O todo da tempestade: dinheiro, dívida e crise na atual longa depressão

Apresenta-se nessa postagem um artigo muito de Alan Freeman que este blogueiro traduziu já há dois anos para ser publicado numa revista de esquerda que tem a questão da crise capitalista como um tema importante. Infelizmente, por falta de periódico que publica traduções, ele permaneceu guardado no computador durante todo esse tempo. Agora, ele está sendo publicado no próprio blog Economia e Complexidade. Mesmo se perdeu um pouco a atualidade, o texto é muito instrutivo no que respeita à compreensão da crise da perspectiva de Karl Marx.

O artigo investiga os mecanismos e as causas das recessões e depressões. Investiga também a relação destas últimas com as crises financeiras mais espetaculares que as anunciam. Demonstra como o conceito de “expressão monetária do tempo de trabalho” permite entender o aspecto mais difícil dessa relação, a saber, como o dinheiro adquire valor e, assim, torna-se capaz de funcionar como “valor auto expansível”. Em consequência, permite compreender, nas condições específicas que caracterizam as recessões e depressões, porque ele funciona como alternativa ao emprego de capital na produção.

Para lê-lo, é preciso baixar o artigo em pdf.

Como encontrar o gozo perdido

Autor: Todd McGowan[1]

Marx indica como o modo de produção capitalista captura e transforma a força pulsional da atividade humana, vendo o comunismo como um corretivo implícito para essa distorção. Em sua visão crítica, o impulso de acumular não é um impulso inerente à própria subjetividade humana de tal modo que uma alternativa aparece como possível. No segundo tomo de O Capital, Marx enuncia essencialmente a posição da política emancipatória que vem da psicanálise quando diz: “o capitalismo já estará essencialmente abolido quando se assumir que a satisfação é o motivo principal da ação humana – e não mais o enriquecimento por si mesmo”. Aqui, a distinção entre gozo e enriquecimento como motivos para a ação separam o capitalismo dos outros sistemas econômicos, mesmo os não mencionados. A alternativa à acumulação é a satisfação – ou, mais especificamente, o reconhecimento da satisfação.

 O problema fundamental do capitalismo é este: ele não permite reconhecer o gozo ou mesmo entender o gozo como aquilo que move as pessoas. Não é que o capitalismo as prive da satisfação de pensar, amar, teorizar, cantar, pintar e esgrimir – para usar os exemplos do próprio Marx; ele não permite que as pessoas vejam a satisfação como um motivo possível para os seus atos. Pode-se pensar no impulso para o gozo ou num impulso centrado no gozo como uma possibilidade existente para além do sistema capitalista. Fora já dele, essa pulsão – pulsão de morte[2] – não teria outra finalidade senão o gozo, ou seja, operaria em contraposição à lógica acumulativa da pulsão capitalista. A pulsão capitalista de acumulação representa uma distorção da pulsão de morte, uma reescrita dela que muda a sua estrutura.

A luta política não é simplesmente uma luta pelo direito de usufruir de certos bens e pela melhor repartição desse direito. É também – e mesmo predominantemente – uma luta sobre como identificar e localizar o modo satisfação. A ideologia capitalista é hoje triunfante porque venceu esta luta no passado. Como sujeitos sujeitados ao capitalismo, as pessoas definem o gozo em termos de acumulação: goza-se na medida em que se acumula objetos desejados. E essa definição se tornou onipresente: de acordo com a lógica que prevalece hoje, até a satisfação que deriva do romance vem da aquisição de um objeto desejado. Mas essa não é a única maneira de pensar a satisfação. Uma das tarefas mais importantes para a política emancipatória hoje consiste em transformar a maneira usual de pensar o gozo – mediante uma quebra do vínculo posto pela ideologia capitalista entre acumulação e o gozo.

Mas o impulso capitalista para acumular não liquida simplesmente com a satisfação. Mesmo estando reescrita, essa pulsão continua a proporcionar uma satisfação costumeira. Contudo, a pulsão de acumulação dominante torna mais difícil para os sujeitos identificarem como desfrutam-na. A adesão pessoal ao capitalismo não ocorre por causa de uma negligência completa da satisfação própria, pois, na verdade, isso depende de modo fundamental da capacidade de proporcionar satisfação desse sistema. Se os súditos capitalistas não estivessem realmente se divertindo, não continuariam a ser súditos capitalistas. As pessoas realmente se divertem no mundo capitalista – a pulsão de morte continua a funcionar – mas elas não gozam da maneira pela qual a ideologia capitalista as apreende em sua lógica econômica.

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Economia pulsional: como o ser humano obtém satisfação

Introdução: Eleutério F. S. Prado

Como se sabe, é urgente uma renovação do projeto político do socialismo democrático, um projeto que deixe para trás os socialismos autoritários do século XX, alguns dos quais resistem ainda no tempo. Com esse fim, alguns autores, raros ainda, estão trabalhando para unir a crítica da economia política com uma crítica da economia pulsional dos indivíduos sociais, especialmente, sob as condições do capitalismo. Trata-se de um esforço para unificar as críticas sociais de Karl Marx e Sigmund Freud por meio de uma integração conceitual, não por mera junção externa, algo que ainda não havia sido feito.

