A questão a ser considerada sob o título acima é teórica; concerne em especial à categoria valor enquanto determinação da mercadoria e, assim, com as devidas mediações, à compreensão científica do capitalismo tal como ele se apresenta contemporaneamente. Remete-se, portanto, a um tópico clássico: eis que a compreensão do valor das mercadorias nasce na Grécia Antiga, atravessa a Idade Média e se torna um grande problema após o fim da Idade Moderna, quando o capitalismo se torna propriamente industrial.
Quinn Slobodian [1] e Ben Tarnoff [2] – Fonte: Sin Permiso [3] – 26/04/2026
Tem sido apontado frequentemente que Elon Musk e Henry Ford têm muito em comum. Ambos foram aclamados como gênios tecnológicos que fizeram avanços revolucionários nos processos de produção e nos produtos de consumo. Ambos figuram como politicamente conservadores. E ambos defenderam visões reacionárias por meio de seus meios de comunicação pessoais: Ford publicou uma série famosa de artigos antissemitas em seu jornal, The Independent of Dearborn, e Musk usa o Twitter, depois X, como megafone para expressar sua hostilidade em relação aos imigrantes não brancos.
Contudo, já ao começarmos escrever o nosso livro recente sobre Elon Musk, percebemos rapidamente que os paralelos entre Musk e Ford não se relacionam principalmente às suas biografias pessoais. Eles concernem aos tipos de sociedade – sendo também requeridos por eles – que aparecem em seus modos de apreender a economia política realmente existente.
Apresenta-se abaixo [1] uma continuação da crítica de Morozov a Benanav. Note-se que este blogue publicou vários artigos sobre essa controvérsia. Eis algumas traduções de partes do artigo original de Benanav: uma primeira, uma segunda e uma terceira. A crítica inicial de Morozov pode ser encontrada aqui neste artigo. A resposta de Aaron Benanav também pode ser encontrada aqui.
Aaron Benanav publicou sua réplica[3] – e que documento curioso é esse. Ele me acusa de interpretar mal seus argumentos, de interpretações tão flagrantemente erradas, tão estupidamente obtusas, que seria de esperar que apresentasse provas cabais com o prazer de um promotor. Infelizmente, a arma fumegante permanece no coldre. As interpretações equivocadas que Benanav conjura são, de fato, espetaculares; só não são minhas. Minhas acusações reais permanecem intocadas, como aperitivos que ninguém se lembrou de servir.
Após se esgotarem várias tentativas de reviver o crescimento e a produtividade, os líderes ocidentais encontraram uma nova saída milagrosa para garantir futuros supostamente mais felizes: o rearmamento. O aumento dos gastos militares, inicialmente apresentado como meio de defesa, agora também é visto como um meio de alcançar crescimento econômico maior. [Ora, uma história trágica vai se repetir? Esse caminho deve ou pode ser evitado?]
Esse keynesianismo militar tornou-se agora quase uma doutrina oficial da Alemanha, onde o governo de grande coalizão, liderado pelo conservador Friedrich Merz, não esconde o fato de que seu plano de investir 150 bilhões de euros entre agora e 2029 no setor militar deve permitir a retomada do crescimento.
Branko Milanovic – Blog do autor no Substack – 9/04/26
Há muitos artigos alarmistas sobre a desaceleração do crescimento da China (para ler um bom exemplar, abra-se o link aqui). A desaceleração é real. O crescimento anual médio da China nos últimos três anos foi ligeiramente inferior a 5% per capita. Dez anos atrás, a média de três anos era cerca de 7% per capita e alguns anos antes, a média de três anos chegava a 10% per capita.
Mas 5% de crescimento seria ruim? Quão ruim ele seria? Em 2024 (o último ano com taxas de crescimento detalhadas do banco de dados FMI/Banco Mundial), a taxa média de crescimento dos países como um todo não passou de 2%. Apenas um país em cada dez (ou seja, dez por cento dos países) teve taxas de crescimento acima de 4,7%. Assim, as taxas de crescimento chinesas, mesmo agora que se encontram em processo de desaceleração, ainda estão entre os mais altas do decil mais alto dentre todas as taxas anuais de crescimento de todos os países.
