O sítio publica artigos de Eleutério F S Prado. Divulga, também, textos importantes sobre economia política e sobre o tema da complexidade. Tem como princípio fundamental que a única boa alternativa para resolver os problemas da humanidade é a democracia.
No início deste ano, escrevi um poste sobre o que alguns chamam de ‘policrise’. O termo indica que o modo de produção capitalista está se defrontando com diversas tensões disruptivas simultâneas: econômica (inflação e recessão); ambiental (clima e pandemia); e geopolítica (guerra e divisões internacionais). Tudo isso começou a acontecer já no início do século XXI. Palavra da moda na esquerda conectada às novidades, resume, em muitos aspectos, a minha própria descrição das contradições do sistema. Aquilo que designei como “longa depressão” já da década de 2010 está agora atingindo o seu auge.
Como neste mês de outubro as principais agências econômicas internacionais, o FMI e o Banco Mundial, se reúnem em Marraquexe, vale a pena atualizar aquela postagem. É bom verificar o que está a acontecer com as contradições que compõem a policrise do capitalismo.
Autor: Michael Roberts – Blog: The next recession – 22/04/2023
Contestadores da atual ordem mundial?Ler até o fim.
Christine Lagarde, chefe do Banco Central Europeu (BCE), na forma de “keynote”, fez um importante discurso na semana passada no Conselho de Relações Exteriores dos EUA, em Nova York.
Foi importante porque ela analisou os recentes desenvolvimentos no comércio e investimento globais e avaliou as implicações do afastamento em relação ao domínio hegemônico da economia dos EUA e do dólar na economia mundial e, assim, o movimento em direção a uma economia mundial “fragmentada” e “multipolar” – onde nenhuma potência econômica ou mesmo o atual bloco imperialista do G7-plus conseguirá dominar o comércio global, o investimento e o fluxo do dinheiro.
Lagarde explicou: “A economia global vem passando por um período de mudanças transformadoras. Após a pandemia, a guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia, a transformação da energia em arma, a súbita aceleração da inflação, bem como uma crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, as placas tectônicas da geopolítica estão mudando mais rapidamente”.
Nouriel Roubini é um singular economista do sistema. Se possui fama internacional, costuma ser olhado com irônica desconfiança. Eis que os seus pares o consideram como um “profeta da desgraça”. No entanto, tudo o que diz tem enorme plausibilidade. Ele tem sustentado agora uma previsão nuviosa sobre a situação econômica nas próximas décadas do século XXI: o capitalismo em nível global sofrerá de estagflação renitente e essa será a sua condição normal doravante.
Eis como Roubini, em seus próprios termos, apresenta essa antevisão:
Economias avançadas e mercados emergentes estão cada vez mais envolvidos em “guerras” necessárias. O futuro será estagflacionário e a única questão é quão ruim isso será. A inflação aumentou acentuadamente ao longo de 2022 nas economias avançadas e nos mercados emergentes. As tendências estruturais sugerem que o problema será secular – e não transitório.
Haverá, pois, guerras necessárias contra as novas pandemias, os efeitos do aquecimento global, as imigrações maciças, as pobrezas escandalosas etc.; haverá, inclusive, conflitos bélicos reais como o atual entre os Estados Unidos (atrás do palco), a Ucrânia e a Rússia (no próprio palco em que ocorrem efetivamente as batalhas). Como esses dois tipos de “guerras” atuarão seja para elevar a demanda agregada seja para contrair a oferta agregada, eles criarão as condições objetivas para a normalização do fenômeno “estagflação”. Os seus dois escritos em que essas “previsões” aparecem se encontram aqui e aqui.
Por quatro décadas após a Segunda Guerra Mundial, as mudanças climáticas e a inteligência artificial destruidora de empregos não estiveram na mente de ninguém; termos como “desglobalização” e “guerra comercial” não tinham guarida. Mas, agora, estamos entrando em uma nova era que se assemelhará mais às décadas tumultuadas e sombrias entre 1914 e 1945.
Graves mega-ameaças estão colocando em risco nosso futuro – não apenas nossos empregos, renda, riqueza e economia global, mas também a relativa paz, prosperidade e progresso alcançados nos últimos 75 anos. Muitas dessas ameaças nem estavam em nosso radar durante a próspera era após a Segunda Guerra Mundial. Cresci no Oriente Médio e na Europa do final dos anos 1950 ao início dos anos 1980 e nunca me preocupei com a possibilidade de que as mudanças climáticas pudessem destruir o planeta. A maioria de nós mal tinha ouvido falar do problema, pois as emissões de gases de efeito estufa ainda eram relativamente baixas, em comparação com o que ocorreu depois.
