A grande desvalorização I

Imagem - La grande dévalorisation

Dois autores do grupo de pesquisadores da “crítica do valor”, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle escreveram, em alemão, um livro muito interessante de interpretação da grande depressão, iniciada em 2008. Traduzido para o português, o título da obra fica assim: A grande desvalorização – porque a especulação e a dívida do Estado não são as causas da crise. O texto original foi publicado em 2012 e uma tradução para o francês apareceu em 2014: La grande dévalorisation… Nesta postagem, publica-se, primeiro, um resumo elaborado por eles mesmos da tese central do livro, o qual recebeu o seguinte título: A grande descarga de capital fictício. A versão aqui apresentada é despretensiosa, mas pretende estar de acordo com o texto original; ela foi elaborada a partir de uma tradução francesa do resumo escrito em alemão, a qual foi feita por Paul Braun. Ver http://www.palim-psao.fr/article-sur-l-immense-decharge-du-capital-fictif-par-ernst-lohoff-et-norbert-trenkle-108796981.html 

A interpretação da crise encontrada nesse livro está fundada numa conhecida tese de Robert Kurz segundo a qual, após a eclosão da terceira revolução industrial, o capitalismo entrou já na rota inexorável de seu próprio colapso. Pois, com ela, a produção social total de mais-valor, ao invés de crescer persistentemente como exige a lógica da acumulação de capital, passou a diminuir continuamente. Por isso, o grupo como um todo enxerga na enorme expansão financeira atual uma conclusão das contradições do próprio capital: por um lado, decorre de uma necessidade imanente da autovalorização do capital e, por outro, ocorre por meio de criação explosiva de capital fictício, capital fundado na apropriação possível de um mais-valor que, supostamente, será produzido no futuro. Como a massa de mais-valor está, segundo eles, declinando, o gigantesco volume de capital fictício assim criado não poderá se realizar enquanto tal. A valorização possível tornou-se, pois, impossível. Esses autores constatam, assim, que a relação de capital encontrou um limite que se revelará, ao fim e ao cabo, por mais que dure a agonia do sistema, como insuperável. O Reino de Hades é, pois, o seu destino…

Para explicar criticamente essa tese, publica-se também o pequeno texto Queda secular da massa de mais-valor – apenas uma nota explicativa.

A primeira encontra-se aqui: Da imensa descarga de capital fictício

A segunda encontra-se aqui: Queda da Massa de Mais-valor I

Exame crítico da teoria da financeirização

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Resumo

A teoria da financeirização tornou-se chave na compreensão marxista da evolução contemporânea do modo de produção capitalista. Entretanto, tal como tem sido formulada, ela não está totalmente de acordo com a compreensão do próprio Marx sobre as funções do capital portador de juros e do capital fictício na acumulação de capital. Examina-se, por isso, num novo artigo principalmente a teoria da financeirização de François Chesnais. A sua conjectura sobre a evolução recente do capitalismo é vista criticamente porque ela se restringe a condenar a dominação parasitária do capital industrial pelo capital financeiro. A predominância da lógica das finanças na condução da acumulação, segundo ele, vem rebaixar as perspectivas de crescimento da economia capitalista e, assim, dos salários dos trabalhadores encaixados no sistema. Mostra-se no texto que essa formulação apenas renova uma tradição muito antiga em Economia Política, a qual consiste em condenar o chamado “rentismo”, deixando, contudo, de condenar fortemente o capitalismo enquanto tal. A nota, no entanto, não deixa de fazer também um comentário crítico da teoria da financeirização de José Carlos Braga, a qual diverge da teoria muito mais divulgada e conhecida de François Chesnais.

O texto complexo do artigo faz parte do número 39 da revista Crítica Marxista, recém publicado. Ver http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/

Ideontologia

Gérard LebrunFoi preciso criar esse termo arrevesado para designar a compreensão de Hayek do capitalismo, a qual se funda – e somente se funda – na sociabilidade da esfera do mercado. Pois, recupera-se aqui um velho artigo de Gérard Lebrun, publicado em 1984, em que ele derramou uma refinada apologia das teses liberais sustentadas pelo autor de O caminho da servidão nas brancas páginas do falecido Jornal da Tarde. Trata-se de uma peça discursiva que merece ser mais uma vez divulgada já que, em sua impar modalidade, destaca-se como uma argumentação astuciosa que leva a uma completa rejeição do socialismo e das políticas socializantes em geral.

