Ruy Fausto: dentro e fora do marxismo

Ruy Fausto faleceu no dia 1º de maio de 2020. Mesmo se ele se afastou do marxismo no correr de sua vida intelectual, continua a ser reconhecido como um filósofo original que mostrou certas chaves cruciais para melhor ler a obra de Karl Marx. Ao fazê-lo, abriu especialmente para os economistas o horizonte da crítica da economia política, sem a qual a ciência do capitalismo permanece um saber que esconde os seus fundamentos.

É evidente, o autor de Marx: Lógica e Política, dedicou quase toda a sua vida de professor universitário e pesquisador na área de Filosofia ao desenvolvimento de uma crítica rigorosa do marxismo herdado, a qual se fundamenta na logicidade da dialética de Hegel e Marx.

Como aquele que assina esse blog aprendeu com ele um pouco da lógica dialética que está implícita nos textos do filósofo alemão, julga então que não poderia faltar nesse momento. O texto que essa introdução encaminha aponta para o núcleo da contribuição de Ruy Fausto, que continua a ser de conhecimento necessário para o aprofundamento da compreensão não só do marxismo, mas também – é preciso dizer – para a política contemporânea.

O texto está aqui:  Dentro e fora do marxismo

As consequências da crise em andamento

Em continuação ao post anterior, publicamos um outro do mesmo autor. Em virtude da importância do tema tratado, traduziu-se aqui mais um post de Michael Roberts publicado originalmente no blog The next recession. Neste novo texto, ele continua a sua reflexão sobre o capitalismo contemporâneo e faz uma avaliação das consequências econômicas da crise em andamento, a qual vem sofrendo o impacto da pandemia do coronavírus. É difícil imaginar – como se gostaria – que uma queda do produto entre 5 e 10 por cento não venha a acontecer, principalmente nos países desenvolvidos e dependentes como o Brasil

O texto está aqui: A culpa é do vírus

O modo da dominação nazista segundo Zizek

Autora: Jodi Dean[1]

Esta nota[2] é parte de meu esforço para apresentar a teoria política de Slajov Zizek como um sistema coerente: versa, por isso, sobre a sua compreensão do nazismo.

As discussões de Zizek sobre o fascismo focam a Alemanha nazista e a maneira pela qual o nazismo transtornou a luta de classes em um confronto de raças. Ele apreende a dimensão estética da dominação nazista, assim como o papel do mestre “totalitário” nessa dominação. Como ele conjuga esses elementos? Adotando uma visão em paralaxe. Ou seja, o seu relato sobre o nazismo percorre três registros: o do Real em que se dá o confronto do nazismo com o Capital, o do Simbólico em que opera o comando da burocracia nazista e o do Imaginário em que acontece a estética nazista.

O nacional-socialismo, explica Zizek, foi uma tentativa de mudar algo para que nada mudasse.

Continuar lendo

A grande onda das dívidas está chegando…

Neste post se apresenta um pequeno artigo do economista Kaushik Basu (publicado no Project Syndicate) que aponta mais uma vez que a atual estrutura do endividamento dos Estados Nacionais, considerados como um todo, é insustentável no médio prazo.

Note-se que a previsão de um possível e mesmo provável colapso no futuro próximo vem de alguém que tem um bom conhecimento do estado crítico da economia mundial. Ele já foi economista chefe no Banco Mundial e no conselho econômico do governo da Índia. Atualmente é professor da Universidade de Cornell e sênior adjunto do Instituto Brookings.

No entanto, a sua conclusão final é bem ingênua. A grande onda das dívidas está chegando…. Contudo, ele acredita, como em geral acontece com os macroeconomistas competentes, que uma política econômica bem conduzida pode evitar a crise. Ora, a sua competência é competência em economia vulgar – aquela que se resume em apreender as relações externas entre os fenômenos seja por meio de modelos teóricos seja por meio de modelos econométricos.

