Crítica das “visões” metalista e cartalista do dinheiro no capitalismo

Introdução 

Que provisoriamente seja aquilo que Keynes quis que fosse! Admita-se, pois, que a economia capitalista possa ser tomada, tal como enfatizam os keynesianos, como uma economia monetária de produção, ou seja, como um sistema que se volta – ou pode se voltar quando bem conduzido – à produção de bens que atendem os desejos dos consumidores, mas que não prescinde – ao contrário, exige a presença – da moeda[1] para funcionar.

Creia-se que a moeda – como dizem – é uma mera instituição social necessária ao dinamismo do sistema econômico moderno, e que, por isso mesmo, não atua de modo neutro, como mera intermediária das trocas. Admita-se também que ela é ‘criada a partir do nada’ por meio de operações de débito e crédito que têm por função intrínseca estimular o funcionamento do sistema econômico. “A moeda ou o crédito” – diz uma economista pós-keynesiana – “não existe como resultado da atividade econômica… a moeda [ou o crédito] cria a atividade econômica” (Pettifor, 2017, p. 6).

Por que essa autora pensa assim? É evidente que o Estado provê o dinheiro no capitalismo contemporâneo. O que ela não vê é que o dinheiro como dinheiro é intrínseco à economia mercantil e que o dinheiro como capital é intrínseco ao modo de produção capitalista. Eis que pensa o dinheiro como mera “coisa” que é produzida de modo ad hoc por um agente externo ao sistema econômico. Se o Estado, por qualquer razão, deixar de prover o dinheiro, o que ocorre no sistema econômico baseado na relação de capital? É evidente que haverá um enorme colapso da atividade econômica, mas esta não se extinguirá completamente; pois, em certo momento, a própria atividade econômica precária exigirá que exista, ainda que de modo incipiente, um novo dinheiro. E este surgirá espontaneamente, por meio de um poder central ou por uma combinação dessas duas formas – pouco importa.

Ora, ao invés de definir a moeda como algo que modifica crucialmente a produção humana em geral e que, assim, caracteriza aquela existente na época moderna, não seria mais adequado inquerir sobre as razões da inerência do dinheiro no sistema econômico atual? Apreendendo o dinheiro, por isso, como expressão das relações sociais de produção e circulação desse sistema?

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Crítica do Metalismo e do Cartalismo

André Lara Resende tem escrito artigos para defender a  Teoria Monetária Moderna, conhecida pela sua sigla em inglês, MMT. Há uma versão popular, A crise da macroeconomia, que foi publicada no jornal Valor, e uma versão acadêmica Consenso e Contrassenso: déficit, dívida e previdência, que foi publicada como “artigo para discussão” no centro de pesquisa Casa das Garças.

Segundo ele, assim como para muitos economistas sofisticados do centro do capitalismo, a teoria macroeconômica está em crise. “A realidade” – diz ele – “sobretudo a partir da crise financeira (sic!) de 2008 nos países desenvolvidos, mostrou-se flagrantemente incompatível com a teoria convencionalmente aceita”. Clama, então, para uma renovação radical dessa disciplina, sabendo também que essa teoria dita moderna origina-se do velho cartalismo proposto por Georg F Knapp, em 1905, em seu livro The State Theory of Money. A lei do progresso manda, de qualquer modo, falar em algo novo:

O primeiro pilar do novo paradigma macroeconômico, sua pedra angular, é a compreensão de que a moeda fiduciária contemporânea é essencialmente unidade de conta [ou como também se poderia se dizer, padrão de preços]. Assim como o litro é uma unidade de volume, a moeda é uma unidade de valor. 

Pois bem, o volume (algo quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo do litro, logo o valor (algo também, supostamente, quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo da moeda (por exemplo, do dólar, do real, da rúpia, etc). Qualquer estudante de Física sabe o que é o volume, mas qualquer estudante de economia sabe o que é o valor? O que é o valor, Dr. André? De todo modo, ele completa: “O valor total de moeda na economia é o placar da riqueza nacional” – recém produzida –  deve-se acrescentar. “No jargão da economia – continua -, diz-se que a moeda é endógena, criada e destruída à medida que atividade econômica e a riqueza financeira se expandem ou se contraem”. Mas qual seria, Dr. André, a medida da riqueza já que “preço” é expressão dessa medida?

Bulindo com essa dúvida crucial, neste post argumenta-se, com base na tradição brasileira de crítica da economia política, que tanto o metalismo quanto o cartalismo são ilusões criadas pela aparência da circulação de mercadoria no sistema  capitalista. O físico não confunde o litro  (forma aparente de um determinado volume) com o volume, mas o economista costuma confundir o preço com o valor.

O texto está aqui: https://eleuterioprado.blog/2020/12/31/critica-das-visoes-metalista-e-cartalista-do-dinheiro-no-capitalismo/