Nessa peça, esse renomado filósofo francês, bem conhecido então no meio universitário de ciências sociais no Brasil, destaca elogiosamente que Hayek entrou no principal debate político da era moderna com uma poderosa ontologia social. No mundo descrito por esse autor liberal, aliás, o herói é o empresário, o empreendedor capitalista – e não, claro, o operário, o trabalhador, o assalariado cuja pele continua como sempre disponível para o curtume.

Ora, esta – precisamente esta – era uma roupagem que o capitalismo podia usar no momento que o velho liberalismo, enquanto episteme do século XIX, já se tornara fora de moda. Como se sabe, nesse momento, o capitalismo já começara a se apresentar com uma nova vestimenta, adequada para o fim do século XX, o neoliberalismo. Adorno não mencionara na Dialética Negativa que toda ontologia contemporânea, precisamente por apresentar uma enfática pretensão de verdade, é sempre “uma disposição para sancionar uma ordem heterônoma”, dispensando-se, assim, “de se justificar perante a consciência crítica”.  E que sempre o faz – fique patente – a partir de traços aparentes da realidade ratificada como esfera que não deve ser radicalmente transformada.

Logo se verá: o capitalismo, no visor de Hayek, aparece como sociabilidade que se tece como ordem espontânea, a qual foi surgindo ao longo dos séculos por meio de um processo evolutivo lento, cego, mas certeiro, de seleção de regras. Essa ordem, segundo ele, seria o esteio da liberdade; sim, mas que liberdade? De todos ou apenas de alguns? Perante tal ideologia que assumiu a forma da ontologia, aquilo que se apresenta como crítica e que contraria a sua enorme pretensão de verdade passará a figurar, transfigurada, como diabrura irracionalista do espírito racionalista dos tempos modernos. Nos escritos de Hayek, o socialismo surge, nessa perspectiva, como uma mera ideia ou pretensão tecnocrática e construtivista de realizar a justiça social por meio do poder de Estado.

O discurso parece plausível a primeira vista porque o material para a sua elaboração foi fornecido, em parte, pelos próprios socialistas. Entretanto, como para o principal crítico do capitalismo, o socialismo rigorosamente não é uma mera ideia, não é um projeto de engenharia social, não se baseia na demanda por justiça social e não se realiza por meio do poder de Estado, a peça merece também uma resposta. Por isso, além de republicar aqui o artigo de Lebrun, publica-se também um texto crítico que visa contrariá-lo.

 

O artigo de Gérard Lebrun encontra-se aqui: A loteria de Friedrich Hayek

 

O artigo crítico, por sua vez, encontra-se aqui: Do socialismo centralista ao socialismo democrático

Dialética negativa e luta de classes

Adorno para o blog

É sabido que a luta de classes está amplamente ausente na teoria crítica de Theodor Adorno. Entretanto, há autores que julgam necessário se apropriar de seu conceito de dialética negativa a fim de desenvolver um pensamento anticapitalista que se mostre historicamente mais eficaz no alvorecer do século XXI. Pois, consideram que ele permite fazer uma boa crítica da concepção leninista de revolução e de socialismo, para, assim, retomar o projeto de transformação da sociedade. Eis que isto, segundo eles, tornou-se imperativo após o colapso do socialismo centralista, o qual florescera e murchara na extinta União Soviética. O pensamento de Adorno, mantido inquietamente no interior da tradição de Hegel e Marx, segundo eles ainda, permite renovar o papel da dialética na constituição de um pensamento revolucionário, mesmo se ele se afastara da práxis transformadora enquanto produção teórica e crítica.

Como as teses desses autores precisam ser mais bem conhecidas nos círculos socialistas brasileiros, esse blog publica uma tradução livre de um importante artigo que as apresenta incisiva e polemicamente. O seu autor, Sergio Tischler Visquerra, é professor da Universidade Autônoma de Puebla. O escrito de sua lavra se chama Adorno: o cárcere conceitual do sujeito, o fetichismo político e a luta de classes. Como artigo de coletânea foi originalmente publicado, em 2007, no livro Negatividad y revolución – Theodor W. Adorno y la política,  organizado por John Holloway, Fernando Matamoros e Sergio Tischler, uma edição da revista  Herramienta e da Universidade Autônoma de Puebla.

