A crítica de Marcuse à Fromm

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Como se sabe, a avaliação negativa de Herbert Marcuse da obra de Erich Fromm – assim como das teorias de Karen Horney e de Harry S. Sullivan, ou seja, ao que denomina de “revisionismo neofreudiano” – se encontra no epílogo do livro Eros e Civilização, publicado originalmente em 1955. A escola culturalista – diz ele – rejeita a teoria da pulsão de Freud e, ao fazê-lo, inibe o seu caráter crítico da sociedade: “o enfraquecimento (…) da teoria da sexualidade [original], conduz a um enfraquecimento [revisionista] da crítica sociológica” (Marcuse, 1978, p. 209).[2]

Aqui, apenas o primeiro autor acima mencionado, Fromm, será considerado. Ademais, a apreciação de autores diversos por atacado costuma perder a precisão, cometendo injustiças. E este, pelo menos à princípio, pode ser o caso aqui discutido.  

Veja-se, Marcuse sustentou em seu texto que Fromm havia se afastado da teoria da libido de Freud.  No entanto, Fromm, num de seus últimos escritos, esclareceu que nunca rejeitara a teoria das pulsões de Freud, ainda que tenha criticado o seu caráter estático: “minha crítica à teoria da libido não se dirige a sua orientação biológica como tal, mas antes (…) a fisiologia mecanicista na qual (…) se enraíza” (Fromm, 2013, p. 19).

Continuar lendo

Inflação crescente; salários decrescentes

Autor: Prabhat Patnaik – People Democracy – 11/10/2022

Pela primeira vez, a taxa anual de inflação na zona do euro, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor, atingiu dois dígitos: ultrapassou 10% em setembro de 2022, ante 9,1% em agosto. É claro que os preços da energia e dos alimentos impulsionaram esta aceleração da inflação, aumentando 41 por cento e 13 por cento, respectivamente, mas não foram os únicos itens a testemunhar um aumento da taxa de inflação.

Mesmo se deixarmos de fora energia e alimentos, a taxa de inflação em todas as outras commodities em conjunto aumentou de 5,5% em agosto para 6,1% em setembro. Dois terços do aumento da taxa de inflação entre agosto e setembro deveu-se, portanto, a outras commodities além de energia e alimentos. A narrativa de que a aceleração da inflação se deve inteiramente à escassez de energia e alimentos causada pela guerra na Ucrânia não é correta.

Também é falso por duas outras razões. Primeiro, essa aceleração é anterior à guerra na Ucrânia. A taxa de inflação anual, em comparação com o ano anterior, foi de 1,3 por cento em 2017, 1,5 por cento em 2018, 1,3 por cento em 2019 e -0,3 por cento em 2020. Subiu para 5 por cento em 2021, muito antes do A guerra na Ucrânia havia começado.

Continuar lendo

Capitalismo subsidiado

O Estado, hoje, é uma grua que levanta um capitalismo arruinado

Autor: Paul Sweeney [1], Social Europe, 6/10/2022

Para lidar com a crise climática, os governos devem reconhecer que apenas o Estado foi capaz de conter as crises nas três últimas crises.

Eventos climáticos extremos, como as inundações no Paquistão, que deixam um enorme número de mortes e espalham miséria em seu rastro, tornam a crise climática uma ameaça existencial.

Houve uma transformação revolucionária do capitalismo, o sistema econômico ocidental, em pouco mais de uma década. Quatro eventos extraordinários demonstraram que, na maioria dos países, a relação entre o Estado e o mercado se transformou, alterando radicalmente o sistema econômico. O impacto na política está sendo sentido, mas ainda não foi totalmente reconhecido, especialmente pelos progressistas.

