A extrema-direita como expressão do declínio do Ocidente

Autor: Alejandro Pérez Polo [1]

1. O crash de 2008: aqui começou tudo

O ano era 2012. A crise económica resultante da Grande Recessão estava a grassar na Europa. As mobilizações populares em Espanha (15M e a greve geral de março de 2012) e os protestos violentos na Grécia tinham infetado todo o mundo ocidental. Chegaram ao coração do império: em Nova Iorque, os cidadãos manifestavam-se em Wall Street através de Occupy. Não havia quase vestígios da extrema-direita em lado nenhum. Nem mesmo em França a estreante Marine Le Pen lograva chegar à segunda volta das eleições presidenciais, que haveriam ser decididas entre Sarkozy e Hollande, com uma vitória socialista.

Estava em curso uma fase de decomposição ideológica e orgânica do neoliberalismo. Os consensos económicos da globalização, após a queda da U.R.S.S., tinham sido estilhaçados para sempre. A lua-de-mel que durou de 1991 a 2008, na qual o capitalismo desenfreado conseguiu incorporar na sua lógica todos os países da ex-União Soviética, terminou. Uma subsunção formal e material de todo o globo chegara ao seu fim.

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O dólar num mundo multipolar

Autor: Michael Roberts – Blog: The next recession – 22/04/2023

Contestadores da atual ordem mundial? Ler até o fim.

Christine Lagarde, chefe do Banco Central Europeu (BCE), na forma de “keynote”, fez um importante discurso na semana passada no Conselho de Relações Exteriores dos EUA, em Nova York.

Foi importante porque ela analisou os recentes desenvolvimentos no comércio e investimento globais e avaliou as implicações do afastamento em relação ao domínio hegemônico da economia dos EUA e do dólar na economia mundial e, assim, o movimento em direção a uma economia mundial “fragmentada” e “multipolar” – onde nenhuma potência econômica ou mesmo o atual bloco imperialista do G7-plus conseguirá dominar o comércio global, o investimento e o fluxo do dinheiro.

Lagarde explicou: “A economia global vem passando por um período de mudanças transformadoras. Após a pandemia, a guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia, a transformação da energia em arma, a súbita aceleração da inflação, bem como uma crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, as placas tectônicas da geopolítica estão mudando mais rapidamente”.

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Capital no século XXI – entre a estagnação e a guerra

Autor: Domenico Moro [1]

A realidade geopolítica do início do século XXI deve ser estudada a partir da categoria de modo de produção. Esta categoria define os mecanismos de funcionamento do capital em geral, abstraindo de economias e estados individuais. Por esta razão, devemos inter-relacionar a categoria do modo de produção com a da formação económico-social historicamente determinada, o que nos dá a imagem de estados individuais e as relações entre eles num dado momento.

Além disso, a nossa abordagem deve ser dialética, ou seja, baseada na análise das tendências da realidade económica e política. Estas tendências não são lineares, mas estão muitas vezes em contradição com outras tendências. Só o estudo das várias tendências conflituantes pode permitir-nos delinear possíveis cenários futuros.

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Um futuro estagflacionário: por quê?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Nouriel Roubini é um singular economista do sistema. Se possui fama internacional, costuma ser olhado com irônica desconfiança. Eis que os seus pares o consideram como um “profeta da desgraça”.  No entanto, tudo o que diz tem enorme plausibilidade. Ele tem sustentado agora uma previsão nuviosa sobre a situação econômica nas próximas décadas do século XXI: o capitalismo em nível global sofrerá de estagflação renitente e essa será a sua condição normal doravante.  

Eis como Roubini, em seus próprios termos, apresenta essa antevisão:

Economias avançadas e mercados emergentes estão cada vez mais envolvidos em “guerras” necessárias. O futuro será estagflacionário e a única questão é quão ruim isso será. A inflação aumentou acentuadamente ao longo de 2022 nas economias avançadas e nos mercados emergentes. As tendências estruturais sugerem que o problema será secular – e não transitório.

Haverá, pois, guerras necessárias contra as novas pandemias, os efeitos do aquecimento global, as imigrações maciças, as pobrezas escandalosas etc.; haverá, inclusive, conflitos bélicos reais como o atual entre os Estados Unidos (atrás do palco), a Ucrânia e a Rússia (no próprio palco em que ocorrem efetivamente as batalhas). Como esses dois tipos de “guerras” atuarão seja para elevar a demanda agregada seja para contrair a oferta agregada, eles criarão as condições objetivas para a normalização do fenômeno “estagflação”. Os seus dois escritos em que essas “previsões” aparecem se encontram aqui e aqui.