Além disso, depois da colaboração entre os EUA e a União Soviética e da visita do presidente americano Richard Nixon à China, no início dos anos 1970, nunca mais me preocupei com outra guerra entre grandes potências, muito menos nuclear. O termo “pandemia” também não estava registrado na minha consciência, porque a última grande ocorrera em 1918. E eu não imaginava que a inteligência artificial pudesse um dia destruir a maioria dos empregos e tornar o homo sapiens obsoleto, porque aqueles eram os anos do longo “inverno da inteligência artificial (IA)”.
O notável historiador britânico Adam Tooze escreveu em seu blog uma nota seminal – Policrise: pensando na corda bamba – com a finalidade de ressaltar a importância e a relevância da noção de policrise, a qual julga necessária para pensar a difícil situação da humanidade no contemporâneo. Aí, definiu esse termo novo do seguinte modo: “policrise é uma maneira de capturar a mistura emaranhada de desafios e mudanças que interagem de perto umas com as outras, torcendo, desfocando e ampliando umas às outras”.
Desse modo, circunscreveu o termo na perspectiva da teoria dos sistemas que, como se sabe, apresenta-se como uma técnica analítica e construtivista de modelização dos sistemas complexos. Estes, por sua vez, são compreendidos como plexos de partes ou elementos em interação que possuem uma organização específica ou ainda, mais do que isso, uma auto-organização. Desse modo, definem-se os sistemas complexos pelos nexos externos entre as partes, ou seja, por suas interações, as quais se dão supostamente segundo determinados padrões de regularidade.
Policrise é um termo que encontrei pela primeira vez quando estava terminando Crashed,[2]em 2017. Foi invocado por Jean-Claude Juncker para descrever a situação perigosa da Europa no período após 2014. No espírito do “Eurotrash” [3], entusiasmei-me com a ideia de passar a usar um “conceito” encontrado nessa fonte específica. Juncker confirma o maravilhoso retrato de Nick Mulder do “Homo Europus”. Descobriu-se que Juncker obteve a ideia do teórico francês da complexidade e do veterano da resistência, Edgar Morin, mas isso é uma outra história.
Entretanto, policrise surgiu também como um termo no subcampo dos estudos da arte na União Europeia, tendo sido retomado, entre outros, por Jonathan Zeitlin.
Considerei a ideia de policrise interessante e oportuna porque o prefixo “poli” chamava a atenção para a diversidade dos desafios, sem especificar uma única contradição dominante ou fonte de tensão ou disfunção.
O termo parecia ainda mais relevante diante do choque da COVID. Empreguei-o em Shutdown [4]para contrastar essa visão europeia bastante indeterminada da crise, por um lado, com a visão americana, mais compacta, para não dizer solipsista, de uma grande crise nacional centrada na figura de Donald Trump e, por outro, com a perspectiva de Chen Yixin, um dos principais pensadores do aparato de segurança de Xi Jinping.
Para lidar com a crise climática, os governos devem reconhecer que apenas o Estado foi capaz de conter as crises nas três últimas crises.
Eventos climáticos extremos, como as inundações no Paquistão, que deixam um enorme número de mortes e espalham miséria em seu rastro, tornam a crise climática uma ameaça existencial.
Houve uma transformação revolucionária do capitalismo, o sistema econômico ocidental, em pouco mais de uma década. Quatro eventos extraordinários demonstraram que, na maioria dos países, a relação entre o Estado e o mercado se transformou, alterando radicalmente o sistema econômico. O impacto na política está sendo sentido, mas ainda não foi totalmente reconhecido, especialmente pelos progressistas.
A primeira grande mudança foi a resposta dos Estados-nação ao colapso em 2008 do modelo de neoliberalismo – atores “racionais” operando em mercados “livres” – com a crise financeira. O resgate estatal de empresas financeiras privadas custou grandes somas aos contribuintes de todos os países. No Reino Unido, o National Audit Office colocou o resgate dos bancos em £ 1 trilhão em seu pico. Nos Estados Unidos, entre muitas estimativas, foi adiantado um valor de US$ 500 bilhões. Quanto à Irlanda, custou € 64 bilhões – mais que o dobro da receita tributária total em 2010 – para resgatar seus bancos.