Um deles é o autor do livro Gozando com o que não se tem – o projeto político da psicanálise (Enjoying we don’t have – the political Project of psychoanalysis, 2013), do qual que foi traduzindo o excerto abaixo. Esse recorte foi escolhido porque ele sustenta que a “psicanálise é fundamentalmente uma teoria econômica da psique”. Eis que o trabalho – mesmo com sentidos distintos – encontra-se no núcleo do modo de ser do sistema econômico e o do sistema psicológico. Assim como o a captura do trabalho define a economia política, a captura da pulsão define a economia pulsional.

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Estagflação, estagnação ou inflação?

Nome original: O dilema dos bancos centrais

Michael Roberts – The next recession blog – 15/12/2021

“A inflação que obtivemos não foi a inflação que esperávamos”, disse o presidente do Federal Reserve, Jay Powell, em sua coletiva de imprensa, depois que o comitê de política monetária do Fed decidiu acelerar a “redução” de suas compras de títulos para zero em março de 2022. Sugeriu, então, que começaria a aumentar a taxa de juros básica do Fed, de zero para acima disso.

O que Powell quis dizer com a expressão “não foi a inflação que esperávamos”? Ele não se referiu apenas ao nível da taxa de inflação. A inflação de bens de consumo e serviços nos EUA está agora muito mais alta do que a previsão do Fed em setembro, quando ocorreu a sua última reunião. Isso também está ocorrendo com o chamado de “núcleo da inflação”, uma taxa que exclui os preços de energia e dos alimentos em alta acelerada. A inflação plena atingiu 6,5% em novembro, a maior taxa em quase 40 anos.

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Pulsão de morte – Compulsão do capital

Uma esforço para incorporar a psicanálise na crítica da economia política tal como vem sendo feito por outros autores.

Autor: Eleutério Prado [1]

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Pelo título apresentado, é evidente que o artigo trata de um tema que se encontra supostamente na intercessão da psicanálise e da crítica da economia política. Enlaça, portanto, os ensinamentos de dois autores, Sigmund Freud e Karl Marx, que trataram respectivamente do modo de reprodução característico da psique do homem moderno e do sistema econômico capitalista. Será preciso, portanto, mostrar que a ambição de aproximar, sobrepor e combinar esses dois campos do conhecimento faz sentido.

Este artigo investiga o tema de modo introdutório.  Por isso, a exposição deve começar por definições. E terá seguimento por meio de um diálogo com autores clássicos. Pretende mostrar que há uma afinidade entre a pulsão da morte e a compulsão do capital com a ajuda de um escrito de Samo Tomšič.

O que é pulsão da morte? Freud, em seu texto Além do princípio do prazer, afirma que, em sua experiência prática como psicanalítica, foi “levado a distinguir duas espécies de instintos[2], aqueles que pretendem conduzir a vida à morte e os sexuais, que sempre buscam e efetuam a renovação da vida” (Freud, 2010, p. 214). Para poder distingui-los, apresenta primeiro o gênero dessas duas espécies[3]: “restaurar um estado anterior é realmente uma característica universal dos instintos” (idem, p. 236). Qual seria, então, a diferença entre eles?

O instinto da vida orienta as posturas e as ações que visam obter satisfação. Ora, segundo esse autor, “o curso dos processos psíquicos é regulado automaticamente pelo princípio do prazer” (idem, p. 162). E ele é negativo: sempre que as condições da vida criam uma tensão desprazerosa, a psique busca rebaixá-la ou mesmo suprimi-la e, ao fazê-lo, gera satisfação e até mesmo deleite.   Esse princípio, portanto, busca “tornar o aparelho psíquico isento de excitação ou conservar o seu montante (…) constante ou a menor possível” (idem, p. 237).  Diante de uma sensação de medo provocada por uma doença, por exemplo, esse instinto leva a pessoa buscar refúgio no saber do feiticeiro, do curandeiro, do médico etc. para que eles consigam dominá-la. 

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Dilema energético: jogo de soma zero

Autor: Cédric Durand – 17/11/2021 – Blog Sidecar da NLR

Em minha recente intervenção no blog Sidecar, desenvolvi o argumento de que as perturbações econômicas desencadeadas pela alta dos preços de energia – especialmente no mercado de gás – podem estar conectadas às políticas climáticas dos governos. Adam Tooze, respondendo em seu Chartbook # 51 , desafia essa tese que chamei de “dilema energético”. O que Tooze rejeita sem ambiguidade é o mote de que as empresas de combustíveis fósseis ocidentais avaliaram a perspectiva de mudanças nas políticas relacionadas ao clima em seu comportamento de investimento e que isso contribuiu para as tensões no lado da oferta que vieram à tona neste outono. Embora eu concorde que evidências mais fortes são necessárias para chegar a uma conclusão definitiva, ainda assim tenho várias reservas sobre o ensaio de Tooze.

