A crise: circulando em terra firme

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

O notável historiador britânico Adam Tooze escreveu em seu blog uma nota seminal – Policrise: pensando na corda bamba – com a finalidade de ressaltar a importância e a relevância da noção de policrise, a qual julga necessária para pensar a difícil situação da humanidade no contemporâneo. Aí, definiu esse termo novo do seguinte modo: “policrise é uma maneira de capturar a mistura emaranhada de desafios e mudanças que interagem de perto umas com as outras, torcendo, desfocando e ampliando umas às outras”.

Desse modo, circunscreveu o termo na perspectiva da teoria dos sistemas que, como se sabe, apresenta-se como uma técnica analítica e construtivista de modelização dos sistemas complexos. Estes, por sua vez, são compreendidos como plexos de partes ou elementos em interação que possuem uma organização específica ou ainda, mais do que isso, uma auto-organização. Desse modo, definem-se os sistemas complexos pelos nexos externos entre as partes, ou seja, por suas interações, as quais se dão supostamente segundo determinados padrões de regularidade.

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Policrise: pensando na corda bamba

Autor: Adam Tooze [1]

Chartbook nº 165 – 29/10/2022

Policrise é um termo que encontrei pela primeira vez quando estava terminando Crashed,[2] em 2017. Foi invocado por Jean-Claude Juncker para descrever a situação perigosa da Europa no período após 2014. No espírito do “Eurotrash” [3], entusiasmei-me com a ideia de passar a usar um “conceito” encontrado nessa fonte específica. Juncker confirma o maravilhoso retrato de Nick Mulder do “Homo Europus”. Descobriu-se que Juncker obteve a ideia do teórico francês da complexidade e do veterano da resistência, Edgar Morin, mas isso é uma outra história.

Entretanto, policrise surgiu também como um termo no subcampo dos estudos da arte na União Europeia, tendo sido retomado, entre outros, por Jonathan Zeitlin.

Considerei a ideia de policrise interessante e oportuna porque o prefixo “poli” chamava a atenção para a diversidade dos desafios, sem especificar uma única contradição dominante ou fonte de tensão ou disfunção.

O termo parecia ainda mais relevante diante do choque da COVID. Empreguei-o em Shutdown [4] para contrastar essa visão europeia bastante indeterminada da crise, por um lado, com a visão americana, mais compacta, para não dizer solipsista, de uma grande crise nacional centrada na figura de Donald Trump e, por outro, com a perspectiva de Chen Yixin, um dos principais pensadores do aparato de segurança de Xi Jinping.

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Capitalismo subsidiado

O Estado, hoje, é uma grua que levanta um capitalismo arruinado

Autor: Paul Sweeney [1], Social Europe, 6/10/2022

Para lidar com a crise climática, os governos devem reconhecer que apenas o Estado foi capaz de conter as crises nas três últimas crises.

Eventos climáticos extremos, como as inundações no Paquistão, que deixam um enorme número de mortes e espalham miséria em seu rastro, tornam a crise climática uma ameaça existencial.

Houve uma transformação revolucionária do capitalismo, o sistema econômico ocidental, em pouco mais de uma década. Quatro eventos extraordinários demonstraram que, na maioria dos países, a relação entre o Estado e o mercado se transformou, alterando radicalmente o sistema econômico. O impacto na política está sendo sentido, mas ainda não foi totalmente reconhecido, especialmente pelos progressistas.

A primeira grande mudança foi a resposta dos Estados-nação ao colapso em 2008 do modelo de neoliberalismo – atores “racionais” operando em mercados “livres” – com a crise financeira. O resgate estatal de empresas financeiras privadas custou grandes somas aos contribuintes de todos os países. No Reino Unido, o National Audit Office colocou o resgate dos bancos em £ 1 trilhão em seu pico. Nos Estados Unidos, entre muitas estimativas, foi adiantado um valor de US$ 500 bilhões. Quanto à Irlanda, custou € 64 bilhões – mais que o dobro da receita tributária total em 2010 – para resgatar seus bancos.

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Como as finanças comandam o capitalismo

Autor: Pete Dolack,

Outras Palavras, 20/09/2022 – Counterpunch | Tradução: Vitor Costa

As dimensões do setor financeiro não têm relação com a economia. Deixando de lado a retórica, ele confisca, ou seja, não cria dinheiro. Quanto? Vale examinar alguns números: valor total das dívidas: US$ 305 trilhões; valor total de papéis financeiros negociados, em média, por dia: US$ 9,68 trilhões.

