O caráter fetichista do partido stalinista e seu segredo

É possível expor o partido stalinista do mesmo modo que Karl Marx, em O capital, expôs o fetichismo da mercadoria? Slavoj Zizek acha que sim e a sua apresentação crítica dessa forma de partido político encontra-se no seu livro Eles não sabem o que fazem – O objeto sublime da ideologia (Zahar, 1992). Ele, como se sabe, existiu concretamente e governou o sistema centralizado de acumulação de capital que vigorou na Rússia de 1917 até 1991. Mas será que ele desapareceu totalmente?

Como ainda parece importante entender melhor esse “desvio” – na verdade, um afundamento – totalitário de uma organização política que se apresentou na cena histórica como socialista democrática e, ao mesmo tempo, como autoritária. Por que respondeu tão mal à tradição política originada nas propostas de Marx e Engels para superar o modo de produção capitalista?

Que fracassou, todos sabem; não foi muito longe, ao contrário, e isto foi provado cabalmente pelo retorno da Rússia ao capitalismo, agora, na forma de um sistema de acumulação descentralizado. Logo, parece importante saber se esse fracasso não estava inscrito em sua forma própria desde o início? Como não cair no mesmo erro?

De qualquer modo, eis aqui uma apresentação didática de seu argumento: O caráter fetichista do partido stalinista e o seu segredo

O terrível quarteto e seu poder de mercado

Aqui se apresenta a tradução de uma nota de Michael Roberts que tem esse título. Ela foi publicada em seu blog The next recession blog em 1º de agosto de 2020. Ela está em sequência.

No dia 27 de julho de 2020, uma quinta-feira, as gigantes globais de tecnologia, com sede nos EUA, apresentaram, simultaneamente, os seus ganhos trimestrais.  No mesmo dia, foi registrado que a economia dos EUA passara por sua maior contração trimestral na produção nacional de todos os tempos (menos 9,5% no trimestre, o que equivale a uma taxa anual de menos 32,9%).

Em contraste, Alphabet (Google) – o maior mecanismo de busca do mundo; Amazon – maior distribuidor online do mundo; Apple – o maior fabricante de computadores e celulares do mundo; e o Facebook – o maior provedor de mídia social do mundo, que formam um “temível quarteto”, registrou um crescimento de receita de dois dígitos nos três meses encerrados em junho. Obtiveram, assim, um lucro combinado de US$ 33,9 bilhões apenas no segundo trimestre. Embora os EUA e a economia mundial tenham mergulhado numa enorme queda de atividade, mais profunda desde a década de 1930, em função dos bloqueios gerados pela pandemia COVID-19, as empresas de tecnologia mais proeminentes do mundo prosperaram.

 

Como as receitas haviam subido no conjunto dessas empresas de tecnologia, os preços de suas ações (capitalização de mercado) se elevaram para US$ 178 bilhões no dia seguinte. O valor de mercado dessas ações cresceu para US$ 5 trilhões, ou seja, 25% do PIB dos EUA.  O CEO da Amazon, Jeff Bezos, recebeu assim o maior aumento de riqueza já registrado em um único dia, para qualquer indivíduo ao longo de toda história do homem na face da Terra. Em apenas um dia, sua fortuna aumentou em US$ 13 bilhões. Conforme a tendência atual, ele está a caminho de se tornar o primeiro homem a ter uma fortuna de um trilhão de dólares no mundo, o que deverá ocorrer até 2026.

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Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

Convidado para fazer uma apresentação sintética das conexões entre “dívida pública” a “subsunção do trabalho ao capital” na cena contemporânea, o autor desse blog preparou uma exposição sobre o tema por meio de uma apresentação em “powerpoint”. Como a exposição não pode ocorrer por falha deste blogueiro impenitente, ele publica aqui o original preparado para os eventuais interessados.

O material se encontra aqui: Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

Mortos pela desesperança

Eis como, os autores – fazendo uso de um pensamento positivo moderado – consolam-se diante de uma situação que se afigura como desconsolada: “mantemos o otimismo; acreditamos no capitalismo; continuamos a crer que a globalização e a mudança tecnológica podem ser orientadas em benefício de todos”.

