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Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

Por que não cresce? Traição da mão invisível!?

Faz-se um esforço neste post para entender por que a economia capitalista no Brasil não consegue se recuperar do afundamento ocorrido em 2015-2016. Esse esforço se baseia numa premissa central: eis que a depressão e a recessão são fatos econômicos bem diferentes entre si.

Normalmente, as recessões típicas que acontecem de tempos em tempos não chegam a inverter o sinal do crescimento, apenas o rebaixa. Em sequência, após um período de alguns poucos meses, o sistema econômico tende a entrar em recuperação por si mesmo.

Já as depressões se caracterizam de início por reduzir fortemente o nível da produção mercantil, produzindo assim um decrescimento significativo (da ordem de 10% ou mais), do qual resulta um excesso generalizado de capacidade ociosa e baixa lucratividade. Nessa situação, a recuperação possível se torna muito difícil sem a intervenção do Estado.

Sob essa premissa se investiga a rentabilidade da economia capitalista no Brasil durante o período que vai de 2010 a 2018. Mostra-se, então, que ela se encontra num nível muito baixo e que está onerada por um altíssimo custo de capital. Ora, se essa foi, como sempre, uma barreira que o próprio capital pôs para si mesmo, o custo de um eventual retorno à “normalidade” será pago pela redução do salário real.

O texto em pdf se encontra aqui: Por que não cresce? – Traição da mão invisível!?

Uma crítica metodológica à Michael Roberts

Como se sabe, manipulando as identidades da contabilidade nacional é possível, sob a hipótese de que os salários são gastos e que todo lucro é poupado, chegar à conclusão de que os lucros, numa economia fechada e sem governo, são exatamente iguais aos investimentos.

Ora, em sequência, é possível também perguntar quem determina quem? Qual o sentido da causação: dos lucros para os investimentos ou dos investimentos para os lucros?

Neste post se argumenta que esse modo de pensar envolve um grande equívoco metodológico. No qual se cai porque se quer apreender apenas as relações externas entre os fenômenos e, ao fazê-lo, passa-se a empregar “naturalmente” um raciocínio mecânico.

No post se argumenta que o raciocínio mecânico não convém a um objeto complexo como o sistema econômico. E que o modo de pensar correto nessa situação é trabalhar com a categoria de ação recíproca. A produção determina a oferta agregada, mas apenas torna possível a demanda agregada. E esta pode se retrair ou ser impulsionada por moto próprio ou por ação governamental, aproveitando, assim, menos ou mais a capacidade de produção.

O texto se encontra aqui: Uma critica a Michael Roberts em seu questionamento da Teoria Monetária Moderna

A crítica de Thomas Palley à teoria monetária moderna

Em 15/04/2019 divulgou-se um post em que foram apresentas as críticas de Anwar Shaikh à Teoria Monetária Moderna, conhecida como TMM (ou MMT em inglês). No post que hoje se publica trata-se das críticas feitas por Thomas Palley, um conhecido economista pós-keynesiano que, ao contrário de outros dessa corrente de pensamento econômico, não endossa essa teoria.

Para desenvolver os seus argumentos, Palley aponta que a TMM está construída com base em três pilares, os quais ele vai afirmar que não são sólidos como parece à primeira vista:

  1. A macroeconomia da emissão monetária para financiar os déficits orçamentários;
  2. A política de usar o Estado como empregador em última instância (EUI) que visa levar a economia ao pleno-emprego;
  3. Uma interpretação peculiar da história do dinheiro.

Em consequência, ele procura mostrar extensivamente as fraquezas de cada um dos argumentos que dão sustentação à TMM. Entretanto, a sua crítica mais importante pode ser sintetizada do seguinte modo: essa teoria supõe que o governo não está formalmente constrangido orçamentariamente porque pode, em princípio, emitir dinheiro para cobrir os seus dispêndios, mas há outras limitações.