A primeira grande mudança foi a resposta dos Estados-nação ao colapso em 2008 do modelo de neoliberalismo – atores “racionais” operando em mercados “livres” – com a crise financeira. O resgate estatal de empresas financeiras privadas custou grandes somas aos contribuintes de todos os países. No Reino Unido, o National Audit Office colocou o resgate dos bancos em £ 1 trilhão em seu pico. Nos Estados Unidos, entre muitas estimativas, foi adiantado um valor de US$ 500 bilhões. Quanto à Irlanda, custou € 64 bilhões – mais que o dobro da receita tributária total em 2010 – para resgatar seus bancos.

Continuar lendo

Como as finanças comandam o capitalismo

Autor: Pete Dolack,

Outras Palavras, 20/09/2022 – Counterpunch | Tradução: Vitor Costa

As dimensões do setor financeiro não têm relação com a economia. Deixando de lado a retórica, ele confisca, ou seja, não cria dinheiro. Quanto? Vale examinar alguns números: valor total das dívidas: US$ 305 trilhões; valor total de papéis financeiros negociados, em média, por dia: US$ 9,68 trilhões.

É muito dinheiro. Tanto que a imaginação tem dificuldades para compreender tais números. Uma maneira de enxergá-los em perspectiva é lembrar que o tamanho da economia mundial (produto interno bruto global para todos os países do mundo) foi de US$ 96,1 trilhões em 2021.

Em outras palavras, o volume de negociação de moedas (câmbio), ações, títulos e seus derivativos supera o tamanho da economia global a cada 10 dias úteis. (O período é quase certamente um pouco mais curto, já que os US$ 9,68 trilhões, média diária de negociação, não incluem a maior parte dos títulos dos Estados, cujo valor negociado é difícil de obter.) Para fazer outra comparação, o valor da dívida dos governos, empresas e famílias do mundo (o total de US$ 305 trilhões acima) é mais de três vezes e meia o valor de toda a atividade econômica produzida em um ano.

Continuar lendo

O papel das mídias sociais

O economista do desenvolvimento, Daron Acemoglu, vê uma influência perniciosa das redes sociais como o Facebook, o Tweeter, o Reddit etc. na formação das pessoas. Ao mediarem as interações, eis que elas parecem criar indivíduos não só alienados, mas desvirtuados culturalmente. Mesmo se o meio influi no conteúdo das informações veiculadas, esse autor, como economista do sistema, é incapaz de enxergar o papel da economia, da concorrência e do individualismo capitalista, no mal uso corrente dessas redes.

O fim das boas interações sociais

Autor: Daron Acemoglu [1]

Publicação original: Project Syndicate, 7/09/22

As plataformas de mídia social não estão apenas criando câmaras de eco e, assim, propagando mentiras e facilitando a circulação de ideias extremistas. Inovações de mídia anteriores, que remontam pelo menos à imprensa, também fizeram isso, mas nenhuma delas abalou os próprios fundamentos da comunicação humana e da interação social.

Não apenas bilhões de pessoas em todo o mundo estão grudadas em seus telefones celulares, mas as informações que consomem mudaram drasticamente – e não para melhor. Nas plataformas de mídia social dominantes, como o Facebook, os pesquisadores documentaram que as falsidades se espalham mais rapidamente e mais amplamente do que conteúdo semelhante baseado em informações corretas. Embora os usuários não exijam desinformação, os algoritmos que determinam o que as pessoas veem tendem a favorecer conteúdo sensacionalista, impreciso e enganoso, porque é isso que gera “engajamento” e, portanto, receita de publicidade.

Continuar lendo

Economia pós-global: o que esperar?

As três ondas de globalização e as eras de catástrofe [2]

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A primeira parte do título deste artigo é uma tradução direta do cabeço – The post-global economy – de um conjunto de artigos sobre o futuro do capitalismo, que foi publicado no portal Project Syndicate, em 18 de agosto de 2022. O que aqui se apresenta é uma crítica desses textos escritos por economistas do sistema, pois busca fornecer uma outra perspectiva sobre o mesmo tema.

