Os ciclos de globalização seguem a taxa de lucro

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 9/09/2023

O que a economia dominante entende por globalização é a expansão acelerada do comércio e dos fluxos de capital (mas não do trabalho) livremente através das fronteiras.

A globalização, assim definida como a expansão do comércio e dos fluxos de capitais a nível mundial, ocorreu em ondas, ou seja, períodos de rápida expansão do comércio e do capital a nível mundial e, em seguida, períodos em que o comércio e os fluxos de capitais diminuíram e os países reverteram para barreiras comerciais e de capital. Penso que podemos distinguir três ondas de globalização, por volta de 1850-80; por volta de 1944-70; e o maior de meados da década de 1980 até o final do século XX.

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Há uma crise estrutural na China?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Este artigo é simplesmente uma compilação de informações, argumentos e teses de dois outros autores. O seu objetivo é tentar caminhar no sentido de encontrar uma resposta para a pergunta posta no título. Ele começa com uma longa citação de uma postagem de Michael Roberts sobre o segundo encontro da International Initiative for the Promotion of Political Economy (IIPPE), realizado em Madrid, entre 6 e 8 de setembro de 2023. Todas as citações longas estão em itálico. As parcas observações do autor estão em letra normal.

Na conferência principal do IIPPE houve boas apresentações sobre a China. Uma delas foi feita por Prof Dic Lo sob o título A Economia Política da “Nova Normalidade” [2]. Em sua apresentação, ele tratou de uma questão fundamental colocada nos meios de comunicação ocidentais, a saber, sobre a natureza da desaceleração do crescimento da economia capitalista na China. Será permanente ou, pior ainda, produzirá um retrocesso dramático?

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Mercados financeiros no capitalismo contemporâneo

Michael R. Krätke

O novo reinado dos mercados financeiros globalizados

Mesmo que isso possa sempre surpreender alguns é preciso dizer que o capitalismo moderno constitui, desde os seus primórdios, uma economia de crédito e de endividamento. Revoluções financeiras e industriais permeiam seu desenvolvimento, fortemente marcado por saltos. Na hierarquia dos mercados, que caracteriza a forma histórica de uma economia de mercado capitalista, os mercados financeiros (mercado monetário e de crédito) estão e estão sempre colocados no topo. Nesses mercados trocam-se ficções. É aí que o mundo extremamente artificial, “de cabeça para baixo”, do capitalismo se ergue, anda e salta “de cabeça”. Para o capitalismo, como religião cotidiana, a mitologia dos mercados financeiros é indispensável.

Os mercados financeiros sempre tiveram caráter internacional. Hoje, são multipolares, em rede e quase globalizadas. Alguns dos mestres desses mercados, como fundos multinacionais e operadores do mercado de ações, são o que chamamos de players globais. No entanto, os seus clientes, as pessoas comuns desses mercados, não são. O capital que circula nesses mercados comporta-se de forma altamente móvel e globalizada participando de muitos negócios no interior dos limites do mundo dos mercados financeiros internacionais. O volume dos mercados financeiros internacionais, ou seja, a soma total das transações neles realizadas, de alguma forma explodiu durante as décadas de 1980 e 1990.

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Socialismo do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado

Muitos na esquerda estão preocupados: o espectro da crise e das perdas econômicas vultuosas paira mais uma vez sobre as economias capitalistas, principalmente no Ocidente. Mas os capitalistas, sempre no centro, na direita e mesmo na extrema-direita, estão mais ou menos tranquilos. Por quê?

Michael Roberts escreveu recentemente um artigo – Risco moral ou destruição criativa? – em que compara a política econômica nas grandes crises de 1929 e de 2008. Eis que, como se sabe, mas é sempre bom lembrar, ela mudou entre uma e outra de pouca água para muito vinho… e da melhor qualidade. 

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Criação destrutiva ou risco moral?

Michael Roberts – The next recession blog – 15/03/2022

Enquanto escrevo, os preços das ações e títulos dos bancos regionais dos EUA estão caindo. E um grande banco suíço internacional, o Credit Suisse, está à beira da falência. Uma crise financeira não vista desde a crise financeira global de 2008 parece estar se desenrolando. Qual será a resposta das autoridades monetárias e financeiras?

