Blanchard: uma celeuma sobre a fonte da inflação

NT: Tem-se em sequência uma discussão muito instrutiva sobre o processo inflacionário, a qual foi suscitada por uma posição “inusitada” assumida pelo conhecido economista do sistema, Oliver Blanchard. Ele propõe enxergar o processo inflacionário atual como decorrente de um conflito distributivo entre salário e lucro – uma expressão econômica da luta de classes. O “erro” aparente que ele comete é que, atualmente, o poder de barganha dos trabalhadores é muito baixo. Logo, a inflação corrente se deve a um conflito distributivo que ocorre no processo da concorrência entre os próprios capitalistas; eis que eles lutam por margens de lucro superiores aumentando os preços. Mas o seu verdadeiro erro é que, do ponto de vista da crítica da economia política, essa teoria do conflito distributivo não passa de “economia vulgar”, uma teorização que fica nas aparências das coisas. Aqui está a postagem sobre isso.

Inflação e distributivo conflito . Além disso, uma resposta ao debate em torno desse tópico proposto por Blanchard.

Autor: Adam Toose – Chartbook #185

O ano de 2022 terminou com os dois principais bancos centrais do Ocidente novamente um pouco fora de sintonia. O Fed está diminuindo o ritmo dos aumentos de juros. Enquanto isso, os falcões do BCE estão sinalizando novos passos para um aperto severo, mesmo quando a inflação na Europa começa a esfriar.

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Pode o capitalismo global durar?

Autor: William I. Robinson [1]

Introdução

Se a história do capitalismo consiste numa de transformação sem fim, as crises geralmente marcam – antes e depois – os momentos decisivos. No período de 2008 até a terceira década do século XXI ocorreu uma crise prolongada que, longe de ser resolvida, foi agravada pela pandemia do novo coronavírus. Essa crise é tanto econômica e estrutural, quanto política, ou seja, de legitimidade do Estado e da hegemonia capitalista.

Como muitos observaram, a crise é também existencial devido à ameaça de colapso ecológico, bem como à ameaça renovada de guerra nuclear, à qual devemos acrescentar o perigo de futuras pandemias que podem envolver micróbios muito mais mortais do que os da espécie coronavírus.

O capitalismo global pode resistir e durar? A humanidade sobreviverá? Estas são, com certeza, duas questões distintas. É perfeitamente possível que o sistema ainda perdure mesmo que a maioria da humanidade passe a enfrentar lutas desesperadas pela sobrevivência.  Muitos vão perecer nos próximos anos e nas décadas vindouras.

Cada grande crise no capitalismo mundial envolveu previsões de que o sistema entraria em colapso diante de contradições insolúveis. No entanto, o capitalismo provou repetidamente ser mais resiliente e adaptável do que acreditaram os seus previsores apocalípticos. Como se explora neste ensaio, o sistema vem passando por uma nova rodada de reestruturação e transformação desde o colapso financeiro de 2008. E ela acontece com base numa tecnologia da digitalização muito avançada que afeta toda a economia e a sociedade globais.

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A armadilha do aperto monetário

A inflação que atualmente prospera na economia mundial, assim como as políticas restritivas que têm sido adotadas para combatê-la, têm minado os salários reais no mundo em geral e, em particular, no Brasil como mostra o gráfico em sequência:

É assim, pois, que a atual política de controle da inflação nos países ricos prejudica os trabalhadores e as populações do mundo como um todo, em especial dos países mais pobres.

Autora: Jayati Ghosh [1] – Project Syndicate – 15/11/2022

Governos e bancos centrais nos Estados Unidos e na Europa continuam a insistir que o aumento das taxas de juros é a única forma de domar a disparada dos preços, embora esteja bastante claro que essa abordagem não está funcionando. Essa confiança equivocada em aumentos de taxas de juros provavelmente levará ao desastre econômico em países de baixa e média renda.

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Desigualdade global de renda

Autor: Branko Milanovic [1]Social Europe – 10/05/2022

Novos dados sobre desigualdade mostram provavelmente que ocorreu a maior reorganização da renda mundial desde a revolução industrial.

A ascensão da China pode deixar países africanos populosos, como a Nigéria, ainda mais para trás.

A distribuição global de renda vem mudando sem que isso seja percebido.

O que ocorreu no período da chamada “alta globalização”, ocorrido entre o fim do comunismo no final dos anos 1980 e a crise de 2008, também conhecida como a Crise Financeira Global, talvez seja melhor descrito pelo chamado gráfico do elefante (a curva azul na figura abaixo), produzido por Christoph Lakner e por mim.

