A sociedade autofágica

Neste post se apresenta criticamente o livro de Anselm Jappe, A sociedade autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição (Antígona, 2019). Como se pode ver pelo próprio título, esse autor não apresenta um futuro otimista para a sociedade humana fundada no capitalismo.  Para ele, a civilização alcançada, agora agoniza e cambaleia no sofrido planeta Terra.

Para apresentar a sua concepção, Jappe se vale de uma metafora: o mito grego de Erisícton, que fora supostamente rei de Tessália numa época distante.  Vendo o mundo como parte integrante de seu domínio ilimitado, ele abate uma árvore sagrada para empregá-la na construção de seu palácio.

Eis que o seu ego narcisista desse monarca não tem qualquer limitação e, por isso, não é capaz de cultivar o razoável, o bom senso em sua relação com o mundo. Deméter, a deusa das colheitas, diante desse grave delito, despertou nele, como castigo, uma fome insaciável.

Para satisfazê-la, esse rei passou então a comer tudo o que encontrava em sua volta; depois de destruir a natureza e, assim, o seu próprio reino, como a sua fome não tinha limites, sem qualquer alternativa, ele passou a comer a si mesmo.

Ora, algo parecido com isso o que se delineia no horizonte da sociedade humana no vigésimo primeiro milênio da civilização ocidental que se orgulha de ser racional e livre? Ou será que essa compreensão esconde uma metafísica real, aquela da acumulação insaciável de capital?!

A resenha se encontra aqui: A sociedade autofágica – Um destino inexorável?

O dilema da dívida

O crédito tem um papel crucial na economia capitalista: um artigo de Michael Roberts esclarece esse tema justamente no momento em que se desenrola  aquela que será provavelmente a maior crise histórica do capitalismo. É bem possível que a crise catastrófica dos anos 1930 perderá o seu posto já que a economia capitalista está financeirizada como nunca esteve antes.

O crédito permite alongar o pagamento de mercadorias pelos consumidores, em especial as de grande valor monetário como os bens duráveis e as residências.

Ele permite que os investimentos em projetos maiores e mais longos sejam financiados quando os lucros reciclados internamente às empresas não são suficientes.

O crédito permite, portanto, uma circulação mais eficiente do capital destinado à circulação de mercadoria, ao investimento e à produção corrente.

Os mercados financeiros se alimentam do crédito concedido aos governos, às empresas e às família. Ele tem, portanto, o potencial para alavancar o funcionamento do sistema como um todo.

Mas o crédito se torna dívida; assim, embora possa ajudar a expandir a acumulação de capital, caso os lucros não sejam suficientes para servir a essa dívida (ou seja, para pagar o principal e os juros aos credores), a dívida se torna um fardo que consome os lucros e a capacidade de expansão do capital.

O escrito de Michael Roberts está aqui: O dilema da dívida

Convite ao sacrifício

“O sistema capitalista mundial entrou na crise mais grave de sua história, cujas consequências – caso ela não seja rapidamente superada – podem até ir além da crise da década de 1930.”

É assim que o editor alemão apresentou o artigo que se segue de um autor que parece ver um colapso econômico em consequência do estado da economia capitalista e do impacto da crise do coronavírus:

“Tomasz Konicz é um jornalista alemão-polonês, autor de vários ensaios teóricos e analíticos que perscrutam o mundo, neste século XXI, submetido à força de sucção do capital, com base na perspectiva da crítica do valor-dissociação.

A teoria da crise de Marx está geralmente associada à lei da tendência de queda da taxa de lucro apresentada no terceiro volume de O Capital. As correntes da crítica do valor e da crítica do valor-dissociação mostram, pelo contrário, que existe uma “primeira versão” da teoria da crise nos textos de Marx, a qual foi esboçada especialmente nos Grundrisse.

Ela atribui a crise secular da economia capitalista ao declínio absoluto do trabalho vivo e, consequentemente, à queda não apenas da taxa média de lucro, mas principalmente da massa de mais-valor socialmente produzido. Somente essa “primeira versão” da teoria da crise permite compreender de modo coerente o limite interno absoluto do capital.

A “riqueza” na era do capital fictício, momento em que o modo de produção e de vida capitalista não pode mais sobreviver, exceto por meio do consumo da produção futura de mais-valor,

E esta, em última análise, nunca chegará a ser realizada nas proporções requeridas. Eis que ela aparece, agora, como uma gigantesca coleção de dívidas públicas e privadas que ameaça entrar em colapso. Konicz analisa em sequência o último empurrão dado nesse processo fundamental de crise: sob os efeitos da pandemia do Covid-19, grande parte da máquina de exploração global está parando.”