Como se sabe, desde Marx, “a verdadeira barreira da produção capitalista é o próprio capital”. E que, portanto, as crises são inevitáveis. Se o Estado se endivida para conter o processo da crise ou as suas piores consequências num certo momento, o próprio crescimento de seu endividamento se torna uma nova barreira para a produção capitalista no momento seguinte.

No entanto, se as crises trazem consequências trágicas para as populações, especialmente para os trabalhadores que estão menos protegidos, ela são também o modo pelo o qual o capital supera as suas barreiras. “As crises” – é sempre bom lembrar – “são sempre apenas soluções momentâneas violentas das contradições existentes, irrupções violentas que reestabelecem o equilíbrio perturbado”.

Ora, o desequilíbrio permanente é próprio do modo de existência do capital. A expansão do capital se dá por meio de um processo de  realimentação positiva, um espírito animal intrinsecamente desmedido (Keynes), a qual implica num crescimento exponencial. E como todo crescimento exponencial real, ele gera catástrofes endogenamente de modo inexorável. E estas são necessárias para que a expansão possa ser retomada.

As crises nunca indicam por si só que o capitalismo vai acabar, ao contrário, elas mostram que a violência do capital não tem limites quando se trata de encontrar uma solução para as crises que engendra. Ao se autodestruir, ele destrói não apenas coisas, mas também vidas. O capital é um sujeito automático dotado de hybris que vai da realização ao funesto.

O seu artigo está aqui: A grande onda das dívidas está chegando

Perspectivas da economia mundial para 2020

Como mensagem de fim de ano e começo de outro, este blog publica dois artigos de Oscar Ugarteche e Alfredo Ocampo. Eles tratam das perspectivas da economia mundial para 2020.

O ano de 2019 foram bem complicados para vários países vistos de vários ângulos: crescimento econômico; coesão social; integração internacional e crise política. Ao longo do ano, as principais organizações internacionais reduziram a previsão de crescimento para a maioria das economias, como resultado de fatores que vêm surgindo há alguns anos: deterioração das relações comerciais, altos níveis de dívida, concentração de renda, fluxos migratórios, racismo e uma queda no investimento produtivo.

Espera-se que a tendência geral da economia mundial continue em ritmo lento na maioria das economias, com o claro contraste das economias asiáticas que continuarão a crescer três vezes mais rápido que o Ocidente, o que poderia ser afetado principalmente pelos protestos em Hong Kong e Índia. Para as economias avançadas, o prognóstico é cinzento, porque os problemas da União Europeia não terminam com a saída do Reino Unido.

O primeiro texto se encontra aqui: Perspectiva da economia mundial para 2020
O segundo texto, por sua vez: Estamos próximos de uma recessão nos Estados Unidos

 

Demanda de consumo em Marx

Neste post apresenta-se parte de um escrito de Radhika Desai em que essa autora procura mostrar a pluralidade determinações da crise econômica segundo Karl Marx. Ela contesta especialmente a tese segundo a qual todas as crises podem ser apresentadas como consequências da “lei da taxa decrescente de lucro”. E que, por isso, a Lei de Marx não é sempre a “causa última” das crises, as quais, entretanto, poderiam ser disparadas por vários fatores (tese de Michael Roberts). Em consequência, ela reabilita até certo ponto a importância do subconsumo nas crises.

Em suas palavras:

“Este texto desafia o desprezo pelo “subconsumo” – e, assim, pelo papel da demanda de consumo na reprodução capitalista e por sua falta nas crises – no marxismo contemporâneo. Está em jogo aqui um melhor entendimento não apenas da teoria da crise, (…) mas também do legado intelectual de Marx. O escrito mostra como a centralidade da demanda de consumo é sublinhada nos três volumes de O capital e nos Grundrisse. Prossegue discutindo as origens, as fraquezas e a persistência desse desprezo. O texto também mostra que Marx não considerou o subconsumo por meio de uma ótica moralista, como se tratasse de uma necessidade que é descumprida. Tal desprezo não se origina em Marx, mas no “produtismo”, isto é, na ideia de que o capitalismo é um sistema de “produção pela produção”.