É muito dinheiro. Tanto que a imaginação tem dificuldades para compreender tais números. Uma maneira de enxergá-los em perspectiva é lembrar que o tamanho da economia mundial (produto interno bruto global para todos os países do mundo) foi de US$ 96,1 trilhões em 2021.

Em outras palavras, o volume de negociação de moedas (câmbio), ações, títulos e seus derivativos supera o tamanho da economia global a cada 10 dias úteis. (O período é quase certamente um pouco mais curto, já que os US$ 9,68 trilhões, média diária de negociação, não incluem a maior parte dos títulos dos Estados, cujo valor negociado é difícil de obter.) Para fazer outra comparação, o valor da dívida dos governos, empresas e famílias do mundo (o total de US$ 305 trilhões acima) é mais de três vezes e meia o valor de toda a atividade econômica produzida em um ano.

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Terapia de choque na economia mundial

Autor: Michael Roberts

Blog The next recession – 10/10/2022

O termo “terapia de choque” foi usado para descrever a mudança drástica de uma economia planejada, baseada na propriedade estatal, existente na antiga União Soviética, para um modo de produção capitalista integral, em 1990. Eis que produziu uma grande queda nos padrões de vida, por uma década.

O termo “doutrina do choque” foi usado por Naomi Klein para descrever a destruição dos serviços públicos e do estado de bem-estar pelos governos a partir da década de 1980. Agora, os principais bancos centrais estão aplicando uma “terapia de choque” na economia mundial: estão aumentando as taxas de juros com a intenção de controlar a inflação, mesmo se há uma crescente evidência de que isso levará a uma recessão global no próximo ano.

Veja-se o que dizem alguns de seus porta-vozes. Chris Waller, membro do conselho do Federal Reserve deixou bem claro essa intenção ao afirmar que “não estou pensando em desacelerar ou interromper os aumentos das taxas devido a preocupações com a estabilidade financeira”. Portanto, mesmo que o aumento das taxas de juros comece a abrir fissuras nas instituições financeiras e em seus ativos especulativos, isso não importa.

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Haverá uma queda no PIB global?

Os economistas estão indecisos. O PIB global só caiu por duas vezes abaixo de zero (em 2008 e 2020) nos últimos 70 anos, ou seja, desde o fim da II Guerra Mundial. No entanto, haverá certamente uma recessão na economia global; o PIB global deverá se situar na casa dos 2%, mas haverá queda do PIB em alguns países importantes da Europa (Alemanha entre elas); uma redução forte do crescimento da economia capitalista nos EUA e na China está também prevista. O gráfico que se segue apresenta um indicador que costuma acertar na vinda de recessões.

Um artigo de Michael Roberts reporta as discussões havidas no encontro anual de banqueiros centrais norte-americanos na vila de Jackson Hole, nos Estados Unidos.

Lá no vale de Jackson Hole

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 27/08/2022

Jay Powell, presidente do Federal Reserve dos EUA, fez um discurso no simpósio anual de verão dos banqueiros centrais em Jackson Hole, Wyoming, EUA. Ele foi observado de perto por investidores financeiros e economistas para ver se apoiaria a estratégia de um “pivô do Fed” na política de taxas de juros. O pivô funcionaria como um abrandamento na atual alta agressiva da taxa básica de juros do Fed.

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Ocaso e fantasia: uma globalização melhor?

Autor: Eleutério F. S. Prado

Dani Rodrik é um economista e professor renomado que trabalha na Escola de Governo da Universidade de Havard. De origem turca, mas radicado nos Estados Unidos onde obteve o seu doutorado, trabalha nos temas da globalização, do crescimento econômico e da economia política administrativa. Recentemente, escreveu um artigo de divulgação em que apresenta a sua crença otimista de que das “cinzas da globalização” – que ele agora chama de hiperglobalização! – “pode surgir uma globalização melhor”. [1] Ora, supõe assim que uma globalização virtuosa possa vir superar uma globalização agora vista como desencaminhada, supostamente viciosa! Será?

Para encontrar uma resposta para essa dúvida não hiperbólica é preciso olhar seguramente para a história da taxa de lucro mundial do pós-guerra até o presente (apresentada na figura abaixo por meio de uma variável proxy, qual seja ela, a taxa de lucro média dos países do G20). Ela mostra, sem ilusão, que o capitalismo se encontra numa trajetória de declínio em nível global. 