O que está em curso na economia capitalista mundial após as crises de 2008 (bolha imobiliária nos EUA) e 2020 (pandemia do novo coronavírus) e 2022 (guerra da Ucrânia)? – eis, pois, a grande interrogação. O que o futuro reserva para a humanidade diante desta mutação conservativa do sistema econômico ora largamente hegemônico?

Eis como a gerência desse sítio apresenta o problema:

Uma sucessão de choques ao longo da última década e meia reverteu significativamente a tendência econômica internacional dominante de toda a era da pós-Guerra Fria. Mas mesmo se os relatos da morte da globalização têm sido exagerados, as interrupções contínuas nas redes de comércio e produção apresentam grandes dores de cabeça para governos e para as empresas em todo o mundo.

Dois artigos se sobressaem num conjunto de seis e eles são bem otimistas na caraterização do futuro. Um deles, escrito por André Velasco, professor da London School of Economics, julga que vai nascer uma globalização mitigada, ao mesmo tempo mais sustentável e mais duradoura. O outro, Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard, acha que um novo consenso está se formando em torno do que denomina de “produtivismo”; os países vão voltar a cuidar de sua própria economia real em detrimento da ênfase nas finanças: “trabalho e localismo em vez de financeirização, consumismo ao invés de globalismo” – afirma ele sem corar provavelmente. O primeiro prevê a continuação do neoliberalismo nas próximas décadas do século XXI e o segundo acredita no surgimento de um novo keynesianismo.

Continuar lendo

Sob o céu negro do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

O nome dado a este artigo provém de mera tradução do título do último livro de Anselm Jappe, Sous le soleil noir du capital, recentemente publicado[2] em França. Já de início – recomenda-se fortemente – deve-se notar o seu caráter hiperbólico: se o sol amarelo que faz o dia e se esconde na noite garante a vida na face do planeta, um sol negro só pode representar a morte.

O sol negro é, como se sabe, um símbolo fascista. A negação da vida que ele representa se afigura, pois, enfática, terrível, absoluta. Eis que ela provém de um ressentimento e mesmo ódio profundo engendrado pelas frustrações que o capitalismo proporciona para muitos, especialmente para os integrantes das classes médias. Mas essa visão soturna não é uma novidade na obra desse autor. Vale lembrar que o seu penúltimo livro, A sociedade autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição, também apontava para um fim trágico.

O livro reúne vinte e cinco artigos escritos nos últimos dez anos por um dos principais líderes atuais da corrente de pensamento crítico que se dá a conhecer como “crítica do valor” ou “crítica do valor/dissociação”. Fundada por Robert Kurz no começo dos anos 1990, tem atualmente seguidores na Alemanha, França, Brasil e em outros países, mas sempre na forma de pequenos grupos. O livro começa com uma breve história da crítica do valor com base nos escritos de Kurz, discute o fetichismo em Lukács e Adorno assim como outros temas, para se perguntar, ao final, o que falta às crianças.

De onde vem Anselm Jappe?

Continuar lendo

Haverá uma queda no PIB global?

Os economistas estão indecisos. O PIB global só caiu por duas vezes abaixo de zero (em 2008 e 2020) nos últimos 70 anos, ou seja, desde o fim da II Guerra Mundial. No entanto, haverá certamente uma recessão na economia global; o PIB global deverá se situar na casa dos 2%, mas haverá queda do PIB em alguns países importantes da Europa (Alemanha entre elas); uma redução forte do crescimento da economia capitalista nos EUA e na China está também prevista. O gráfico que se segue apresenta um indicador que costuma acertar na vinda de recessões.

Um artigo de Michael Roberts reporta as discussões havidas no encontro anual de banqueiros centrais norte-americanos na vila de Jackson Hole, nos Estados Unidos.

