O dilema de Jackson Hole

Autor: Michael Roberts – Publicação: The next recession blog, 22/08/2021

No próximo fim de semana, os banqueiros centrais do mundo se reunirão em uma convenção anual em Jackson Hole, Wyoming, EUA, sob a perspectiva o fim da crise produzida pelo novo coronavírus. Os banqueiros ouvirão o presidente do Fed, Jay Powell e a secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen. Ademais, examinarão trabalhos acadêmicos encomendados a vários “economistas convencionais” que estudam os fenômenos monetários.  

A grande questão em pauta é se chegou hora de os bancos centrais desacelerarem suas compras de títulos do governo destinadas a injetar dinheiro de crédito nas economias, com o objetivo de evitar o colapso de empresas na desaceleração da pandemia. No ano de 2020, marcado pela pandemia, o Federal Reserve fez compras equivalentes a 11% do PIB dos EUA, o Banco da Inglaterra 14% do PIB do Reino Unido e muitos outros bancos do G7 de cerca de 10% do PIB nacional.

Fonte: Banco Mundial
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G 20: há solução para a dívida global?

Michael Roberts – The next recession blog – 20/11/2020

Neste fim de semana, está acontecendo a cúpula dos líderes do G20 – não fisicamente, é claro, mas por vídeo. Orgulhosamente sediada pela Arábia Saudita – um conhecido bastião da democracia e dos direitos civis! –, ela reunirá os líderes do G20 que se concentrarão em discutir o impacto da pandemia COVID-19 na economia mundial.

Como se sabe, os líderes estão alarmados com o enorme aumento nos gastos governamentais gerados pelas quedas abruptas da produção. Ora, isso ocorreu e vem ocorrendo porque os principais governos capitalistas foram forçados a gastar mais para amenizar o impacto da crise nas empresas, grandes e pequenas, e até mesmo na população trabalhadora em geral. As estimativas do FMI afirmam que o estímulo fiscal e monetário combinado fornecido pelas economias avançadas atingiu cerca de 20 por cento da soma de seus produtos internos brutos.

Os países de renda média no mundo em desenvolvimento não têm sido capazes de fazer o mesmo, mas ainda assim apresentaram uma resposta combinada igual a 6 ou 7% do PIB, ainda de acordo com o FMI. Para os países mais pobres, porém, a reação foi muito mais modesta. Juntos, eles injetaram gastos iguais a apenas 2% de sua produção nacional para fazer frente à pandemia. De qualquer modo, isso deixou as economias muito mais vulneráveis ​​à uma recessão prolongada, a qual levará potencialmente milhões de pessoas à pobreza.

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Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

Convidado para fazer uma apresentação sintética das conexões entre “dívida pública” a “subsunção do trabalho ao capital” na cena contemporânea, o autor desse blog preparou uma exposição sobre o tema por meio de uma apresentação em “powerpoint”. Como a exposição não pode ocorrer por falha deste blogueiro impenitente, ele publica aqui o original preparado para os eventuais interessados.

O material se encontra aqui: Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

Guerra de capitais: China x EUA

Constata-se atualmente uma crescente guerra comercial e tecnológica entre os EUA e a China.  É, pois, interessante examinar o livro Capital wars de Michael Howell que apresenta uma visão diferente no que se refere à rivalidade entre a China e os EUA.

Até agora, a concorrência entre os EUA e a China na esfera econômica tem ocorrido na esfera do comércio e da tecnologia.  Pouco atritos aconteceram nos mercados financeiros. Mas é bem provável que a batalha decisiva ocorra na esfera financeira. Como se sabe, o dólar domina cerca de 80 por cento das transações internacionais e a China está se esforçando para reduzir essa proporção. Ela quer criar uma área de transações comerciais e financeiras em rebimbe.

O artigo de Michael Roberts em anexo faz um comentário sobre o livro de Howell que parece ser muito interessante (e, também, muito caro para os leitores brasileiros).

Ele se encontra aqui: Guerra de capitais – EUA x China

Como arruinar um país em três décadas

Os leitores desse blog, lendo o título, devem imaginar que o post vai falar do Brasil. Não, ele não vai mencionar a economia capitalista instalada na terra brasilis. Vai discorrer sobre a situação precária da economia italiana no interior da zona do Euro. Entretanto, os leitores que, de fato, lerem a pertinente nota de Servaas Storm sobre o caso da economia capitalista na Itália, certamente pensarão que um texto muito semelhante poderia ser escrito sobre o Brasil.

Logo, ao lerem “Itália”, devem, portanto, pensar no Brasil.