Em 1928, o então secretário do tesouro e banqueiro dos EUA, Andrew Mellon, pressionou por taxas de juros mais altas para controlar a inflação e o crédito alimentou a especulação no mercado de ações. Sob seu legado, o Federal Reserve Board começou a aumentar as taxas de juros e, em agosto de 1929, o Fed elevou a taxa a um novo patamar. Apenas dois meses depois, em outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York sofreu o pior crash de sua história no que foi chamado de “Terça-feira Negra ”. A história se repete, como a velha destruição criativa ou como um novo episódio de risco moral?

Em 1929, Mellon não se intimidou. Ele aconselhou o então presidente Hoover a “liquidar a mão-de-obra, liquidar as ações, liquidar os fazendeiros, liquidar os imóveis… isso eliminará a podridão do sistema. Os altos custos de vida e a alta qualidade de vida cairão. As pessoas vão trabalhar mais, viver uma vida mais moral. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras aprenderão com as pessoas menos competentes.”Além disso, ele defendeu a eliminação de bancos “fracos” como um pré-requisito, ainda que difícil, mas necessário, para a recuperação do sistema bancário. Essa “eliminação” seria realizada por meio da recusa de emprestar dinheiro aos bancos (tomando empréstimos e outros investimentos como garantia) e recusando-se a colocar mais dinheiro em circulação. A Grande Depressão da década de 1930 seguiu-se a um grande colapso bancário.

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Pode o capitalismo global durar?

Autor: William I. Robinson [1]

Introdução

Se a história do capitalismo consiste numa de transformação sem fim, as crises geralmente marcam – antes e depois – os momentos decisivos. No período de 2008 até a terceira década do século XXI ocorreu uma crise prolongada que, longe de ser resolvida, foi agravada pela pandemia do novo coronavírus. Essa crise é tanto econômica e estrutural, quanto política, ou seja, de legitimidade do Estado e da hegemonia capitalista.

Como muitos observaram, a crise é também existencial devido à ameaça de colapso ecológico, bem como à ameaça renovada de guerra nuclear, à qual devemos acrescentar o perigo de futuras pandemias que podem envolver micróbios muito mais mortais do que os da espécie coronavírus.

O capitalismo global pode resistir e durar? A humanidade sobreviverá? Estas são, com certeza, duas questões distintas. É perfeitamente possível que o sistema ainda perdure mesmo que a maioria da humanidade passe a enfrentar lutas desesperadas pela sobrevivência.  Muitos vão perecer nos próximos anos e nas décadas vindouras.

Cada grande crise no capitalismo mundial envolveu previsões de que o sistema entraria em colapso diante de contradições insolúveis. No entanto, o capitalismo provou repetidamente ser mais resiliente e adaptável do que acreditaram os seus previsores apocalípticos. Como se explora neste ensaio, o sistema vem passando por uma nova rodada de reestruturação e transformação desde o colapso financeiro de 2008. E ela acontece com base numa tecnologia da digitalização muito avançada que afeta toda a economia e a sociedade globais.

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Desigualdade global de renda

Autor: Branko Milanovic [1]Social Europe – 10/05/2022

Novos dados sobre desigualdade mostram provavelmente que ocorreu a maior reorganização da renda mundial desde a revolução industrial.

A ascensão da China pode deixar países africanos populosos, como a Nigéria, ainda mais para trás.

A distribuição global de renda vem mudando sem que isso seja percebido.

O que ocorreu no período da chamada “alta globalização”, ocorrido entre o fim do comunismo no final dos anos 1980 e a crise de 2008, também conhecida como a Crise Financeira Global, talvez seja melhor descrito pelo chamado gráfico do elefante (a curva azul na figura abaixo), produzido por Christoph Lakner e por mim.

Esse gráfico mostra que, ao longo dessas duas décadas, ocorrera um aumento muito alto nas rendas em torno do meio da distribuição global, produzindo o ponto A por meio do efeito China; ocorrera, também, um crescimento muito modesto ou próximo de zero em torno do 80º percentil da distribuição, ponto B (onde estão as classes médias baixas dos países ricos); e, finalmente, um aumento acentuado entre o 1% do topo global, ponto C.

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A grande crise é inevitável

Autor: Nouriel Roubini,

Project Syndicate – Tradução: Antônio Martins

A economia mundial está caminhando para uma confluência sem precedentes de crises econômicas, financeiras e de dívida, após a explosão de déficits, empréstimos e alavancagem.