O artigo está aqui: A crise do coronavírus e do capitalismo

Planejamento na era da Internet – Parte II

Este blog tem publicado diversos textos que tratam do planejamento econômico num sistema econômico regido democraticamente e que visa o bem-estar não só da grande maioria, mas de todos. Ora, frente as perspectivas de colapso da civilização humana sob o capitalismo, isto está se tornando cada vez mais desejável.

Nesses textos, argumenta-se em geral que, também, tem se tornado cada vez mais possível construir sistemas de planejamento que são mais eficientes e mais eficazes do que as “economias de mercado”, proporcionando ademais uma verdadeira e ampla liberdade.

Um sistema que promove a liberdade de uns em detrimento da liberdade da maioria, que opera cegamente, que funciona segundo leis que parecem naturais, que concentra enormemente a riqueza produzida, não pode ser considerado como um sistema bom ou ótimo, ou ainda mesmo como sistema “menos ruim”. Aquilo que é bom numa fase de desenvolvimento da sociedade pode se tornar péssimo em outra.

Assim como não se pode falar num fim da história, também não se pode colocar um ponto final na construção das formas de organização da sociedade. Ora, as técnicas de planejamento estão em evolução na própria economia capitalista. Por exemplo, a produção sob demanda já é uma realidade e ela é superior à produção para o mercado já que nesta última apenas se antecipa a demanda.

Não se trata de elogiar – ao contrário, trata-se de criticar – as economias de comando centralizado que eram dirigidas por burocratas do partido-Estado. O que hoje se apresenta como um imperativo ético é desenvolver uma teoria do planejamento democrático que aproveita as novas tecnologias da informática e da comunicação.

E essa teoria deve pensar não apenas no planejamento com base na produção capitalista, mas deve se estender para um sistema baseado em comuns tal como propõe Dardot e Laval no livro Comum – Ensaio sobre a revolução no século XXI.

A segunda parte do texto que se começou a publicar na semana passada encontra-se aqui: Planejamento na Era da Internet – Parte II

A grande onda das dívidas está chegando…

Neste post se apresenta um pequeno artigo do economista Kaushik Basu (publicado no Project Syndicate) que aponta mais uma vez que a atual estrutura do endividamento dos Estados Nacionais, considerados como um todo, é insustentável no médio prazo.

Note-se que a previsão de um possível e mesmo provável colapso no futuro próximo vem de alguém que tem um bom conhecimento do estado crítico da economia mundial. Ele já foi economista chefe no Banco Mundial e no conselho econômico do governo da Índia. Atualmente é professor da Universidade de Cornell e sênior adjunto do Instituto Brookings.

No entanto, a sua conclusão final é bem ingênua. A grande onda das dívidas está chegando…. Contudo, ele acredita, como em geral acontece com os macroeconomistas competentes, que uma política econômica bem conduzida pode evitar a crise. Ora, a sua competência é competência em economia vulgar – aquela que se resume em apreender as relações externas entre os fenômenos seja por meio de modelos teóricos seja por meio de modelos econométricos.

Como se sabe, desde Marx, “a verdadeira barreira da produção capitalista é o próprio capital”. E que, portanto, as crises são inevitáveis. Se o Estado se endivida para conter o processo da crise ou as suas piores consequências num certo momento, o próprio crescimento de seu endividamento se torna uma nova barreira para a produção capitalista no momento seguinte.

No entanto, se as crises trazem consequências trágicas para as populações, especialmente para os trabalhadores que estão menos protegidos, ela são também o modo pelo o qual o capital supera as suas barreiras. “As crises” – é sempre bom lembrar – “são sempre apenas soluções momentâneas violentas das contradições existentes, irrupções violentas que reestabelecem o equilíbrio perturbado”.

Ora, o desequilíbrio permanente é próprio do modo de existência do capital. A expansão do capital se dá por meio de um processo de  realimentação positiva, um espírito animal intrinsecamente desmedido (Keynes), a qual implica num crescimento exponencial. E como todo crescimento exponencial real, ele gera catástrofes endogenamente de modo inexorável. E estas são necessárias para que a expansão possa ser retomada.

As crises nunca indicam por si só que o capitalismo vai acabar, ao contrário, elas mostram que a violência do capital não tem limites quando se trata de encontrar uma solução para as crises que engendra. Ao se autodestruir, ele destrói não apenas coisas, mas também vidas. O capital é um sujeito automático dotado de hybris que vai da realização ao funesto.