A tradução para o português de parte do texto original (Consumption demand in Marx and in the current crisis) encontra-se aqui: Demanda de consumo em Marx

A agonia (e morte?) do desenvolvimento no Brasil

Quando se olha o comportamento da economia capitalista no Brasil nos últimos setenta anos de uma perspectiva que fica apenas na observação dos dados empíricos, é absolutamente nítido que dois grandes períodos aparecem: um deles que vai até 1980, o qual não pode deixar de ser considerado como de alto crescimento e um outro, que se inicia em 1990, o qual está caracterizado por uma quase-estagnação. A década dos anos 1980 é de crise e de transição entre esses dois padrões de crescimento do produto interno bruto (PIB).

O primeiro período mencionado é usualmente chamado de nacional desenvolvimentista. O segundo tem sido caracterizado como liberal periférico, já que nele domina o neoliberalismo.

Contudo, esse segundo período pode também ser dividido em dois outros. Empregando uma terminologia já em uso, mas ainda não fixada na historiografia, o período que vai de 1990 a 2015 pode ser caracterizado como neoliberal progressista. Entretanto, após esse último ano, a gestão da economia capitalista no Brasil tornou-se – é preciso diferenciar – neoliberal reacionário.

Ao contrário do que acontecia anteriormente, este último período passou a apontar a barbárie – e não mais para a civilização. Trata-se, sem dúvida, do advento de uma regressão, de uma decadência.

A que se deve esse comportamento da taxa de crescimento do PIB? Por que o Brasil ficou para trás no assim chamado processo de globalização? O neoliberalismo reacionário contraria o desenvolvimentismo ou, mais do que isso, ele representa o abandono do projeto de desenvolvimento nacional que orientou a economia brasileira nos últimos 70 anos?

É preciso, portanto, que as forças potenciais da civilização – que moram ainda nas classes trabalhadoras em sentido bem amplo –, passem a acreditar e apostar numa mudança mais profunda da sociedade. E, nessa perspectiva, o socialismo democrático e o ecossocialismo surgem como alternativas promissoras. Se o presságio acima se confirmar, sobrevirá a barbárie e o fim de nossa humanidade possível. Veja-se que, em certos espaços da sociedade brasileira, isto já está acontecendo e de modo bem evidente.

O texto está aqui: A agonia (e a morte?) do desenvolvimento no Brasil

 

A formação do modo de ser neoliberal

Com este post termina-se a publicação de um artigo e uma nota que tratam, como o título acima indica, da formação intencional e construtiva do modo de ser neoliberal. O primeiro deles, Neoliberalismo e subjetivação capitalista, de autoria de Pierre Dardot e Christian Laval, veio à tela aqui neste blog nas duas últimas segundas-feiras. Agora, para complementá-lo, publica-se uma resenha do livro O ser neoliberal (Gedisa, 2019), resultado de uma discussão recente entre esses dois autores e o psicanalista espanhol Enric Berenguer.

Nesse escrito, eles mais uma vez retomam a questão de como melhor definir o neoliberalismo. Com esse propósito principal repensam tudo o que disseram em A nova razão do mundo, mas indicam também que os processos de formação de subjetividade adequados à produção capitalista não passaram a existir apenas no capitalismo contemporâneo; pois, ao contrário, existiram também nas épocas históricas precedentes, ainda que com certas especificidades.

Ora, aquilo que foi chamado por Foucault de governamentalidade tem assumido formas diversas, ainda semelhantes, ao longo da história do capitalismo. Assim, se o neoliberalismo recebe também nesse novo livro o foco crítico principal, não deixam eles de fazer também referências críticas importantes às formas que existiram no período de domínio do liberalismo clássico e, depois, no período da socialdemocracia.