Segundo o texto que esse autor apresenta, as políticas de austeridade defendidas e aplicadas pelos economistas neoliberais estão abrindo uma caixa de Pandora na Itália e na Europa em geral. Pode ser esta uma tese keynesiana típica já que recomenda uma atitude de acomodação diante da possibilidade da rebelião. Mas ela tem a sua verdade.

Ninguém pode dizer onde isso vai acabar. Os economistas (incluindo os italianos) carregam uma enorme responsabilidade em tudo isso, tanto porque são muito culpados pelo caos quanto porque não conseguem chegar a soluções estratégicas racionais para resolver as crises em curso. “Talvez”, escreveu John Maynard Keynes, “seja historicamente verdade que nenhuma ordem social pereça, salvo por sua própria mão” (Keynes, 1919). Economistas racionais têm que provar que o veredicto de Keynes está errado, começando na Itália – pelo menos porque a confusão do Brexit parece estar além da redenção.

Se a situação econômica de alguns países do Norte inspira esse tipo de alerta, o que a situação de alguns países do Sul não deveria suscitar? O Brasil se encontra quase estagnado desde a década dos anos 1990, com um pequeno surto de crescimento entre 2004 e 2010.

A partir de 2011 entrou no caminho da recessão devido a um aperto dos lucros e uma queda da demanda agregada, fatos que ocorreram no primeiro governo Dilma. A partir de 2015 entrou no rumo da depressão justamente em razão das políticas de austeridade implementadas por Levy, Meirelles e Guedes. Ora, essas políticas servem principalmente ao capital financeiro e não ao capital industrial. Como continua assim, é preciso também perguntar: onde isso vai acabar?

O texto se encontra aqui: Como arruinar um país em três décadas

Financeirização em questão

O termo financeirização pode ser usado para descrever a expansão das atividades financeiras vis-à-vis das atividades industriais ocorrida já no final do século XX, mais precisamente a partir da década dos anos 1970. Ora, esse emprego suscita uma pergunta imediata: por que ela ocorreu?

Como já se mencionou nesse blog, o pensamento crítico fornece duas respostas alternativas para essa questão.

Uma delas diz que a financeirização ocorreu em virtude de uma forte reorientação da política econômica – a qual deixou de ser keynesiana para ser tornar neoliberal naqueles anos caracterizados pela crise e pelo baixo crescimento econômico. Esta mudança possibilitou, em particular, a liberação das finanças dos constrangimentos até então existentes à sua expansão. Esta, então, tornou-se formidável em virtude do processo da globalização. O post de 1º de outubro trouxe um texto de Grace Brakeley, A última encarnação do capitalismo, que apresentou sinteticamente essa primeira resposta.

A segunda resposta afirma que financeirização, em última análise, decorreu das tendências inerentes ao evolver do modo de produção capitalista, em especial da lei da tendência à queda da taxa de lucro. A crise dos anos 1970, decorrente do rebaixamento da rentabilidade do capital nos países centrais, em particular, nos EUA, suscitou que a condução da política econômica passasse a visar um crescimento econômico cada vez mais liderado pela expansão do capital de finanças.

Neste post traz-se um texto de Michael Roberts (em espanhol) que faz a crítica da primeira alternativa e que apresenta, também, uma versão sucinta da segunda resposta possível acima mencionada. Para ele, a expansão das finanças ocorreu – e costuma ocorrer historicamente – sempre que se torna necessário contrariar a tendência à queda da taxa de lucro e, assim, com ela, à queda do ritmo do processo de acumulação de capital. Nesse sentido, ele crítica a financeirização enquanto uma chave de uma teoria das crises no capitalismo.

O texto, publicado originalmente na revista Sinpermiso, encontra-se aqui: Financiarizacion o rentablilidad?

A última encarnação do capitalismo

Como foi dito no post anterior, há no campo do pensamento crítico duas linhas de explicação para a crise de 2007-2008:

  1. uma delas procura mostrar que essa convulsão, em última instância, decorreu das tendências inerentes ao modo de produção capitalista, em especial da lei da tendência à queda da taxa de lucro;
  2. a outra busca as suas causas imediatas nas mudanças institucionais que ocorreram a partir da crise dos anos 1970, em particular aquelas que liberaram as finanças dos constrangimentos até então existentes à sua expansão.

Este post encaminha a publicação de um artigo percuciente que representa muito bem essa segunda posição. O texto foi escrito por uma jovem e brilhante economista britânica que trabalha como pesquisadora no Institute for Public Policy Research (IPPR) ligado ao Partido Trabalhista do Reino Unido.

Apesar de concordar com a sua tese central – a financeirização não é uma perversão do capitalismo, mas expressão privilegiada de sua mutação histórica mais recente –, julga-se que abriga certas questões conceituais que precisam discutidas e criticadas.  Mas isto será feito apenas no próximo post a ser publicado neste blog.