Para obtê-lo, clique aqui:Adorno – O carcere conceitual do sujeito

 

EUA: crescimento em queda

EUA - A aguia caí

EUA – A águia cai

Descendo a ladeira:

A queda do crescimento nos Estados Unidos

 

O artigo examina o processo histórico de aumento da produtividade do trabalho no capitalismo mais desenvolvido, ou seja, primeiro, na Grã-Bretanha e, depois, nos Estados Unidos. Para fazê-lo, toma por base um estudo do economista neoclássico Roberto Gordon, o qual desafia o consenso vigente entre os economistas, pois afirma que o crescimento não é um processo contínuo e que este, em consequência, não durará para sempre. No artigo, apresenta-se em primeiro lugar a explanação desse autor para a evolução da produtividade do trabalho nos últimos séculos. Em suma, ela está baseada no efeito catraca das inovações tecnológicas as quais ocorreram durante as ondadas das revoluções industriais.  Apresenta-se, depois, uma explanação alternativa para a grande transformação do capitalismo e seu provável esgotamento com base nas concepções de Marx sobre os processos de produção da manufatura e da grande indústria. Procura-se, então, ir além das formulações originais de Marx. Examina-se, então, o processo de produção da pós-grande indústria, tendo em mente apreender as características específicas do capitalismo contemporâneo.

O texto se encontra aqui: Descendo a ladeira – A queda do crescimento nos Estados Unidos

Ou aqui:  Sitio da SEP

Avesso do discurso econômico

Mafalda e os valores do capitalismo

Os economistas se enxergam como fontes inesgotáveis de racionalidade. Quando escrevem, costumam derramar sobre as pessoas “comuns” receitas sobre como devem gerir sua vida econômica atribulada; mais frequentemente, pontificam sobre como deve ser gerido o sistema econômico, sempre passando por infindáveis turbulências.  Por isso mesmo deveriam estar interessados no último número da Revista Limiar (vol.1, nº2) do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unifesp. Aí, eles podem encontrar dois artigos bem interessantes que lhes amassam o topete.

O primeiro, de Alselm Jappe, trata de alienação, reificação e fetichismo da mercadoria, um tema central para a compreensão da crítica da economia política de Karl Marx. Ora, esses termos apontam para o caráter intrinsecamente religioso do sistema econômico, mostrando, assim, que sob a sua fachada de racionalidade mora e se oculta uma irracionalidade altamente destrutiva que ora ameaça a existência da humanidade. O artigo contrapõe a ontologia do trabalho de Lukács à crítica do trabalho feita pelos autores da escola da “critica do valor” (Robert Kurz, por exemplo). O acesso ao artigo Alienação, reificação e fetichismo da mercadoria  encontra-se aqui: http://www.revistalimiar.org/uploads/2/1/6/4/21648538/1._anselm_jappe_-_limiar_n.2.pdf.

O segundo, de Tales Ab’Sáber, trata de uma perspectiva psicanalítica o comportamento dos analistas econômicos mais em evidência diante da crise econômica mundial de 2008. Como se sabe, mesmo vários “gênios” consagrados por meio do Prêmio Nobel fracassaram miseravelmente em antecipar que do “boom” vinha um formidável “bum”. Segundo esse autor, “os agentes que recusavam a realidade da crise assim a aprofundaram”. Eles foram cruelmente pervertidos pela recusa da realidade que claramente transbordava em relação ao seu modo vulgar de apreender o sistema fetichista da mercadoria. O acesso ao artigo Interesse e verdade: neoliberalismo e mentira encontra-se aqui: http://www.revistalimiar.org/uploads/2/1/6/4/21648538/7.tales_-_limiar_n.2.pdf

O mau humor do “mercado”