A situação social que descrevem em Mortos pela desesperança e o futuro do capitalismo  (Deaths of despair and the future of capitalism. Princeton University Press, 2020) apresenta-se como desastrosa, indignante e cruel, mas ao invés de fazer uma crítica radical do sistema que, aliás, chamam pelo seu verdadeiro nome, preferem vê-lo apenas como mal administrado.

Anne Case e Angus Deaton, dois economistas consagrados da Universidade de Princeton (EUA), documentam nesse livro, de certo modo corajoso, os infortúnios, as ofensas sistêmicas e os bloqueios de perspectiva que os trabalhadores brancos menos instruídos (classe operária) vêm enfrentando na sociedade norte-americana.

Para mostrar que essa obra tem, sim, valor descritivo para compreender o que ocorreu nas últimas décadas com o sonho americano, leia-se a nota crítica se encontra aqui: Mortos por desesperança

 

Morozov: Socialismo digital

A Europa vai voltar à socialdemocracia a partir terceira década do século XXI? Recentemente foi anunciado que o bloco de 27 países que formam a União Europeia aprovou um pacote de 4,7 trilhões de reais com o objetivo de torná-la líder da economia verde e da economia digital.

Basta gastar mais dinheiro nessa direção? Ora, como argumenta Evgeny Morozov no artigo que aqui se apresenta, as grandes conquistas socialistas no século XX ocorreram no campo da inovação institucional. E é nesse campo, segundo ele, que a Europa deveria realmente inovar.

Sugere, por isso, que a Europa pode reviver essa tradição. Sugere, ademais, que ela precisa ir bem mais longe do que simplesmente criar as condições de investimento por parte do setor privado. Ela tem, segundo ele, de se empenhar em construir infraestruturas tecnológicas que funcionem como comuns – e não como fontes de acumulação de capital para a iniciativa privada.

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Guerra de capitais: China x EUA

Constata-se atualmente uma crescente guerra comercial e tecnológica entre os EUA e a China.  É, pois, interessante examinar o livro Capital wars de Michael Howell que apresenta uma visão diferente no que se refere à rivalidade entre a China e os EUA.

Até agora, a concorrência entre os EUA e a China na esfera econômica tem ocorrido na esfera do comércio e da tecnologia.  Pouco atritos aconteceram nos mercados financeiros. Mas é bem provável que a batalha decisiva ocorra na esfera financeira. Como se sabe, o dólar domina cerca de 80 por cento das transações internacionais e a China está se esforçando para reduzir essa proporção. Ela quer criar uma área de transações comerciais e financeiras em rebimbe.

O artigo de Michael Roberts em anexo faz um comentário sobre o livro de Howell que parece ser muito interessante (e, também, muito caro para os leitores brasileiros).

Ele se encontra aqui: Guerra de capitais – EUA x China

Dinheiro: entre a ficção e o fetiche

Há duas ilusões reais simétricas implicadas na compreensão da sociabilidade mercantil: o fetichismo da mercadoria e a ficção do valor de troca como um significante que não se remete, ele mesmo, ao valor, ao trabalho abstrato. No primeiro caso, há uma identificação da forma do valor com o material que dá suporte a essa forma. No segundo caso, a forma parece puramente convencional.

E a crítica dialética, como aponta Ruy Fausto, tem de ser crítica dessas duas ilusões opostas. Como se sabe, Marx mostra que a contradição interna à mercadoria, valor de uso e valor, desdobra-se numa contradição externa entre a forma relativa de valor e a forma equivalente. É preciso partir daí.

