Dos ciclos de acumulação II

No post anterior voltou-se ao chamado “ciclo sistêmico de acumulação” de Giovanni Arrighi com a finalidade de reexaminar o papel da financeirização em sua fase da desaceleração.  Neste post retorna-se a ele para enfatizar o papel das inovações tecnológicas no seu desenvolvimento, aceleração e desaceleração. Para tanto, traduz-se um artigo de Tony Smith recém-publicado em inglês na revista Logos.

Neste artigo, esse autor argumenta que o processo de acumulação de capital é uma luta sem trégua entre unidades de capital que se dá por meio da introdução de inovações de método e de produto. E que esse processo é sempre contraditório: se, por um lado, abre espaço para a valorização do valor, por outro, tende a produzir superprodução de mercadorias. Assim, além do aumento da composição orgânica do capital, a taxa de lucro tende a cair também devido ao aumento da capacidade ociosa das empresas capitalistas.

Sob essa perspectiva, Smith analisa o capitalismo contemporâneo agora globalizado. O seu ponto central é que um episódio de superprodução generalizada se manifestou na economia mundial na década dos anos 1970. E que ele foi parcialmente “resolvido” por meio da financeirização dos anos 1980 em diante, ou seja, por meio da superação de uma barreira que acabou criando uma barreira ainda maior. Ainda sob essa perspectiva, que é ainda de Karl Marx, ele examina a situação atual para apresentar nua e cruamente as suas ameaças, o seu crucial dilema.

O artigo se encontra aqui: Tecnologia e capitalismo 150 anos depois de Das Kapital

Ainda sobre o keynesianismo

Como o postO que é keynesianismo?” foi bem recebido pelo círculo de leitores desse blog, publica-se outro sobre o mesmo tema. Trata-se da tradução de uma resenha que também apresenta o livro de Geoff Mann antes aqui discutido, No longo prazo todos estaremos mortos. Esta foi feita por Mike Beggs da Universidade de Sydney, tendo sido publicada no sítio do Jacobin. Ela examina as teses de Mann do ponto de vista da política transformadora possível nos países ricos do centro do sistema capitalista mundial. Na interpretação do autor deste post, ao fim e ao cabo, ela sugere que demandas keynesianas sejam agora retomadas pelos partidos de esquerda, não para manter o capitalismo, mas para criar as condições necessárias para superá-lo. É uma proposta num momento em que faltam propostas...

O texto se encontra aqui: A contra-revolução keynesiana

Impactos da austeridade

Pensando na economia capitalista no Brasil, aqui se vai fazer uma apresentação crítica dos impactos da política de austeridade examinando o caso recente da economia capitalista da Grécia. Para tanto, usa-se as informações e análises encontradas num artigo dos economistas gregos Nasos Koratzanis e Christos Pierros: Acessando os impactos da austeridade na economia grega (2017). Entretanto, como esses dois autores se mantêm numa perspectiva keynesiana, eles não levam a crítica ao seu horizonte. Para ver onde o sol se põe recorre-se à perspectiva desenvolvida pelo marxista grego, John Milios, no artigo A austeridade não é irracional (2015). Mostra-se, assim, que essa política, mesmo se se apresenta como tal, não visa a recuperação da produção mercantil. Ao contrário, busca continuar extraindo o maior volume possível de mais-valor na forma dos serviços das dívidas, mesmo se isto derruba e exaure o sistema econômico e, assim, produz uma catástrofe social.

O texto se encontra aqui: Impactos da austeridade na Grécia

Macroeconomia Atônita

De volta para o futuro! Sim, mas que futuro? Dois macroeconomistas consagrados na academia norte-americana, Olivier Blanchard e Lawrence Progress and confusionSummers, juntaram-se para escrever uma proposta de reformulação das práticas de política e de regulação econômica e, talvez (e isto não está claro), de mudança da macroeconomia atualmente ensinada nos cursos ditos mainstream de Economics.

Eis o seu título: Repensando a política de estabilização. De volta para o futuro. Ora, quando se lê essa alvitrada atentamente, vê-se que eles estão confusos teoricamente. Pois, eles querem salvar a tradição neoclássica a qual pertencem e, ao mesmo tempo, salvar o capitalismo que agora voa baixo sob o comando do capital financeiro.

A proposta, pois, enseja um comentário crítico que, no entendimento dos economistas do sistema, talvez figure como mero blábláblá. Porém, os dois “gênios” não teriam cometido inconsistências, não teriam caído em vulgaridades? A nota que foi escrita para apontá-las está publicada aqui  A macroeconomia, sim, está atônita e, ao mesmo tempo, no Outras Palavras.

Uma certa economia política neoliberal

O neoliberalismo é um sistema normativo que pretende estender a lógica da concorrência capitalista para todas as relações sociais. Os neoliberais estão convencidos de que o mercado fornece um paradigma de sociabilidade adequado para a sociedade como um todo. Em consequência, esforçam-se continuamente mudar as instituições existentes de tal modo que elas passem a incentivar a lógica competição. Em sua perspectiva, por exemplo, os governantes e os governados devem se comportar como se fossem empresas.