Na opinião do economista que aqui escreve, o tema da governamentalidade tem de ser apropriado pela crítica que vem de Marx, naquela precisamente em que discute as formas de subsunção do trabalho ao capital. Ora, esse tema tem sido discutido mesmo sem qualquer referência à Foucault sob o conceito de subsunção intelectual ou mental do trabalho ao capital. Ademais, é evidente que, assim, o tema não é esgotado mesmo numa perspectiva que se cinge ao capitalismo no Ocidente.

É preciso mencionar que seria necessário incluir, num estudo mais abrangente, não apenas o fascismo e o nazismo, mas também o comunismo estalinista e o comunismo maoísta, assim como outras variantes dessas formas de exercer o poder e de dominar os seres humanos comuns.

O texto se encontra aqui: A formação do modo de ser neoliberal

Neoliberalismo e subjetivação capitalista – Parte II

Continua-se neste post a publicação de um artigo que trata do conceito de neoliberalismo. Traz-se por isso, com esse objetivo, a segunda e última parte de um escrito muito importante de Pierre Dardot e Christian Laval.

Como foi dito no primeiro post, se essa forma de prática política é, sim, implementação de medidas como privatizações, diminuição da proteção social dos trabalhadores, decrescimento da oferta de bens públicos etc. Porém, de modo algum, pode ela ser reduzida a essa dimensão estritamente econômica. Eis que é, também, uma forma de governamentalidade, isto é, de criação por meio de técnicas de poder de uma subjetividade adequada à expansão do capitalismo.

O neoliberalismo implica na generalização da forma social “concorrência” – que originalmente é apenas “concorrência de capitais” para âmbitos sociais que não deveriam ser regulados economicamente, tais como hospitais, escolas, associações, igrejas etc. E essa generalização é, sim, produzida construtiva e deliberadamente.

Sustentam esses dois autores que “a imposição dessa forma de concorrência nada tem de natural. “Não resulta de processos espontâneos. Não é efeito de uma espécie de “canibalização” inerente à dinâmica do capitalismo. É produto, isto sim, de uma construção política.”

Note-se, nesse sentido, que “o fator competitivo mais importante hoje é o “capital humano”, a formação do indivíduo, o seu “desenvolvimento pessoal” dentro e fora da empresa, a sua subjetividade no trabalho e fora dele, ele também deve ser remodelado de acordo com o princípio da concorrência”.

Se totalitarismo implica, como queria Hannah Arendt, na realização determinada de um fim último, a conquista do mundo, o capitalismo neoliberal é uma forma de totalitarismo. Esse objetivo não é, entretanto, perseguido por meio da absorção e subordinação do mercado e da sociedade civil como um todo ao Estado, mas, ao contrário, por meio da conquista e subordinação do Estado e da sociedade civil como um todo pela lógica do mercado.

A segunda parte do artigo se encontra aqui: Neoliberalismo e Subjetivação capitalista – II

Alternativas socialistas – Parte III

Como já se mencionou em dois posts anteriores, este blog publicou recentemente duas séries de artigos sobre o renascimento e fortalecimento da ideia do socialismo democrático. Elas exploram novas possibilidades de coordenação das atividades sociais e econômicas em sociedades complexas, as quais se tornaram possíveis devido aos novos sistemas de informação surgidos das tecnologias da informática e do Big Data.

Agora, nesta terceira parte, Duncan Foley da New School for Social Research de Nova Iorque apresenta um modelo teórico de socialismo democrático que ele chama de “rede vida” (tradução aproximada de Lifenet). Porém, ele não considera esse modelo como uma receita para o futuro. Trata-se para ele de imaginar uma situação para poder pensar (ou mesmo, fantasiar) em linhas gerais uma alternativa à produção mercantil capitalista.

O texto se encontra aqui: Alternativas socialistas para o capitalismo III