Como se sabe, é com esse qualificativo que os intelectuais da corrente pós-operaísta costumam designar o sistema da relação de capital tal como se configurou depois dos anos 1970. Se antes o capitalismo era industrial, transformou-se, segundo eles, em pós-industrial. Se antes ele dependia de trabalhadores silenciosos, ainda segundo eles, passou a depender de trabalhadores comunicativos. Segundo esses autores, tal adjetivo se justifica porque nessa “nova economia” o conhecimento dos indivíduos e do “intelecto geral” se tornou supostamente a principal força produtiva.
Em sua Lectio Magistralis na Universidade de Pádua, intitulada Illinguaggiodellavoro [1], Christian Marazzi rememora o que ocorreu no processo de produção capitalista:
Michael Roberts – The next recession blog – 04/05/2026
Em 2012, fiz uma tentativa inicial – para além da medição da taxa de lucro sobre o capital em diversos países – para calcular uma taxa de lucro mundial. Depois, argumentei que era importante testar a lei de Marx sobre a tendência à queda da taxa de lucro em nível mundial. Como o capitalismo espalhou seus tentáculos por todas as partes do mundo ao longo do século XX, foi necessário encontrar um suporte empírico melhor para a lei calculando uma taxa mundial, pois o capitalismo é apenas uma ‘economia fechada’ em nível global. A taxa de lucro em apenas um ou poucos países não seria precisa o suficiente, pois não levaria em conta os lucros obtidos com comércio e investimentos no exterior, e a taxa de lucro de cada país poderia ter tendências diferentes.
Em 2020, atualizei e melhorei significativamente minha medida de lucratividade global. E o resultado pode ser visto acima. Depois, meus cálculos foram feitos para a taxa média de lucro sobre o capital das 19 maiores economias (por exemplo, G20). Minha fonte de dados era a série Penn World Tables 10.0. Meus resultados confirmaram a lei de Marx de que havia uma tendência de longo prazo para a lucratividade cair. Isso foi importante porque levou à conclusão de que a expansão capitalista era transitória e sujeita a crises regulares e recorrentes de produção e investimento. De fato, crises se afiguram como necessárias para ‘limpar’ o sistema do antigo capital e lançar as bases para um período de recuperação no que chamei de ‘ciclo de lucro’. A taxa mundial de lucro não caiu em linha reta, pois a tendência de longo prazo a cair foi intercalada com períodos em que a lucratividade subiu, geralmente após uma queda significativa. Eis o meu gráfico de 2020:
Desafiado com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; de maneira mais precisa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de finanças parasita o capital industrial (notando-se que indústria e industrial será tomado sempre em sentido amplo neste escrito).[2]
Contudo, aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de início. E que se pode – e até que se deve – contestar essa difundida tese que, aliás, não para de prosperar nos meios de esquerda. Para tanto, em sequência, se examina como essa metáfora surge na história da crítica ao capitalismo e quais seriam as razões usualmente apresentadas para sustentá-la. Ao longo e ao final se mostra também como se deve questioná-la.
Os economistas esquerda tem lutado para combater as poderosas metáforas que sustentam o neoliberalismo. A ideia de que o governo estoura o seu “cartão de crédito”, por exemplo, ainda permeia as narrativas da mídia que clama por austeridade. E ela permanece apesar dos melhores esforços dos economistas para explicar aos jornalistas que o orçamento do governo não obedece às mesmas restrições dos orçamentos familiares.
Ademais, a alegoria crítica e opositora que vê as “finanças como parasitas” parece estar bem difundida nos grupos políticos progressistas. O argumento frequente diz que o setor financeiro está superdimensionado e que ele se alimenta sugando a riqueza real produzida pela sociedade; ao fazê-lo, ele reduz os investimentos “produtivos” nas empresas, na infraestrutura e outros bens sociais, para gerar bolhas especulativas.
Primeiro de uma série de três artigos que tratam da questão de saber se as finanças são ou não são parasitárias. Michael Hudson, numa entrevista dada a Eric Draitser, publicada na internet, argumenta que sim, que as finanças são parasitárias, com base numa compreensão não-marxiana da teoria do valor trabalho. Em sequência, publica-se uma entrevista dada a Anne Pick em que Scott Aquanno e Stephen Maher argumentam que as finanças não são parasitárias, contrariando o autor anterior. Finalmente, põe-se à luz do sol um texto deste blogueiro que discute os fundamentos morais de tal crítica, que supostamente atinge àqueles que vivem de rendas no capitalismo e ao capital de finanças que permite que elas existam. Eis a primeira entrevista:
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