O seu artigo está aqui: A grande onda das dívidas está chegando

Demanda de consumo em Marx

Neste post apresenta-se parte de um escrito de Radhika Desai em que essa autora procura mostrar a pluralidade determinações da crise econômica segundo Karl Marx. Ela contesta especialmente a tese segundo a qual todas as crises podem ser apresentadas como consequências da “lei da taxa decrescente de lucro”. E que, por isso, a Lei de Marx não é sempre a “causa última” das crises, as quais, entretanto, poderiam ser disparadas por vários fatores (tese de Michael Roberts). Em consequência, ela reabilita até certo ponto a importância do subconsumo nas crises.

Em suas palavras:

“Este texto desafia o desprezo pelo “subconsumo” – e, assim, pelo papel da demanda de consumo na reprodução capitalista e por sua falta nas crises – no marxismo contemporâneo. Está em jogo aqui um melhor entendimento não apenas da teoria da crise, (…) mas também do legado intelectual de Marx. O escrito mostra como a centralidade da demanda de consumo é sublinhada nos três volumes de O capital e nos Grundrisse. Prossegue discutindo as origens, as fraquezas e a persistência desse desprezo. O texto também mostra que Marx não considerou o subconsumo por meio de uma ótica moralista, como se tratasse de uma necessidade que é descumprida. Tal desprezo não se origina em Marx, mas no “produtismo”, isto é, na ideia de que o capitalismo é um sistema de “produção pela produção”.

A tradução para o português de parte do texto original (Consumption demand in Marx and in the current crisis) encontra-se aqui: Demanda de consumo em Marx

Como arruinar um país em três décadas

Os leitores desse blog, lendo o título, devem imaginar que o post vai falar do Brasil. Não, ele não vai mencionar a economia capitalista instalada na terra brasilis. Vai discorrer sobre a situação precária da economia italiana no interior da zona do Euro. Entretanto, os leitores que, de fato, lerem a pertinente nota de Servaas Storm sobre o caso da economia capitalista na Itália, certamente pensarão que um texto muito semelhante poderia ser escrito sobre o Brasil.

Logo, ao lerem “Itália”, devem, portanto, pensar no Brasil.

Segundo o texto que esse autor apresenta, as políticas de austeridade defendidas e aplicadas pelos economistas neoliberais estão abrindo uma caixa de Pandora na Itália e na Europa em geral. Pode ser esta uma tese keynesiana típica já que recomenda uma atitude de acomodação diante da possibilidade da rebelião. Mas ela tem a sua verdade.

Ninguém pode dizer onde isso vai acabar. Os economistas (incluindo os italianos) carregam uma enorme responsabilidade em tudo isso, tanto porque são muito culpados pelo caos quanto porque não conseguem chegar a soluções estratégicas racionais para resolver as crises em curso. “Talvez”, escreveu John Maynard Keynes, “seja historicamente verdade que nenhuma ordem social pereça, salvo por sua própria mão” (Keynes, 1919). Economistas racionais têm que provar que o veredicto de Keynes está errado, começando na Itália – pelo menos porque a confusão do Brexit parece estar além da redenção.

Se a situação econômica de alguns países do Norte inspira esse tipo de alerta, o que a situação de alguns países do Sul não deveria suscitar? O Brasil se encontra quase estagnado desde a década dos anos 1990, com um pequeno surto de crescimento entre 2004 e 2010.

A partir de 2011 entrou no caminho da recessão devido a um aperto dos lucros e uma queda da demanda agregada, fatos que ocorreram no primeiro governo Dilma. A partir de 2015 entrou no rumo da depressão justamente em razão das políticas de austeridade implementadas por Levy, Meirelles e Guedes. Ora, essas políticas servem principalmente ao capital financeiro e não ao capital industrial. Como continua assim, é preciso também perguntar: onde isso vai acabar?

O texto se encontra aqui: Como arruinar um país em três décadas

Crise no Brasil: explanação em marcha à ré

O Fundo Monetário Internacional (FMI) está preocupado como o Brasil – assim como com outros países que estão como desempenho insatisfatório do ponto de vista de uma economia capitalista robusta: tem crescido pouco desde o fim da década perdida (1980-1990), passou por uma expansão mais acelerada entre 2004-2010 e entrou numa crise profunda a partir de 2014.

Ora, justamente por causa disso, os brasileiros em geral, também devem ficar preocupados com o que diz o FMI – como sempre. Logo, é preciso ler o que sob o seu nome se escreve com uma perspectiva bem crítica.

