporâneo. No texto que aqui se publica em português, ela defende a tese de que para entender bem o que está acontecendo é preciso desenvolver uma teoria crítica que combina e integra as “visões” de Karl Marx e Karl Polanyi sobre a sociedade moderna.

Para Fraser, o que se experimenta agora é uma crise multifacetada da civilização – não só ocidental; eis que essa crise se manifesta não apenas no interior do domínio econômico, mas também em suas relações contraditórias com a natureza humanizada, com a esfera da reprodução social e com o campo da política etc.  Tal compreensão macrossocial sugere, também, que essa reconfiguração do neoliberalismo vai acabar minando também as suas próprias bases de existência nos próximos anos.  

O texto, bem polêmico, encontra-se aqui: Por que dois Karls é melhor do que um

Rumo ao mercado total? – Segunda parte

Neste post pretende-se responder à questão que ficara pendente no post anterior: à medida que progride a mercadorização que consequências isto traz para a existência da sociedade humana enquanto tal.

Na conclusão da primeira parte, fez-se a seguinte conjectura: ao promover a expansão da sociabilidade mercantil para as esferas não mercantis da vida social – algo defendido, reforçado e mesmo criado pela ideologia neoliberal – não deixa de minar também as suas condições de existência no médio e no longo prazo. Agora é preciso fundamentar melhor essa posição. E, para tanto, expõe-se aqui as teses principais de Nancy Fraser no texto Pode a sociedade ser totalmente mercadorizada?

Ela sugere que, ao semear a máxima liberalização dos mercados, o liberalismo atual (“neo” por escolha própria) promove não a liberdade, mas o fascismo, tal como já o fizera no passado. E o fascismo pode levar a sociedade à barbárie. Ela propõe como solução para o impasse histórico o aprofundamento da democracia. 

O texto se encontra aqui: Rumo ao mercado total? – Segunda parte