O artigo de Grace Brakeley se encontra aqui: A última encarnação do capitalismo; mas ele foi publicado também pelo Outras Palavras:  https://wp.me/p15fon-39EB.

A crítica se encontra aqui: Rentismo ou jurismo?

Era da finança, mas não do sujeito automático

Neste post faz-se um comentário crítico do marcante livro Lucrando sem produzir – Como a finança explora todos nós (Profiting without producing – How finance exploits us all) de Costas Lapavitsas.

Procura-se mostrar que ele peca por se afastar do conceito de capital como sujeito automático que é característico da compreensão do capitalismo que vem de Karl Marx. Mas não se nega, entretanto, a sua importância como contribuição para uma melhor compreensão do capitalismo financeirizado que emergiu da crise da década dos anos 1970.

Usualmente se distinguem duas interpretações marxistas da crise de 2008 e da longa recessão que se seguiu a ela. Uma primeira enfatiza que a crise irrompeu como manifestação de certas tendências estruturais e de longo prazo do processo capitalista de produção, em especial daquela que produz uma queda da taxa de lucro. Uma segunda posição se concentra especificamente na dimensão financeira do processo, procurando acentuar as mudanças institucionais na esfera econômica e minimizar a importância do declínio da taxa de lucro.

Procura-se mostrar neste post que Costas Lapavitsas figura como um dos mais populares e intelectualmente sofisticados representantes dessa última posição.

Eis o post aqui: Era da finança, mas não do sujeito automático

O que é financeirização? (III)

No post publicado O que é financeirização? (I) [27/07/2013], mostrou-se que não se pode apreender esse fenômeno tratando a esfera do capital de finanças como simplesmente exterior à esfera do capital industrial e do capital comercial. Pois, se trata de um desenvolvimento orgânico do capitalismo que costuma ocorrer quando a taxa de lucro cai fortemente num horizonte de longo prazo.

No post O que é financeirização? (II) [26/05/2018] apresentou-se os principais resultados da pesquisa de Gretta Krippner expostos no livro Capitalizando na Crise – As origens políticas da ascensão da finança. Mostrou-se, então, que essa autora usou o termo financeirização “para se referir à crescente importância das atividades financeiras como fonte de lucros na economia”. Indicou-se, também, que, para apreender este fenômeno de forma abrangente, ela englobara sob o nome de “lucros financeiros” os ganhos capitalistas (juros, dividendos, bonificações, etc.) que são obtidos por meio dos “canais financeiros”.

No post O que é financeirização? (III) [1/07/2018] que agora se publica, procura-se mostrar como é possível sanar uma deficiência do trabalho de Krippner. Ainda que tenha descrito qualitativa e quantitativamente o fenômeno da financeirização, ela não examinou as suas origens socioeconômicas, isto é, as relações sociais exploradoras e espoliadoras que dão origem às diferentes formas de lucros financeiros. Faz-se isso neste post resumindo capítulos chaves do livro de Cédric Durand, Capital fictício – como a finança está se apropriando do nosso futuro.

A nota que busca apresentar com certa clareza o caráter sugador, predador e regressivo do capitalismo contemporâneo, encontra-se aqui: O que e financeirização? – III

O que é financeirização? (II)

Com este post dá-se mais um passo na compreensão da financeirização. Ele se junta e complementa um post anterior de mesmo nome, publicado em julho de 2013. Lá se mostrou, em síntese, que não se pode apreender esse fenômeno tratando a esfera do capital de finanças como simplesmente exterior à esfera do capital industrial e do capital comercial.

Eis que a financeirização não é um fenômeno que afeta apenas a circulação do capital e, assim, a repartição da renda. Diferentemente, ela é uma mudança orgânica do capitalismo que afeta também a produção de valor. As duas esferas acima referidas – e esse é a tese de fundo – são momentos inseparáveis e articulados da totalidade posta pela relação de capital e assim devem ser tratadas.

Neste post apresenta-se um sumário dos principais resultados do livro Capitalizando na Crise de Greta Krippner, publicado em 2011. Ai, essa autora caracteriza a financeirização como uma mudança crucial, que emergiu no pós-guerra e no centro do sistema, no modo de apropriação do lucro. E o lucro, como se sabe, é o motor do capitalismo. Eis que, segundo ela, o lucro financeiro ganhou crescente importância em relação ao lucro industrial e comercial, principalmente a partir dos anos 1980. Desse modo, ela compreende o processo de exacerbação financeira recente como uma transformação que afeta o capitalismo como um todo.

O post está aqui: O que é financeirização II?