Taxa de exploração no Brasil - 1990-2013 - IIIA eleição para o cargo de presidente da república se aproxima no Brasil. A disputa pela orientação de política econômica do futuro governo se acirra conforme se acirra a disputa política dos próprios candidatos. Sobem os tons das críticas à política econômica da presidente Dilma e do ministro Mantega. Mas, afinal, o que está centralmente em jogo nesse debate? Numa nota curta, procura-se mostrar que a questão central pendente entre os economistas diz respeito, em última análise, ao grau de exploração da força de trabalho e, assim, da taxa de lucro – mesmo se aqueles envolvidos na querela parecem tratar de outra coisa ou tratam dela de um modo indireto, encoberto, elusivo. Toma-se partido aqui, entretanto, por uma alternativa ao existente que não está sendo posta em pauta, mas que vem a ser a única saída racional para uma civilização em crise profunda.

Para ler o texto, clique aqui: O mau humor do mercado

As fissuras do sistema

imagesComentam-se criticamente, numa nota curta, as teses de Raghuram Rajan sobre as causas da “grande recessão” da economia capitalista de 2008, a qual é encontrada em seu livro Fissuras – como as fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial. Para ele, em resumo, a crise foi produzida por uma piora na distribuição da renda nos EUA, por desequilíbrios nos fluxos internacionais de mercadorias e poupança e, finalmente, pela “exuberância” dos mercados financeiros. Procura-se mostrar que as suas análises são superficiais e que elas próprias demandam uma melhor compreensão das contradições inerentes à acumulação de capital e, assim, da propensão à crise que é inerente ao capitalismo. Ao final, indica-se que tanto a concentração da renda quando a financeirização não são mais do que manifestações fenomênicas da tendência à superacumulação de capital que vem caracterizando, sem resolução sustentável, o capitalismo contemporâneo desde a década dos anos 70 do século passado.

A nota se encontra aqui: Rajan e as fissuras do sistema

A China vem aí?

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Qual a função da China na nova ordem internacional? Há, de fato, uma mudança tendencial na repartição do poder internacional entre os países desenvolvidos e os países ditos em desenvolvimento? As nações ditas emergentes estão de fato emergindo e mudando a repartição do poder econômico global? Antes de suscitar a leitura de um artigo interessante que procura responder a essas questões, faz-se uma consideração teórica sobre a natureza do sistema social e econômico em vigência na China.  Depois dessa introdução, acredita-se aqui que fica mais interessante o acompanhamento de um texto que trata especificamente da mudança na geografia da indústria global nas últimas três décadas.

O texto se encontra aqui: A China vem ai ?

Uma crise cambial se avizinha?

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O espectro de uma crise cambial surge no horizonte de diversos países, inclusive do Brasil. Ela vai ser enfrentada, inicialmente, com elevação da taxa de juros e por meio de desvalorização moderada do dinheiro nacional. No entanto, essas medidas poderão ser insuficientes para equilibrar o balanço de pagamentos. Então, talvez se torne um imperativo que esses países aceitem uma desvalorização acentuada da moeda nacional, assim como uma severa contenção dos gastos públicos. Se este for o caso, a recessão e a crise despontarão, também, no horizonte desses países. No caso do Brasil, o governo relutará fortemente em adotar essas medidas de política econômica porque a eleição presidencial se avizinha. Desejará, pois, fazer os ajustes depois de outubro de 2014. Mas isto é apenas uma aposta, pois também o Real pode ser alvo de um ataque especulativo. Uma nota de Michael Roberts, originalmente escrita em inglês, mas aqui traduzida para o português, trata dessa questão de um ponto de vista da crítica da economia política. Ela não é otimista, pois parte do suposto que os países avançados ainda não conseguiram superar a crise de 2008. Pois, nesses países, não ocorreu ainda uma severa deflação das dívidas privadas, a taxa de lucro não se recuperou, as oportunidades de investimento rentáveis ainda não se configuraram. Ademais, os problemas da união monetária europeia ainda não encontraram uma boa solução. Em consequência, ele vê a leve recuperação da economia norte-americana como consequência de mais uma bolha de crédito que vai estourar em algum momento do futuro. Convém, portanto, se precaver contra as análises otimistas dos economistas que rezam no altar do capitalismo por convicção ou por oportunismo.

Aqui se encontra a nota de Michael Roberts: Crise dos mercados emergentes