Pós-neoliberais, mas pré-ricardianos

Desde logo, é preciso saudar (com alguma ironia, confessa-se) o fato de que surgiu mais uma voz dissonante no interior da academia norte-americana formada por economistas, a qual está dominada de fato por um unitarismo avassalador. Trata-se, no entanto, de uma vela titubeante numa escuridão imensa. Aqui se vai mostrar em que consiste sem abdicar do direito de crítica severa.

E se começa pelo título: esclarece-se que os prefixos “pós” e “pré” não indicam aí posições históricas, mas posições no campo da Economia contemporânea que, de um modo ou outro, ainda insiste em se autodenominar de Economics – abjurando assim o termo Economia Política preferido pelos economistas clássicos.

Faz-se referência assim a um grupo de economistas de centro-esquerda que se reúnem atualmente sob uma bandeira que eles próprios chamam de Economia para a prosperidade inclusiva (isto é, Economics for Inclusive Prosperity – ou EfIP). Como essa iniciativa se considera pós-neoliberal e como, ademais, reclama situar-se numa posição moralmente superior àquela mais comum na tradição na qual estão inseridos, será aqui designada por EPI.

Em pdf: Pós-neoliberais, mas pré-ricardianos

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A governança macroeconômica

A macroeconomia dominante não quer ser mais do que uma caixa de ferramentas para serem usadas na governança do capitalismo. E esse caráter está presente na maneira que tem sido apresentada. É isto o que mostra, por exemplo, um artigo recente em The Economist intitulado A pandemia da convid-19 está forçando um repensar da macroeconomia. Ora, a nota que se segue faz uma crítica desse saber: Macroeconomia

Como se sabe, o saber sobre o funcionamento do sistema econômico adotou esse nome depois que John Maynard Keynes publicou a sua Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, em 1936. Se esse autor não desprezou o caráter performativo da linguagem teórica criada, não se pode acusá-lo de falta de realismo científico, de despreocupação com a compreensão do capitalismo. Dada a urgência do momento histórico, julgou que era preciso apreender os processos econômicos reais. Aqui se quer mostrar, entretanto, que a macroeconomia contemporânea, pós-II Guerra Mundial, adquiriu um caráter centralmente manipulatório:  por um lado, pretendeu fornecer instrumentos de política econômica para a governança do sistema, por outro, quis conformar as mentes dos economistas para fazê-los pensar de um modo automático, adequado à realização de objetivos que lhes são prescritos. Alguns, poucos, resistem!

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Roberts: Capitulando para adultos

Durante o bloqueio pandêmico, pude ler uma série de novos livros de economia, alguns marxistas, mas a maioria deles não. Parece que muitos economistas importantes publicaram novidades nos A Bolsa Ou a Vidaúltimos dois meses. Nas próximas semanas, farei post sobre alguns deles.

Começarei com Sellouts in the Room de Eric Toussaint. Originalmente publicado em março último, em francês (mas também em grego) sob o título Capitulation entre Adultes, o livro estará disponível em inglês antes do final de 2020. Toussaint rememora os eventos da crise da dívida grega quando a Troika (formada pela Comissão Europeia, o BCE e o FMI) tentaram impor um programa drástico de austeridade ao povo grego. Em troca, destinariam fundos de “resgate” para cobrir as dívidas existentes devidas pelos bancos e pelo governo grego a credores estrangeiros. Eis que o crédito para a Grécia havia secado nos mercados.

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Falo/feitiço e o fetichismo da mercadoria como ilusões reais

Os escritos no campo da psicanálise lacaniana tendem a escapar da compreensão de muitos. Este economista que aqui escreve não é exceção. Entretanto, crê – e isto não é novo – que The Sublime Object of Ideology (The Essential Zizek)certos conhecimentos de psicanálise precisam ser incorporados na crítica da economia política. Ora, um texto que faz uma conexão entre dois fetiches sexuais com o fetiche da mercadoria é aqui reapresentado – talvez – numa forma mais didática.