Esta postagem discute um pouco como os neoliberais querem enfrentar o baixo crescimento da economia capitalista no Brasil. Para eles, ela cresce pouco porque as suas instituições – especialmente estatais – não favorecem a busca do auto interesse, a concorrência e o esforço produtivo. Para mudar essa situação, propõem uma série de políticas sociais e econômicas. E elas são do seguinte tipo: conter o crescimento das despesas primárias do governo; reduzir a carga tributária; desregular o mercado de força de trabalho; encurtar a cobertura da previdência social; abrir a economia para a competição internacional; garantir melhor o direito de propriedade etc.

Na nota que se está publicando junto dessa postagem, indica-se que essas propostas não só abrem caminho para a normatividade da competição desenfreada, mas também – e de modo central – buscam obter uma elevação da taxa de lucro por meio do aumento do aumento da eficiência do capital industrial na apropriação e na retenção de mais-valor. Ao examiná-las, busca-se mostrar aqui que essas políticas podem, sim, ter algum resultado no sentido de elevar a taxa de crescimento do PIB. Porém, elas terão efeitos deletérios na sociedade brasileira: reduzirão os salários reais, diminuirão os gastos sociais do Estado, piorarão a repartição da renda, agravarão as tensões sociais, produzirão barbárie, fortalecerão as alternativas fascistas.

O texto da nota está aqui: Uma certa economia política neoliberal

Voou mais alto e despencou

            Nos anos 1990, alguns economistas passaram a empregar o termo “voo da galinha” para indicar o padrão de crescimento da economia capitalista no Brasil. Entretanto, entre 2004 e 2010 pareceu que esse padrão havia mudado de modo radical; pareceu que não podia ser mais visto como o voejo de uma galinha comum, mas como o adejo de uma galinha de angola. Pois, esta última é capaz de subir mais, ficar mais no alto e, assim, ir bem mais longe.

           Na verdade, o padrão de crescimento mudara apenas temporariamente. Por assim dizer, a ave que cisca no quintal do capitalismo mundial aproveitara uma oportunidade, subira no poleiro para daí poder se lançar um pouco além…. Porém, após um animado voo que não durou tanto assim, despencou rumo ao chão; de fato, como bem se sabe, caiu na lagoa dos patos e afundou. Agora, ela luta para voltar ao velho terreiro e se tornar novamente capaz de voos provavelmente tão rasos e intermitentes como aqueles que foram observados entre 1990 e 2003.

Para ler uma nota que procura uma explicação para o voo mais longo da economia capitalista entre 2000 e 2016 clique aqui: Subiu no poleiro, voou mais alto e despencou

Voo da galinha

A depressão da economia capitalista no Brasil, como duramente se sabe, persiste já por três longos anos.  Neste início de 2017, assombrados com as suas consequências sociais e políticas, as forças golpistas se mostram fortemente ansiosas para ver o seu fim e, assim, o início de uma recuperação.

Alguns economistas que atuam como gargantas do golpe – e funcionários de sua legitimação – anunciam apressados que a retomada é “pra já”. Sabe-se, na verdade, em geral, que as crises do capitalismo criam elas próprias as condições de sua superação porque, ao reduzirem os salários reais, ao destruírem os capitais ineficientes, etc., engendram uma recuperação da taxa de lucro. Ora, essa “purga” é necessária, mas não se afigura suficiente para a retomada dos investimentos. É preciso que surja também, no horizonte do cálculo capitalista, uma onda de novas oportunidades de lucro.

Ora, na economia brasileira atual, há ainda muitas empresas excessivamente endividadas e com excesso de capacidade ociosa. Ademais, o câmbio voltou a ficar valorizado e as taxas de juros cobradas nos empréstimos bancários às empresas produtoras de mercadorias são elevadíssimas. Ademais, um impulso de recuperação que poderia vir do investimento público encontra-se obstado porque o orçamento do Estado está constrangido a gerar excedentes financeiros.  Em consequência, o que está de fato no horizonte da acumulação de capital no Brasil é, por um lado, a continuidade da desindustrialização e, por outro, uma relativa estagnação da economia mundial.  Diante desse quadro econômico – ao qual se soma a severa instabilidade do quadro político –, qual seria a verdadeira perspectiva da economia capitalista no Brasil?

Indo ao fundo da questão, qual seria a perspectiva das classes sociais que se enfrentam no interior dessa “economia” gerenciada por economistas arrogantes que se orgulham de saber “Economics”? Segundo Luiz Filgueiras, professor da UFBA, no artigo que aqui se republica, diante do aprofundamento em curso das reformas neoliberais, os trabalhadores em geral devem esperar um agravamento das dificuldades para se reproduzirem enquanto tais, para ganharem uma vida às vezes bem miserável. E os capitalistas, “cheios de importância, sorrisos satisfeitos e ávidos por negócios”, devem esperar, no máximo e lentamente, um retorno do voo da galinha.