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Dilema energético: outra explicação

No texto em sequência Adam Toose contesta a tese de Cédric Durand de que uma contradição – a acumulação de capital requer elevação da oferta de energia, mas a crise climática opera para diminui-la – está presente na transição energética. Num poste a ser brevemente publicado, Cédric Durand fornece a sua resposta.

Autor: Adam Toose, 20/11/2021, Chartbook

Em 2021, os preços da energia em todo o mundo dispararam dando origem ao boato sobre a existência de uma “crise energética”.

Por que a oferta de carvão, petróleo e gás ficou tão aquém da demanda? Depois de um artigo no New Statesman e uma troca de ideias com Richard Seymour, volto à questão novamente. E não apenas porque a indústria de energia é complicada e fascinante, mas porque a resposta que dei é crucial para localizar onde se está na batalha pela transição energética.   

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Dilema energético: eficiência ou eficácia?

Autor: Cédric Durand

Blog Sidecar, 5/11/2021

A bifurcação ecológica não é um jantar de gala. Após um verão de eventos climáticos extremos e um novo relatório do IPCC confirmando suas previsões mais preocupantes, grande parte do mundo está agora sendo sacudida por uma crise de energia que prefigura crescentes problemas econômicos no futuro. Essa conjuntura enterrou o sonho de uma transição harmoniosa para um mundo pós-carbono, trazendo à tona a questão da crise ecológica do capitalismo. Na COP26, o tom dominante foi de impotência. As tragédias iminentes deixaram a humanidade encurralada entre as demandas imediatas de reprodução sistêmica e a aceleração dos distúrbios climáticos.

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Do neoliberalismo “keynesiano”

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

John M. Keynes & Friedrich Hayek

Trata-se de um oxímoro? Bem, sugere-se aqui que esse termo formado de opostos, ainda que inédito, caracteriza melhor a fase do capitalismo após a crise de 2007-08.[2] Mas essa combinação díspar, uma integração inesperada, não se segue tranquilamente. Talvez se devesse caracterizar esse novo momento do neoliberalismo, como ficará claro mais à frente, como “pseudo-keynesiano” – e não simplesmente como keynesiano, mesmo entre aspas. Para começar a esclarecer essa questão aqui posta, é preciso começar apresentando um rápido registro histórico.

Como se sabe, o próprio capitalismo no pós-II Guerra Mundial passou por duas fases bem conhecidas: a primeira, que durou de 1945 até o fim da década dos anos 1970 ou pouco depois, pode ser chamada propriamente de keynesiana; a segunda, que se iniciou claramente a partir de 1982 e prosperou até a grande crise do começo do século XXI, é normalmente chamada de neoliberal. Ambas, cada uma em seu próprio momento histórico, visaram garantir a sobrevivência e mesmo a maior prosperidade possível do capitalismo. Como essa duas formas sucessivas de governança acabaram se esgotando, uma outra, não inteiramente nova, teve de surgir. Para mostrar como essas duas formas estão agora se combinando, é preciso apresentar uma sequência de distinções.

De acordo com a formulação precisa de Dardot e Laval[3], o neoliberalismo consiste em uma racionalidade baseada nas próprias normas que regem a concorrência dos capitais. Essa razão normativa afirma que a ação humana deve ser conduzida pela maximização de resultados em todas as esferas da vida; para tanto, os seres humanos devem se comportar como as empresas mercantis, devem se encarar como capitais humanos. Eis que visa conformar de modo amplo – senão total – os comportamentos dos atores sociais em geral, governantes e governados, capitalistas e trabalhadores, sejam estes últimos assalariados ou por conta própria.

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Para onde vai a economia mundial?

Autor: Michael Roberts.

Fonte: The next recession blog. Data de publicação: 19/11/2021

Como está avançando a suposta recuperação global após o “fim” da pandemia de COVID? O consenso econômico é que as principais economias estão se recuperando rapidamente, impulsionadas pelo aumento dos gastos dos consumidores e do investimento corporativo.

O problema à frente não parece ser um retorno ao crescimento econômico sustentado, mas uma inflação mais alta ou mais duradoura nos preços de bens e serviços, que poderia forçar os bancos centrais e outros credores a aumentar as taxas de juros. E isso poderia levar à falência de empresas altamente endividadas e, em seguida, a um novo crash financeiro.

Embora esse risco esteja claramente presente nos próximos dois anos, haverá realmente uma recuperação sustentada do crescimento econômico nos próximos cinco anos? Vamos nos lembrar das previsões oficiais. O FMI estima que em 2024 o PIB global ainda estará 2,8% abaixo de onde pensava que o PIB mundial estaria antes da crise pandêmica.

E a perda relativa de renda é muito maior nas chamadas economias emergentes – excluindo a China, a perda é próxima a 8% do PIB na Ásia e 4 a 6% no restante do Sul Global. De fato, as previsões para o crescimento real médio anual do PIB em praticamente todas as principais economias são de um crescimento menor nesta década em comparação com a década de 2010 – que chamei de Longa Depressão. 

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