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O decrescimento é, sim, necessidade imperiosa

Autor: Eleutério F S Prado [1]

Não há dúvida, o capitalismo é globalmente hegemônico. Em quase todos os países que conformam o mundo atual domina o modo de produção histórico que se orienta pela acumulação de capital. Em todos eles, por isso, o crescimento econômico figura como um imperativo socialmente cristalizado. Em consequência, a expansão da produção como riqueza efetiva e da riqueza fictícia na forma de dívidas empapeladas (ou digitalizadas) não pode ser desafiada de modo eficaz. O decrescimento, assim, aparece como uma má utopia.

No entanto, acumulam-se já nos sítios da internet e nas prateleiras das bibliotecas artigos e livros que defendem o decrescimento como uma necessidade imperiosa e mesmo definitiva para o caso de que a humanidade deseje sobreviver nas próximas décadas deste e do próximo século pelo menos. Como se sabe, a razão imediata do surgimento dessa ansiedade teórica – e mesmo prática – advém da preocupação crescente com as mudanças climática enquanto uma mega-ameaça à existência de vida altamente organizada na face da Terra.

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Mais “guerra” significa “mais inflação”

Autor: Nouriel Roubini[1] – Project Syndicate – 30/12/2022

As economias avançadas e os mercados emergentes estão cada vez mais envolvidos em “guerras” inevitáveis. Por isso, o futuro será estagflacionário. E a única questão é saber quão ruim ele será.

A inflação aumentou acentuadamente ao longo de 2022 nas economias avançadas e nos mercados emergentes. As tendências estruturais sugerem que o problema será secular – e não transitório. Especificamente, muitos países estão agora envolvidos em várias “guerras” – algumas reais, outras metafóricas – que levarão a déficits fiscais ainda maiores, mais monetização da dívida e inflação mais alta no futuro.

O mundo está passando por uma forma de “depressão geopolítica” coroada por uma crescente rivalidade entre o Ocidente e potências revisionistas alinhadas entre si (se não aliadas), como China, Rússia, Irã, Coréia do Norte e Paquistão. As guerras frias e quentes estão em ascensão. A brutal invasão da Ucrânia pela Rússia ainda pode se expandir e envolver a OTAN. Israel – e, portanto, os Estados Unidos – está em rota de colisão com o Irã, que está prestes a se tornar um estado com armas nucleares. O Oriente Médio, de modo amplo, é um barril de pólvora. E os EUA e a China estão se enfrentando sobre quem dominará a Ásia e se Taiwan será reunificada à força ou não com a China continental.

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Policrise e depressão no século XXI

Autor: Michael Roberts, The next recession blog, 05/05/2023

Policrise” é, no momento, a palavra da moda na esquerda. A palavra expressa o encontro e o entrelaçamento de várias crises simultâneas: econômica (inflação e recessão); ambiental (clima e pandemia); e geopolítica (guerra e divisões internacionais). Na verdade, uma ideia semelhante foi apresentada neste blog (The next recession blog) no início do ano passado. 

Portanto, não é surpresa que o último Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da ONU seja tão chocante. De acordo com ele, o mundo está mais pessimista do que em qualquer ponto da história moderna, ou seja, desde antes da Primeira Guerra Mundial.

O RDH apresentou uma análise das tendências linguísticas presentes em textos literários nos últimos 125 anos. Revelou assim que ocorreu um aumento acentuado nas expressões que refletem “distorções cognitivas associadas à depressão e outras formas de sofrimento mental”. Nas últimas duas décadas, a linguagem que reflete percepções excessivamente negativas sobre o mundo e sobre seu futuro se expandiu. De fato, os níveis de angústia atuais não têm precedentes, pois superam o que ocorreu em todos os eventos traumáticos do passado.

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Rumo à utopia ou ao desastre?

Os economistas do sistema não estão suportando psiquicamente ver para onde o capitalismo está levando a humanidade. E, por isso, estão caindo em alguma forma de “denegação” – um estado mental estudado por Sigmund Freud. Trata-se de um mecanismo de defesa em que o sujeito nega a realidade como um meio de proteção contra algo que pode gerar dor ou sofrimento. Quando a denegação é parcial, ela é quase sempre complementada por uma fantasia que encobre a perda.