Essa instituição internacional patrocinou a publicação, em 2018, de um livro especialmente dedicado ao desenvolvimento econômico do capitalismo no país que é, como se sabe, “gigante pela própria natureza”: Brasil: expansão, queda e o caminho para a recuperação.

Aqui se pretende apresentar em linhas gerais e comentar criticamente o artigo principal Um período de duas décadas de reformas, expansão econômica e crise histórica. Pois ele encabeça uma lista composta por vários outros escritos de diversos outros autores.

Versão completa em PDF: Crise no Brasil – Explanação em marcha à ré

 

Crítica do Metalismo e do Cartalismo

André Lara Resende tem escrito artigos para defender a  Teoria Monetária Moderna, conhecida pela sua sigla em inglês, MMT. Há uma versão popular, A crise da macroeconomia, que foi publicada no jornal Valor, e uma versão acadêmica Consenso e Contrassenso: déficit, dívida e previdência, que foi publicada como “artigo para discussão” no centro de pesquisa Casa das Garças.

Segundo ele, assim como para muitos economistas sofisticados do centro do capitalismo, a teoria macroeconômica está em crise. “A realidade” – diz ele – “sobretudo a partir da crise financeira (sic!) de 2008 nos países desenvolvidos, mostrou-se flagrantemente incompatível com a teoria convencionalmente aceita”. Clama, então, para uma renovação radical dessa disciplina, sabendo também que essa teoria dita moderna origina-se do velho cartalismo proposto por Georg F Knapp, em 1905, em seu livro The State Theory of Money. A lei do progresso manda, de qualquer modo, falar em algo novo:

O primeiro pilar do novo paradigma macroeconômico, sua pedra angular, é a compreensão de que a moeda fiduciária contemporânea é essencialmente unidade de conta [ou como também se poderia se dizer, padrão de preços]. Assim como o litro é uma unidade de volume, a moeda é uma unidade de valor. 

Pois bem, o volume (algo quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo do litro, logo o valor (algo também, supostamente, quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo da moeda (por exemplo, do dólar, do real, da rúpia, etc). Qualquer estudante de Física sabe o que é o volume, mas qualquer estudante de economia sabe o que é o valor? O que é o valor, Dr. André? De todo modo, ele completa: “O valor total de moeda na economia é o placar da riqueza nacional” – recém produzida –  deve-se acrescentar. “No jargão da economia – continua -, diz-se que a moeda é endógena, criada e destruída à medida que atividade econômica e a riqueza financeira se expandem ou se contraem”. Mas qual seria, Dr. André, a medida da riqueza já que “preço” é expressão dessa medida?

Bulindo com essa dúvida crucial, neste post argumenta-se, com base na tradição brasileira de crítica da economia política, que tanto o metalismo quanto o cartalismo são ilusões criadas pela aparência da circulação de mercadoria no sistema  capitalista. O físico não confunde o litro  (forma aparente de um determinado volume) com o volume, mas o economista costuma confundir o preço com o valor.

O texto está aqui: https://eleuterioprado.blog/2020/12/31/critica-das-visoes-metalista-e-cartalista-do-dinheiro-no-capitalismo/

 

Declínio sexagenário: por quê?

No post anterior apresentou-se um artigo de Alan Freeman que mostra um declínio persistente do crescimento econômico dos países que formam o centro do sistema capitalista de produção e circulação de mercadorias. Os dados agregados da evolução do PIB de 17 países, dentre os quais se encontram EUA, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha etc. exibem que, se este crescimento oscilava em torno de 6% das duas primeiras décadas entre 1950 e 2015, ele passou a cair desde então, de tal modo que, atualmente, oscila em torno de 2%. O gráfico em sequência que apresenta a taxa de crescimento anual médio para os países do Norte industrializado é autoexplicativo.


O que explica esse declínio persistente que a literatura ortodoxa chama de “estagnação secular”? Em busca de uma resposta, neste post apresenta-se os principais resultados de um artigo de Tsoufidis e Paitaridis publicado recentemente na revista Review of Radical Political Economics. Ele mostra – pensa-se aqui – que esse desempenho cadente tem uma causa estrutural clara: o declínio persistente da taxa de lucro líquida. Pois esta condiciona o nível do investimento e este o crescimento de longo prazo.

A nota se encontra aqui: Declínio sexagenário – por quê?

Para uma outra opinião, agora baseada mais na aparência, veja-se: A concentração de mercado está ameaçando a economia dos Estados Unidos