Socialismo, utopia inviável? Parte III

Em posts anteriores buscou-se encaminhar notas que buscavam sintetizar as principais críticas à possibilidade de coordenar a atividade econômica numa sociedade que aboliu a grande propriedade privada dos meios de produção, os mercados de realização do capital e, assim, os preços como representantes dos valores constituídos pelo trabalho abstrato e, portanto, alienado.

Essas críticas, vale lembrar aqui, foram centralmente ventiladas por Ludwig Mises e Friedrich Hayek, ambos importantes precursores teóricos da variegada corrente de pensamento e de prática política que passou a ser chamada grosso modo de neoliberalismo. Nesta nota, procura-se mostrar que a argumentação de Hayek contra o socialismo, que até recentemente parecia imbatível, foi superada. A nota que aqui se apresenta vale-se de um artigo seminal de Evgeny Morozov, Socialismo digital? O debate sobre o cálculo na era dos grandes sistemas de informação.

A nota encontra-se aqui: Morozov – o Big Data e o planejamento democrático

O texto original em inglês de Evgeny Morozov pode ser obtido de graça no sítio da New Left Review

 

Socialismo, utopia inviável? – Parte II

Dando continuidade à abordagem do tema do post da semana anterior, agora se publica uma nota sobre as contribuições de Friedrich Hayek ao debate secular sobre o cálculo econômico no socialismo. Estas se encontram nos seguintes quatro artigos: Economia e conhecimento (1936); O uso do conhecimento na sociedade (1945); O significado de competição (1946); e Competição como um processo de descoberta (1968).

Como se pode perceber, as respostas socialistas dadas ao artigo original de Mises estão sendo aqui desprezadas porque foram feitas grosso modo do ponto de vista da teoria neoclássica de equilíbrio geral – uma construção teórica que, em última análise, é irrelevante para entender não só o funcionamento real da economia capitalista, mas também para pensar o socialismo.

Hayek herdou de Mises a ideia de que o sistema econômico é um sistema complexo e que, nesse caso, não é possível supor que os agentes econômicos têm conhecimento perfeito. Ora, essa premissa orienta toda a crítica de Hayek ao socialismo. Mas o que ele entende por sistema complexo? Apenas um tipo de sistema complexo pode resolver o problema econômico da sociedade contemporânea?

De qualquer modo, esse autor argumentará seguidamente que os mercados resolvem bem, descentralizadamente, o problema social da formação do conhecimento necessário à coordenação das ações econômicas no interior do sistema capitalista. E que esse problema não pode ser solucionado satisfatoriamente no socialismo por meio do planejamento centralizado.

Hayek, no entanto, transfere o problema do conhecimento tal como ele é posto – e resolvido anarquicamente – no capitalismo para um sistema social alternativo que tem outra lógica e outra finalidade. E essa consideração abre um campo de disputa mais interessante do que aquele em que o debate tem sido travado até agora.

Indica-se na nota que cada modo de produção enfrenta um particular problema de formação do conhecimento cuja solução – que não é técnica em primeiro lugar, mas sobretudo social – faz-se necessária para o seu próprio funcionamento. Ora, se o socialismo democrático e pós-capitalista pretende ser viável, ele terá de resolver esse problema na forma específica em que se apresentar.

A nota se encontra aqui:Hayek – A competição e a rivalidade contra o socialismo

Socialismo, utopia inviável? – Parte I

Com este post iniciamos neste blog uma revisão das discussões sobre a questão do planejamento no socialismo. O primeiro escrito a ser examinado criticamente é O cálculo econômico numa nação socialista de Ludwig von Mises, publicado em 1920.

Esse artigo é marcante porque deu início ao chamado debate sobre o cálculo econômico no socialismo que ainda não terminou e que, portanto, tem quase 100 anos. Nesse texto, Mises declara simplesmente que esse cálculo se torna impossível numa forma de organização que abole a propriedade privada, o dinheiro, os mercados e, assim, os preços de mercado. E que, portanto, o socialismo fracassará.

Um seu fervoroso seguidor de nacionalidade russa, escrevendo em 1990, logo após o colapso do socialismo soviético, sintetiza assim a sua tese principal:

Ludwig von Mises demonstra, de uma vez por todas, que, sob o planejamento central socialista, não é possível o cálculo econômico e que, portanto, a economia socialista é impossível – não apenas ineficiente ou menos inovadora (…) mas realmente, verdadeiramente e literalmente impossível.

A nota que acompanha esse post pergunta simplesmente se essa tese é sustentável ou se ela pode ser considera incorreta. Ora, se a controvérsia mencionada, nascida em 1920, durou até os dias de hoje é porque muitos autores que recepcionaram o seu texto dele discordaram radicalmente.