No texto em sequência, Michael Roberts estuda (implicitamente) como essa patologia psicanalítica aparece, ainda que de uma forma mitigada, num livro recém-lançado por Bradford DeLong. Eis que este último autor julga que a utopia keynesiana ainda está no horizonte.

Autor: Michael Roberts – Blog: The next recession, 25/10/2022

Bradford DeLong é um dos economistas keynesianos mais proeminentes do mundo; é também historiador econômico, atuando como professor na Universidade da Califórnia, Berkeley. Serviu, ademais, como vice-secretário assistente do Departamento do Tesouro dos EUA, no governo Clinton, sob o comando de Lawrence Summers. Trata-se de um democrata liberal na política interna dos EUA e um keynesiano clássico na Economia.

Ele publicou um novo livro, intitulado Rumo à Utopia: uma história econômica do século XX. É um trabalho ambicioso que visa analisar e explicar o desenvolvimento da economia capitalista no que ele considera seu período de maior sucesso: o século XX.

Em particular, DeLong afirma que o capitalismo, enquanto uma força progressiva que vem resolver as carências da humanidade, só decolou em 1870; desde então passou a voar alto até a Grande Recessão de 2008-9, momento em que se completou o que ele chama de “longo século XX”. Quais foram as razões que permitiram ao capitalismo um crescimento econômico mais rápido, que produziram um salto quântico nos padrões de vida a partir de 1870? DeLong elenca as seguintes: “a tripla emergência da globalização, da pesquisa industrial e da corporação moderna”.

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A grande crise é inevitável

Autor: Nouriel Roubini,

Project Syndicate – Tradução: Antônio Martins

A economia mundial está caminhando para uma confluência sem precedentes de crises econômicas, financeiras e de dívida, após a explosão de déficits, empréstimos e alavancagem.

No setor privado, a montanha de dívidas inclui famílias (endividadas em hipotecas, cartões de crédito, empréstimos para automóveis, empréstimos estudantis, empréstimos pessoais), empresas e corporações (empréstimos bancários, títulos de dívida e dívida privada) e o setor financeiro (passivo de instituições bancárias e não bancárias). No setor público, estão os títulos dos governos centrais, subnacionais e locais, além de outros passivos formais e dívidas implícitas – como passivos não financiados dos sistemas de pensão por repartição e de atendimento à saúde. Tudo isso continuará a crescer à medida que as sociedades envelhecem.

Olhando apenas para as dívidas explícitas, os números são impressionantes. Globalmente, a dívida total dos setores público e privado como parcela do PIB aumentou de 200% em 1999 para 350% em 2021. A proporção é agora de 420% nas economias avançadas e de 330% na China. Nos Estados Unidos, é 420%, maior do que durante a Grande Depressão e após a Segunda Guerra Mundial.

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Reexame das fronteiras do capital

Resposta à Crítica da Razão Tecno-feudal de Morozov

Autor: Cédric Durand – NLR 136 – 2022

Evgeny Morozov forneceu uma crítica salutar das propostas recentes para conceituar as relações sociais da economia digital – os usuários da web estão supostamente presos como servos aos domínios inescapáveis dos barões da tecnologia – por analogia com os da era feudal. A sua “Crítica da Razão Tecno-feudal” oferece uma revisão sistemática do uso do termo feudal na teoria econômica contemporânea. Trata-se, para ele, de um pântano discursivo no qual, ele acusa, “a esquerda tem dificuldade em se diferenciar da direita” – de neoliberais como Glen Weyl e Eric Posner, assim como de neo-reacionários como Curtis Yarvin e do anti-ativista (anti-wokite) Joel Kostin. Esses autores articulam a mesma crítica “neo-” ou “tecno-feudal” tal como o fazem Yanis Varoufakis, Mariana Mazzucato, Robert Kuttner ou Jodi Dean.

Se os pensadores radicais abraçaram o imaginário feudal como um estratagema retórico, como um meme aceitável, Morozov argumenta que isso é uma prova não de argúcia, mas de fraqueza intelectual – a coisa se passa “como se a estrutura teórica da esquerda não pudesse mais dar sentido ao capitalismo sem mobilizar a linguagem moral da corrupção e da perversão”. Ao desviar sua atenção das relações capitalistas reais para as reminiscências do feudalismo, ela corre o risco de deixar sua presa real para perseguir uma sombra, desviando-se de seu ângulo de ataque mais original e eficaz que se remete às relações socioeconômicas de exploração – ou seja, ao seu sofisticado aparato político teórico anticapitalista.[1]

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