Os leitores deste blog podem baixar quatro artigos traduzidos de Michael Roberts
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Se a gente quiser, o capitalismo acaba
Autor: Aaron Benanav[1]
Como seria uma economia socialista? As respostas a essa questão variam, mas a maioria delas envolve a noção de planejamento. Uma economia capitalista é organizada por meio da interação entre preços e mercado. Uma economia socialista, por contraste, seria “conscientemente regulada (…) de acordo com um plano estabelecido”, para tomar emprestada uma frase de Marx. Porém, como tal plano seria feito e implementado? Essa tem sido uma questão de debate acirrado entre socialistas por mais de um século.
Um dos campos do debate colocou particular ênfase nos computadores. Esses “socialistas digitais” enxergam os computadores como a chave para administrar uma economia planejada. Seu foco está nos algoritmos: eles querem projetar softwares que possam receber informações sobre as preferências do consumidor e as capacidades de produção industrial – como uma peneira gigantesca alimentando um moedor de dados – e determinar as alocações ótimas dos recursos.
Ao longo dos anos, ocorreram alguns experimentos seguindo essas linhas. Nos anos 1960, o matemático soviético Victor Glushkov propôs uma rede nacional de computadores para ajudar os planejadores a alocar os recursos. Com o auxílio do ciberneticista inglês Stafford Beer, a administração de Salvador Allende no Chile tentou algo similar nos anos 1970, chamado de Cybersyn. Nenhum dos projetos chegou muito longe. A ideia de Glushkov encontrou resistência das lideranças soviéticas, enquanto o golpe de Pinochet eliminou o Cybersyn antes dele estar completamente implementado. De qualquer modo, o sonho continua vivo.
Hoje obviamente o socialismo digital pode fazer muito mais. A internet possibilitaria canalizar grandes quantidades de informação de todas as partes do mundo para sistemas de planejamento, quase instantaneamente. Saltos gigantescos na capacidade de computação tornariam possível processar todos esses dados rapidamente. Enquanto isso, o aprendizado de máquina e outras formas de inteligência artificial poderiam vasculhá-los, para descobrir padrões emergentes e ajustar a alocação de recursos apropriadamente. Em A República Popular do Walmart (The People’s Republic of Walmart), Leigh Phillips e Michal Rozworski argumentam que grandes empresas como Walmart e Amazon já usam essas ferramentas digitais para planejamento interno – e que agora elas precisam apenas ser adaptadas para uso socialista.
Continuar lendoChina: o porquê das novas reformas
Por Michael Roberts, The Next Recession, 8/08/2021
Uma reunião de dezembro de 2020 do Politburo Partido Comunista Chinês prometeu acabar com o que chamou de “expansão desordenada do capital”. Os líderes chineses temiam que o setor capitalista na China tivesse ficado grande demais. Empresas como o Jack Ma’s Ant Group expandiram-se para o financiamento ao consumidor e procuraram levantar fundos estrangeiros para isso. Com efeito, o Ant Group pretendia assumir o crédito às famílias dos bancos estatais. O Ant iria fazer o que queria e disse isso com muito alarde na imprensa. Ele e outras empresas de tecnologia e mídia capitalistas chinesas estavam cada vez mais envolvidas em fusões tipicamente “ocidentais”, contratos secretos e outras irregularidades financeiras.
Os reguladores da China vinham fechando os olhos para tudo isso havia anos. Além disso, a facção financeira na liderança da China havia conseguido um acordo para permitir que bancos de investimento estrangeiros criassem empresas de propriedade majoritária na China pela primeira vez, com o objetivo final de “libertar” o setor financeiro do controle estatal e permitir o cruzamento não regulamentado de fluxos de capital entre fronteiras. Em outras palavras, a China deveria se tornar um membro pleno do capital financeiro internacional. As autoridades também estavam permitindo operações não controladas de criptomoedas no país.