No setor privado, a montanha de dívidas inclui famílias (endividadas em hipotecas, cartões de crédito, empréstimos para automóveis, empréstimos estudantis, empréstimos pessoais), empresas e corporações (empréstimos bancários, títulos de dívida e dívida privada) e o setor financeiro (passivo de instituições bancárias e não bancárias). No setor público, estão os títulos dos governos centrais, subnacionais e locais, além de outros passivos formais e dívidas implícitas – como passivos não financiados dos sistemas de pensão por repartição e de atendimento à saúde. Tudo isso continuará a crescer à medida que as sociedades envelhecem.

Olhando apenas para as dívidas explícitas, os números são impressionantes. Globalmente, a dívida total dos setores público e privado como parcela do PIB aumentou de 200% em 1999 para 350% em 2021. A proporção é agora de 420% nas economias avançadas e de 330% na China. Nos Estados Unidos, é 420%, maior do que durante a Grande Depressão e após a Segunda Guerra Mundial.

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Uma crítica da razão tecno-feudal

Excertos tirados do artigo Critique of Techno-feudal reason publicado nos números 133/134 da New Left Review. Note-se, ademais, que já foi publicado neste blog um artigo sobre a mesma temática: Tecno-feudalismo ou socialismo do capital

Autor: Evgeny Morozov

Primeiro as boas notícias.[1] A moratória de imaginar o fim do capitalismo, apresentada na década de 1990 por Fredric Jameson, finalmente expirou. A recessão de décadas da imaginação progressista acabou. Aparentemente, a tarefa de vislumbrar alternativas sistêmicas tornou-se muito mais fácil, pois podemos trabalhar agora com distopias – eis que o aparentemente tão esperado fim do capitalismo poderia ser apenas o começo de algo muito pior.

O capitalismo tardio certamente é bem ruim, com seu coquetel explosivo de mudanças climáticas, desigualdade, brutalidade policial e a pandemia mortal. Mas, havendo a distopia se tornado importante novamente, alguns da esquerda se moveram silenciosamente para revisar o adagio de Jameson: hoje, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que a continuação do capitalismo tal como o conhecemos.

A notícia não tão boa é que, ao empreender esse exercício especulativo de construção de cenários apocalípticos, a esquerda tem dificuldade em se diferenciar da direita. De fato, os dois polos ideológicos praticamente convergiram para uma descrição compartilhada da nova realidade. Para muitos, em ambos os campos, o fim do capitalismo realmente existente não significa mais o advento de um dia melhor, seja este o socialismo democrático, o anarco-sindicalismo ou, talvez, o liberalismo clássico “puro”. Em vez disso, o consenso emergente é que o novo regime é nada menos que uma espécie nova de feudalismo – às vezes, como bem se sabe, um “ismo” tem muitos amigos poucos respeitáveis.

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Prêmio Nobel ou Prêmio Ignóbil

Segue-se abaixo uma análise crítica, mas ainda convencional, da teoria imprestável dos fundos emprestáveis que deveria estar morta há cerca de um século, mas que sobrevive na cabeça dura de alguns economistas do sistema. E que ainda dá prêmio para os mais distinguidos dentre eles por terem cargos na administração do capitalismo.

Autor: Peter Bofinger [1]

Fonte: Europa Social – 17/10/2022

O Prêmio Riksbank deste ano em ciências econômicas em memória de Alfred Nobel homenageia Ben Bernanke, Douglas Diamond e Philip Dybvig. Na opinião da Real Academia Sueca de Ciências, os laureados “melhoraram significativamente nossa compreensão do papel dos bancos na economia”. Em minha opinião, trata-se, na verdade, de um prêmio para um “erro popular”.

Mas qual é o papel dos bancos na economia? A academia descreve assim esse papel: “Para entender por que uma crise bancária pode ter consequências tão enormes para a sociedade, precisamos saber o que os bancos realmente fazem: ora, eles recebem dinheiro de pessoas que fazem depósitos e o canalizam para os mutuários”. De acordo com essa visão, os bancos são, portanto, puros intermediários ou negociantes de poupança entre as famílias poupadoras e as empresas investidoras. É uma visão amplamente difundida na economia hoje, mas há muito tempo existe uma teoria completamente diferente da função dos bancos.

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