Esse gráfico mostra que, ao longo dessas duas décadas, ocorrera um aumento muito alto nas rendas em torno do meio da distribuição global, produzindo o ponto A por meio do efeito China; ocorrera, também, um crescimento muito modesto ou próximo de zero em torno do 80º percentil da distribuição, ponto B (onde estão as classes médias baixas dos países ricos); e, finalmente, um aumento acentuado entre o 1% do topo global, ponto C.

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Derivação da forma-sujeito capitalista

Um texto interessante sobre a forma-sujeito, mas ao qual falta um melhor domínio da dialética. Eis que o sujeito está pressuposto no capitalismo, ou seja, não está posto como tal. No capitalismo, o sujeito é uma aparência porque se trata efetivamente – e isso o texto diz com clareza – de um “sujeito” assujeitado, uma personificação das coisas como diz Marx em O capital.

Autores: Emiliano Exposto[1] e Gabriel Rodríguez Varela[2]

A hipótese deste texto é que a forma-sujeito historicamente específica da modernidade capitalista é logicamente derivável, enquanto forma simples e abstrata de constituição do indivíduo social, da forma-mercadoria. A forma-sujeito funciona como o limite impessoal em imanência ao qual se organiza a experiência concreta e complexa dos atores individuais e dos agentes coletivos nas relações sociais capitalistas. No marco das orientações metodológicas que percorrem o programa de derivação do Estado compilado no livro Estado y capital (2017), elaborado por Adrián Piva e Alberto Bonnet, apresentaremos algumas notas que põe uma contribuição para uma derivação dialética do forma-sujeito capitalista.

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Rumo à utopia ou ao desastre?

Os economistas do sistema não estão suportando psiquicamente ver para onde o capitalismo está levando a humanidade. E, por isso, estão caindo em alguma forma de “denegação” – um estado mental estudado por Sigmund Freud. Trata-se de um mecanismo de defesa em que o sujeito nega a realidade como um meio de proteção contra algo que pode gerar dor ou sofrimento. Quando a denegação é parcial, ela é quase sempre complementada por uma fantasia que encobre a perda.

No texto em sequência, Michael Roberts estuda (implicitamente) como essa patologia psicanalítica aparece, ainda que de uma forma mitigada, num livro recém-lançado por Bradford DeLong. Eis que este último autor julga que a utopia keynesiana ainda está no horizonte.

Autor: Michael Roberts – Blog: The next recession, 25/10/2022

Bradford DeLong é um dos economistas keynesianos mais proeminentes do mundo; é também historiador econômico, atuando como professor na Universidade da Califórnia, Berkeley. Serviu, ademais, como vice-secretário assistente do Departamento do Tesouro dos EUA, no governo Clinton, sob o comando de Lawrence Summers. Trata-se de um democrata liberal na política interna dos EUA e um keynesiano clássico na Economia.

Ele publicou um novo livro, intitulado Rumo à Utopia: uma história econômica do século XX. É um trabalho ambicioso que visa analisar e explicar o desenvolvimento da economia capitalista no que ele considera seu período de maior sucesso: o século XX.

Em particular, DeLong afirma que o capitalismo, enquanto uma força progressiva que vem resolver as carências da humanidade, só decolou em 1870; desde então passou a voar alto até a Grande Recessão de 2008-9, momento em que se completou o que ele chama de “longo século XX”. Quais foram as razões que permitiram ao capitalismo um crescimento econômico mais rápido, que produziram um salto quântico nos padrões de vida a partir de 1870? DeLong elenca as seguintes: “a tripla emergência da globalização, da pesquisa industrial e da corporação moderna”.

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A taxa de lucro nos EUA com dados de 2021

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 17/12/2022

Todos os anos, analiso a taxa de lucro do capital nos Estados Unidos. Isso ocorre porque os dados dos EUA são os melhores e mais abrangentes e porque os EUA são a economia capitalista mais importante. Muitas vezes, ela prepara o cenário para as tendências do capitalismo global. Agora temos os dados nacionais oficiais para 2021.

Existem muitas maneiras de medir a taxa de lucro à la Marx – ver http://pinguet.free.fr/basu2012.pdf ). Prefiro medir a taxa de lucro observando o mais-valor total de uma economia em relação ao capital privado total empregado na produção. Assim, julgo ficar o mais próximo possível da fórmula original de Marx de s/(C+v), onde s = mais-valia; C = capital constante – que deve incluir tanto o ativo fixo (máquinas etc.) quanto o capital circulante (matérias-primas e componentes intermediários); e v = salários ou custos da força de trabalho. Meus cálculos podem ser replicados e verificados consultando o excelente manual que explica meu método, gentilmente compilado por Anders Axelsson, da Suécia.  

Chamo meu cálculo de medida de ‘economia total’, pois se baseia na renda nacional total após a depreciação e após a remuneração da força de trabalho para calcular o(s) valor(es) excedente(s); ativos fixos privados não residenciais líquidos para capital constante (portanto, isso exclui governo, habitação e imóveis) (C); e remuneração dos empregados por capital variável (v).