Outras Palavras, 20/09/2022 – Counterpunch | Tradução: Vitor Costa
As dimensões do setor financeiro não têm relação com a economia. Deixando de lado a retórica, ele confisca, ou seja, não cria dinheiro. Quanto? Vale examinar alguns números: valor total das dívidas: US$ 305 trilhões; valor total de papéis financeiros negociados, em média, por dia: US$ 9,68 trilhões.
É muito dinheiro. Tanto que a imaginação tem dificuldades para compreender tais números. Uma maneira de enxergá-los em perspectiva é lembrar que o tamanho da economia mundial (produto interno bruto global para todos os países do mundo) foi de US$ 96,1 trilhões em 2021.
Em outras palavras, o volume de negociação de moedas (câmbio), ações, títulos e seus derivativos supera o tamanho da economia global a cada 10 dias úteis. (O período é quase certamente um pouco mais curto, já que os US$ 9,68 trilhões, média diária de negociação, não incluem a maior parte dos títulos dos Estados, cujo valor negociado é difícil de obter.) Para fazer outra comparação, o valor da dívida dos governos, empresas e famílias do mundo (o total de US$ 305 trilhões acima) é mais de três vezes e meia o valor de toda a atividade econômica produzida em um ano.
Autor: Nouriel Roubini [1] – Site Project Syndicate – 3/10/2022
A Grande Moderação {N.T. período que vai de 1982 a 2008, caracterizado por baixa inflação e crescimento razoável] deu lugar à Grande Estagflação. Esta última está se diferenciando pela instabilidade e por uma confluência de choques de oferta negativos e em câmera lenta. Os mercados de ações nos EUA e no mundo já estão em baixa, mas a escala da crise que se espera ainda não foi totalmente precificada.
Há um ano venho argumentando que o aumento da inflação será persistente e que as suas causas incluem não apenas más políticas, mas também choques negativos de oferta; ora, a tentativa dos bancos centrais de combatê-la causará um pouso econômico duro e turbulento. Quando a recessão vier, avisei, será severa e prolongada, com dificuldades financeiras generalizadas e crises de dívida.
Apesar das falas agressivas, os banqueiros centrais, presos em uma armadilha de endividamento, ainda podem desistir desse combate, contentando-se então com uma inflação acima da meta. Devido à inflação mais alta e às expectativas excitadas de mais inflação, quaisquer carteiras de ações (com maiores riscos) ou de títulos de renda (com menores riscos) perderão dinheiro.
A primeira parte do título deste artigo é uma tradução direta do cabeço – The post-global economy – de um conjunto de artigos sobre o futuro do capitalismo, que foi publicado no portal Project Syndicate, em 18 de agosto de 2022. O que aqui se apresenta é uma crítica desses textos escritos por economistas do sistema, pois busca fornecer uma outra perspectiva sobre o mesmo tema.
O que está em curso na economia capitalista mundial após as crises de 2008 (bolha imobiliária nos EUA) e 2020 (pandemia do novo coronavírus) e 2022 (guerra da Ucrânia)? – eis, pois, a grande interrogação. O que o futuro reserva para a humanidade diante desta mutação conservativa do sistema econômico ora largamente hegemônico?
Eis como a gerência desse sítio apresenta o problema:
Uma sucessão de choques ao longo da última década e meia reverteu significativamente a tendência econômica internacional dominante de toda a era da pós-Guerra Fria. Mas mesmo se os relatos da morte da globalização têm sido exagerados, as interrupções contínuas nas redes de comércio e produção apresentam grandes dores de cabeça para governos e para as empresas em todo o mundo.
Dois artigos se sobressaem num conjunto de seis e eles são bem otimistas na caraterização do futuro. Um deles, escrito por André Velasco, professor da London School of Economics, julga que vai nascer uma globalização mitigada, ao mesmo tempo mais sustentável e mais duradoura. O outro, Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard, acha que um novo consenso está se formando em torno do que denomina de “produtivismo”; os países vão voltar a cuidar de sua própria economia real em detrimento da ênfase nas finanças: “trabalho e localismo em vez de financeirização, consumismo ao invés de globalismo” – afirma ele sem corar provavelmente. O primeiro prevê a continuação do neoliberalismo nas próximas décadas do século XXI e o segundo acredita no surgimento de um novo keynesianismo.
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