Ora, na compreensão do dinheiro essas duas ilusões reaparecem: o dinheiro-mercadoria produz a primeira ilusão e o dinheiro-papel engendra a segunda ilusão. Apresenta-se aqui uma nota tentando esclarecer essa questão: Entre a ficção e o fetiche – Novo

 

Rumo à estagnação completa

Dois fatos futuros já são sabidos nesse momento de velório nacional por causa de uma “gripezinha” que se mostra, dia após dia, hora após hora, minuto após minutos, como uma doença genocida:

a) os governantes da pátria amada e idolatrada, considerando-se o conjunto das nações de rendas médias e altas, serão considerados como os mais desastrados no enfrentamento da difusão da pandemia do novo coronavírus na sociedade;

b) os danos na malha produtiva produzidos pela atual crise da economia capitalista no Brasil, como consequência dessa má gestão, mas também da política econômica dos últimos trinta anos e, em particular, aquela imediatamente pregressa, serão os maiores dentre todas essas mesmas nações.

Para tomar ciência de um argumento que afirma a possibilidade de que ocorra uma estagnação completa da economia capitalista no Brasil, leia-se o artigo que aqui  vai, mas que já foi publicado pelo jornal de internet Outras Palavras: Rumo à estagnação completa

A China depois da pandemia

Pela primeira vez nas últimas décadas, a China não tem meta de crescimento econômico para este ano de 2020. Mas e depois?

A pandemia e o bloqueio levaram a economia chinesa a uma severa contração por vários meses, da qual está agora apenas se recuperando. A economia contraiu 6,8% no primeiro trimestre e a maioria das previsões para o ano inteiro representa menos da metade da taxa de crescimento de 6,1%, registrada no ano passado. Mas mesmo esse número será muito melhor do que aqueles a serem obtidos por todas as economias do G7, em 2020. De qualquer modo, a produção e o investimento industrial estão aumentando agora, mas os gastos dos consumidores continuam deprimidos.

A tese de que a China caminha agora para uma estagnação em sequência a uma crise de lucratividade por causa do baixo consumo e do excesso de investimento não parece totalmente convincente. A China tem uma importante economia capitalista, baseada em empresas privadas, em sua estrutura de produção. No entanto, tem também um importante setor estatal cujo processo de acumulação não depende de decisões privadas.

Ainda é uma incógnita saber para onde vai a China nas próximas duas décadas. O artigo em sequência tenta dizer alguma coisa sobre esse destino: China na década de 2020 – após a pandemia

Voltando ao normal?

A notícia do jornal Folha de S. Paulo, em 6/06/2020, menciona o surgimento de um surto de esperança sobre uma rápida retomada da economia global após a divulgação dos dados de emprego da economia norte-americana: “uma onda de otimismo levou o dólar para abaixo” em vários países do mundo. Ao mesmo tempo se observou que as bolsas entraram num processo de recuperação: “a mudança de perspectiva levou a bolsa de tecnologia, Nasdaq, em Nova York, a bater sua máxima histórica, com 9.845 pontos.

E esse efeito se espalhou no mundo, inclusive no país que mais se descuidou no combate ao novo coronavírus. Eis que, no caso do Brasil, os dois gráficos abaixo mostram que, efetivamente, o mercado de ações, que havia caído em março, recuperou boa parte do valor das cotações em junho. Ademais, o dólar que havia chegado a quase R$ 6,00 reais voltou a ficar abaixo de R$ 5,00, aliviando as pressões sobre o Bacen.

Agora, o que os analistas mais superficiais não percebem é que vem ocorrendo um descolamento cada vez maior entre o mundo das finanças e o mundo da criação de valor na esfera da produção de mercadorias. E que o comportamento especulativo decorrente, cada vez mais inquieto, nervoso, sôfrego, é apenas consequência do desespero do capital diante da possibilidade de que possa perder valor devido à superacumulação.

O artigo em anexo, colhido no blog The next recession, mantido por Michael Roberts, mostra bem que a economia mundial, em particular, a economia norte-americana, não vai voltar ao “normal” rapidamente como imaginam os torcedores do time do curto-prazo e das formas aparentes do capitalismo. Eis que a longa depressão iniciada em 1997 – e continuada desde então – não vai terminar tão cedo. E que, em consequência, a excitação observada é apenas mais uma masturbação do capitalismo contemporâneo que sonha com os seus anos dourados, mas tem de se contentar com a solidão dos introvertidos.

Eis o texto de Michael Roberts: Voltando ao normal?