Mas a pandemia de covid mudou tudo isso. Houve uma crescente raiva pública sobre como os ricos na China, como no resto das grandes economias, ganharam enormemente com o boom financeiro e de preços de propriedades durante a quarentena, enquanto a maioria lutou contra os bloqueios e enfrentou custos crescentes em educação, saúde e habitação e um sério risco para empregos decentes para graduados e outros. Educação, saúde e habitação são as “três montanhas” que todas as famílias chinesas almejam escalar para ter uma vida melhor — e ainda assim, os custos para a maioria estão aumentando enquanto os ricos ganham bilhões.
Continuar lendoO capitalismo se tornou insustentável
Autor: Eleutério F. S. Prado[1]
Para demonstrar empiricamente a tese contida no título deste artigo é preciso considerar, primeiro, o fenômeno da financeirização que vem se exacerbando desde os anos 80 do século passado. Eis que ele não se apresenta como uma passagem episódica na história do capitalismo, mas como um acontecimento decisivo. Faz ver que não se encontrou uma solução virtuosa para a crise de acumulação engendrada no período de ouro do capitalismo, ocorrido após o fim da II Guerra Mundial. Como se sabe, essa crise se manifestou já nos anos 70 por meio de uma forte e longa queda da taxa de lucro. Apontando para um impasse, a figura em sequência apresenta esse fenômeno. E o faz mostrando uma discrepância crescente entre o PIB global e a soma dos ativos financeiros globais. Por que isso ocorreu?

A crise de lucratividade dos anos 1970, que atingiu fortemente o centro do sistema – mas também a periferia –, nunca foi plenamente resolvida porque os principais estados capitalistas optaram por evitar uma recessão profunda. Como esta teria efeitos econômicos, sociais e políticos devastadores – por causa das ondas de falências e do altíssimo desemprego da força de trabalho que produziria –, preferiram uma alternativa que evitasse a destruição e a desvalorização dos capitais acumulados no passado. Ocorre que esse choque disruptivo é necessário para que ocorra uma verdadeira restauração da taxa de lucro. Foi assim que o capitalismo se recuperou várias outras vezes no passado. Mas desta vez, não.
Continuar lendoMudança climática: culpa da humanidade?
Autor: Michael Roberts, blog The next recession, 12/08/2021
O sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) tem quase 4.000 páginas. Os autores tentaram resumi-lo e o apresentaram como a “oportunidade final” para evitar a catástrofe climática. As suas conclusões não mudaram muito desde a publicação anterior, feita em 2013; desta vez, entretanto, elas foram mais incisivas.
A evidência é clara: conhece-se a causa do aquecimento global – supostamente a humanidade; sabe-se que o planeta está se aquecendo (cerca de 1° grau até agora); sabe-se ainda que as concentrações de CO2 na atmosfera se elevaram desde os tempos pré-industriais, ou seja, aumentaram em 30%; tem-se conhecimento que o aquecimento mostrado até agora foi gerado historicamente pela poluição. É preciso voltar vários milhões de anos para ver algo semelhante ao que se tem hoje. Durante a era do Plioceno (ou seja, entre 5,3 e 2,6 milhões de anos atrás) o mundo tinha níveis de CO2 de 360-420 ppm; agora, esse valor se encontra aproximadamente em 415 ppm.[1]
Em seu resumo feito para os formuladores de políticas do mundo em geral, o IPCC afirma claramente que a mudança climática e o aquecimento global são “inequivocamente causados pelas atividades humanas”. Mas, pode a mudança climática ser colocada na conta de toda a humanidade – e não na conta daquela parte que possui, controla e decide sobre o que acontece com o nosso futuro?
Continuar lendoMorbidez capitalista e a crise global
Murray Smith, Jonah Butovsky e Josh Watterton[1]
A convulsão social de 2020-21 pode muito bem marcar uma virada importante na história mundial. A emergência global de saúde pública trazida pela Covid-19 e a crise econômica associada produziram efeitos sociais e políticos extremamente disruptivos e de longo alcance. Mesmo antes do início da pandemia – note-se –, a economia mundial já estava à beira de uma recessão severa, titubeando após uma prolongada – e notavelmente morna – recuperação da Grande Recessão de 2008-09. Foi só isso o que era capaz de apresentar após várias décadas decrescimento lento, austeridade e problemas persistentes de lucratividade na esfera do capital industrial, em que se produz o valor e o mais-valor. A recessão, então, foi grandemente ampliada por bloqueios (totais ou parciais) impostos pelos estados nacionais às indústrias, serviços governamentais e pequenas empresas. Como resultado desse processo, chegou-se a níveis de desemprego e de contração econômica que rivalizam com aqueles observados na Grande Depressão da década de 1930.