Ela não percebe ou se omite em relação a outros constrangimentos importantes que atuam para dificultar ou mesmo impedir que ele expanda os seus gastos sem (ou mesmo com) a devida cobertura de impostos ou empréstimos. A mera inexistência de recursos disponíveis não é a única, nem a restrição mais importante na prática.

Ao final, procura-se aprofundar a sua crítica. Lembra-se, então, que o sistema de referência é capitalista e que, portanto, a sua meta primeira é a produção de valor e mais-valor – e não a produção de valores de uso, ainda que está última seja uma condição necessária da primeira.

A nota está aqui: A crítica de Thomas Palley à Teoria Monetária Moderna

A crítica de Anwar Shaikh à Teoria Monetária Moderna

Procura-se neste post completar os dois anteriores que trataram da teoria da inflação na perspectiva da tradição clássica desenvolvida por Anwar Shaikh. Esta teoria, como já foi mostrado, está apresentada em detalhes em seu livro mais recente e que se denomina Capitalism – competition, conflict, crises.

Publica-se agora duas traduções de escritos do economista inglês Nick Johnson sobre o mesmo tema. Esse autor, formado na Universidade de Londres, escreve no blog The Political Economy of Development. Como os leitores deste blog poderão verificar por si mesmos, ele apresenta essa teoria de uma forma bem didática.

O primeiro escrito mostra de um modo claro e simples as teses que compõe essa nova teoria de inflação. Eis que, como já se indicou, ela se nutre da economia política clássica e da obra de Karl Marx para enfrentar esse “problema” econômico da contemporaneidade.

O texto está aqui: Teoria clássica de inflação de Anwar Shaikh

O segundo apresenta e resume uma crítica à Teoria Monetária Moderna (TMM) que é, como sabe, uma renovação contemporânea da velha teoria cartalista do dinheiro. Eis que essa crítica foi desenvolvida também por Anwar Shaikh a partir de sua própria teorização sobre a inflação renitente que “aflige” as economias atuais.

O texto está aqui: Teoria Monetária Moderna e Inflação – A crítica de Anwar Shaikh

 

Inflação na tradição clássica – II

No post anterior delineou-se de um modo ainda conceitual a teoria de inflação elaborada por Anwar Shaikh e que se encontra em seu livro Capitalism – competition, conflict, crises, de 2016. Preliminarmente, mostrou-se que essa teoria, que ele chama de “clássica”, está bem assentada na teoria do dinheiro de Karl Marx.

Enquanto o autor clássico refletiu quase que inteiramente da perspectiva do dinheiro-ouro, sem e com a sua substituição na circulação por moeda seja de metais menos nobres seja de papel, o autor contemporâneo teve de pensar a partir do dinheiro puramente fiduciário que atualmente domina em todas os sistemas econômicos nacionais. Mostrou-se nessa nota que essa realidade é bem compreensível a partir das categorias originais que se encontram na exposição do capital e da crítica da economia política do velho Marx.

Ao final, a nota anterior apresentou-se um esboço dessa nova teoria que parte da noção clássica de competição mercantil. E se prometeu retornar ao tema de modo mais exato.

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Inflação na tradição clássica – I

Publicou-se neste blog, em 25 de março deste ano (2019), um artigo crítico da teoria cartalista do dinheiro (assim como, da teoria metalista). A argumentação lá apresentada cingiu-se ao estritamente conceitual: como lhe falta uma compreensão rigorosa da forma valor no capitalismo, o cartalismo cai no convencionalismo, acreditando, assim, que o dinheiro é uma pura criatura do Estado.

Mas esse artigo não apresentou uma crítica técnica dessa ilusão – uma ilusão que a própria circulação de mercadorias cria – na apreensão do dinheiro. Este último ponto será tratado na sequência de duas notas que encaminham uma teoria da inflação na tradição clássica e que se vale da compreensão do dinheiro de Marx. Pois essa teoria mostra, de modo não convencional, como a expansão da oferta monetária de dinheiro fiduciário se decompõe em aumento da produção e/ou aumento dos preços.

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Mercadoria: abstração objetiva ou subjetiva?

Faz sentido falar em abstração objetiva e abstração subjetiva?