Num escrito dessa matriz encontra-se a seguinte frase: “o falo deve ser apreendido como significante da castração”. O que ela significa? Qual a sua significância? Que relação tem com a conexão acima mencionada?

Ora, é assim que Slavoj Zizek começa uma seção de seu livro Eles não sabem o que fazem – o sublime objeto da ideologia (Zahar, 1992) intitulada Falo e feitiço. Ora, esse autor, tal como o seu mestre, costuma esconder, parcialmente, a trama do jogo de linguagem que entretém. Nem por isso, entretanto, o que ele escreve é irrelevante – ao contrário, frequentemente lança luzes sobre temas difíceis. Por isso é preciso investigar o que ele pode estar querendo dizer com essa expressão que parece bem arrevesada.

Antes de começar examiná-la, anote-se que os termos “falo” e “feitiço” são significantes similares às “ilusões reais” da crítica da economia política, a saber, a mercadoria e o dinheiro como fetiches. A questão que se põe a respeito deles é aqui, como lá, saber que significação têm. Como deslindar esse nó?

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O caráter fetichista do partido stalinista e seu segredo

É possível expor o partido stalinista do mesmo modo que Karl Marx, em O capital, expôs o fetichismo da mercadoria? Slavoj Zizek acha que sim e a sua apresentação crítica dessa forma de partido político encontra-se no seu livro Eles não sabem o que fazem – O objeto sublime da ideologia (Zahar, 1992). Ele, como se sabe, existiu concretamente e governou o sistema centralizado de acumulação de capital que vigorou na Rússia de 1917 até 1991. Mas será que ele desapareceu totalmente?

Como ainda parece importante entender melhor esse “desvio” – na verdade, um afundamento – totalitário de uma organização política que se apresentou na cena histórica como socialista democrática e, ao mesmo tempo, como autoritária. Por que respondeu tão mal à tradição política originada nas propostas de Marx e Engels para superar o modo de produção capitalista?

Que fracassou, todos sabem; não foi muito longe, ao contrário, e isto foi provado cabalmente pelo retorno da Rússia ao capitalismo, agora, na forma de um sistema de acumulação descentralizado. Logo, parece importante saber se esse fracasso não estava inscrito em sua forma própria desde o início? Como não cair no mesmo erro?

De qualquer modo, eis aqui uma apresentação didática de seu argumento: O caráter fetichista do partido stalinista e o seu segredo

Guerra de capitais: China x EUA

Constata-se atualmente uma crescente guerra comercial e tecnológica entre os EUA e a China.  É, pois, interessante examinar o livro Capital wars de Michael Howell que apresenta uma visão diferente no que se refere à rivalidade entre a China e os EUA.

Até agora, a concorrência entre os EUA e a China na esfera econômica tem ocorrido na esfera do comércio e da tecnologia.  Pouco atritos aconteceram nos mercados financeiros. Mas é bem provável que a batalha decisiva ocorra na esfera financeira. Como se sabe, o dólar domina cerca de 80 por cento das transações internacionais e a China está se esforçando para reduzir essa proporção. Ela quer criar uma área de transações comerciais e financeiras em rebimbe.

O artigo de Michael Roberts em anexo faz um comentário sobre o livro de Howell que parece ser muito interessante (e, também, muito caro para os leitores brasileiros).

Ele se encontra aqui: Guerra de capitais – EUA x China

Rumo à estagnação completa

Dois fatos futuros já são sabidos nesse momento de velório nacional por causa de uma “gripezinha” que se mostra, dia após dia, hora após hora, minuto após minutos, como uma doença genocida:

a) os governantes da pátria amada e idolatrada, considerando-se o conjunto das nações de rendas médias e altas, serão considerados como os mais desastrados no enfrentamento da difusão da pandemia do novo coronavírus na sociedade;

b) os danos na malha produtiva produzidos pela atual crise da economia capitalista no Brasil, como consequência dessa má gestão, mas também da política econômica dos últimos trinta anos e, em particular, aquela imediatamente pregressa, serão os maiores dentre todas essas mesmas nações.