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A grande crise é inevitável

Autor: Nouriel Roubini,

Project Syndicate – Tradução: Antônio Martins

A economia mundial está caminhando para uma confluência sem precedentes de crises econômicas, financeiras e de dívida, após a explosão de déficits, empréstimos e alavancagem.

No setor privado, a montanha de dívidas inclui famílias (endividadas em hipotecas, cartões de crédito, empréstimos para automóveis, empréstimos estudantis, empréstimos pessoais), empresas e corporações (empréstimos bancários, títulos de dívida e dívida privada) e o setor financeiro (passivo de instituições bancárias e não bancárias). No setor público, estão os títulos dos governos centrais, subnacionais e locais, além de outros passivos formais e dívidas implícitas – como passivos não financiados dos sistemas de pensão por repartição e de atendimento à saúde. Tudo isso continuará a crescer à medida que as sociedades envelhecem.

Olhando apenas para as dívidas explícitas, os números são impressionantes. Globalmente, a dívida total dos setores público e privado como parcela do PIB aumentou de 200% em 1999 para 350% em 2021. A proporção é agora de 420% nas economias avançadas e de 330% na China. Nos Estados Unidos, é 420%, maior do que durante a Grande Depressão e após a Segunda Guerra Mundial.

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Da teoria vulgar da espiral salários/preços

Autor: Michael Roberts, The next recession blog – 20/11/22

Os aumentos salariais “excessivos” levam ao aumento da inflação e, assim, levam as economias a uma espiral de preços e salários? Em 1865, na Associação Internacional dos Trabalhadores, Marx debateu esse tópico com o membro do Conselho dessa Associação, Thomas Weston. Weston, um líder do sindicato dos carpinteiros, argumentou que pedir aumento de salário era inútil porque tudo o que aconteceria seria que os empregadores aumentariam seus preços para manter seus lucros e, portanto, a inflação consumiria rapidamente o poder de compra elevado; os salários reais estagnariam e os trabalhadores voltariam à estaca zero por causa de uma espiral preço/salário.

Marx respondeu ao argumento de Weston com firmeza. A sua resposta, que acabou sendo publicada em um panfleto, Valor, Preço e Lucro, foi basicamente a que segue. Em primeiro lugar, “os aumentos salariais geralmente acontecem na esteira dos aumentos de preços anteriores” – a demanda por aumento do salário é uma tentativa de recuperação; não se deve, portanto, a demandas ‘excessivas’ e irrealistas por salários mais altos por parte dos trabalhadores. Em segundo lugar, não são os aumentos salariais que causam o aumento da inflação. Muitas outras coisas afetam as mudanças de preços – argumentou Marx: a saber: “a quantidade de produção (taxas de crescimento – MR), as forças produtivas do trabalho (crescimento da produtividade – MR), o valor do dinheiro (crescimento da oferta monetária – MR), flutuações do mercado preços (fixação de preços – MR) e diferentes fases do ciclo industrial” (boom ou recessão – MR).

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Reexame das fronteiras do capital

Resposta à Crítica da Razão Tecno-feudal de Morozov

Autor: Cédric Durand – NLR 136 – 2022

Evgeny Morozov forneceu uma crítica salutar das propostas recentes para conceituar as relações sociais da economia digital – os usuários da web estão supostamente presos como servos aos domínios inescapáveis dos barões da tecnologia – por analogia com os da era feudal. A sua “Crítica da Razão Tecno-feudal” oferece uma revisão sistemática do uso do termo feudal na teoria econômica contemporânea. Trata-se, para ele, de um pântano discursivo no qual, ele acusa, “a esquerda tem dificuldade em se diferenciar da direita” – de neoliberais como Glen Weyl e Eric Posner, assim como de neo-reacionários como Curtis Yarvin e do anti-ativista (anti-wokite) Joel Kostin. Esses autores articulam a mesma crítica “neo-” ou “tecno-feudal” tal como o fazem Yanis Varoufakis, Mariana Mazzucato, Robert Kuttner ou Jodi Dean.

Se os pensadores radicais abraçaram o imaginário feudal como um estratagema retórico, como um meme aceitável, Morozov argumenta que isso é uma prova não de argúcia, mas de fraqueza intelectual – a coisa se passa “como se a estrutura teórica da esquerda não pudesse mais dar sentido ao capitalismo sem mobilizar a linguagem moral da corrupção e da perversão”. Ao desviar sua atenção das relações capitalistas reais para as reminiscências do feudalismo, ela corre o risco de deixar sua presa real para perseguir uma sombra, desviando-se de seu ângulo de ataque mais original e eficaz que se remete às relações socioeconômicas de exploração – ou seja, ao seu sofisticado aparato político teórico anticapitalista.[1]

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