Veja-se, de início, que o pensamento pode querer captar a totalidade de um determinado objeto (o sistema econômico em movimento, por exemplo) ou pode desejar apreender apenas certas relações entre os fenômenos que aí se manifestam (por exemplo, a relação entre consumo e renda agregada subsistente no sistema econômico). Note-se que a totalidade não é o conjunto de todos os fatos; eis que é uma realidade estruturada que está em devir e que segue determinadas leis de tendência, as quais podem ser abraçadas pela razão científica, de tal modo que ela mesma possa ser, assim, compreendida.

No primeiro caso, o pensamento se apropria do concreto partindo de abstrações que dele próprio se originam, faz sínteses sucessivas para apreender de modo cada vez abrangente as determinações do próprio concreto. Ao final, este aparece, na ordem do pensamento, como concreto pensado. Este é o caso, segundo Marx, do pensamento dialético que, para ele, é aquele “cientificamente correto”.

No segundo caso, o pensamento não quer se apropriar da totalidade concreta, mas apenas de certas relações externas entre dados fenômenos que aí se manifestam.  Segundo Walras, por exemplo, “os fatos, suas relações e suas leis, tal é o objeto de qualquer estudo científico”. Para tanto, estes “abstraem dos tipos reais, tipos ideais, que definem; e com base nessas definições constroem a priori os andaimes de seus teoremas e demonstrações”.

Por exemplo, a mercadoria pode ser encarada de início como valor de uso que porta valor de troca tal como aparece nos mercados (Marx) ou pode ser assim tomada apenas como valor de uso, ou seja, como um mero bem (Walras). No primeiro caso, o valor de troca tem de ser explicado por determinações que a mercadoria adquire ao ser produzida, ou seja, por seu valor; no segundo, porém, o valor de troca só aparece quando a mercadoria entra efetivamente em relação com outra mercadoria, podendo, assim, ser explicado pela “utilidade” ou pelas “preferências” dos participantes da troca.

É assim que se originam, como sabe, as duas grandes teorias do valor em Economia Política. Ambas partem da mercadoria: uma delas, entretanto, começa mediante uma abstração objetiva e a outra se vale de uma abstração subjetiva. No post que se segue discute-se um texto de Michael De Vroey em que esse problema de compreensão da mercadoria aparece de uma maneira muito particular, mas que é bem interessante e metodologicamente instrutiva.

O post se encontra aqui: Mercadoria – abstração objetiva ou subjetiva?

Crítica do Metalismo e do Cartalismo

André Lara Resende tem escrito artigos para defender a  Teoria Monetária Moderna, conhecida pela sua sigla em inglês, MMT. Há uma versão popular, A crise da macroeconomia, que foi publicada no jornal Valor, e uma versão acadêmica Consenso e Contrassenso: déficit, dívida e previdência, que foi publicada como “artigo para discussão” no centro de pesquisa Casa das Garças.

Segundo ele, assim como para muitos economistas sofisticados do centro do capitalismo, a teoria macroeconômica está em crise. “A realidade” – diz ele – “sobretudo a partir da crise financeira (sic!) de 2008 nos países desenvolvidos, mostrou-se flagrantemente incompatível com a teoria convencionalmente aceita”. Clama, então, para uma renovação radical dessa disciplina, sabendo também que essa teoria dita moderna origina-se do velho cartalismo proposto por Georg F Knapp, em 1905, em seu livro The State Theory of Money. A lei do progresso manda, de qualquer modo, falar em algo novo:

O primeiro pilar do novo paradigma macroeconômico, sua pedra angular, é a compreensão de que a moeda fiduciária contemporânea é essencialmente unidade de conta [ou como também se poderia se dizer, padrão de preços]. Assim como o litro é uma unidade de volume, a moeda é uma unidade de valor. 