Como se deve encarar essa crise global “combinada” ocorrida entre 2020 e 2021? Com poucas exceções, a resposta da mídia corporativa, dos estratos gerenciais profissionais, das elites políticas e de muitos economistas são notavelmente uniformes. Consistente com a maioria das avaliações convencionais sobre os atuais problemas da humanidade, vê-se essa ocorrência como um fenômeno natural: eis que, súbita e “misteriosamente”, surgiu um vírus invulgarmente infeccioso e furtivo… Diante dessa emergência, fala-se muito então das decisões consciente e das ações de indivíduos (profissionais de saúde, políticos, líderes empresariais e jornalistas da grande mídia) em reação a ele. Assim, minimiza-se o papel decisivo desempenhado por poderosas forças sociais estruturais que instigam, exploram e determinam a forma e a magnitude da crise.
Continuar lendoDo futuro da economia mundial
A economia do mundo como um todo decresceu -3,5% em 2020 em decorrência da crise provocada pelo novo coronavírus; entretanto, segundo estimativas recentes da OCDE, crescerá 5,8% em 2021 e provavelmente algo em torno de 4,4% em 2022. Essa perspectiva tem trazido esperança e até um pouco de euforia para os agentes econômicos que dão suporte ao capital e que se beneficiam de seu processo de valorização: o mundo, segundo eles, vai recuperar o caminho de prosperidade – mesmo, porém, se desconfiam racionalmente dessa predição, é isso o que mais desejam. Mas, o que esperar de fato da economia mundial na próxima década – e mesmo depois dela?

Fonte: Banco Mundial
Uma primeira resposta a essa pergunta pode ser encontrada examinando simplesmente a evolução da economia mundial nas últimas décadas. A figura acima mostra de forma iniludível que as taxas de crescimento do PIB global têm caído tendencialmente desde o fim da II Guerra Mundial. Se entre 1961 e 1970, esse indicador avançou segundo uma taxa média de 5,4% ano, nas décadas seguintes, essa taxa foi caindo até chegar à média de 2,2% ao ano entre 2011 e 2020.
Continuar lendoO socialismo é impossível como afirma Von Mises?
1. INTRODUÇÃO
Mises publicou um texto em alemão versando sobre o cálculo econômico no modo de produção socialista, em 1920, o qual foi traduzido para o inglês em 1935, com o título de Economic Calculation in the Socialist Commonwealth (Mises, 1935). Desde logo, deve-se dizer que o termo comunidade (commonwealth, em inglês) aí empregado cria certa confusão, pois não se sabe bem se faz referência ao comunismo ou ao socialismo nas acepções de Marx – alvo principal do artigo.
Como as questões de que trata só fazem sentido ao se supor que visa uma sociedade em que a escassez não foi superada, deve-se admitir que trate mesmo do socialismo. O artigo, que é considerado um marco inicial no debate secular sobre o cálculo socialista, segundo um admirador incontinente, provou “de uma vez para sempre que, sob o planejamento central socialista, não há cálculo econômico possível e que, por isso, a própria economia socialista mostra-se ‘impossível’” (Salermo, 1990, p. 34).
2. DO SOCIALISMO IMPOSSÍVEL
Ludwig von Mises esforçou-se mesmo para provar que o socialismo seria impossível e as suas alegações tiveram enorme repercussão nos debates teóricos e práticos associados à construção desse novo modo de produção. Por razões que nascem daí, mas que só ficarão claras depois, faz ainda sentido indagar quais são os pontos centrais de sua argumentação. Em primeiro lugar, ele aponta que os socialistas em geral não se preocuparam ou se preocuparam de modo insuficiente com as questões relacionadas à organização econômica da nova sociedade. O seu texto indica que os seus defensores não se demoraram na consideração da extraordinária complexidade do processo de ajustamento entre as necessidades e as quantidades de bens e serviços a serem produzidas para atendê-las, entre as ofertas e as demandas em sua enorme diversidade, ignorando largamente as dificuldades da alocação de recursos escassos entre fins alternativos. Eis que a crítica do capitalismo – menciona – não resolve por si só o problema econômico do socialismo.