Para tomar ciência de um argumento que afirma a possibilidade de que ocorra uma estagnação completa da economia capitalista no Brasil, leia-se o artigo que aqui  vai, mas que já foi publicado pelo jornal de internet Outras Palavras: Rumo à estagnação completa

A sociedade autofágica

Neste post se apresenta criticamente o livro de Anselm Jappe, A sociedade autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição (Antígona, 2019). Como se pode ver pelo próprio título, esse autor não apresenta um futuro otimista para a sociedade humana fundada no capitalismo.  Para ele, a civilização alcançada, agora agoniza e cambaleia no sofrido planeta Terra.

Para apresentar a sua concepção, Jappe se vale de uma metafora: o mito grego de Erisícton, que fora supostamente rei de Tessália numa época distante.  Vendo o mundo como parte integrante de seu domínio ilimitado, ele abate uma árvore sagrada para empregá-la na construção de seu palácio.

Eis que o seu ego narcisista desse monarca não tem qualquer limitação e, por isso, não é capaz de cultivar o razoável, o bom senso em sua relação com o mundo. Deméter, a deusa das colheitas, diante desse grave delito, despertou nele, como castigo, uma fome insaciável.

Para satisfazê-la, esse rei passou então a comer tudo o que encontrava em sua volta; depois de destruir a natureza e, assim, o seu próprio reino, como a sua fome não tinha limites, sem qualquer alternativa, ele passou a comer a si mesmo.

Ora, algo parecido com isso o que se delineia no horizonte da sociedade humana no vigésimo primeiro milênio da civilização ocidental que se orgulha de ser racional e livre? Ou será que essa compreensão esconde uma metafísica real, aquela da acumulação insaciável de capital?!

A resenha se encontra aqui: A sociedade autofágica – Um destino inexorável?

Lucratividade: o investimento e a pandemia

Baixa rentabilidade e aumento da dívida são os dois muros, dez anos após a eclosão da Longa Depressão, contra os quais as principais economias estão batendo agora a própria cabeça.

Neste momento de pandemia, governos e bancos centrais estão dobrando as políticas de estímulo econômico, apoiadas por um coro aprovador de keynesianos de várias tonalidades (MMT etc.), na esperança e na expectativa de que isso consiga reviver as economias capitalistas após os bloqueios terem sido relaxados ou terminado.

Conforme Michael Roberts, é improvável que isso aconteça porque a lucratividade permanecerá baixa e pode até cair, enquanto que as dívidas aumentarão, alimentadas pela enorme expansão do crédito.

As economias capitalistas permanecerão deprimidas e, eventualmente, verão ocorrer um aumento da inflação, conformando, assim, uma nova fase em que a depressão se transforma numa estagflação.

O artigo de Michael Roberts se encontra aqui: Lucratividade – o investimento e a pandemia

O dilema da dívida

O crédito tem um papel crucial na economia capitalista: um artigo de Michael Roberts esclarece esse tema justamente no momento em que se desenrola  aquela que será provavelmente a maior crise histórica do capitalismo. É bem possível que a crise catastrófica dos anos 1930 perderá o seu posto já que a economia capitalista está financeirizada como nunca esteve antes.

O crédito permite alongar o pagamento de mercadorias pelos consumidores, em especial as de grande valor monetário como os bens duráveis e as residências.

Ele permite que os investimentos em projetos maiores e mais longos sejam financiados quando os lucros reciclados internamente às empresas não são suficientes.

O crédito permite, portanto, uma circulação mais eficiente do capital destinado à circulação de mercadoria, ao investimento e à produção corrente.

Os mercados financeiros se alimentam do crédito concedido aos governos, às empresas e às família. Ele tem, portanto, o potencial para alavancar o funcionamento do sistema como um todo.

Mas o crédito se torna dívida; assim, embora possa ajudar a expandir a acumulação de capital, caso os lucros não sejam suficientes para servir a essa dívida (ou seja, para pagar o principal e os juros aos credores), a dívida se torna um fardo que consome os lucros e a capacidade de expansão do capital.

O escrito de Michael Roberts está aqui: O dilema da dívida