Pois bem, o volume (algo quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo do litro, logo o valor (algo também, supostamente, quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo da moeda (por exemplo, do dólar, do real, da rúpia, etc). Qualquer estudante de Física sabe o que é o volume, mas qualquer estudante de economia sabe o que é o valor? O que é o valor, Dr. André? De todo modo, ele completa: “O valor total de moeda na economia é o placar da riqueza nacional” – recém produzida –  deve-se acrescentar. “No jargão da economia – continua -, diz-se que a moeda é endógena, criada e destruída à medida que atividade econômica e a riqueza financeira se expandem ou se contraem”. Mas qual seria, Dr. André, a medida da riqueza já que “preço” é expressão dessa medida?

Bulindo com essa dúvida crucial, neste post argumenta-se, com base na tradição brasileira de crítica da economia política, que tanto o metalismo quanto o cartalismo são ilusões criadas pela aparência da circulação de mercadoria no sistema  capitalista. O físico não confunde o litro  (forma aparente de um determinado volume) com o volume, mas o economista costuma confundir o preço com o valor.

O texto está aqui: https://eleuterioprado.blog/2020/12/31/critica-das-visoes-metalista-e-cartalista-do-dinheiro-no-capitalismo/

 

Declínio sexagenário: por quê?

No post anterior apresentou-se um artigo de Alan Freeman que mostra um declínio persistente do crescimento econômico dos países que formam o centro do sistema capitalista de produção e circulação de mercadorias. Os dados agregados da evolução do PIB de 17 países, dentre os quais se encontram EUA, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha etc. exibem que, se este crescimento oscilava em torno de 6% das duas primeiras décadas entre 1950 e 2015, ele passou a cair desde então, de tal modo que, atualmente, oscila em torno de 2%. O gráfico em sequência que apresenta a taxa de crescimento anual médio para os países do Norte industrializado é autoexplicativo.


O que explica esse declínio persistente que a literatura ortodoxa chama de “estagnação secular”? Em busca de uma resposta, neste post apresenta-se os principais resultados de um artigo de Tsoufidis e Paitaridis publicado recentemente na revista Review of Radical Political Economics. Ele mostra – pensa-se aqui – que esse desempenho cadente tem uma causa estrutural clara: o declínio persistente da taxa de lucro líquida. Pois esta condiciona o nível do investimento e este o crescimento de longo prazo.

A nota se encontra aqui: Declínio sexagenário – por quê?

Para uma outra opinião, agora baseada mais na aparência, veja-se: A concentração de mercado está ameaçando a economia dos Estados Unidos

Em queda (oscilante) por 60 anos

O post de hoje encaminha um artigo de Alan Freeman que apresenta estatísticas históricas do crescimento econômico de 16 países industrializados do Norte. Ao contrário do que se acredita, a taxa de expansão do PIB nesses países tem caído continuamente, com apenas breves e limitadas interrupções, desde pelo menos o início dos anos 1960. Essa informação parece singela, mas tem grande significado.

É assim que o próprio Freeman lê esses resultados:

Esta evidência lança nova luz sobre as dificuldades atuais da economia mundial e tem muitas implicações profundas. Ela entra em conflito com qualquer ideia de que a atual crise ou “grande depressão” tenha origem em algum recente transtorno ou regime de acumulação, como o neoliberalismo ou a financeirização. De fato, as raízes da crise atual se encontram no longo processo histórico que se iniciou com expansão do pós-guerra, isto é, com a assim chamada de “Idade de ouro”.

Ela lança luz sobre muitos fenômenos recentes, tais como a ascensão do governo Trump e da extrema direita, a rápida erosão do tradicional centro socialdemocrata e/ou liberal na política do Ocidente, a dramática expansão da agitação social em grande parte do mundo ocidental e as crescentes tensões militares e econômicas que agora afetam as relações Norte-Sul.

Entra em conflito, também, com qualquer ideia de que os problemas atuais possam ser resolvidos a médio ou longo prazo por medidas limitadas, sejam de esquerda, como os estímulos fiscais e monetários, sejam de direta, especialmente a austeridade, mas também o nacionalismo de Donald Trump e outros governantes semelhantes.

O artigo está aqui: A sexagenária tendência declinante