Continuar lendoMichael Roberts e a crítica do keynesianismo (II)
A dúvida de um leitor do primeiro artigo com este título, mostrou a necessidade de explicar melhor um ponto central da argumentação aí contida, a qual buscou indicar uma falha capital da macroeconomia keynesiana. Pois, ela se reflete na própria crítica de Michael Roberts. Pode se afirmar mesmo que esse blogueiro famoso é induzido a fazer afirmações imprecisas porque ele próprio não foi capaz de descobrir essa falha originária. Tal como anteriormente, é preciso começar citando por extenso o seu argumento contra o pós-keynesianismo, que se dirige a um texto de Alex Willians.
O que diz Roberts em sua crítica?
Alex nos diz que um princípio fundamental do pós-keynesianismo (PK) é analisar as expectativas: “nosso próximo princípio é que tudo é expectativa”. “As expectativas informam as ações dos agentes e essas ações, por sua vez, criam realidade. Talvez o modelo mais simples do ciclo causal keynesiano seja dizer que a demanda esperada impulsiona o investimento, o investimento impulsiona o emprego, o emprego impulsiona os salários, os salários impulsionam o consumo, o consumo impulsiona a demanda e a demanda valida o investimento. A demanda esperada impulsiona os investimentos porque as empresas só investem em capacidade e na contratação de mais trabalhadores quando acham que mais pessoas vão querer comprar seu produto no futuro, mais do que têm feito no momento presente. Se esperassem a mesma demanda, ou menos, não haveria necessidade de investir. Eles poderiam continuar a usar o mesmo equipamento”.
Ora, agora foi dito o que importa. O investimento sob o capitalismo não é movido pelo lucro ou pela lucratividade, mas finalmente pelas “expectativas”. Não é movido nem mesmo pelo lucro futuro, mas sim pela “demanda esperada”. Isso impulsiona o investimento que, por sua vez, gera empregos e salários.
Continuar lendoPós-keynesianismo: uma crítica aos seus princípios
Michael Roberts – The next recession blog – 26/04/2021. Nota: na próxima segunda-feira publica-se um comentário extenso sobre as críticas de Roberts ao keynesianismo.
Tal como a economia marxista e a economia convencional, a economia keynesiana tem várias correntes. Há uma economia keynesiana que não escapa dos parâmetros da economia de equilíbrio geral. Nessa teoria, as variações nas receitas e nas despesas, no consumo e no investimento, nas taxas de juros e no emprego tenderão a um equilíbrio. A ele corresponderá um certo nível de emprego – e inflação –, sempre que não haja “choques exógenos” que afetem a estase dos mercados. Se os salários e as taxas de juros caírem o suficiente, o pleno emprego e o crescimento do investimento serão alcançados.
Mas este é o ramo que Joan Robinson, uma seguidora de Keynes, chamou de “keynesianismo bastardo”. Trata-se de uma corrente que elimina todas as características radicais da economia de Keynes, que, para Robinson, uma autora politicamente quase maoísta, presumia que o pleno emprego não poderia ser alcançado automaticamente nas modernas “economias de mercado”. É mais provável que prevaleça um equilíbrio de subemprego já que, segundo ela, isso se deve à incerteza sobre o futuro dos capitalistas na tomada de decisões de investimento e à irracionalidade dos “agentes” econômicos sejam eles consumidores ou investidores.
Essa visão radical da economia keynesiana veio a ser chamada de pós-keynesianismo (PK). Os principais proponentes dessa corrente foram contemporâneos de Keynes, como Robinson e Michal Kalecki (marxista e keynesiano), assim como, mais tarde, Hyman Minsky (socialista e keynesiano). Agora existe toda uma escola de economia pós-keynesiana, com revistas, conferências e centros de pensamento (think tanks).
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