Lá no vale de Jackson Hole

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 27/08/2022

Jay Powell, presidente do Federal Reserve dos EUA, fez um discurso no simpósio anual de verão dos banqueiros centrais em Jackson Hole, Wyoming, EUA. Ele foi observado de perto por investidores financeiros e economistas para ver se apoiaria a estratégia de um “pivô do Fed” na política de taxas de juros. O pivô funcionaria como um abrandamento na atual alta agressiva da taxa básica de juros do Fed.

Continuar lendo

Acabou o impulso de globalização?

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 27/04/2022

Além da inflação e da guerra, o que atrai o pensamento econômico atual é o aparente fracasso do que a teoria econômica mainstream aprecia chamar de “globalização”. O que ela quer dizer com esse termo? Refere-se à expansão livre do comércio e do fluxo de capital através das fronteiras. Em 2000, o FMI identificou quatro aspectos básicos da globalização: comércio e transações, movimentos de capitais e investimentos, migração e circulação de pessoas e disseminação do conhecimento. O seu perfil atualmente se apresenta assim:

Todos esses componentes aparentemente se expandiram a partir do início da década de 1980 como parte da reversão neoliberal das políticas nacionais de macrogestão anteriormente seguidas. Ditas keynesianos, elas eram adotadas por governos no ambiente da ordem econômica mundial de Bretton Woods (isto é, sob a hegemonia dos EUA). A nova regra agora era quebrar as barreiras tarifárias, cotas e outras restrições comerciais, permitindo assim que as multinacionais negociassem “livremente” e transferissem os seus investimentos no exterior, ou seja, para áreas de mão de obra barata, com a finalidade de aumentar a lucratividade. Isso levaria à expansão global e ao desenvolvimento harmonioso das forças produtivas e ao crescimento dos recursos do mundo – pelo menos era o que se afirmava então.

Não havia nada de novo nesse fenômeno. Desde que o capitalismo se tornou o modo de produção dominante nas principais economias, já em meados do século XIX, houve períodos de aumento do comércio internacional e de exportação crescente de capital. Em 1848, os autores do Manifesto Comunista notaram o aumento no nível de interdependência nacional trazido pelo capitalismo e previram o caráter universal da sociedade mundial moderna:

Continuar lendo

Estagflação renitente

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Uma das contradições que sustentam a tese do ocaso do capitalismo se encontra na geopolítica do capital ou, o que é o mesmo, nas relações de concorrência – cooperação e competição – dos estados nacionais que formam a atual economia globalizada. O desenvolvimento das “forças produtivas” – diz Murray Smith em Invisible Leviathan[2] – “extrapolou os confins do sistema de estados-nações, mas são ainda as nações individuais que enfrentam os graves problemas”, isto é, os problemas causados pelo próprio processo contraditório de acumulação de capital.  

Eis alguns deles: a emergência climática, as pandemias, a poluição dos oceanos, a manutenção das cadeias da produção de mercadorias, a inflação global etc. Nesta nota quer-se tratar apenas do processo de estagflação que aparece agora como um fenômeno renitente e duradouro da produção capitalista. Baixo crescimento com inflação está aí como um novo “normal” que vai continuar assombrando o futuro das economias capitalistas em geral. Mas, para fazê-lo, é preciso dar dois passos iniciais com a finalidade de enquadrar esse fenômeno em suas condições objetivas.

O primeiro deles consiste em apresentar o atual estágio do processo de expansão da mundialização do capital. Um indicador desse processo histórico se encontra na figura abaixo; ele mostra graficamente a evolução da razão entre as exportações mundiais totais e o PIB mundial. Aparecem nesse perfil, notoriamente, três ondas de globalização que marcam a história do capitalismo: entre 1870 e 1914, entre 1945 e 1980 e entre 1980 e 2008; assim como, também, um período de desglobalização entre 1914 e 1945. Em adição, o gráfico indica o surgimento de um novo período de contração do comércio internacional, o qual ocorre após a grande crise de 2008.

Continuar lendo