A nota se encontra aqui: Mises – O socialismo como impossibilidade prática

Da teoria econômica do socialismo – III

Conclui-se hoje a publicação neste blog do artigo seminal de Fikret Adaman e Pat Devine que versa sobre as alternativas teóricas existentes que ousaram repensar o socialismo, agora como socialismo radicalmente democrático. Manteve-se o título escolhido por eles, mas, para evitar confusão, realça-se fortemente que o texto e os seus argumentos se encontram no campo da economia política.

Todos eles, como já se afirmou anteriormente, pretendem superar a tese de que o futuro do socialismo é uma impossibilidade prática. Ademais, todos eles mantêm uma premissa implícita; “os socialistas democráticos acreditam que a democracia capitalista é capitalista demais para ser totalmente democrática” (Joseph M. Schwartz em A crise do liberalismo é a promessa do socialismo, em Jacobin Brasil, 2019). Ademais, nunca desaparece totalmente o risco de que se torne um autoritarismo…

Em consequência, os novos socialistas realmente “novos” não pretendem abolir o liberalismo realmente existente, mas sim, conservá-lo e ampliá-lo para superar algumas de suas deficiências. Um verdadeiro “florescimento da individualidade humana” não pode acontecer quando os seres humanos estão ainda submetidos à relação de capital. Mas também é necessário que fiquem estritamente garantidos, de modo institucional, os direitos civis e políticos postos na época moderna.

As alternativas discutidas em Da teoria econômica do socialismo se encontram num campo de um debate secular sobre a possibilidade e sobre a fertilidade (eficácia e eficiência) de uma nova experiência de socialismo. Como se sabe, a escola austríaca moderna (Mises e Hayek são os seus principais autores) contestam com argumentos fortes não só o último predicado desejável do socialismo, mas também o primeiro.

A terceira parte do artigo se encontra aqui: Da teoria econômica do socialismo – Parte III

Da teoria econômica do socialismo – II

Continua-se hoje a publicação neste blog do artigo seminal de Fikret Adaman e Pat Devine que versa sobre as alternativas teóricas existentes que ousaram repensar o socialismo, agora como socialismo radicalmente democrático. Todos eles, mantendo-se no campo da economia política rigorosa, pretendem superar a tese de que o futuro do socialismo é uma impossibilidade prática.

Todos eles, por isso mesmo, partem de um fracasso: como dizem os autores do primeiro artigo, “o modelo marxista clássico, entendido como planejamento centralizado de todas as decisões de produção, foi desacreditado pela experiência soviética”. Ao mesmo tempo, persiste no tempo um debate secular sobre a possibilidade e sobre a fertilidade de uma nova experiência de socialismo. Essa questão tem sido abordada dentro do chamado “debate sobre o cálculo socialista”, o qual já tem mais de um século de existência.

Na segunda parte do artigo que agora vem a luz, os autores mencionados apresentam e discutem a alternativa que é usualmente chamada de “socialismo de mercado”. Trata-se este de um modelo de socialismo que abole a propriedade privada dos meios de produção, substituindo-a pela propriedade social ou comum dos próprios trabalhadores. No entanto, continua mantendo os mercados como fonte de articulação e de coordenação das unidades de produção entre si e entre elas e os consumidores.

A segunda parte do artigo se encontra aqui: Da teoria econômica do socialismo – Parte II

Da teoria econômica do socialismo – I

Inicia-se hoje neste blog a publicação de uma série de artigo teóricos que versam sobre o futuro (incerto) do socialismo. Na verdade, todos os textos a serem aqui ventilados guardam a característica de ficarem no campo da economia política rigorosa e, portanto, teórica. Eis que o socialismo, hoje, parece uma má utopia e não uma alternativa realista.

Como dizem os autores do primeiro artigo, Fikret Adaman e Pat Devine, com a queda do socialismo soviético “os socialistas de todos os tipos foram afetados por uma profunda perda de confiança e rebaixamento de expectativas (…) A razão subjacente para essa perda de confiança é que a conjuntura histórica coincide com uma profunda crise da teoria socialista, acima de tudo da teoria de uma economia socialista”.

Uma das consequências desse refluxo do socialismo é que ele só poderá se tornar viável como alternativa se puder se constituir como um socialismo radicalmente democrático. Existem, no entanto, várias tentativas de pensar o pós-capitalismo que pretendem preencher esse vácuo. E o primeiro artigo aqui publicado – em três partes – faz uma bela apresentação dessas tentativas.

A primeira parte do artigo se encontra aqui: Da teoria econômica do socialismo – Parte I

Aversão ao pleno-emprego?