Rodrik, porém, prefere não pensar nessa evidência empírica que comprova de algum modo a tese dos economistas clássicos e de Marx sobre a tendência declinante da taxa de lucro. Ora, como ele argumenta em favor de uma “globalização virtuosa” vista como possível? Será que esse momento feliz estaria esperando nas fórmulas abstratas da “melhor teoria” para ser implementada por meio de políticas econômicas “corretas”?

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Acabou o impulso de globalização?

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 27/04/2022

Além da inflação e da guerra, o que atrai o pensamento econômico atual é o aparente fracasso do que a teoria econômica mainstream aprecia chamar de “globalização”. O que ela quer dizer com esse termo? Refere-se à expansão livre do comércio e do fluxo de capital através das fronteiras. Em 2000, o FMI identificou quatro aspectos básicos da globalização: comércio e transações, movimentos de capitais e investimentos, migração e circulação de pessoas e disseminação do conhecimento. O seu perfil atualmente se apresenta assim:

Todos esses componentes aparentemente se expandiram a partir do início da década de 1980 como parte da reversão neoliberal das políticas nacionais de macrogestão anteriormente seguidas. Ditas keynesianos, elas eram adotadas por governos no ambiente da ordem econômica mundial de Bretton Woods (isto é, sob a hegemonia dos EUA). A nova regra agora era quebrar as barreiras tarifárias, cotas e outras restrições comerciais, permitindo assim que as multinacionais negociassem “livremente” e transferissem os seus investimentos no exterior, ou seja, para áreas de mão de obra barata, com a finalidade de aumentar a lucratividade. Isso levaria à expansão global e ao desenvolvimento harmonioso das forças produtivas e ao crescimento dos recursos do mundo – pelo menos era o que se afirmava então.

Não havia nada de novo nesse fenômeno. Desde que o capitalismo se tornou o modo de produção dominante nas principais economias, já em meados do século XIX, houve períodos de aumento do comércio internacional e de exportação crescente de capital. Em 1848, os autores do Manifesto Comunista notaram o aumento no nível de interdependência nacional trazido pelo capitalismo e previram o caráter universal da sociedade mundial moderna:

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Não há luz no túnel da longa depressão

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 13/03/2022

Uma das minhas teses básicas sobre o capitalismo moderno é que, desde 2008, as principais economias capitalistas estão no que chamo de “longa depressão”. No meu livro de 2016 com este mesmo nome, distingo entre o que os economistas chamam de recessões (quedas na produção, investimento e emprego) e depressões.

Sob o modo de produção capitalista (isto é, a produção social voltada lucro; este provém do trabalho humano e apropriado por um pequeno grupo de proprietários dos meios de produção), tem havido quedas regulares e recorrentes a cada 8-10 anos desde o início do século XIX. Após cada queda, a produção capitalista revive e se expande por vários anos, antes de retornar a uma nova queda.

No entanto, as depressões são diferentes. Em vez de sair após um tempo da recessão, as economias capitalistas permanecem deprimidas por longo tempo, com menor produção, investimento e crescimento do emprego.

A depressão não é uma novidade. Ela ocorreu por três vezes na história do capitalismo:

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Mais uma contradição prospera no capitalismo

Autor: Prabhat Patnaik

Nos Estados Unidos ainda há quatro milhões de pessoas que permanecem desempregadas em relação à situação antes da pandemia; e, no entanto, a tentativa do governo Biden de estimular a economia já entrou em crise com o ressurgimento da inflação não apenas naquele país, mas também em outras partes do mundo capitalista. 

O Federal Reserve Board (o equivalente ao banco central dos EUA) planeja em breve aumentar as taxas de juros (atualmente próximas de zero). Ademais, mesmo a expansão fiscal será difícil de sustentar diante da inflação. Tudo contribui, portanto, para truncar a recuperação que vem ocorrendo. 

Em outras palavras, mesmo no principal país capitalista do mundo, cuja moeda é “tão boa quanto o ouro” e que, portanto, não precisa temer qualquer fuga de capital debilitante, a capacidade do Estado de estimular a atividade dentro de suas próprias fronteiras encontra-se seriamente constrangido.

Esta é uma nova contradição básica que surgiu no capitalismo mundial e que merece atenção séria. Segundo John Maynard Keynes, o mais importante economista burguês do século XX, embora o capitalismo espontâneo fosse um sistema falho que mantinha grandes massas de trabalhadores desempregadas, a intervenção do Estado poderia consertar essa falha. Ora, esse prognóstico já havia sido contraditado pela globalização de finanças. 

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