O artigo encontra-se aqui: Padrão de desenvolvimento e a natureza estrutural do Voo da Galinha

Distopia Polanyiana

capa-de-immaginare-il-futuroPublicamos aqui mais um texto curto de Wolfgang Streeck que trata do futuro do capitalismo. Tendo por referência a Europa, foi publicado em 2016, em italiano, no livro Immaginare il futuro, coordenado por Carlo Bordoni. Ao lê-lo, não se deve esquecer que esse autor emprega um raciocínio que vem imediatamente de Karl Polanyi, mas que tem uma origem difusa mais antiga na tradição sociológica.

Segundo esse raciocínio, a sociabilidade mercantil capitalista é extremamente eficiente e eficaz na produção de riqueza material, mas vem a ser, também, inerentemente predatória do homem, da natureza e das tradições. Ela nasce e se expande cada vez mais no interior da sociabilidade herdada – não capitalista, tendendo a desagregá-la cada vez mais, inexoravelmente. Ao fazê-lo, passa a impor a sociabilidade do individualismo possessivo e da competição desenfreada em todos os domínios da vida social, com resultados que acabam por ser desastrosos.

A sociabilidade tradicional lhe põe contenções, mas também lhe fornece uma estrutura normativa e institucional necessária à sua própria subsistência. Ora, a sociabilidade capitalista que dela se nutre só pode destruí-la. À medida que a sociabilidade tradicional vai desaparecendo, vai deixando também de conter o processo da ruína dos recursos herdados, o que também é produzido pelo capitalismo.

Nesse sentido, o neoliberalismo é entendido como a batalha final da sociabilidade mercantil capitalista para subjugar toda sociabilidade tradicional que é inerentemente comunitária. Se essa última busca a preservação dos bens comuns, a primeira é baseada em bens exclusivos e privados. É por isso que ele vê o futuro da sociedade humana sob a égide da mercantilização desenfreada como sombrio.

O texto se encontra aqui: como-sera-a-nossa-sociedade-nos-proximos-decenios

O capitalismo tem futuro?

capa-do-livro-de-streeckDiversos autores contemporâneos vêm questionando, sob diversas perspectivas, o futuro do capitalismo. Dentre aqueles que mantêm uma posição cética quanto à sua sobrevivência possível para além do século XXI – ou mesmo para os próximos 30 ou 40 anos – não é possível esquecer de István Mészáros, Immanuel Wallerstein e Robert Kurz. Esta postagem, porém, visa recomendar a leitura de Wolfgang Streeck, um instigante sociólogo alemão, que pensa a partir de Karl Marx, mas, principalmente, de Karl Polanyi. A sua tese central é que o neoliberalismo, ao extremar a competição como modo de vida, ao transformar o indivíduo em empresário de si mesmo, ao mercantilizar todas as esferas da vida social, vem minar inexoravelmente as bases morais e sociais da integração dos humanos em sociedade. Como a existência do capitalismo depende de tais bases – herdadas das gerações passadas, mas agora violentamente predadas –, a tentativa de salvá-lo por meio da intensificação neoliberal, levará, segundo ele, à sua desintegração progressiva. E esta dissolução poderá vir acompanhada, eventualmente, do fim da própria humanidade. Alguns poucos textos de Wolfgang Streeck foram traduzidos para o português; aqui se recomenda um deles em especial que foi publicado pela revista Piauí, na edição de outubro de 2014: Como vai acabar o capitalismo? Além disso, aqui se fornece uma tradução de um texto que sintetiza a sua intervenção num debate realizado em 2016, no encontro anual da “Society for Advancement of Socio-economics” (SASE) em que diversos autores discutiram a seguinte questão chave: “o capitalismo tem futuro? ”.

O texto traduzido se encontra aqui: Do-futuro-sombrio-do-capitalismo

Pesadelo resistente

O atual momento histórico não está marcado pela perspectiva do avanço e do progresso. Ao contrário, um pesadelo de regressão parece rondar o Brasil e mesmo o mundo como um todo. Para não assistir passivamente ao desenrolar dos fatos é preciso começar compreendendo o que está acontecendo na sociedade humana cada vez mais unificadaCe cauchemar qui n finit pas pela relação de capital. Com o propósito de fornecer um esclarecimento nesse sentido, foi publicado na França mais um livro de Pierre Dardot e Christian Laval: Este pesadelo que não termina – como o neoliberalismo derrota a democracia. Explicando os efeitos deletérios da racionalidade neoliberal, ele pode contribuir para que seja possível encontrar uma forma de resistir ativamente ao sombrio dos tempos presentes. Uma resenha desse texto político, escrito e publicado sob um sentimento de urgência, é aqui apresentada como uma indicação de leitura.

E essa resenha se encontra aqui: Este pesadelo que não termina