O economista marxista indiano Prabhat Patnaik procurou defender ainda o sistema de acumulação centralizado que ainda é usualmente chamado de socialismo ou de socialismo real. “O velho regime socialista” – diz ele em seu escrito (em inglês) denominado Por que o socialismo não tem crises de superprodução? – “tem sido objeto de muita difamação”…

Segundo ele, o socialismo, ao contrário do capitalismo, visa o pleno-emprego. Pois, os capitalistas, ao contrário dos líderes socialistas, segundo ele ainda, têm aversão à máxima ocupação da força de trabalho. Será que essa tese é verdadeira? Ou ela provém, em última análise, de uma infiltração do individualismo metodológico no campo do marxismo?

No post aqui apresentado procura-se mostrar por que o sistema de acumulação descentralizado, ou seja, o capitalismo, não se instala no pleno-emprego e por que o sistema de acumulação centralizado, incorretamente chamado de socialismo, nele permanece.

Apesar dessa diferença de comportamento macroeconômico, argumenta-se aqui que ambos esses sistemas enquanto sistemas são guiados pela acumulação de capital. E, se assim é, procura-se mostrar por que ocorre essa apontada diferença?

A resposta do blog está aqui: Capitalismo, socialismo e pleno-emprego

Do totalitarismo implícito

Este post encaminha uma nota em que se examina a tese de um cientista político norte-americano (Sheldon Wolin) sobre a natureza da democracia nos Estados Unidos. Ela argui – contra toda a opinião estabelecida no “mundo ocidental” – que o sistema político dos Estados Unidos da América do Norte se encontra completamente dominado pelo poder das grandes corporações e que, por isso, não é de fato democrático – mas, ao contrário, totalitário.

Segundo esse autor, entretanto, trata-se de um totalitarismo invertido. Pois, nos regimes totalitários reconhecidos como tais a economia estava subordinada à política. Mas nos regimes totalitários apenas aparentemente democráticos ocorre o contrário: a política está, ainda que sub-repticiamente, subordinada à economia, isto é, ao comando dos lobbies corporativos que atuam sempre em detrimento dos interesses da grande maioria.

Aqui se procura argumentar, primeiro, que esse autor tem uma compreensão inadequada da função do sistema econômico na sociedade moderna. Em que, em consequência, não vê que a economia dominava a política também nos regimes totalitários que chama de “clássicos”.  Ademais, busca-se sustentar que existe, sim, um potencial totalitário, mas que ele se encontra implícito nos atuais países apresentados como simplesmente democráticos.  Trata-se, entretanto, de um poder que não se torna total, pelo menos enquanto não está ameaçado, porque está contido por forças sociais contra-arrestantes, as quais se originam de uma certa anarquia conflituosa que é inerente ao próprio capitalismo.

A nota se encontra aqui: Do totalitarismo invertido – e implícito

O artigo original: Sheldon Wolin e o totalitarismo Invertido

Esboço de outro socialismo

1984-de-orwellO filósofo Denis Collin no texto em apenso apresenta um novo conceito de transformação social, radicalmente diferente, segundo diz, das tendências tradicionais da socialdemocracia, do socialismo cientificista e do comunismo de caserna. Originalmente escrito em francês, está aqui traduzido para o português como uma forma de contribuir para o debate sobre uma nova perspectiva para a superação do capitalismo. Essa perspectiva, mesmo sendo ainda incipiente, pretende encontrar um caminho para superar tanto o reformismo fracassado quanto o centralismo revolucionário. A inspiração para a proposta vem de uma leitura de teses de George Orwell.

O texto foi publicado na revista O olho da história e se encontra aqui: esboco-de-outro-socialismo

Horizonte do capitalismo

Ascensão e DeclinioPerscrutando o horizonte histórico do capitalismo

 Após vários séculos de desenvolvimento capitalista, não teriam se realizadas já certas condições objetivas para a superação desse modo de produção? As relações de produção que o caracterizam não estariam entravando o desenvolvimento das forças produtivas? A questão não é certamente fácil de responder. Entretanto, mesmo sem pretender chegar a uma conclusão definitiva, é possível observar certa tendência à estagnação, a qual se manifesta especialmente nas economias ditas desenvolvidas. Após sugerir, como base na noção de “causação cumulativa”, que a histórica do capitalismo pode ser dividida numa fase de ascensão e numa fase de declínio, examinam duas grandes evidências empíricas: aquela que mostra uma queda secular da taxa de lucro e aquela que examina a passagem histórica da grande onda de crescimento da produtividade do trabalho.  O artigo concluí que chegou o momento de repensar o pós-capitalismo, isto é, um novo socialismo, agora profundamente democrático, como uma possibilidade real, ou seja, como um parto necessário que talvez seja possível fazer acontecer.

O artigo está aqui: Perscrutando o horizonte histórico do capitalismo